A cabeleira, o fantasma e a inteligência artificial

Imagem: Annie Spratt
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Por PAULO GHIRALDELLI*

Ao confundir simulacro probabilístico com pensamento, Natália Beauty e Paulo Markun ignoram que a IA opera sem semântica, apenas com semiótica vazia

1.

Natália Beauty é cabelereira e articulista da Folha de S. Paulo. Paulo Markun é jornalista e, segundo ele mesmo, já foi um ghostwriter de Orestes Quércia, político (já falecido) do MDB. Na própria Folha de S. Paulo, Natália Beauty diz que faz artigos por meio de inteligência artificial, e que não vê problema nisso. Disse que “todos” os outros fazem. Não deu nomes. São os colegas dela na Folha de S. Paulo?

Também na Folha de S. Paulo (13/02), Paulo Markun achou essa atividade normal. Pelo que entendi, ele se preocupa menos com o escrever como ato criativo e mais com a tarefa de arcar com responsabilidades jurídicas do escrito. Se Natália Beauty assina o que manda para a Folha e grita “olha eu aqui, sou eu”, então tudo bem.

O salão de cabelereiro de Natália Beauty, segundo ela mesma, cobra 53 mil reais para fazer uma sobrancelha. Se ela oferecesse um desconto para Paulo Markun, ele não aceitaria. Ninguém normal daria tanto valor à sobrancelha! Sócrates dizia que ninguém faz o pior senão por falta de conhecimento. Platão e Aristóteles foram por outro caminho, complicando as relações entre cognição e ética. Nesse caso, prefiro seguir Sócrates. Natália Beauty e Paulo Markun falaram o que falaram por desconhecimento do que é a inteligência artificial, não por qualquer outra coisa.

Natália Beauty acha normal o que faz por não entender que a inteligência artificial não “organiza” as ideias dela, pois só um outro humano pode ajudar um humano a organizar ideias, após um contínuo processo de interação linguística. Organizar ideias é uma atividade essencialmente cognitiva e social. Na defesa de Natália Beauty, Paulo Markun parece que confundiu a atividade da inteligência artificial com o seu próprio trabalho profissional, o de ghostwriter.

O ghostwriter é um humano que escreve para outro humano, segundo diretrizes dadas pelo segundo. Em geral é um jornalista que faz texto para político que, por sua vez, supõe-se, tem efetivamente alguma ideia para expressar. Escritor-fantasma e político vão se acertando um ao outro nessa tarefa.

A relação entre quem quer produzir um texto e a máquina, a inteligência artificial, é bem diferente. Ela, a máquina, é que se apropria dele, e assim faz já no primeiro encontro. Não existe organização de ideias de humanos feita por máquina. Esta, quando “organiza” ideias, efetiva o “pensamento” daquele que imagina ser o doador de ideias.

Mas inteligência artificial não pensa, e então, o que devolve para o solicitador de seu serviço não é pensamento ou argumento, é um amontoado de sinais agrupados por jogo probabilístico. Por conveniência antropomórfica chamamos esses sinais de palavras. Por falta de reflexão epistemológica alguém pode acreditar que “deu ideias” para a máquina e o “texto” resultante é uma criação de verdadeiro escritor.

2.

As pessoas se confundem nesse processo de relação com a máquina. Uma pessoa faz um pedido para o Chat GPT e então surge para ela, na tela, algo que se parece com um texto humano, e o pedinte começa a se achar um autor. Mas o que é devolvido, diante do pedido, é um conjunto de caracteres que foram enfileirados sem qualquer semântica; são símbolos que seguem símbolos (palavras) segundo um trabalho estatístico que faz parecer que há frases e parágrafos construídos.

Nessa hora, o autor se acostuma com a caricatura que lhe é devolvida, realmente acha que criou algo. O conjunto de sinais que simulam sentido é sua obra! O simulacro arrebata o falso autor e lhe dá um vigor inaudito. Ele navega na ignorância sobre si mesmo e sobre a tecnologia.

É interessante que um artista plástico sabe que ele não fez a gravura que ele solicitou do Chat GPT. Não ousa dizer que é o autor da figura resultante. Estranhamente, quem quer se passar por escritor não tem essa noção básica, e acha que o amontoado de palavras que recebeu é um texto, e que ele é, agora, um autor. Isso ocorre na medida que o senso comum vê o desenhar como um “dom” e o escrever como uma atividade de apenas juntar palavras ou “organizar ideias”.

A velha história da sala de aula: “professora, eu tive um monte de ideias para a redação, todas brilhantes, só falta colocar no papel”. Aí a professora responde: “Tá bom Natália, quando conseguir escrever, sozinha, você me entrega a redação”. Natália Beauty faltou na aula de entrega. E continuou faltando, até hoje. Paulo Markun não faltou, mas se esqueceu.

Escrever é organizar ideias que, por sua vez, já vem como texto. Se você pede para um agrupador de caracteres fazer o “texto”, não há mais qualquer autoria. Máquina é fruto humano, da humanidade em geral, mas o pretenso texto não é humano e não é um texto. O escritor põe sua alma no papel. Se ele imagina que colocou sua alma em algum lugar por meio de um conjunto de sinais magnéticos na tela, por obra do Chat GPT, ele não percebeu que nunca teve alma.

Eis o que efetivamente ocorre no processo da escrita: tentamos colocar uma ideia no papel, depois lemos o que escrevemos, e sabemos que a ideia mudou, que a expressão a fez mudar, mas então refletimos um pouco mais e eis a verdade: a concretização do texto nos faz perceber que não tínhamos realmente uma ideia, que ela surgiu no momento da efetivação do texto.

3.

Paulo Markun e Natália Beauty ignoram como que a linguagem e o pensamento atuam. Eles desconhecem esse processo. Talvez tenham a impressão de que podem “usar da inteligência artificial” por não terem refletido e estudado sobre a interação homem-máquina nos dias de hoje. A responsabilidade por um texto falso, feito por inteligência artificial, é de quem assina, mas a responsabilidade legal e moral não significa exposição da experiência ou vivência.

Quem acha que ali no simulacro há a vivência do solicitador de serviços do Chat GPT erra feio. A inteligência artificial cria o que não é criação, é ajuntamento. Como a inteligência artificial é bem treinada a partir de milhares de textos e segundo uma sofisticação de seus algoritmos, há quem se confunda e acredite que a máquina fez alguma coisa legítima, como o escrito humano.

Mas a máquina não colocou nenhuma semântica ali. Só o humano pode produzir uma semântica. A máquina pode no máximo colocar uma semiótica. Máquina é guiada por sinal, pela semiótica, ela simula que está colocando uma palavra na frente da outra, e o incauto olha aquilo e diz: “nossa, é exatamente isso que eu queria dizer”. Se queria dizer isso, deveria ter escrito! Não fez, pois não sabia, não pensava.

As máquinas são feitas para dar golpe no neófito e também no profissional. Os seus criadores sempre trabalharam com a regra de Bill Gates para a internet.  A internet, disse ele, “é para tornar a vida fácil”. A vida fácil é a vida simplória. Todos nós, no cansaço de nossos tempos, aderimos à vida simplória pensando conquistar a felicidade da vida fácil.

Escrever é um processo técnico e ético. Todos nós precisamos refletir sobre isso. Algumas pessoas estão achando que lidam com a inteligência artificial como se fosse a utilização de um simples corretor ortográfico do antigo Word, lembram? Confundem máquina com instrumento. Pensam que usam martelo quando lidam com computador.

Com a inteligência artificial o lema de McLuhan – o meio é a mensagem – tomou um rumo inédito. Na verdade, o meio se tornou a massagem. Massageia corpos e almas e faz deles uma massa de panetone fora de época. Cada fluxo de caracteres ganha uma modulação feita pela máquina. O mundo se tornou um conjunto de fluxos modulados, como Gilles Deleuze previu no início dos anos 1990.

Estudando um pouco mais, logo percebemos que o operador semiótico desses fluxos, o modelador, nem é propriamente a máquina, é o capital. Por isso a simbiose entre capitalismo financeiro, internet e inteligência artificial é denominada por nós de semiocapitalismo. Nessa situação, há inflação semiótica e deflação semântica.

Essa condição impera em nossa sociedade e se faz presente na produção escrita, e deu um tombo em Natália Beauty e Paulo Markun. Eles estão participando da subjetividade de nossos tempos, a subjetividade maquínica. Eles estão no interior de uma revolução no narcisismo atual, que é o surgimento do narcisismo sem narciso.

*Paulo Ghiraldelli, filósofo, youtuber e escritor, é pós-doutor em Medicina Social pela UERJ. Autor, entre outros livros, de Capitalismo 4.0: sociedades e subjetividades (CEFA Editorial). [https://amzn.to/3HppANH].

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