Islamofobia do bem

Imagem: Grupo de Ação

Por DIOGO FAGUNDES*

Nenhuma religião, em si, é inerentemente fascista, apesar de muitas vezes servir como combustível para o reacionarismo

Venho notando, para minha tristeza, a proliferação de casos de “islamofobia do bem”, vindos de pessoas que politicamente não podem ser classificadas como reacionárias.

Que os abutres de sempre se aproveitem de tragédias para ressuscitar taras antigas envolvendo “guerra de civilizações”, apelem para um palavrório envolvendo “legado judaico-cristão” e outros pretextos para violência discriminatória, faz parte do script. Olavetes deliram a cada novo caso de violência cometida por islâmicos no coração da Europa.

A novidade é que a propaganda oficial da extrema-direita vem colorindo discursos menos carregados do tradicional pathos xenófobo e trevoso.

Indaga-se quanto à excessiva tolerância de “nossas sociedades” (é claro que a identidade entre o Brasilsão e a França é sempre pressuposta, somos partes de uma mesma família imaginária), se estas não teriam ido longe demais na aceitação do diferente ou se não haveríamos nos equivocado a respeito da natureza real do Islã. Nosso multiculturalismo tolerante talvez teria ensejado a infiltração de corpos nocivos e obstinados a destruir nossos fundamentos civilizatórios.

Uma página que se reputa “centrista”, de “liberais antilibertários”, detentora do suprassumo da racionalidade ponderada — que se confunde com o que aprenderam na faculdade de business –, chegou a questionar o papel da esquerda em “passar pano” para o Islã (?), exortando os seguidores a discutirem o papel desta religião em nossas sociedades.  Omitem propostas concretas, o que levanta curiosidades acerca do que deveríamos fazer. Banir o islamismo? Proibir mesquitas? Adotar controles mais rígidos de imigração?

Farei três comentários breves acerca desta campanha de medo profundamente ignorante sobre o próprio país, afinal este nunca teve problema algum com a imigração vinda de países de maioria muçulmana, pelo contrário. Tão “ocidentalizados” que esquecem o chão histórico sobre o qual pisam.

1 – O que nossos guerreiros de internet anti-islã nos ensinam, mesmo que possam alegar profundo ódio pela extrema-direita, pode ser resumido em uma única sentença: a Frente Nacional francesa — que mudou de nome faz um tempinho — estava certa durante todos esses anos.

A pregação dos Le Pen não focava exatamente em nos alertar que o Islã e o “Ocidente” são incompatíveis? Por que a gritaria escandalosa, as várias denúncias contra o perigo da extrema-direita europeia, então? Tratava-se apenas de garantir que o menos consequente e determinado (Macron) vencesse os mais compromissados, mas ambos mantendo os mesmos princípios? Estranho critério.

A verdade é que a tentativa de contrapor um Ocidente de liberdades, modernidade e direitos a um Islã bárbaro não apenas é ignorante acerca da história da religião islâmica, como também faz tabula rasa do fato de que o islamismo é praticado majoritariamente de forma pacífica por seus praticantes (a maioria composta de imigrantes pobres, o que certamente não guarda relação alguma com o ímpeto repressivo…), em um verdadeiro atestado de insensibilidade social.

Onde estão agora os especialistas em estatísticas e CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS™ para constatar o percentual de atentados frente ao total da população praticante, ou, ainda, a periculosidade do terrorismo islâmico vis a vis o terrorismo cristão ou judeu (bastante presentes em várias partes do globo)?

A França vem se especializando já há um bom tempo em instrumentalizar um discurso secularista, republicano e “moderno”, incluindo até mesmo o feminismo  — lembram da proibição do véu islâmico nas escolas, para “libertar” as meninas? –, contra um segmento marginalizado da população. As diferenças entre Le Pen e o mainstream político francês são menores do que as imaginadas: a estrutura identitária, (nós, do bem, modernos versus imigrantes bárbaros), sob o pano de fundo da ameaça iminente do inimigo islâmico, é a mesma, mudando apenas as vestes, mais arcaicas e religiosas (estilo “zé cruzadinha”) ou mais modernas (estilo femininista branca e pró direitos humanos disseminando discurso preconceituoso contra a religião). Ambas são subjetividades potencialmente voltadas ao discurso guerreiro e excludente.

Aliás, não deixa de ser revelador e ter um significado profundo o fato de um dos grupos de extrema-direita mais violentos da França nos anos 60 se chamar Occident, hoje um termo utilizado como identidade e defendido em “seus valores” por largos setores do espectro político.

2 – A esquerda, ao contrário do que os mal intencionados da página disseram, tem um histórico de defesa dos inimigos do “Islã político” nos países árabes, turcos ou persas.

A URSS e os comunistas se aliaram ao “nasserismo” egípcio e ao Baath sírio da família Assad, ambas ideologias políticas secularizantes e oponentes da influência do obscurantismo religioso na região. O “nacionalismo árabe” era o padrão no passado. As variações de fundamentalismo foram, na verdade, sempre apoiadas pelos EUA e Israel para minar estas forças políticas laicas.

O exemplo mais famoso é o do Afeganistão: um regime apoiado pela URSS (com ocupação militar, sempre condenável, é verdade), com amplos direitos civis para mulheres e minorias, foi destruído pelos muhajedins, os “freedom fighters” que Reagan e a imprensa ocidental propagavam. Posteriormente dariam forma ao Taleban e à Al Qaeda.

Ao contrário do que pode parecer, este obscurantismo religioso islâmico é bastante recente, tendo sido promovido incessantemente pelos vencedores da Guerra Fria, inclusive nos dias de hoje — o que eram os “rebeldes sírios”, defendidos pelo Ocidente, que deram origem à Al Nusra e ao Daesh (Estado Islâmico), afinal? Quem destruiu o regime líbio, promotor da convivência entre povos distintos, e armou grupos sectários na região? Quem enche de armas e dinheiro o país que mais promove a variação mais perniciosa de obscurantismo islâmico (wahabismo), inclusive com centros universitários espalhados pelo mundo, a Arábia Saudita? Dica: entre eles consta um país com bandeira tricolor que começa com F e termina com A.

A responsabilidade, definitivamente, não é da esquerda.

3 – Por último, queria apenas constatar a incrível hipocrisia dos propagandistas do Ocidente liberal: o Islã é uma ameaça aos “nosso valores”, mas deve ser promovido na China e Rússia em suas variações mais violentas?

Vejam bem como quem levanta a voz para falar da ameaça do terrorismo islâmico na Europa (mesmo que não exista nenhuma ameaça organizativa concreta próxima, apenas casos trágicos de “lobos solitários”), opina que nestes países odiados deve predominar o tratamento benigno, mesmo que, no caso deles, haja ameaça efetiva.

A Rússia cometeu várias barbaridades — bastante denunciadas pelo mundo — na sua cruzada anti-terrorista contra o Daguestão e a Chechênia, mas em ambos casos havia células organizadas cometendo atentados em nome de um separatismo étnico-religioso de fato ameaçador para o Estado russo.

A mesma coisa pode ser dita da China: a repressão em Xinjiang pode infringir direitos e liberdades, não duvido. Mas só desonestos irrecuperáveis poderiam ignorar o fato de que há uigures atuando de maneira organizada para promover separatismo territorial baseado numa versão fundamentalista do islamismo — com grande apoio da Turquia e EUA, é bom dizer — e que a participação de uigures da província chinesa citada em movimentos como o Estado Islâmico foi significativa.

Constatem a hipocrisia em sua forma mais cristalina: onde o “terrorismo islâmico” de fato faz parte da vida política, exige-se respeito e direitos humanos (demandas bem razoáveis), mas onde ele existe apenas na forma de ataques isolados faz-se um escarcéu a respeito do papel da religião islâmica e, mais amplamente, da imigração!

O que devemos enfiar na cachola é que nenhuma religião, em si, é inerentemente fascista, apesar de muitas vezes servirem como combustível para o reacionarismo. Em geral, primeiro se torna fascista e depois arranja-se a capa de alguma religião, não o contrário, o que explica porque qualquer confissão pode ser instrumentalizada para fins políticos ultrarreacionários — até mesmo o budismo, vide o que ocorre hoje em Mianmar, a antiga Birmânia.

Devemos investigar para agir em casos de desorientação individual severa (principalmente de jovens) que levam à “fascistização” da personalidade e posterior realização de ataques assassinos, até mesmo ao martírio e completo aniquilamento de si. Pensar a respeito deste niilismo terrorista que acomete a juventude — e a permite se entregar a variações assassinas de qualquer religião — é muito mais caminho do que perorações ignorantes sobre o Islã.

Este último caminho, seja em forma light e “laica”, seja em forma ultra-reacionária e olavete, sempre joga água no moinho do que há de pior na política.

*Diogo Fagundes é graduando em direito na Universidade de São Paulo (USP).