O tsunami chileno

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por Atilio Boron*

O regime de Piñera – e insisto no termo “regime” porque um governo que reprime com a brutalidade que todo mundo viu não se pode considerar democrático – se defronta com a mais séria ameaça popular jamais enfrentada por governo algum no Chile desde o derrocamento da Unidade Popular em 11 de setembro de 1973. As ridículas explicações oficiais não convencem nem aos que as divulgam; ouvem-se denúncias sobre o vandalismo dos manifestantes, ou seu desprezo criminoso pela propriedade privada, ou pela paz e tranquilidade, sem falar das oblíquas alusões à letal influência do “castro-madurismo” no desencadeamento dos protestos que culminaram na declaração do “estado de emergência” por parte de La Moneda [sede da presidência chilena], argumento absurdo e falacioso anteriormente manejado pelo corrupto que hoje governa o Equador e assombrosamente desmentido pelos fatos.

O estupor oficial e dos setores da oposição solidários com o modelo econômico-político herdado da ditadura de Pinochet carece, por completo, de fundamento, a não ser pelo anacronismo da opulenta partidocracia dominante (uma das mais bem remuneradas do mundo), sua incurável cegueira ou seu completo isolamento das condições em que vivem – ou sobrevivem – milhões de chilenas e chilenos.

Para um olho bem treinado, se há algo que surpreende é a eficácia da propaganda que por décadas convenceu a próprios e alheios acerca das excelsas virtudes do modelo chileno. Este foi exaltado à saciedade pelos principais publicistas do Império nestas latitudes: politólogos e acadêmicos de bom pensar, operadores e lobistas disfarçados de periodistas, ou intelectuais coloniais, como Mario Vargas Llosa, que, num artigo recente, fustigava sem piedade os “populismos” existentes ou em formação que atribulam a região, ao mesmo tempo em que exaltava o progresso “a passos de gigante” do Chile.[1]

Este país é, para os opinólogos bem-pensantes, o feliz apogeu de um duplo trânsito: da ditadura à democracia e da economia intervencionista à economia de mercado. O primeiro não está correto, o segundo sim, com um agravante: em pouquíssimos países o capitalismo arrasou com os direitos fundamentais da pessoa como no Chile, convertendo-os em custosas mercadorias ao alcance apenas de uma minoria. A água, saúde, educação, seguridade social, transporte, habitação, riqueza mineral, florestas e o litoral marinho foram vorazmente apropriados pelos amigos do regime, durante a ditadura de Pinochet e com renovados impulsos na suposta “democracia” que a sucedeu.

Este cruel e desumano fundamentalismo de mercado teve como consequência a conversão do Chile no país com o maior endividamento das famílias da América Latina, produto da infinita privatização já mencionada, que obriga chilenas e chilenos a pagarem por tudo e a endividarem-se até o infinito com o dinheiro que expropriam de seus rendimentos e salários as piranhas financeiras administradoras dos fundos de pensão.

Segundo um estudo da Fundação Sol, “mais da metade dos trabalhadores assalariados não pode retirar uma família de tamanho médio da pobreza” e a distribuição de renda, diz um estudo recente do Banco Mundial, situa o Chile, juntamente com Ruanda, como um dos oito países mais desiguais do mundo. Por fim, digamos que a CEPAL comprovou em seu último estudo sobre a questão social na América Latina que o 1% mais rico do Chile apropria-se de 26,5% da renda nacional, enquanto que 50% dos lares mais pobres acessam somente 2,1% da mesma. [2]

Este é o modelo a imitar?

Em suma: no Chile, sintetiza-se uma explosiva combinação de livre mercado sem anestesia e uma democracia completamente deslegitimada, que dela conserva apenas o nome. Degenerou numa plutocracia que, até há poucos dias – todavia não mais –, prosperava diante da resignação, desmoralização e apatia dos cidadãos, enganados habilmente pela oligarquia midiática sócia da classe dominante. Um sinal de alerta do descontentamento social foi que mais da metade da população (53,3%) em idade de votar nem sequer se incomodou em procurar as urnas no primeiro turno da eleição presidencial de 2017.

Ainda que no pleito a abstenção se reduziu a 51%, Sebastián Piñera foi eleito com apenas 26,4% dos eleitores inscritos. Em poucas palavras, somente um em cada quatro cidadãos sentiu-se representado por ele. Hoje essa cifra deve ser bem menor e num clima em que, onde quer que ocorra, o neoliberalismo encontra-se acossado pelos protestos sociais.

O clima da época mudou, e não apenas na América Latina. Suas falsas promessas já não são mais críveis e os povos rebelam-se: alguns, como na Argentina, desalojando seus porta-vozes do governo por meio do mecanismo eleitoral, e outros buscando com suas enormes mobilizações – Chile, Equador, Haiti, Honduras – por fim a um projeto incuravelmente injusto, desumano e predatório. É certo: há um “fim de ciclo” na região. Não o do progressismo, como postulavam alguns, mas o do neoliberalismo, que só poderá ser sustentado, e não por muito tempo, pela força de brutais repressões.

*Atilio Boron é professor de ciência política na Universidade de Buenos Aires.

Tradução: Fernando Lima das Neves

Notas

[1] Cf. “Retorno a la barbarie”, El País, 31 de Agosto de 2019.

[2] Os dados da Fundação Sol estão recolhidos na nota de Nicolás Sepúlveda para o periódico digital El Mostrador (www.elmostrador.cl/destacado/2019/08/21). A fonte original está em http://www.fundacionsol.cl/2018/12/un-tercio-de-los-chilenos-no-tiene-ingresos-del-trabajo-suficientes-para-superar-la-pobreza/. Os dados relativos à desigualdade encontram-se num informe do Banco Mundial: “Taking on inequality” (Washington: 2016).

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________
  • Sobre a ignorância artificialEugenio Bucci 15/06/2024 Por EUGÊNIO BUCCI: Hoje, a ignorância não é uma casa inabitada, desprovida de ideias, mas uma edificação repleta de baboseiras desarticuladas, uma gosma de densidade pesada que ocupa todos os espaços
  • Franz Kafka, espírito libertárioFranz Kafka, espírito libertário 13/06/2024 Por MICHAEL LÖWY: Notas por ocasião do centenário da morte do escritor tcheco
  • A sociedade da história mortasala de aula parecida com a da história usp 16/06/2024 Por ANTONIO SIMPLICIO DE ALMEIDA NETO: A disciplina de história foi inserida numa área genérica chamada de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e, por fim, desapareceu no ralo curricular
  • Fortalecer o PROIFESsala de aula 54mf 15/06/2024 Por GIL VICENTE REIS DE FIGUEIREDO: A tentativa de cancelar o PROIFES e, ao mesmo tempo, fechar os olhos para os erros da direção da ANDES é um desserviço à construção de um novo cenário de representação
  • Carta ao presidenteLula 59mk,g 18/06/2024 Por FRANCISCO ALVES, JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR & VALDEMAR SGUISSARDI: “Concordamos plenamente com V. Exa. quando afirma e reafirma que ‘Educação é investimento, não é gasto’”
  • A armadilha de Volodymyr Zelenskystar wars 15/06/2024 Por HUGO DIONÍSIO: Quer Zelensky consiga o seu copo cheio – a entrada dos EUA na guerra – ou seu copo meio cheio – a entrada da Europa na guerra –, qualquer das soluções é devastadora para as nossas vidas
  • A PEC-65: independência ou patrimonialismo no Banco Central?campos neto cavalo de troia 17/06/2024 Por PEDRO PAULO ZAHLUTH BASTOS: O que Roberto Campos Neto propõe é a emenda constitucional do almoço grátis para a futura elite do Banco Central
  • Introdução a “O capital” de Karl Marxcultura vermelho triangular 02/06/2024 Por ELEUTÉRIO F. S. PRADO: Comentário sobre o livro de Michael Heinrich
  • Hélio Pellegrino, 100 anosHelio Pellegrino 14/06/2024 Por FERNANDA CANAVÊZ & FERNANDA PACHECO-FERREIRA: Na vasta elaboração do psicanalista e escritor, ainda há um aspecto pouco explorado: a luta de classes na psicanálise
  • O melancólico fim do Estadãocarros abandonados 17/06/2024 Por JULIAN RODRIGUES: Péssima notícia: o quase sesquicentenário diário paulista ( e melhor jornal brasileiro) definha aceleradamente

AUTORES

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES