Por que Donald Trump quer a Groenlândia?

Imagem: Aditya Vyas
image_pdf

Por PAULO GHIRALDELLI*

O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política

1.

Nem imperialismo ou neoimperialismo explicam o interesse de Donald Trump pela Groenlândia. Os sabichões vão dizer que se trata de reativação da Doutrina Monroe? Talvez, pois é possível que a sabedoria desse pessoal os levem a localizar a Groenlândia em alguma parte da América Central. Pior ainda quando inventarem um título como “novo ciclo do colonialismo americano”. Como já disse, essa prática de fazer a história ficar se repetindo é um modo de não querer pensar.

Os Estados Unidos não possuem qualquer interesse na Groenlândia. Donald Trump sim, ele tem interesse.

Novamente, é uma questão pessoal. E com Donald Trump no governo, tudo sempre será algo do âmbito pessoal. O mercado financeiro criou uma burguesia sem burgo, uma elite que se desinteressou dos Estados Unidos como nação, e relegou a política nacional a pessoas menores. Donald Trump é fruto disso.

Ele tem três anos pela frente como governante. Para se manter no poder e, depois, como ex-presidente, não ir para a cadeia, ele precisa oferecer algo que alimente os seus aliados de última hora, as companhias mais ricas do país. Elas não são queridas dos eleitores de Donald Trump. São as companhias de tecnologia de ponta, as Big Techs e correlatos, e que tradicionalmente giravam em torno do Partido Democrata, não do Republicano.

São as companhias que trabalham com o desenvolvimento de Inteligência Artificial, computação e aparato militar automatizado. Elas desenvolvem projetos e materiais que dependem de muita coisa que existe no subsolo da Groenlândia. Até pouco tempo, arrancar algo desse subsolo era um empreendimento caro demais, inviável. Agora, o serviço do capitalismo contra o planeta tem ajudado.

O aquecimento global está dando passos firmes, e a camada de gelo da Groenlândia vem diminuindo de espessura. Pegar material do subsolo, como os “terras raras”, tornou-se um empreendimento mais viável. Donald Trump quer poder oferecer isso aos seus novos amigos das Big Techs. É uma espécie de mimo.

2.

Donald Trump poderia conseguir isso sem anexar a Groenlândia. Todos os países da Otan concordariam. Mas então tudo resultaria de um trabalho conjunto. Ora, Donald Trump não poderia oferecer o resultado para seus novos amigos do Vale do Silício como sendo um presente pessoal. Além do mais, para que negociar se é possível aparecer no cenário internacional como macho, que arranca as coisas dos outros e as entrega para amigos?

Foi isso que ele sempre fez quando garoto e jovem, pagava para aparecer como macho e humilhador de outros. Creio que vocês lembram dele nos programas de TV, fazendo das demissões um entretenimento. Não? Ele gosta de humilhar uns e, ao mesmo tempo, bajular poderosos. Adora dar presentes a amigos, exatamente para lhes mostrar seu poder. Aliás, é isso que ele está fazendo com Gaza.

O americano médio não melhorou sua vida durante o primeiro ano do governo de Donald Trump. Nem as empresas voltaram para os Estados Unidos por conta da política de tarifas. Nem o tal do narcotráfico está sofrendo derrotas pelo fato de Donald Trump perseguir cidadãos americanos com a sua “gestapo”, a ICE, e nada melhorou com o sequestro e prisão de Nicolás Maduro, o falso chefe do tráfico internacional. Donald Trump amarga a rejeição de mais de 56% do eleitorado! O melhor modo de se garantir no poder, portanto, é bajulando os acionistas das Big Techs e correlatos.

Não se trata de geopolítica. Não é o caso de conseguir ter material que a China tem. As Big Techs podem ter o material chinês. Empresas transacionais sabem negociar com Pequim, além disso, o Brasil está à mercê dessas empresas, sem oferecer resistência, e nosso país tem tudo aquilo que as Big Techs querem. Donald Trump não deseja que outros sirvam as Big Techs, ele quer ser ele próprio o presenteador, e a partir de um ato “heroico”.

Disso depende seu futuro não só como governante, mas também como pessoa que irá terminar o mandato com mais de oitenta anos, e sem a saúde do Lula. Um embate na justiça, sendo que ele já é um réu condenado, pode lhe dar uma aposentadoria conturbada. Ele sabe disso. Então, é bom presentear os CEOS jovens do Vale do Silício agora, justamente quando estes estão vendo que Donald Trump quer facilitar a vida deles perante as leis americanas, diferente do que fez Joe Biden.

3.

No Brasil, as Big Techs estão já planejando enormes Data Centers. Aqui nunca haverá problema para as empresas – é o que consta no horizonte. Portanto, não há como oferecer o Brasil embrulhado prá presente. É algo já dado. Agora, oferecer a Groenlândia, com projetos estatais de perfuração do subsolo, sem que as Big Techs tenham que gastar, aí sim, Donald Trump sabe que isso é agradável.

Além do mais, isso amplia a capacidade dos acordos entre o Pentágono e as próprias Big Techs, o que é uma fonte de renda para todo tipo de acionista grande, além de movimentar o mercado financeiro de maneira a dar continuidade ao neoliberalismo, ainda que se fale aqui e ali de tarifas. Ora, a política de tarifas de Donald Trump se mostrou nada alheia ao neoliberalismo. Afinal, era só balão de ensaio para repor negociações e ao mesmo tempo fazer de Donald Trump o homem que pode estar na mídia mais que qualquer outro político.

Quem observar a amizade de Donald Trump com Jeffrey Epstein e puder ver a biografia dele em sua infância, saberá que ele é um fruto podre, nojento, e que jamais chegaria à presidência dos Estados Unidos se o país tivesse qualquer projeto unificado por parte de suas elites – o “combate ao comunismo”, a “corrida espacial”, a “defesa da liberdade e dos direitos humanos no mundo”. Esses projetos se foram. Faziam parte do imperialismo, que está morto e enterrado.

Há vários Donald Trumps mundo afora, que ocuparam as presidências de países importantes. Não os notamos, dado que cada um de nós tende a observar a política interna e, quando olhamos a política externa, vemos apenas a potência que emite o dinheiro do mundo, o dólar. Mas, mesmo procurando pouco, podemos encontrar outras figuras menores. Tivemos Jair Bolsonaro aqui.

Donald Trump é um Jair Bolsonaro com dinheiro e, pior, com o Pentágono e com um poderio militar que continua sendo o maior do mundo. Os Estados Unidos não estão cumprindo a sina de um país imperialista decadente. Quem diz isso estuda pouco. Há muitos anos que os Estados Unidos não possuem um projeto imperialista. Talvez tudo tenha terminado de vez na primeira guerra do Golfo, comandada pelo George Bush pai.

De lá para cá, a financeirização e sua simbiose com a internet deu o tom para o capitalismo e tirou as burguesias nacionais dos pés das terras de seus países. A disputa pelo estado, em termos de levá-lo adiante segundo um projeto de classe, deixou de ser algo primordial por parte das elites. Descuidaram. Veio a política em que há Donald Trumps e Bolsonaros.

*Paulo Ghiraldelli, filósofo, youtuber e escritor, é pós-doutor em Medicina Social pela UERJ. Autor, entre outros livros, de Capitalismo 4.0: sociedades e subjetividades (CEFA Editorial). [https://amzn.to/3HppANH].

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
O STF está validando a fraude trabalhista
03 Mar 2026 Por DURVAL SIQUEIRA SOBRAL: Ao legitimar a pejotização, o sistema jurídico reconfigura o trabalho como negócio e não como relação social
2
Guerra na Ucrânia – um duelo sem vencedores
04 Mar 2026 Por EURICO DE LIMA FIGUEIREDO: O conflito que deveria ser relâmpago virou atrito eterno, onde vidas são o preço que nenhuma planilha consegue calcular
3
O cinema revela Jeffrey Epstein
05 Mar 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: Para entender Epstein, a lição dos filmes que expõem a orgia dos poderosos
4
Lévi-Strauss
06 Mar 2026 Por AFRÂNIO CATANI: Comentário sobre a biografia do antropólogo realizada por Emmanuelle Loyer
5
O escritor e o intelectual
28 Feb 2026 Por LUCIANA MOLINA: Na escrita acadêmica, já vi quem compartilhasse da ideia de que deve existir uniformidade no tamanho dos parágrafos. O sentido passa a ser construído por coerção externa. Essa homogeneização artificial substitui melodia por monotonia
6
Quem tem medo das mestiçagens?
05 Mar 2026 Por ALIPIO DESOUSA FILHO: Reconhecer as mestiçagens é encarar a história e recusar as ficções de pureza que sustentam o racismo
7
Erro de cálculo?
07 Mar 2026 Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: A resistência do Irã e a coesão interna do país só aumentaram com a decisão realmente estúpida, tomada por Estados Unidos e Israel, de assassinar o aiatolá Ali Khamenei
8
Tempos de exceção
04 Mar 2026 Por OLGARIA MATOS: Na lógica da segurança que governa a desordem, a alienação não é mais apenas do trabalho, mas da própria condição de existir no tempo — e só a reabertura do futuro como promessa, não como ameaça, que se pode interromper a regressão para o reino das emoções primárias
9
A hegemonia da lógica da financeirização
04 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Sem compreender a simbiose entre plataformização e financeirização, toda análise do capitalismo contemporâneo permanece cega para a alma dos trabalhadores e vazia de transformação possível
10
Universidade pública e coragem institucional
05 Mar 2026 Por RODRIGO OTÁVIO MORETTI: A universidade pública sustenta direitos no tempo longo. Defendê-la é um gesto de responsabilidade democrática
11
O novo imperialismo de Donald Trump
03 Mar 2026 Por CARLOS EDUARDO MARTINS: O Hemisfério Ocidental substitui o Oriente Médio na condição de espaço vital estadunidense, mas o projeto de poder mundial de Trump não delimita zonas de influência: é o de construir um império global que impeça o surgimento de qualquer força regional
12
Cenários para o fim da terceira guerra do Golfo
06 Mar 2026 Por ANDREW KORYBKO: Entre a rendição estratégica e a balcanização, o futuro incerto do Irã no tabuleiro do Golfo
13
Marx, a técnica e o fetichismo tecnológico
07 Mar 2026 Por ANTONIO VALVERDE: Artigo da coletânea recém-lançada “Figuras do marxismo”.
14
Europa: 50 países em busca de um continente
06 Mar 2026 Por FLAVIO AGUIAR: Do Concerto Europeu ao silêncio obsequioso, a longa agonia de um continente
15
Trabalho e desenvolvimento no Brasil
07 Mar 2026 Por FLORESTAN FERNANDES: Texto da arguição da tese de livre-docência de Luiz Pereira
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES