Crime e martírio

Imagem: Esiha Digital

Por MARIANA LINS COSTA*

120 anos da execução de Leon Czolgosz, assassino do presidente dos EUA William McKinley (1843-1901)

“Fiquei impressionado com a ideia de que o assassino era um homem de grande coragem. Embora os guardas estivessem segurando-o pelos braços, o prisioneiro estava em condições de caminhar sem qualquer ajuda até a cadeira. Além das suas últimas palavras, não houve nenhum som na câmara de morte; o prisioneiro não demonstrou o menor indício de medo.” (Xerife Caldwell sobre as suas impressões ao testemunhar oficialmente a execução de Leon Czolgosz[i]).

O presente escrito é, em grande medida, resultado de uma longa, amadora e dolorosa reflexão sobre a XII tese do texto Sobre o conceito de história do filósofo Walter Benjamin. Reflexão cujo ponto de chegada é a compreensão simples de que é importante trazer à memória certos nomes, sobretudo em tempos como o nosso, no qual fomos amarrados na cadeira de testemunhas da ascensão de uma extrema-direita que, do alto da nossa sapiência, tínhamos julgado como, definitivamente, pertencente ao passado. O presente escrito é, assim, uma forma de homenagem póstuma a um assassino presidencial assassinado pelo Estado sem que, paradoxalmente, seja, por isso, uma ode à violência. Trata-se tão somente do resgate de certa memória histórica.[ii]

 

1.

No dia 29 de outubro de 1901, Leon Czolgosz foi eletrocutado na prisão Estadual de Auburn, no centro-oeste de Nova York, com dois eletrochoques de, aproximadamente, 1800 volts cada. O processo de eletrocussão durou, precisamente, um minuto e cinco segundos para atingir o seu fim. Às 7:14 da manhã foi declarado morto pelos médicos que então acompanhavam a sua execução.[iii] Ele tinha somente 28 anos. Filho de imigrantes poloneses, até hoje pouco se sabe sobre a sua vida: há controvérsias sobre qual cidade estadunidense teria nascido (ele não tinha registro de nascimento, o que era comum na época sobretudo na sua classe); sobre se de fato era anarquista tal como se autodeclarou (uma vez que, conforme foi exaustivamente investigado pela polícia na época, ninguém do movimento anarquista, salvo muito pontualmente, havia estabelecido qualquer contato com ele); ou mesmo se era mentalmente louco ou são quando cometeu o crime que o conduziu até à morte prematura e nada natural.

O que é certo é que Leon Czolgosz nasceu em 1873 num contexto de extrema pobreza, que pertencia à grande parcela da sociedade estadunidense que não pôde escapar incólume da série de depressões econômicas que marcaram os Estados Unidos do final do século XIX, com o fim da Guerra Civil. Também é certo que ele começou a trabalhar ainda criança, embora a idade difira nos diferentes relatos sobre esse assassino, em grande medida, para sempre desconhecido: uns dizem que ele começou a trabalhar nas fábricas de Michigan aos 12 anos, outros que com já com seis anos de idade trabalhava engraxando sapatos e entregando jornais. De tudo o que nos coube saber sobre a sua vida antes do crime, o fato mais certo, porque o único documentado, é que entre os anos de 1892 e 1898, ele trabalhou na Newburg Wire Mills (uma fábrica de fios metálicos), numa jornada que alternava entre dez horas diárias no turno diurno durante duas semanas, e doze horas diárias no turno da noite, também durante duas semanas; e cujo ordenado girava em torno de 16 a 17 dólares pelas duas semanas de trabalho diurno e de 22a 24 dólares, pelas duas semanas de trabalho noturno. Por motivos de saúde, este foi o último trabalho de Czolgosz.[iv]Curioso é que ele tenha se candidatado a esse trabalho sob o nome de Fred Nieman, quando Nieman em alemão significa “Ninguém”;[v] o que se traduzido livremente para o português, poderíamos dizer que o seu intento foi o de claramente autodesignar-se para si mesmo como um “Zé Ninguém”.

Mas eis que essa sua condição de “Zé Ninguém” foi modificada e de modo definitivo, em poucos minutos, precisamente às quatro horas e sete minutos da tarde de 6 de setembro de 1901. De Zé Ninguém, Leon Czolgoszse tornou um assassino presidencial ou, se preferirmos, um terrorista individual.[vi] Segundo o relato contido na sua breve carta de confissão, ele soube pelos jornais da ida do presidente à cidade de Buffalo, no Estado de Nova York, com o objetivo de visitar a Exposição Panamericana. No fatídico 6 de setembro, enquanto McKinley se encontrava no teatro conhecido como Templo da Música cumprimentando o público, um Czolgosz, algo dionisíaco, se aproximou com um revólver calibre 32 “semiautomático”, que havia comprado quatro dias antes por 4 dólares e 50 centavos. Atirou duas vezes diretamente no estômago do presidente, até ser contido pela multidão enquanto se preparava para dar o terceiro tiro.[vii]Conforme relatou no seu breve depoimento à polícia:

“Eu elaborei o plano de atirar no presidente há 3 ou 4 dias atrás. Quando atirei, meu objetivo era matá-lo e a minha intenção para o seu assassinato é porque eu […] Senti que tinha mais coragem do que as pessoas comuns para matar o presidente e simplesmente me dispus a colocar a minha vida em risco de modo a fazer isso.”[viii]

Sobre a influência que as ideias anarquistas exerceram sobre essa sua decisão a sua explicação não poderia ser mais ingênua, quase infantil, poderíamos até dizer se não fosse pela sua determinação implacável:

“Eu ouvi pessoas falando sobre o dever de educar as pessoas contra a forma de governo atual e que se deveria [fazer] tudo o que se pudesse para mudar a forma de governo. E eu estava disposto a correr o risco de ser eletrocutado ou enforcado se pudesse matar o presidente.”[ix]

O presidente McKinley não morreu na hora, mas seis dias depois, por conta de uma infecção generalizada decorrente dos ferimentos. Cerca de uma semana depois da morte de McKinley, Czolgosz foi julgado. Ele recusou obstinadamente a se comunicar como juiz e não fez qualquer esforço para contratar um advogado, para o que de todo modo, obviamente, não tinha recursos financeiros – não obstante, a lei garantiu que um fosse providenciado pelo governo.[x]O seu julgamento durou, ao todo, apenas oito horas e meia. Quanto às suas últimas palavras, pouco antes da morte por eletrocussão, o único som que segundo o testemunho do Xerife Caldwell fez-se Palavra na câmara de morte, essas foram as seguintes: “Eu matei o presidente porque ele era o inimigo das pessoas boas –dos trabalhadores. Não lamento pelo meu crime. Lamento não ter podido ver o meu pai antes.”[xi] Vale acrescentar que a sua família não teve permissão para receber o corpo. Muito antes de Breaking Bad, o governo dos Estados Unidos derramou ácido sulfúrico sobre o cadáver de Leon Czolgosz – o qual, segundo relatos, levou algo em torno de 12 horas para se dissolver. E muito embora não haja muitos escritos e pesquisa sobre esse assassino, a sua eletrocussão encontra-se, talvez não tão por acaso assim, disponibilizada em diversas páginas da internet; suspeita que uma simples “googlada” com o seu nome pode suscitar.

 

2.

Vale repetir que o objetivo de trazer à memória essa execução levada a cabo pelo governo dos Estados Unidos como represália contra um ato de terrorismo individual não é o de endossar qualquer forma de ação direta que se valha da associação entre os extremos da violência e da ousadia no campo político. Até porque parece ser uma conclusão inquestionável, como se confirmada pela história, que o assassinato do presidente McKinley ou de qualquer outra “autoridade” nunca foi mesmo capaz de tornar o mundo efetivamente mais justo. Antes seria até o caso de supor o contrário. De outro lado, é importante acrescentar, que tampouco se está aqui a defender a perspectiva determinista de que uma tal violência por parte de um cidadão até então pacato seja resultado exclusivo das suas condições de existência; uma vez que, conforme colocado por Emma Goldman, um dos poucos expoentes do anarquismo da época que saiu publicamente em defesa de Czolgosz,[xii] essa explosão de violência também depende – e depende principalmente, poderíamos acrescentar – da interioridade, personalidade ou, se preferirmos, da natureza do indivíduo em questão. Afinal, formula brilhantemente Goldman: embora dezenas de milhares pessoas detestem a tirania, raramente aparece uma verdadeiramente disposta a derrubar um tirano.[xiii] E muito embora seja inclusive um dever contra-argumentar, em nome da razoabilidade mesma, que McKinley não poderia ser tecnicamente considerado um tirano; Goldman se antecipa ao postular que um “grande homem” – como o era o caso de William McKinley, o 25º presidente dos Estados Unidos da América –, salvo no caso de abandonar deliberadamente essa condição de “grande homem”, jamais poderia se elevar ao grau de liberdade daqueles que inexoravelmente “tiveram de pagar a penalidade pelo seu poder”.[xiv]E que esse “poder”, quando muito, fosse tão breve quanto o um mês e meio que demorou para Czolgosz sair da condição de Zé Ninguém rumo à de vestígio de cadáver dissolvido legalmente pelo Estado; ora, sejamos realistas se quisermos o impossível: a depender do estamento do Zé Ninguém em questão, tal brevidade dilacerada é parte da penalidade mesma. Pelo menos, desde a época de Aquiles, essa é uma daquelas poucas verdades já decifradas pela humanidade – e note-se ainda que Aquiles era inclusive nada menos do que um semideus ao invés de um homem miserável como Czolgosz, autodesignado Fred Nieman.

É verdade que o raciocínio aqui proposto é tão extremamente simples que pode, com justiça, ser acusado de simplório. Daí que trazer um tal fato à memória só possa ter o objetivo despretensioso de suscitar perguntas igualmente simplórias, inclusive porque sem resposta, muito embora, talvez, perguntas demasiadamente esquecidas; como a pergunta sobre o que leva alguém a cometer efetivamente esse tipo de crime, ao passo que, se não a maioria, certamente um grande número de pessoas passa boa parte da vida a desejar(e a bravatear) ter a coragem para ele; ao passo que um número não insignificante de pessoas se resigna a uma vida que não é muito mais do que um lento e tedioso processo de autodegradação e/ou autodestruição sem sentido ou propósito, quer amortecido por vícios das mais diversas ordens e graus, quer justificado em nome da luta pela sobrevivência e dignidade física e material; como a pergunta sobre o porquê o som de um tiro de revolver quando dirigido contra uma “autoridade” é ainda hoje capaz de horrorizar multidões tão agudamente como aconteceu nos Estados Unidos da época; ao mesmo tempo em que diversos sons de tiro de pistola ou do estalar de chicotes metafóricos e reais são infringidos, diariamente, contra as mesmas multidões, sem que sejam capazes de suscitar qualquer indignação que se faça efetiva – ao menos se não categorizarmos como “efetivo” o repetitivo palavreado (do gênero) humanista que, de lá para cá, se tornou a principal estratégia de “ação” do que hoje entendemos por “esquerda” (estratégia que, é verdade, tem o mérito duplo de fazer ecoar com belas palavras os terríveis sons dos tiros e chicotes dirigidos contra as multidões e, ao mesmo tempo, garantir uma distância bastante segura do silêncio feito por Czolgosz na sua câmara de morte, conforme o testemunho oficial do Xerife Caldwell).[xv]

E eis que todo este nosso palavreado de “esquerda” acaba por remeter a certa passagem do pequeno texto em que a anarquista Voltairine de Cleyre dedicou ao jovem assassino do presidente McKinley – sendo de Cleyre, portanto, também um dos poucos expoentes do anarquismo que saiu na época em sua defesa. Pois segundo de Cleyre – e isso, vale frisar, ainda nos primeiros anos do século XX –, não é mais o caso de disfarçar ou buscar amenizar a obviedade de que “o capitalismo fez do mundo um matadouro”, no qual até mesmo crianças pequenas são condenadas sem qualquer julgamento à condição da bestialidade da fome, ou, quando não tanto, à morte lenta pela comida, pela água, pelo ar envenenados, poluídos, ou, o que é ainda mais banal, condenadas sem julgamento ou clemência ao aleijamento físico, intelectual, sexual e/ou emocional.[xvi] Crianças que, para fazermos uso das palavras de Dostoiévski, sequer tiveram tempo de provar da árvore do bem e do mal, que sequer tiveram tempo de tornar-se, como nós, em alguma medida, moral ou politicamente condenáveis.

Montanhas de crianças infelizes que vêm ao mundo, e aqui nos valemos mais uma vez das palavras de Goldman, “apenas para serem moídas e transformadas em pó pelas rodas do capitalismo e dilaceradas em pedaços nas trincheiras e campos de batalha”[xvii] – sejam essas trincheiras e campos de batalha montadas em países estrangeiros, como costuma fazer os Estados Unidos, ou internamente, caso do nosso triste Brasil que sem entrar em guerra consegue garantir para si as suas estatísticas de morte.[xviii] Por tudo isso (e muito mais) é que se está aventando aqui se não é mesmo o caso de nos perguntarmos com seriedade por que apenas tão raramente os infernos do capitalismo dão à luz um desesperado com força suficiente para como Czolgosz cometer um ato criminoso igualmente desesperado e desesperadamente contra aqueles que no momento em questão ocupam o posto de representes oficiais deste inferno.[xix]

 

3.

É no mínimo curiosa a resposta de Goldman para os motivos que levam a esse tipo de assassínio ou ato de terrorismo individual. Já que segundo ela, não é, como se poderia supor à primeira vista por “crueldade, ou sede de sangue, ou por qualquer outra tendência criminosa”, os motivos que, em geral, induzem um indivíduo “a desferir um golpe no poder organizado” sob o custo da sua própria vida.[xx] Antes, ela faz questão de destacar que embora seja um tanto óbvio que um tal ato exija uma natureza mais extrema na coragem, temeridade e violência, em muitos casos, o extremismo de uma tal natureza diz, antes de tudo, respeito à sensibilidade – a uma natureza mais extrema na sensibilidade.[xxi] Numa sentença: porque é típico de uma “natureza sensível que sinta um erro mais agudamente e com maior intensidade” do que outras que sejam menos sensíveis – é que se tem a explosão;[xxii] como se se tratasse(com o devido perdão pela palavra fora do lugar) de uma espécie de orgasmo e, portanto, inexoravelmente breve (quando comparado a toda uma vida), não obstante, por assim dizer (na falta de outra expressão), “invertido” no seu propósito: dado que ao invés da concepção de um novo membro da geração futura, conduz ao aniquilamento de um membro representante da velha condição no presente; para o que, a depender do caso, como foi o de Czolgosz, é exigido sem qualquer direito de clemência o próprio autoaniquilamento. Em termos algo nietzschianos, se poderia dizer que a concepção é aqui o mesmo que aniquilação.

O assustador nisso tudo talvez resida na possibilidade de que a expressão da violência possa se confundir, apesar de não ser uma regra, com a própria sensibilidade e, portanto, com o amor. Ao menos segundo Goldman, é preciso considerar que embora tal ato venha a nascer do desespero, este mesmo desespero está longe de ser exclusivo a poucos, antes diz respeito à maioria; de modo que só pode vir tomar a forma da violência que implica a aniquilação/autoaniquilação de si mesmo enquanto desespero (poderíamos acrescentar); paradoxalmente, a partir de “uma abundância de amor e de um transbordamento de simpatia para com toda dor e tristeza ao nosso redor”; paradoxalmente, a partir de “um amor tão forte que não vacila ante nenhuma consequência, um amor tão amplo” que não é capaz de fechar os olhos “enquanto milhares perecem, um amor tão absorvente que não pode calcular, raciocinar, investigar, mas apenas ousar a todo custo”.[xxiii]

Dito didaticamente: segundo o raciocínio oferecido por Goldman, é o “transbordamento de simpatia para com toda dor e tristeza ao nosso redor” o que muitas vezes impele a não vacilar sequer ante a ação que exige a violência, sequer ante o crime e martírio mais atroz ou, se não tanto, ante algo desarrazoado como a paixão sexual, como a compaixão revolucionária. Daí que no seu belo texto sobre a vida e luta política de Mary Wollstonecraft, ela defina o verdadeiro rebelde, justamente como aquele que é possuído pelo amor e consumido pelo fogo da compaixão e simpatia por todo sofrimento infringindo contra todos os seus camaradas; como aquele que devido a essa possessão e consumição mesmas se defronta com o destino inexorável da impossibilidade de receber o amor que a sua alma rebelde anseia e que, como por transbordamento, está o tempo todo a doar.[xxiv]

Que tal transbordamento (que por definição é um esbanjar irrazoável) conduza ao esgotamento completo ou à autoaniquilação, é o resultado quase inescapável quando não é o cálculo o que está em jogo. O lado da história no qual Goldman se coloca claramente não é o dos vencedores, como também não é ao lado daqueles que se deixaram paralisar ante a iminência da derrota. É nesse registo, portanto, que se deve compreender, por que, na entrevista intitulada “O que há na anarquia para as mulheres?”, de 1897, tenha escolhido definir o amor de modo universal, como ágape, isto é: como o “desejo irresistível de fazer bem à pessoa, até mesmo diante do sacrifício de desejos pessoais”;[xxv]ou a sua máxima, elaborada anos depois –numa crítica dirigida ao movimento feminista e ao ideal (excessivamente casto e rígido) de mulher emancipada do seu tempo: “Se o amor não sabe como dar e receber sem restrições, então não é amor, mas uma transação comercial”.[xxvi]

Não podemos esquecer que, no presente escrito, para o bem e para o mal, estamos na companhia de radicais. Dos quais a radical Emma Goldman, amparada pelo discurso psicanalítico da época, oferece-nos uma chave de compreensão. Pois muito embora ela aborde conceitualmente o amor ao modo burguês da sua época – isto é, como em primeira instância pura sexualidade –, dada a sua condição de radical, ela levou ao extremo a exigência de que além da busca pelo gozo propriamente dito, a sexualidade é a fonte de toda socialização, amor e criatividade; e que também em seus mais variados planos deve ser livremente exercida. Daí que a exigência revolucionária da adequação entre teoria e prática tenha nela sido ampliada, ao mesmo tempo em que sintetizada na sua defesa do “amor livre” – o qual deveria trespassar das esferas das relações sexuais e amorosas privadas até a sua expressão plena no campo social e político; trespassamento que no caso mulheres heroicas da revolução russa foi capaz de conduzi-las politicamente aos “feitos mais ousados” ​​e, ao destino trágico da condenação à morte ou exílio na Sibéria, não obstante “com um sorriso nos lábios”.[xxvii] E eis que temos aqui, certa explicação para o porquê de num texto em memória a um jovem terrorista recém-executado, Goldman tenha julgado importante se demorar tanto em falar sobre o amor, sobre sua potência disruptiva e, portanto, revolucionária.

Talvez a incompreensão e recusa que em geral envolve tal psicologia da violência decorra, conforme aventado por Goldman, do fato de ela ser demasiadamente “profunda para que a multidão de superficiais a possa compreender”; não obstante, a explicação do movimento que lhe conduz à coalizão necessária seja exposta pela anarquista de modo absurdamente simples: “o mundo dentro do indivíduo e o mundo ao seu redor são duas forças tão completamente antagônicas que devem, necessariamente, colidir”.[xxviii] Seja como for, é preciso destacar a sua honestidade intelectual, uma vez que no seu texto em simpatia a Czolgosz, não há qualquer tentativa, sequer sub-repticiamente, de elevá-lo, levianamente, à condição de ideal político para a radicalidade do seu tempo. E faz questão de deixar isso claro, quando, por exemplo, declara não ter o conhecimento suficiente para saber se Czolgosz era de fato um homem feito “deste tipo de material”. Como também quando destaca não ter como mensurar até que ponto ele era ou não um anarquista, conforme se autodeclarou à polícia; ou até que ponto o seu comportamento indiferente no julgamento, absolutamente preparado para o martírio, era resultado de uma posse plena posse dos sentidos, ou de uma psique profundamente perturbada.[xxix]

De outro lado, Voltairine de Cleyre nos faz considerar que na sua vida privada talvez o próprio McKinley fosse mesmo um “homem bom e gentil”; e que é inclusive “provável que ele não tenha visto nada de errado nas ações terríveis que ordenou”,[xxx] caso por exemplo, do que ficou conhecido como genocídio dos filipinos, ou do fato de que durante a intensa depressão econômica que marcou o fim do século XIX nos EUA, tenha se posicionado policialmente contra o trabalho organizado ou que tenha permanecido quieto no evento em que diversos oficiais negros foram assassinados por supremacistas brancos.[xxxi] “Talvez”, diz de Cleyre,“ele tenha conseguido reconciliar sua fé cristã […] com as matanças que ordenou”; talvez ele tenha podido conciliar o massacre dos filipinos com a ideia de que estaria a “lhes fazer o bem”; uma vez que a “mente capitalista é capaz de tais contorções”.[xxxii]

Mas seja lá quais fossem as suas intenções e contradições cegas, fato, ressalta de Cleyre, é que ele era então um dos grandes “representantes da riqueza, da ganância e do poder”; e ao aceitar essa posição, “aceitou as suas recompensas e seus os perigos”. Verdade que “as recompensas de McKinley” eram, aparentemente, muito “maiores do que os seus riscos”; e, além disso, ele não precisava do trabalho de presidente dos Estados Unidos para garantir o pão na boca dos filhos; ainda assim, sem que esperasse, conclui de modo estonteante essa outra anarquista, a verdade é que ele foi com o seu mandado glorioso ao encontro de uma força absurdamente explosiva –sendo esta, “a força da vontade de um homem desesperado”. E se, de um lado, ambos os homens morreram; diferentemente de Czolgosz, jamais se poderia dizer que McKinley “morreu como um mártir, mas sim como um jogador que ganhou uma aposta alta e foi derrubado pelo homem que havia perdido o jogo”. Em outras palavras, como um “grande homem” que foi destroçado pelo estômago por um Zé Ninguém.[xxxiii]

 

Considerações finais

À guisa de conclusão, vale retomar o que foi mencionado nas considerações iniciais do presente escrito: que essa singela homenagem à memória de um homem cujo grande feito foi um ato de desespero foi pensada como forma de ilustração (e também de homenagem) para o que Walter Benjamin na sua XII tese quis dizer ao afirmar que a classe escravizada só serácapaz de levar a termo a obra da sua libertação no caso de se assumir como a classe que vingará todas as gerações de derrotados que lhe precedeu. Umaboa consciênciada vontade de vingança[xxxiv]que, conforme Benjamin nos faz suspeitar, é um dos ingredientes que desde sempre escandalizou os defensores do ideal da social-democracia.

Democracia que apesar de conceder à classe trabalhadora o papel de redentora das gerações futuras, cortou justamente com tal “condecoração” o tendão da sua melhor força. Pois segundo Benjamin, foi nessa escola da democracia que a classe trabalhadora desaprendeu tanto o ódio quanto a vontade de sacrifício. E foi cortado e desaprendido porque ambos, ou seja, tanto o ódio quanto a vontade de sacrifício – vontade de sacrifício que, para Goldman, bem ao modo eslavo, confunde-se com o próprio significado do amor –, se nutrem, não do ideal dos futuros descendentes libertados, mas da visão dos ancestrais historicamente escravizados. Nutrição que para ser provida invoca necessariamente a coragem recorrentemente exigida por Nietzsche aos seus hiperbóreos; conforme está inclusive atestado e, certamente, não por acaso, na epígrafe escolhida por Benjamin para a sua XII tese que veio justamente a ensejar o presente escrito in memoriam: “Precisamos da história, mas precisamos dela de outra maneira que o mimado caminhante ocioso no jardim do saber.”[xxxv]

*Mariana Lins Costa é pesquisadora de pós-doutorado em filosofia na Universidade Federal de Sergipe (UFS).

 

Notas


[i] Disponível em: https://web.archive.org/web/20100817095240/http://ublib.buffalo.edu//libraries/exhibits/panam/law/trial/men-at-execution.pdf

[ii] A primeira versão do presente escrito foi recentemente apresentada, sob o formato conferência, no II Congresso Nacional Online Filosofia, Vida e Morte (UFS) em18 de novembro de 2021.

[iii] MACDONALD, Carlos F. The trial, execution, autopsy and mental status of Leon F. Czolgosz, alias Fred Nieman, the assassin of president McKinley. American Journal of Insanity, v. LVIII, n. 3, p. 369-387, jan. 1902.

[iv] FEDERMAN, Cary. The Life of an Unknown Assassin: Leon Czolgosz and the Death of William McKinley. Crime, Histoire & Sociétés / Crime, History & Societies[Online], v. 14, n. 2, p. 85-106, dez. 2010.

[v] Vide nesse sentido a apresentação para a breve carta de confissão à polícia de Leon Czolgosz elaborada pela Shapell Manuscript Foundation. Disponível em: https://www.shapell.org/manuscript/mckinley-assassin-confession/

[vi] Idem.

[vii] CRIMETHINC. Bullets for McKinley: A Few Words on Political Assassination, maio 2018. Disponível em: https://pt.crimethinc.com/2018/05/30/bullets-for-mckinley-a-few-words-on-political-assassination

[viii] Disponível em: https://www.shapell.org/manuscript/mckinley-assassin-confession/

[ix] Idem.

[x] Vide nesse sentido a seguinte passagem da transcrição do seu julgamento: “O promotor distrital disse para ele: ‘Leon Czolgosz, você foi indiciado pelo grande júri deste condado por homicídio em primeiro grau;’ e, em seguida, leu a acusação. ‘Como você se declara?’ O prisioneiro não respondeu. ‘Você entende o que eu li para você?’ perguntou mais uma vez. ‘Você entende que é acusado de crime de homicídio em primeiro grau?’ ‘Você pode dizer sim ou não.’ Ele ficou mudo”. Vale mencionar que a recusa em se declarar inocente ou culpadolhe prejudicava diretamente no julgamento e, por isso, foi o motivo que levou judicialmente à suspeita de que ele não estivesse em seu juízo perfeito – condição mental que é motivo de controvérsia até hoje. Seja como for, na época, todos os especialistas em doenças mentais que, a pedido do juiz e advogados, examinaram o prisioneiro chegaram à conclusão unânime de que ele era mentalmente são (PARKER, LeRoy. The Trial of the Anarchist Murderer Czolgosz. The Yale Law Journal, v. 11, n. 2, p. 80-94,dez. 1901)

[xi] MACDONALD, Carlos F. The trial, execution, autopsy and mental status of Leon F. Czolgosz […], op. cit.

[xii] Emma Goldman inclusive esteve incluída entre os trezes anarquistas que foram detidos e mantidos encarcerados por várias semanas pela suspeita de supostas ligações com Czolgosz, muito embora as autoridades não dispusessem de quaisquer provas para confirmar tal suspeita e prisões arbitrárias – o que, posteriormente, levou à liberação de todos os treze anarquistas detidos. Conforme a expressão atualmente corrente entre os estadunidenses, ficou mais do que comprovado que o crime do jovem Leon Czolgosz se tratava de um lone wolf attack. De um modo geral, o seu crime foi execrado não só pela opinião pública mais ordinária da época, como também pela ala radical, ou seja, pelos sindicalistas, socialistas e, inclusive, pela maior parte dos anarquistas.

[xiii] GOLDMAN, Emma. The tragedy at Buffalo. Free society, out. 1901. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/emma-goldman-the-tragedy-at-buffalo

[xiv] Idem.

[xv] A aplicação deste raciocínio, em toda a sua ambiguidade, à situação do Brasil atual fica a cargo do leitor.

[xvi] de CLEYRE, Voltairine. McKinley’s Assassination from the Anarchist Standpoint. Mother Earth, v. 2, n. 8, p. 303-306, out. 1907.

[xvii] GOLDMAN, Emma. “Os aspectos sociais do controle de natalidade”. In: Sobre anarquismo, sexo e casamento. Tradução, organização, introdução e notas Mariana Lins Costa. São Paulo: Hedra, 2021.

[xviii] https://jornal.usp.br/atualidades/numeros-da-violencia-no-brasil-ja-equivalem-aos-de-um-pais-em-guerra/

[xix] de CLEYRE, Voltairine. McKinley’s Assassination from the Anarchist Standpoint, op. cit.

[xx] GOLDMAN, Emma. The tragedy at Buffalo, op. cit.

[xxi] Além do caso Czolgosz (que segundo circulou na época, chegou mesmo a ouvir uma ou duas das conferências públicas da anarquista, dentre as quais, inclusive, a sua defesa pública ao assassino do Rei Humberto da Itália, o anarquista Gaetano Bresci, um ano antes, em 1900), Goldman teve o seu envolvido em vários outros atentados, muito embora, em nenhum dos casos, tenham sido encontradas provas suficientes para a sua condenação. Vale mencionar que, nos seus primeiros anos de militância, ela, uma jovem imigrante do Império Russo, foi a protégé de ninguém menos do Johann Most, imigrante alemão, conhecido nos Estados Unidos da época como uma espécie de encarnação de Satã, dado defender abertamente a ação direta violenta, precisamente o atentado por ele fundamentado no princípio terrorista da propaganda pelo feito; e, o que não é menos radical, considerado um Satã pela sua militância escancaradado direito do povo de fabricar seus próprios explosivos em nome da autodefesa (para o que produziu um mal para fabricação e uso de diversos tipos de bombas, publicado em fascículos nos jornais radicais da época). Uma defesa da ação direta violenta que exerceu grande influência sobre os anarquistas de Chicago e, por tabela, na tragédia de Haymarket, quando uma bomba, atribuída pelas autoridades aos anarquistas, foi lançada contra os policiais, no fatídico 4 de maio de 1886. O rompimento da pupila para com o mestre se deu de modo profundamente dramático, quando, em 1892, Alexander Berkman, seu companheiro político de toda vida e, na época, também amante, tentou malogradamente assassinar o industrial Henry Clay Frick, como forma de retaliação ao assassinato de grevistas a seu mando. Most posicionou-se publicamente contra o atentado levado a cabo por Berkman (que passaria 14 anos na cadeia até ser extraditado à Rússia) – valendo-se inclusive de grande maledicência ao insinuar que a motivação do crime teria sido na verdade a de despertar a simpatia da opinião pública em relação a Frick. A indignação de Goldman para com Most chegou a tal paroxismo que, segundo relata na sua biografia Living my life, numa de suas palestras, após desafiá-lo a explicar as acusações contra Berkman, chicoteou-o publicamente algumas vezes no rosto e pescoço.

[xxii] GOLDMAN, Emma. The tragedy at Buffalo, op. cit

[xxiii] Idem.

[xxiv] GOLDMAN, “Emma. “Mary Wollstonecraft: vida trágica e luta apaixonada pela liberdade”. In: Sobre anarquismo, sexo e casamento, op. cit.

[xxv] GOLDMAN, Emma. “O que há na anarquia para as mulheres?” In: Sobre anarquismo, sexo e casamento, op. cit.

[xxvi] GOLDMAN, Emma. “A tragédia da mulher emancipada”. In: Sobre anarquismo, sexo e casamento, op. cit.

[xxvii] GOLDMAN, Emma. “Mulheres heroicas da revolução russa”. In: Sobre anarquismo, sexo e casamento, op. cit.

[xxviii] GOLDMAN, Emma. The tragedy at Buffalo, op. cit..

[xxix] Idem.

[xxx] de CLEYRE, Voltairine. McKinley’s Assassination from the Anarchist Standpoint, op. cit.

[xxxi] CRIMETHINC. Bullets for McKinley: A Few Words on Political Assassination, op. cit.

[xxxii] de CLEYRE, Voltairine. McKinley’s Assassination from the Anarchist Standpoint, op. cit.

[xxxiii] Como se costuma dizer por aí, é importante frisar que qualquer semelhança (ainda que pelas avessas) com a realidade – caso do episódio recente da história brasileira, popularmente conhecido como a “facada fake” – é mera coincidência.

[xxxiv] “Boa consciência da vontade de vingança” que, embora não seja uma expressão cunhada por Benjamin, remete algo ao que Nietzsche identificou como o traço típico de caráter daqueles autodesignados “os bons”, que tinham o poder de retribuir o bem com o bem (gratidão) e o mal com o mal (vingança) e, o que é mais importante, que realmente o faziam; a capacidade da longa vingança e da longa gratidão daí decorrente é, curiosamente, segundo o Nietzsche de Humano, demasiado humano, absolutamente nerval para ao sentimento comunal, em que os homens se encontram interligados também via o sentimento de retribuição – isso, ao menos, no que dizia respeito à “alma das tribos e das castas dominantes” da Idade Antiga (NIETZSCHE. Humano, demasiado humano. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, § 45).

[xxxv] LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005.(tradução de Wanda Nogueira Caldeira Brant; tradução das teses de Jeanne Marie Gagnebin e Marcos Lutz Müller).