A linguística versus o preconceito linguístico

Imagem: Markus Spiske
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Por ANDRÉ R. FERNANDES*

Ao desconstruir o mito do “falar errado”, a ciência da linguagem revela que o preconceito linguístico é uma extensão da discriminação social dirigida a grupos historicamente marginalizados

1.

A linguística, enquanto ciência que estuda a linguagem humana, desempenha um papel fundamental no combate ao preconceito linguístico. Esse tipo de preconceito ocorre quando determinadas formas de falar são julgadas como “erradas”, “inferiores” ou “feias”, desconsiderando que toda língua é naturalmente diversa e está em constante variação. Ao analisar a linguagem de forma científica, a linguística demonstra que não existem variedades linguísticas melhores ou piores, mas sim usos diferentes, condicionados por fatores históricos, sociais, culturais e regionais.

O preconceito linguístico é uma forma de discriminação que se manifesta quando determinadas maneiras de falar são consideradas inferiores, erradas ou inadequadas em relação a um padrão socialmente prestigiado. Esse tipo de preconceito afeta milhões de falantes, especialmente aqueles pertencentes a grupos socialmente marginalizados. A linguística, enquanto ciência que estuda a linguagem humana, desempenha um papel fundamental no combate a esse fenômeno, ao demonstrar que todas as variedades linguísticas são legítimas, estruturadas e funcionais.

Nesse sentido, a linguística contribui para a valorização da diversidade linguística e para a compreensão de que a chamada “norma padrão” é apenas uma entre várias formas legítimas de uso da língua, geralmente associada a contextos formais e a grupos socialmente privilegiados. Ao promover essa visão, a linguística ajuda a desconstruir estigmas, incentiva o respeito às diferentes maneiras de falar e reforça a ideia de que discriminar alguém pela sua linguagem é, na verdade, uma forma de discriminação social.

O preconceito linguístico é a discriminação sofrida por pessoas em razão da forma como falam ou escrevem. Ele ocorre quando determinadas variedades da língua são consideradas “erradas”, “inferiores” ou “feias”, enquanto outras são vistas como as únicas corretas ou legítimas. Esse tipo de preconceito está diretamente ligado a fatores sociais, culturais, históricos e econômicos, e não à língua em si.

Na prática, o preconceito linguístico afeta principalmente grupos socialmente marginalizados, como pessoas de classes populares, moradores de determinadas regiões, comunidades rurais ou falantes de variedades não padrão da língua. Ao desvalorizar essas formas de expressão, desvaloriza-se também a identidade e a cultura de quem as utiliza.

Compreender o preconceito linguístico é fundamental para promover o respeito à diversidade linguística e reconhecer que todas as formas de falar cumprem sua função de comunicação. A língua é viva, dinâmica e plural, e nenhuma variedade é superior a outra – o que existe são contextos diferentes de uso.

2.

O preconceito linguístico ocorre quando se julga a capacidade intelectual, moral ou social de uma pessoa com base na forma como ela fala. No Brasil, isso é frequentemente direcionado a falantes de variedades regionais, populares ou associadas às classes trabalhadoras. Expressões como “falar errado” ou “português ruim” refletem uma visão equivocada de que apenas a norma-padrão é válida, ignorando a diversidade natural das línguas.

Segundo o linguista Marcos Bagno, esse tipo de preconceito é sustentado por mitos sobre a língua, especialmente a ideia de que apenas a variedade culta urbana seria correta. Para o autor, “não existe erro em língua, existe preconceito” (BAGNO, 1999), pois toda forma de falar cumpre sua função comunicativa dentro de um determinado contexto social.

A linguística mostra que a língua não é homogênea nem estática. Pelo contrário, ela varia de acordo com fatores sociais, históricos, geográficos e culturais. A sociolinguística, em especial, evidencia que não existem formas superiores ou inferiores de falar, mas sim variedades adequadas a diferentes contextos de uso. Cada falante domina regras complexas de sua variedade linguística, o que prova que não há erro, mas diferença.

A linguística, enquanto ciência dedicada ao estudo da linguagem humana, desempenha um papel fundamental na compreensão dos processos comunicativos, cognitivos e sociais que permeiam a vida em sociedade. Ao investigar a estrutura, o funcionamento e o uso das línguas em diferentes contextos, essa área do conhecimento contribui significativamente para o desenvolvimento de teorias sobre a linguagem, bem como para aplicações práticas em campos como a educação, a tradução, a tecnologia e a inclusão social.

Assim, a contribuição da linguística ultrapassa os limites da descrição gramatical, oferecendo ferramentas analíticas essenciais para a interpretação das práticas discursivas e das dinâmicas culturais contemporâneas.

Marcos Bagno, um dos principais estudiosos do tema no Brasil, afirma que “não existe erro em língua, existe preconceito social contra determinadas formas de uso da língua”. Essa ideia reforça o entendimento de que a discriminação linguística não é linguística, mas social, pois recai sobre os falantes e não sobre a língua em si.

3.

Além disso, a linguística distingue claramente língua e gramática normativa. Enquanto a língua é o conjunto vivo de práticas comunicativas de uma comunidade, a gramática normativa é apenas uma descrição idealizada de uma variedade específica, geralmente associada aos grupos socialmente privilegiados. Segundo Bagno (2007), a norma-padrão não representa a totalidade da língua portuguesa falada no Brasil, mas apenas uma de suas variedades, elevada à condição de modelo por razões históricas e sociais. Confundir essas duas dimensões alimenta o preconceito linguístico.

Marcos Bagno reforça essa ideia ao afirmar que “toda variedade linguística tem uma gramática, ainda que não seja a gramática valorizada socialmente” (BAGNO, 2007). Assim, a linguística evidencia que a noção de certo e errado na língua está muito mais relacionada a relações de poder do que a critérios científicos.

No ambiente escolar, o preconceito linguístico pode gerar exclusão, baixa autoestima e dificuldades de aprendizagem. Ao valorizar apenas a norma-padrão e desconsiderar o modo de falar do aluno, a escola pode reforçar desigualdades sociais. A linguística propõe uma abordagem mais inclusiva, em que o estudante aprende a norma-padrão como uma variedade necessária em certos contextos formais, sem que sua fala cotidiana seja desqualificada.

Na sociedade em geral, combater o preconceito linguístico significa promover respeito à diversidade cultural e reconhecer a linguagem como um direito. A forma de falar de uma pessoa faz parte de sua identidade e de sua história, e desvalorizá-la é desvalorizar o próprio indivíduo.

A linguística combate o preconceito linguístico ao mostrar, com base científica, que toda forma de falar é válida e eficiente dentro de seu contexto. Autores como Marcos Bagno, William Labov e Stella Maris Bortoni-Ricardo demonstram que a variação linguística é um fenômeno natural das línguas vivas e que julgamentos de “certo” e “errado” muitas vezes mascaram desigualdades sociais.

Ao desconstruir mitos sobre erro e correção absoluta, a linguística contribui para uma sociedade mais justa, democrática e inclusiva. Reconhecer a diversidade linguística é reconhecer a diversidade humana.

Conclui-se que a linguística desempenha um papel fundamental no combate ao preconceito linguístico ao demonstrar que todas as variedades da língua são sistemas legítimos, organizados e eficientes para a comunicação. Ao romper com a ideia de “certo” e “errado” absoluto, a Linguística evidencia que o chamado “erro” muitas vezes reflete diferenças sociais, regionais e culturais, e não incapacidade linguística.

Dessa forma, contribui para a valorização da diversidade linguística, promove a inclusão social e incentiva práticas educacionais mais justas, nas quais o ensino da norma-padrão não implique a desvalorização das demais formas de falar.

*André R. Fernandes é graduado em Letras pela Universidade Nilton Lins (UNL).

Referências


BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

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