Desafio ao vírus

Adriana Maciel (Jornal de Resenhas)

Por ARIEL DORFMAN*

Os escritores de 2020 também se deparam com um mundo de repente irreconhecível, também sentem que os rituais ordenados de sua existência anterior foram demolidos.

Resulta paradoxal, ainda que não surpreendente, que algumas de nossas obras literárias mais ilustres tenham nascido em tempos de extrema turbulência. É natural que autores, dedicados desde sempre a dar forma e sentido a sua dor e confusão, tenham procurado criar algo duradouro e belo em meio às ruínas de sua época, alimentando-se quase perversamente das catástrofes que afligiram seus coetâneos, as calamidades naturais e calamidades forjadas por seres humanos, cadeias de guerras e revoluções, conflitos civis e perturbações políticas.

Será assim em nossos tempos de pandemia, impunidade e aflição?

Ainda que não se possam prognosticar os contornos exatos que assumirá a literatura do futuro, algumas das experiências contrastantes – seja de exílio, seja de confinamento – com que os homens e as mulheres de séculos anteriores enfrentaram seus próprios desastres poderiam talvez aproveitar-se para inspirar e guiar os escritores atuais.

Faríamos bem em aprender dos autores que deixaram para trás suas terras de origem, seja por terem sido perseguidos em sua pátria ou com o fim de buscar no estrangeiro novas oportunidades e perspectivas. Uma lista mínima incluiria Dante, Voltaire, Nabokov, Conrad, Yourcenar, Duras, Ovidio, Hemingway, Mahmoud Darwish, Doris Lessing, Thomas Mann, Gertrude Stein e Marina Tsveteva; e nossos contemporâneos Wole Soyinka, Salman Rushdie, Peter Carey, Colum McCann, Michael Ondaatje, Assia Djebar, Amin Maalouf e Gao Xingjian. Acrescento, de minha Latinoamérica natal, Mistral, Neruda, Cortázar, Poniatowska, Benedetti, Fuentes, Roa Bastos, García Márquez e Vargas Llosa, além de tantos espanhóis, como Alberti e Semprún, Max Aub, Rosa Chacel e, certamente, Juan Goytisolo.

O que une todas estas figuras dissímeis, de nações e épocas diversas, é como transformaram a maldição da distância numa benção, respondendo à exigência de perceber o mundo com olhos frescos. É uma lição para aqueles que desejam expressar os estragos de uma pandemia como a nossa, que destruiu ferozmente as redes e relações da vida habitual. Os escritores de 2020 também se deparam com um mundo de repente irreconhecível, também sentem que os rituais ordenados de sua existência anterior foram demolidos.

Esta quebra dos costumes e das certezas é similar à perda da familiaridade cotidiana que escritores desarraigados sofreram permanentemente, uma perda que os instigou a criarem, como compensação, visões inéditas e transcendentes. Os homens e mulheres que neste mesmo momento, em todo o planeta, estão buscando as palavras com as quais escavar a incerteza aterradora do que estamos vivendo, podem buscar alento em suas irmãs e irmãos expatriados que, em outros tempos igualmente alienantes e árduos, já percorreram caminhos semelhantes.

É certo que esses exilados levaram a cabo suas façanhas literárias precisamente devido ao afastamento de seus lares nativos, enquanto os autores contemporâneos, em sua maior parte, estão impedidos de viajar devido ao vírus, sofrendo um retiro que costuma ser asfixiante. Como imitar o exemplo de escritores desterrados que utilizaram os novos horizontes que se abriram para estabelecer novas obras de arte, se estamos condenados a encerrar-nos num pequeno espaço circunscrito? Ou essa restrição pode eventualmente levar também a uma maior criatividade? Se nos sentimos presos e constrangidos, não é um estímulo o exemplo de outros autores que exploraram mundos alternativos da mente e do coração em circunstâncias muito mais terríveis que a nossa?

Alguns dos testemunhos mais comovedores da condição humana foram gestados na prisão. Em vez de cair num estado de desolação absoluta, ainda que razões não faltassem para desesperar-se, muitos escritores sobreviveram às noites de terror e cativeiro submergindo-se mais profundamente na escuridão e no amanhecer de si mesmos, transcrevendo palavras que, entretanto, nos comovem. Meus próprios favoritos, num catálogo que poderia ser consideravelmente mais amplo, são Boécio, Dostoievski, Genet, Wilde, Solzhenitsyn, Gramsci, Breytenbach, Ngugi wa Thiong’o, Nawal El Saadawi, León Felipe, Malcolm X, o marquês de Sade e Ezra Pound.

Obviamente, estar em clausura ou em autoisolamento hoje, com as compras entregues regularmente e com a internet ao nosso alcance (se a fortuna nos sorri), está muito distante da detenção prolongada e da crueldade a que foram submetidos aqueles prisioneiros que temiam o látego e a vigilância de seus guardas. Ainda assim, esses escritores exemplificam como a solidão forçada e as limitações a nosso direito a vagar livremente podem conduzir ao autodescobrimento em lugar da paralisia. Essas condições extremas foram em seu momento – e agora não há razão para ser diferente – um acicate para afirmar o valor de cada palavra arrebatada do silêncio, cada sílaba como uma pedra que um rio vai refinando e polindo, uma e outra vez até aproximar-se da perfeição.

Quanto ao tipo de ficção, poesia, memórias, teatro e ensaios que poderiam surgir desta quarentena não desejada, muitos sentirão a necessidade imediatista de responder à urgência e desolação do momento. Sem dúvida, podemos esperar uma série de reações à peste e à desigualdade que revelou, assim como hinos àqueles que heroicamente resistiram a este assalto a nossa dignidade, que tanto sacrificaram para entregar-nos nutrição e manter-nos a salvo.

E, não obstante, permitam-me invocar Miguel de Cervantes que durante longos meses foi encarcerado injustamente em Sevilla no final do século XVI. Foi então, e nesse lugar aziago, que começou a escrever – supõe-se – Dom Quixote de la Mancha, um processo que narrei em Cautivos [Nova York, OR Books, 2020], uma novela que acabo de publicar em inglês nos Estados Unidos, e que ainda aguarda sua edição em castelhano no qual a concebi. Quem poderia ter previsto, nessa Espanha desconcertante e perigosa, que essa contribuição cervantina às letras do mundo – sem dúvida a novela mais influente na história – se escreveria a contrapelo de tudo o que era popular naqueles dias? Não foram os livros de cavalaria, nem as novelas cheias de desmaios pastoris e aventuras picarescas, nem tampouco as obras teatrais maravilhosas de Lope, Tirso, Calderón, os que mudariam a literatura para sempre, mas este personagem fictício azarado e imprevisto que “se engendrou numa prisão, onde todo o incômodo tem seu assento e onde todo triste ruído faz sua habitação”.

Por isso, tenho fé que nesta era de confinamentos múltiplos, de ruídos tristes e de toda sorte de incômodos, haja alguém – e mais de uma pessoa – que está elaborando agora mesmo uma visão da vida que nos ajudará a imaginar quem somos e quem podemos chegar a ser nestes tempos de pandemia, injustiça e esperança.

*Ariel Dorfman, ensaísta e romancista, é professor de literatura e de estudos latino-americanos na Duke University (EUA). Autor, entre outros livros, de Uma vida em trânsito (Objetiva).

Tradução: Fernando Lima das Neves.

Publicado originalmente no jornal argentino Pagina12, em 14 de junho de 2020.