Por MARCELO SANCHES*
Se você é um sujeito razoavelmente informado, crítico e reflexivo, e não gosta de seguir nenhum tipo de manada, provavelmente não será mais chamado para eventos presenciais que as bolhas organizam para que seus membros se reconheçam no espelho
A ideia de escrever este texto não surgiu de uma formulação teórica abstrata, mas de conversas aparentemente banais – daquelas que revelam muito mais do que pretendem. Em uma delas, um amigo próximo me contou que havia começado a se desanimar com a namorada. O relato vinha acompanhado de observações curiosas.
Ela era carinhosa, afetiva, profissionalmente independente, tinha um bom trabalho, era uma pessoa responsável, criara sozinha um casal de filhos, mas tinha dois “defeitos”: não tinha curso superior e nunca havia viajado para o exterior. Algo parecia não se encaixar. O comentário final surgiu quase como detalhe secundário, mas carregava um peso simbólico difícil de ignorar: o pai dela havia sido caminhoneiro.
Nada dessas “falhas” dizia respeito ao afeto em si. Não havia violência, conflito aberto ou incompatibilidade emocional evidente. Ainda assim, o vínculo parecia perder valor. O desânimo não vinha de uma falta concreta, mas da ausência de certos marcadores simbólicos que, naquele universo, funcionavam como critérios silenciosos de pertencimento.
Essa conversa me levou a lembrar de um episódio vivido muitos anos antes, ainda na década de 1990. Naquele período, fui obrigado a trancar minha matrícula em um curso de ciências sociais para me dedicar a um trabalho em tempo integral. Não se tratava de abandono intelectual ou desinteresse, mas de necessidade concreta. Alguns anos depois, inclusive, consegui retomar o percurso e concluir a formação.
Pouco depois de ter trancado o curso, conheci uma moça em uma festa típica da classe média à qual eu pertencia. Vivemos alguns dias de namoro intenso, marcados por encantamento e afinidade. Até que, em uma conversa aparentemente banal, contei a ela que estudava sociologia e que não sabia quando conseguiria concluir o curso. Ela era filha de um político com posição razoável em Brasília. Naquele instante, algo mudou.
As expectativas que pareciam tão vivas simplesmente evaporaram. Não houve discussão, acusação ou ruptura explícita – apenas um desânimo súbito, difícil de nomear, que alguns dias depois colocou fim ao namoro. O que se perdeu ali não foi exatamente o afeto, mas a projeção simbólica: a interrupção momentânea de um curso que me daria um título foi suficiente para rebaixar, silenciosamente, o valor daquela relação.
2.
Essas duas histórias, separadas no tempo, apontam para o mesmo mecanismo. Naquela época, eu ainda não tinha uma noção razoável do que se chamava neoliberalismo. Falava-se muito em globalização; FHC ainda não havia iniciado seu governo e o debate sobre essa nova forma de governo ainda era incipiente, mas certamente eu já experimentava seus efeitos. O que ainda me faltava não era percepção, mas linguagem. Eu sentia o funcionamento daquela lógica nas relações, nos gestos e nas escolhas, mas ainda não conseguia nomeá-la.
Com o tempo, essa intuição foi ganhando contornos mais nítidos. Passei a perceber que aquilo que aparecia como desencontro afetivo, exigência “natural” ou simples falta de afinidade estava ligado a uma racionalidade mais ampla, que já organizava silenciosamente o cotidiano. O neoliberalismo não estava apenas nas decisões macroeconômicas, mas nas formas de avaliar pessoas, trajetórias e vínculos.
Essa percepção se tornou ainda mais clara quando comecei a reparar em situações aparentemente inofensivas. Em festas, encontros informais ou reuniões familiares, ao reencontrar alguém depois de algum tempo, a pergunta surgia quase automaticamente: “e aí, o que você está fazendo?” — entendendo-se, quase sempre, o que você faz profissionalmente. A profissão, o cargo, o projeto em andamento, tornavam-se a principal chave de leitura para situar alguém no mundo. Raramente apareciam perguntas sobre outras dimensões da vida: vínculos, afetos, modos de estar, generosidade, cuidado, interesses que não se convertessem facilmente em desempenho ou status.
Com o tempo, fui entendendo que essa pergunta não é neutra. Ela revela uma mudança profunda nos critérios de reconhecimento. O valor de uma pessoa passa a ser medido prioritariamente pelo que ela faz, pelo que produz, pelo lugar que ocupa numa hierarquia visível. Aquilo que não se traduz em função, cargo ou trajetória profissional tende a perder relevância simbólica. É nesse ponto que o neoliberalismo deixa de ser apenas um modelo econômico e passa a funcionar como uma verdadeira gramática cotidiana de julgamento.
Sob essa lógica, o sujeito passa a se perceber como um projeto permanente. A vida deixa de ser apenas vivida e passa a ser constantemente avaliada. Estudar, trabalhar, circular socialmente, escolher parceiros, construir repertórios – tudo tende a ser medido pelo quanto agrega valor, amplia possibilidades ou fortalece uma imagem.
As redes sociais intensificam esse processo de forma decisiva, obviamente. Elas não criam essa lógica, mas a amplificam em escala inédita. O que antes aparecia em encontros pontuais passa a se impor diariamente, em tempo real, por meio de imagens, relatos de sucesso e trajetórias cuidadosamente editadas. A vida do outro se transforma em vitrine permanente. A comparação deixa de ser episódica e se torna contínua. A avaliação, que antes era difusa, passa a ser mediada por métricas visíveis.
3.
Nesse ambiente, o sujeito não apenas se compara – ele se mede. A pergunta silenciosa que organiza o cotidiano deixa de ser “o que faz sentido para mim?” e passa a ser “isso performa bem?”. O valor se desloca do vivido para o mostrado. A classe média, situada numa zona permanente de instabilidade, é especialmente atravessada por essa lógica.
Mais do que renda, o pertencimento passa a depender de capitais simbólicos: diplomas, viagens internacionais, modos de falar, redes de contato. O caso da namorada do meu amigo ilustra isso com clareza: a ausência de certos selos simbólicos bastou para fragilizar o reconhecimento.
Esse tipo de exclusão é particularmente cruel porque é silenciosa. Não há ruptura clara, apenas um esvaziamento progressivo do vínculo. Pessoas informadas, articuladas e críticas, mas não detentoras das “credenciais” simbólicas começam a se perguntar por que não são ouvidas, por que suas observações parecem não repercutir (Pierre Bourdieu). O problema raramente é nomeado como social. Ao contrário, ele retorna ao indivíduo sob a forma de diagnóstico: insegurança, sensibilidade excessiva, ressentimento.
Foi algo semelhante que percebi em outra experiência, dessa vez em um círculo de amizade politicamente engajado. Após algumas discordâncias políticas de minha parte dentro de um grupo de amigos e amigas, passei a notar um distanciamento progressivo de algumas pessoas na sequência. Quando tentei entender esse afastamento de maneira cuidadosa, a reação não foi diálogo, mas indignação. O desconforto que eu expressava foi rapidamente reclassificado como “exagero”, “drama”, “vitimização”.
Em pouco tempo, a narrativa se inverteu: não se discutia mais a relação ou o afastamento, mas minha suposta fragilidade emocional. O conflito deixava de ser relacional e passava a ser psicológico. E tudo isso dentro de um grupo de esquerda.
Mesmo em ambientes supostamente livres de preconceitos, categorias críticas importantes – como gaslighting, abuso ou violência simbólica – correm o risco de serem utilizadas de forma inflacionada. Filósofas como Kate Abramson, em seus estudos sobre gaslighting, alertam que o uso impreciso dessas categorias pode produzir injustiças epistêmicas, isto é, situações em que a experiência e a percepção de alguém são sistematicamente deslegitimadas.
Ao mesmo tempo, fui me cansando de encontros entre colegas progressistas, muitas vezes em festas ou reuniões informais, nos quais todos pareciam ansiosos para falar ao mesmo tempo, defender suas posições e expor suas opiniões, mas demonstravam enorme dificuldade em ouvir.
Tornava-se quase impossível desenvolver um raciocínio com calma. Havia uma pressão difusa para concluir rapidamente o que se estava dizendo, como se o espaço da fala fosse sempre provisório. O outro interrompia, ou aguardava impaciente a primeira brecha para começar a falar. A conversa deixava de ser troca e passava a funcionar como justaposição de monólogos. Muito discurso, muita opinião – e praticamente nenhuma escuta.
4.
Nos dizeres de Vladimir Safatle, vivemos um tempo em que opinar virou um fim em si mesmo. As pessoas, incluindo este que vos escreve, falam, comentam, se posicionam, se indignam – mas isso não se traduz necessariamente em ação política real, nem em transformação concreta das estruturas que produzem o mal-estar.
É assim que o sofrimento produzido por hierarquias simbólicas e disputas de reconhecimento tende a ser psicologizado. Ansiedade, solidão e sensação de inadequação passam a ser tratadas como falhas pessoais, e não como efeitos de dispositivos sociais. As redes sociais aprofundam esse movimento ao transformar reconhecimento em números, visibilidade e reputação. Sofre-se, mas com a impressão de que o sofrimento é sinal de insuficiência individual.
No fim das contas, o neoliberalismo não apenas reorganiza a economia ou o Estado. Ele infiltra-se nos vínculos, hierarquiza afetos, orienta desejos e corrói a possibilidade de reconhecimento mútuo – processo amplificado pelas redes sociais, que transformam a comparação em modo permanente de vida.
Se você é um sujeito razoavelmente informado, crítico e reflexivo, e não gosta de seguir nenhum tipo de manada, provavelmente ficará cada vez mais isolado, culpabilizado e solitário neste universo virtual. E claro, não será mais chamado para eventos presenciais que as bolhas organizam para que seus membros se reconheçam no espelho.
No período que antecedeu ao golpe de 2016, fui obrigado a me afastar de reuniões familiares simplesmente por sofrer assédios que buscavam me julgar moralmente por questões que confundiam problemas pessoais com posições politicas. Quando, entre progressistas, comecei a discordar dos caminhos que a esquerda escolhia para responder aos ataques que sofria, ouvi grosserias que buscavam me desqualificar. Em ambos os territórios, portanto, buscaram calar minha voz.
Talvez um dos maiores empobrecimentos do nosso tempo não seja material, mas relacional: a perda da escuta, do comum e da possibilidade de transformar o mal-estar individual em experiência compartilhada – e, portanto, politizável, como aponta Christian Dunker. Em um mundo organizado pela lógica da performance contínua, possuir falhas, interromper o fluxo produtivo, sustentar frustrações ou habitar incompletudes tornou-se quase intolerável. Evita-se o silêncio reflexivo, foge-se da profundidade e recusa-se tudo aquilo que exige tempo, conflito ou elaboração. No lugar do vínculo, instala-se a exposição; no lugar da escuta, a emissão permanente; no lugar da troca, trajetórias isoladas que não se encontram. O resultado é uma sociedade que fala sem parar, mas escuta cada vez menos — e que, por isso mesmo, tem enorme dificuldade de transformar sofrimento em laço, experiência em ação, crítica em política. E relacionamentos que não resistem diante de turbulências, diferenças e necessidades de escutas.
*Marcelo Sanches é músico, graduado em sociologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP).
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