Por LUCIANA MOLINA*
Na escrita acadêmica, já vi quem compartilhasse da ideia de que deve existir uniformidade no tamanho dos parágrafos. O sentido passa a ser construído por coerção externa. Essa homogeneização artificial substitui melodia por monotonia
Recentemente, calhou de eu dizer a um grande escritor português de passagem por Praga que eu o considerava um herdeiro de Jorge Luis Borges. Acreditava tributar a ele o mais alto cumprimento. Embora não tenha chegado a negar a influência do latino-americano que escreveu em espanhol, o escritor tampouco parecia muito contente com a comparação. Despistou, citando outros autores que o teriam influenciado enormemente – em geral, europeus, tais como James Joyce e Thomas Mann.
Retrospectivamente, percebi que havia cometido uma gafe: um escritor quer ser lembrado por sua singularidade, e não por suas influências.
A angústia da influência não é apenas um tópico de análise dos estudos literários. Uma parte considerável dos escritores iniciantes ou profissionais já se deparou com ela em suas práticas cotidianas. O encontro do estilo próprio ocasionalmente se dá pela imitação do estilo alheio. Posteriormente, o escritor passa a se esforçar enormemente por diferenciar-se o máximo possível dos escritores que o influenciaram.
Se encontrar um escritor em busca de seu estilo é algo corrente e até trivial, eu, pessoalmente, nunca conheci um intelectual ou acadêmico torturado por não saber se já encontrou seu estilo próprio.
Essas não parecem ser questões que tirem o sono de acadêmicos: devo replicar este ou aquele estilo? Encontrar sua própria marca autoral é relevante? Ou talvez seja melhor escondê-la para mimetizar mais plenamente o modus operandi de uma tradição ou escola teórica? Embora não haja muita autorreflexão sobre como escrever, práticas de leitura e escrita recorrentes no Brasil forçosamente influenciam a produção textual.
Alguém poderia supor que o Chat GPT e outras formas de inteligência artificial generativa são os únicos responsáveis pelas mudanças ocorridas na escrita acadêmica nos últimos anos. Predisposições consolidadas em estágios anteriores, contudo, favorecem e explicam o sucesso dos textos gerados artificialmente.
Houve uma mudança significativa na vida acadêmica nas últimas décadas, relacionada à crescente profissionalização e burocratização, mesmo nas áreas de ciências humanas. A expressão escrita sempre esteve no âmago da formação humanística. No entanto, o que se observa pela comparação direta entre autores de gerações distintas é que há um apagamento substancial da artesania da palavra.
Em muitos casos, busca-se uma escrita apenas funcional, que culmina no paper burocrático e anêmico, sem qualquer construção estética relevante. A pressão por publicação rápida não é propícia ao burilamento da escrita em suas inúmeras facetas – do levantamento do material bibliográfico e construção de hipóteses interpretativas até o acabamento do texto. E como supor seriamente que esses mesmos espaços burocráticos, organizados por números e pressa, são capazes de ler, avaliar e valorizar a singularidade textual?
Circulação e influência
Há um adorável livro infantil de Ruth Rocha chamado Nicolau tinha uma ideia. O personagem homônimo anda pela cidade e, a cada encontro, soma à sua ideia original outras imagens que as pessoas iam lhe colocando na cabeça. Ao mesmo tempo, ele próprio deixa ideias na cabeça dos outros.
O escritor brasileiro Luiz Ruffato, durante um encontro brevíssimo em Brno, na República Tcheca, plantou uma ideia na minha cabeça. Após uma apresentação que fiz sobre Machado de Assis, Luiz Ruffato disparou que o português de Machado era mais lusitano que o de José de Alencar. O fato de a mãe de Machado de Assis ser açoriana teria contribuído para o quadro.
De pronto influenciada ou, pelo menos, deixando-me levar pelo assunto em exame, logo corroborei a hipótese de Luiz Ruffato, ao relembrar que a esposa de Machado de Assis também era uma senhora portuguesa.
A tradição artística brasileira dá algumas sugestões do que fazer com uma ideia: “Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”. “Se você tem uma ideia incrível, é melhor fazer uma canção”.
Como a ideia não me saía da cabeça, eu, mais modestamente, fui obrigada a escrever sobre ela. É verdade que ela ganhou tração em grande medida porque começou a se enovelar com alguns aspectos da minha atual ocupação de leitora de língua portuguesa e cultura brasileira em Praga. Por razões geopolíticas presumíveis, o português europeu tem mais tradição na República Tcheca que o brasileiro ou as variedades africanas. Não faz nem um ano que comecei na função e já tive mais contato com portugueses e com a prosódia lusitana do que em todo o resto da vida morando no Brasil.
O charme da ideia de Luiz Ruffato reside na nova volta do parafuso dessa antiga celeuma na literatura comparada.
Uma ideia mais ou menos estabelecida é a de que Machado de Assis, como grande escritor, era também um grande leitor. E que na sua excelência leitora há um princípio de leitura cosmopolita. Ou seja, ele se deixava influenciar por literatura do mundo inteiro – desde que essa literatura, é claro, circulasse, o que já é assunto mais complexo. O cosmopolitismo de Machado em tese o preservaria de uma influência portuguesa desmedida. Podemos nos lembrar ainda da rejeição do Bruxo de Cosme Velho àquele que, naquele mesmo período, era o grande escritor de Portugal: Eça de Queirós.
E então Luiz Ruffato aparece com essa tese que reaproxima Machado de Assis do português lusitano via prosódia doméstica. Um escritor, afinal, não é apenas tudo que ele gostou ou desgostou de ler, mas também tudo aquilo que ele ouviu na infância e na intimidade.
A microexpressividade em língua portuguesa
“Sendo a Alemanha o país da ‘filosofia’ e Portugal, por excelência, o da ‘não-filosofia’, um e outro se encontram na sua mesma polaridade” (Eduardo Lourenço).
Há essa percepção de que Portugal está muito presente no Brasil. Apesar disso, é possível relativizar sua influência no Brasil contemporâneo. Não fosse pelos momentos em que a escola nos instrui sobre um passado comum nas aulas de história e literatura, talvez muitos brasileiros nem sequer se dessem conta da relação especial que o Brasil tem com Portugal.
Sua música, seu cinema, sua produção intelectual, são menos consumidos do que aqueles advindos do espaço anglófono, de países latino-americanos ou mesmo de outros países europeus, como a França e a Alemanha.
Mesmo no sistema universitário, a influência simbólica e geopolítica que Portugal conserva em alguns nichos na área de Letras nem sequer se compara com sua relevância em áreas como Filosofia, Ciências Sociais, Psicologia etc. Há quem goste de alimentar a fantasia de que Coimbra ainda é o centro do mundo, mas o próprio mundo parece discordar disso.
A homologia linguística, no entanto, continua a ser uma influência inescapável. É dentro da estrutura de uma língua que criamos inteligibilidade e expressão. O que é plenamente realizável em uma língua ocasionalmente nem sequer é concebível em uma outra. É também dentro de uma língua que criamos repertório. É possível aprender a ler e escrever com os maiores escritores de sua própria língua. E isso, importa dizer, talvez tenha impacto completamente distinto do que seria aprender essas competências lendo obras originalmente escritas em línguas distantes.
Se Machado de Assis tinha contato contínuo com o português lusitano, é provável que o escritor brasileiro, por mais que eventualmente leia e admire Fernando Pessoa – aquele que é, possivelmente, o autor lusófono com mais impacto na crítica internacional e mais frequentemente lembrado como pertencente ao cânone mundial – , cultive um texto mais próximo da prosódia brasileira, aprendida não só nas ruas, mas com os escritores brasileiros que mais plenamente exploraram esses aspectos.
A oralidade da literatura brasileira é fruto de construção, e não de espontaneísmo desleixado. O exemplo paradigmático seria Guimarães Rosa, que não transcreve a linguagem popular, mas antes a transfigura esteticamente.
Um aspirante a romancista pode aprender muito lendo Jane Austen, em particular sobre aspectos narratológicos e o que chamarei aqui de macroestruturas: enredos, relação entre abertura e fechamento da narrativa, construção de personagens e da voz narrativa etc.
Mas o que dificilmente um falante de português aprende com Jane Austen é aquilo que pertence a um uso mais fino e minucioso da língua, e que diz respeito a microestruturas da expressão, como o ritmo, a sonoridade, a escolha léxica e sintática e até elementos retóricos que são dependentes de idiossincrasias da pronúncia, da semântica, dos hábitos socioculturais etc.
Esses elementos são os mais desafiadores para o tradutor, e aqueles que serão preservados com mais dificuldade na passagem de uma língua para outra. A má tradução é, nesse sentido, fatal, pois, mesmo preservando o impacto da macroestrutura, pode eliminar enormemente a microexpressividade de um texto.
O close reading, ocasionalmente traduzido por leitura cerrada,é um método para ler literatura popularizado pelo New Criticism e que se mostrou muito produtivo para analisar elementos micrológicos da escrita. O que discuto aqui, entretanto, não é método de leitura, e sim construção textual. Ou seja, a microexpressividade é construída no texto e pelo texto.
Ainda que seus romances por vezes tenham desenvolvimentos desinteressantes do ponto de vista da macroestrutura, Chico Buarque demonstra esmero em questões microestruturais – o que é de se esperar de alguém que começou escrevendo canções hoje com lugar garantido no cânone literário nacional.
Como contraste, poderia indicar que li uma obra publicada em 2025 por um escritor brasileiro e fiquei intrigada com o uso de um ponto e vírgula – que, se é utilizado de maneira recorrente no inglês, é muito mais raro no português e, em razão disso, já foi até motivo de troça por Mário Quintana, que, há algumas décadas e com sagacidade sociológica, identificou o ponto e vírgula como sinal ostentatório de erudição. Talvez o ponto e vírgula seja mais presente nos guias de estilo dos jornalões que na literatura brasileira. É sintomático de uma mudança epocal, entretanto, que até os jornalistas elegantes pareçam estar rareando.
Na prosa literária produzida contemporaneamente no Brasil nos últimos 15 anos, mesmo entre aquela que é premiada e elogiada pela crítica, há um evidente predomínio do macro sobre o micro. As obras têm um alto índice de traduzibilidade – o que implica dizer que não lidam muito diretamente com materiais e especificidades linguísticas do português brasileiro.
Aspectos macroestruturais são privilegiados de maneira quase unidimensional. A expressividade específica da variante brasileira é frequentemente esquecida em favor da simples ênfase no que de maneira estereotipada se define como “temas brasileiros” – e que pode até mesmo ser entendido como reafirmação do exotismo periférico no qual os outros e, às vezes, até nós mesmos, gostamos de enquadrar a identidade brasileira e latino-americana. É o fantasma do exotismo rondando a Europa e os centros anglófonos.
Um sintoma disso é que um leitor-pesquisador estrangeiro avalie uma obra como interessante porque “descreve como é morar em um quilombo no Brasil”. O exemplo indica algumas das atuais tendências das oficinas de escrita criativa e dos critérios de atribuição de valor textual. Edward Said analisou o heteroexotismo na representação do Oriente.
O que observamos hoje, no entanto, é autoexotismo endossado pela crítica literária local. Em detrimento de uma literatura construída a partir da valorização do português brasileiro, consolida-se o que é possível nomear “literatura de exportação”, baseada no critério da “cor local” como princípio valorativo. Jorge Luis Borges observa que não havia camelos no Alcorão.
A nova literatura espalha camelos por toda parte – e precisamente isso agrada os estrangeiros, que conseguem encaixar as obras nos critérios de inclusão por meio dos quais expiam a culpa colonial e imperialista. Como sintoma, vemos a microexpressividade cada vez mais desvalorizada.
Em breve alusão ao início deste texto, podemos dizer que Joyce, Mann e Borges, por exemplo, trabalham a construção de frases e parágrafos de maneiras inteiramente distintas – e isso é visível para qualquer um que se disponha a notar a singularidade textual desses escritores. Entre escritores fortes, a singularidade produz a influência como variação significativa a partir de uma matriz.
Em contraposição ao trabalho do escritor literário, temos as práticas institucionais. Na escrita acadêmica, já vi quem compartilhasse da ideia de que deve existir uniformidade no tamanho dos parágrafos de um texto. Não é possível compatibilizar essa regra com a noção de que um parágrafo é uma unidade de sentido. O sentido passa a ser construído por coerção externa, e não se desenvolve a partir da necessidade de expressão. Essa homogeneização artificial, além de frequentemente ser contraprodutiva do ponto de vista retórico, substitui melodia por monotonia.
A uniformização do tamanho dos parágrafos é precisamente o modelo promovido pelo ENEM e pelo vestibular. Ainda há o que dizer, mas a fôrma demanda que a complexidade se comprima em poucas linhas, resultando na superficialidade. Em contrapartida, o texto continua correndo e espichando, mesmo quando não há mais nada a dizer, culminando no que popularmente chamamos de “encheção de linguiça”. Quem aprende fôrma não necessariamente aprende forma.
É preciso ser realista quanto a outro aspecto da nossa cultura: nem Brasil nem Portugal são especialmente influentes na maior parte das áreas científicas e acadêmicas, o que nos faz consumir um enorme montante de produção originalmente escrita em outras línguas. Além dos já conhecidos empréstimos e transplantes linguísticos (anglicismos, galicismos etc.), há influências intelectuais mais difíceis de rastrear. Com isso, é possível conceber a seguinte contradição a partir da escrita acadêmica produzida no Brasil: ocasionalmente ocorre de adotarmos, para evocar Roberto Schwarz, “recursos expressivos fora do lugar”.
O filósofo alemão Theodor Adorno não só tem reputação de escrever de modo difícil e hermético como dá inúmeras justificativas para fazê-lo. Há uma reflexão sobre a forma intelectual em Theodor Adorno que culmina na defesa do ensaísmo. De maneira complementar, ele formula uma crítica à reificação da forma.
Seria um desses paradoxos performativos se alguém no Brasil buscasse continuar o trabalho crítico de Theodor Adorno imitando “a forma de Theodor Adorno”. O trabalho ensaístico demanda a particularização a partir de objetos examinados, mas também a partir do trabalho individual do escritor, que necessariamente passa por apropriar-se da tradição.
Há de se reconhecer igualmente que escrever em alemão e em português são tarefas intelectuais que enraízam um escritor em tradições distintas.
A gramática do alemão demanda posições fixas, repetições obrigatórias, bem como inversões específicas na ordem sintática – nada habituais em português. Ou seja, o alemão é fonte de inspiração para subordinações em períodos intermináveis, hipérbatos e até mesmo anacolutos, que, se traduzidos de maneira mecânica, soam pouco naturais na nossa língua. Há, além disso, risco de anfibologia, um problema na época de Aristóteles e ainda muito presente nos dias de hoje.
A naturalidade da expressão é um tema de longa data. Os românticos alemães, por exemplo, cunharam o conceito de ingenuidade, associado à criança que formula uma verdade de modo espontâneo. Seu modelo é o da simplicidade surpreendente. Por isso, a criança desarma sem esforço. A ingenuidade é habitualmente contraposta ao excesso de reflexão e sentimentalismo. A ausência de vivacidade, no entanto, é mais bem sintetizada pelo que é fingido e gasto.
O bacharel e o modernista
Não aprendi a escrever com Theodor Adorno. Embora tenha me encantado com o texto do filósofo logo que entrei na universidade, minhas primeiras referências de escrita foram, possivelmente, os poemas modernistas no livro didático ainda na escola. Assim como o cancioneiro brasileiro, que meus pais ouviam repetidamente em casa – o cancioneiro brasileiro, e não o fado. O cancioneiro brasileiro, e não a música clássica europeia.
Foi com o modernismo que desenvolvi não só apreço pela naturalidade expressiva e, ocasionalmente, pela oralidade, assim como certo dissabor com relação ao texto pomposo e solene – aquele que parece ser recitado com voz empostada no alto de um púlpito.
Embora frequentemente associem a literatura brasileira, mesmo em suas expressões canônicas, à oralidade e à naturalidade de expressão, essa forma de escrita não necessariamente é a mais prestigiada ou mesmo a mais influente no Brasil. Na realidade, há muitas razões para considerarmos que o modernismo se tornou mais objeto de estudo que modelo de construção textual.
Para analisar essa questão com mais detalhe, sugiro revisitarmos uma discussão tradicional no pensamento social brasileiro, presente na produção de Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, dentre outros. O Brasil, como é sabido, herdou de Portugal o bacharel como tipo ideal e a cultura bacharelesca como modelo de construção de conhecimento.
Historicamente, o bacharel era aquele que se ausentava do país para estudar na Europa e depois retornava com os hábitos transmudados por Coimbra, Paris e outros grandes centros universitários da moda. O bacharelismo não é apenas prestígio social conferido pelo diploma, e sim também prestígio derivado de um regime formal. Para entender como a cultura bacharelesca se apropria da escrita, é possível observar a distância entre a linguagem popular e a linguagem jurídica. Afinal, o Direito é o epicentro do bacharelismo brasileiro.
Aqueles que já estiveram encarregados de corrigir avaliações do curso de direito ou mesmo se aventuraram a ler peças jurídicas percebem claramente que há entre eles regras tácitas de boa escrita e que, estranhamente, às vezes inclusive ignoram a norma-padrão da língua portuguesa. Termos raros, fraseados obscuros e expressões em línguas mortas convivem com escorregões sucessivos na gramática normativa.
É possível até mesmo aventar a hipótese de que um autêntico bacharel precisa ser mais fluente em expressões estrangeiras que na gramática normativa da língua portuguesa. Com isso, textos triviais e até mesmo pobres – em ideias, encadeamento lógico e construção verbal – podem disfarçar sua debilidade através da inflação sintática e lexical.
Em certos campos de conhecimento, a reflexão sobre epistemologia e metodologia é tão precária – para não dizer inexistente – que, além de ignorarem discussões em torno das especificidades das ciências humanas produzidas ao longo de mais de dois milênios, ainda classificam qualquer tipo de debate em torno da escrita acadêmica como “positivista”.
Por isso, se você se distrai, ainda haverá alguém tentando justificar impressionismo, falta de raciocínio lógico e coerência textual com antipositivismo. É particularmente problemático, no entanto, que, no Brasil, haja uma forte correlação entre o prestígio social de determinadas carreiras e regimes específicos de escrita. Faz parecer que só é possível pertencer à carreira escrevendo dessa forma. E a forma passa a ser indício do valor do texto.
Há muitas dinâmicas envolvidas nesse processo. Uma delas, referente ao uso de termos estrangeiros como indicadores de prestígio, foi investigada por Pascale Casanova na obra A língua mundial. tradução e dominação. Pascale Casanova argumenta que, embora frequentemente se use a intraduzibilidade da complexidade como pretexto, há indícios de que o emprego de termos estrangeiros em campos de conhecimento específicos frequentemente sirva a outros fins.
Já na Poética, de Aristóteles, aparece uma recomendação de escrita que o bacharel brasileiro raramente observa. Para o filósofo estagirita, a boa escrita se situa no equilíbrio entre palavras correntes e palavras nobres. Se escrever apenas o que há de mais comum torna o texto vulgar, o excesso de termos estrangeiros e raros faz com que o texto adquira um caráter de barbarismo.
E é exatamente isso o que se verifica na escrita do bacharel: sintaxe tortuosa e excesso de jargões, expressões estrangeiras e termos em desuso. É uma escrita que sinaliza valores de pertencimento, mas raramente é natural, bela ou agradável.
A complexidade de pensamento e expressão é assunto sério e respeitável, mas não deve ser confundida com pomposidade verbal. Entre o termo preciso e o raro, o bacharel frequentemente opta pelo raro. Sua construção de períodos produz distinção pela dificuldade e pelo distanciamento da fala comum, e não expressividade, intencionalidade rítmica ou retórica.
A combinação de naturalidade e complexidade é encontrada na prosa de diversos escritores brasileiros, a exemplo de Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector – e nem mesmo essa última, formada em direito, escrevia como um bacharel do direito.
Consta que Oswald de Andrade tentou ingressar na carreira acadêmica um par de vezes – o que nunca se consumou. Como muito do que ocorre no país, é difícil saber se a rejeição daquele que talvez seja a expressão máxima do antibacharelismo foi resultado de falha ou projeto. Mesmo que o biscoito fino fabricado por Oswald de Andrade não tenha efetivamente se tornado de consumo massivo em um país que soma mais de 30% de analfabetos e analfabetos funcionais, ao menos a universidade teve de reconhecê-lo. Hoje suas obras são mais estudadas que as produções textuais de vários burocratas que o sistema universitário não hesitou em acolher.
Ainda que optemos por não supervalorizar esses fatos isolados, é possível perceber, através da comparação direta de produções textuais, que há um campo de forças baseado em duas grandes escolas de escrita no Brasil: aquela que remete aos modernistas e ao cancioneiro, associada à oralidade e à naturalidade expressiva; e aquela que, em oposição a isso, remete à complexidade artificiosa do bacharel de direito.
*Luciana Molina é doutora em Teoria e história literária pela Unicamp. Atualmente é leitora do Programa Leitorados Guimarães Rosa, com atuação na Universidade Carolina de Praga.






















