Por MANOEL VITOR BARBOSA NETO*
Considerações sobre o uso da inteligência artificial por matérias esportivas no Brasil para prever o desempenho dos times de futebol
1.
A relação do povo brasileiro com a religião é complexa, rende histórias cômicas e também notícias preocupantes. No futebol brasileiro, por exemplo, são comuns expressões de fé por parte dos jogadores, torcedores e dirigentes. Não são raros os registros em que jogadores pedem proteção antes de entrar em campo ou dedicam o gol a Deus; há dirigentes que pedem para padres ou pastores abençoarem os atletas e o clube quando estão em situação difícil, etc.
Recentemente, uma das imagens mais marcantes do futebol brasileiro foi proporcionada pelo Clube do Remo, time do Pará que, ao conseguir o acesso à série A do futebol brasileiro, estendeu uma imagem gigantesca de Nossa Senhora de Nazaré, em agradecimento ao feito conquistado, mostrando como a religião é um elemento bastante vivo nesse universo.
Nos últimos anos, o futebol brasileiro vem sendo bombardeado pela pressão financeira (controle de gasto e aumento de investimentos para conquistar títulos), disciplina tática e controle sobre os corpos dos jogadores com emprego de ciência e tecnologia desenvolvida para extrair deles a melhor performance possível, o que gera uma espécie de mecanização do jogo e uma produção fordista de atletas.
A imprensa esportiva também é afetada por essa dinâmica. Seja nas transmissões ao vivo, seja em programas ou textos, transbordam informações a respeito da relação entre o tempo em campo e os gols feitos, quantidade de desarmes, defesas dos goleiros e uma série de estatísticas que tentam apresentar o atleta a partir de números.
Apesar disso, ainda há espaço no futebol para que a crença no mistério, para que – de alguma forma algo – o sobrenatural possa intervir em favor do time A, do jogador B ou da torcida C, mas não são somente jogadores, dirigentes e torcedores de futebol que são influenciados por uma lógica religiosa; parte da imprensa esportiva brasileira também é afetada por isso.
Para além das demonstrações mais explícitas de crença, como nos casos citados, há também outras que, a princípio, podem passar despercebidas, pois não carregam uma intenção religiosa, mas sua prática se origina de uma referência religiosa. Refiro-me especificamente ao uso de inteligência artificial para a previsão do desempenho esportivo das equipes de futebol.
É importante ressaltar que prever resultados esportivos não é uma novidade, menos ainda a utilização de recursos não humanos para tal. Numa breve pesquisa sobre a Copa do Mundo, serão encontradas notícias em que animais são utilizados para adivinhar o vencedor de uma partida ou o campeão de um torneio.
2.
A novidade nessa questão consiste no uso de uma nova ferramenta para essa ação: a inteligência artificial. A inteligência artificial ainda é um recurso novo, em fase inicial de desenvolvimento e de popularização, sendo utilizada para diversas aplicações, desde pesquisas escolares até conselhos sentimentais, passando por usos que têm como pano de fundo certas práticas religiosas.
O “pano de fundo” a que me refiro neste texto é uma atividade antiga chamada de divinação. Por divinação, entenda-se uma ação realizada com o objetivo de obter respostas ou previsões sobre determinada coisa a partir de uma ação mágico-religiosa. Tarô, Ifá, leitura de mãos, interpretação sobre a borra de café no fundo da xícara, horóscopo, oráculo de Delfos, etc. são exemplos de artes divinatórias que foram ou são praticadas pela humanidade.
Nem toda religião possui um recurso divinatório, assim como as pessoas podem acreditar e fazer uso de práticas divinatórias sem que esses elementos façam parte da denominação religiosa à qual elas são filiadas, bem como é perfeitamente possível acreditar em práticas divinatórias sem necessariamente a pessoa se reconhecer como atrelada a alguma denominação religiosa.
A divinação é um elemento religioso bastante difundido na história humana. A respeito da divinação, comenta Guerriero (2022, p. 247) que, “como forma de dar conta do aleatório, dar sentido ao fluxo dos acontecimentos e buscar orientação para as ações, a humanidade cria estratégias de divinação e oráculos”. Ainda Guerriero (2022, p. 247) completa: “A divinação é lida, também, como a descoberta dos acontecimentos humanos: presente, passado e futuro”.
Parece-me que, no Brasil, a inteligência artificial, ao menos nas matérias jornalísticas de esportes, tem sido utilizada como recurso divinatório. Acredito que de forma inconsciente, com isso quero dizer que as pessoas que produziram matérias nas quais o recurso da inteligência artificial foi utilizado para fazer previsões não o fizeram com intencionalidade religiosa, mas aplicaram um comportamento religioso (ainda que sem se dar conta disso) para a produção de uma atitude não religiosa (a matéria jornalística).
Ao menos no Brasil, é possível que determinadas ações e comportamentos sem intenções religiosas possam ser uma derivação de comportamentos e ações religiosas, como no caso das matérias do jornalismo esportivo que usam inteligência artificial para prever os campeões das próximas edições de torneios de futebol.





A inteligência artificial, independente da intenção primária de seu uso ou das suas potencialidades e perigos para a educação, segurança, etc., parece que encontrou por partes de alguns brasileiros uma função religiosa de divinação, ao menos na imprensa esportiva brasileira, a (IA)divinação encontrou terreno fértil para a sua operação.
*Manoel Vitor Barbosa Neto é mestre em Ciência da religião pela Universidade Estadual do Pará (UEPA) e professor de Ensino religioso da rede estadual do Amazonas.
Referência
GUERRIERO, Silas. Verbete: Divinação. In: USARSKI, Frank; TEXEIRA, Alfredo; PASSOS, João Décio (Org.). Dicionário de ciência da religião. São Paulo: Pualinas; Loyola; Paulus, 2022, p. 247-249.






















