Alegoria, aura e fetiche

Hans Lyngby Jepsen, Esperança, 1953
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Por ADELTO GONÇALVES*

Comentário sobre a nova edição do livro de Flávio R. Kothe

1.

A partir da conclusão que os cursos de Letras carecem de filosofia da linguagem e de lógica e que o sistema escolar brasileiro só serve para domesticar, gerar fiéis, servidores, serviçais, e não pensadores autônomos, o professor Flávio R. Kothe escreveu, em meados da década de 1980, um manual que, publicado pela Editora Ática, incluía o texto que aparece agora na obra que leva o título Alegoria, Aura e Fetiche, que, além de ter passado por uma apurada revisão, recebeu vários acréscimos, inclusive, discutindo dois temas complementares: aura e fetiche.

Continua, portanto, um manual que pode ser usado em escolas, pois constitui “uma reflexão sobre os fundamentos metafísicos que ditam o nosso modo de pensar, com a pretensão de começar a pensar onde se fica repetindo o mesmo convencionado, para daí ir mais longe”, como observa o autor no texto de apresentação.

Eliminado da Universidade de Brasília (UnB), pelos esbirros do famigerado regime militar (1964-1985), tendo retornado como anistiado em 1994, Flávio R. Kothe sempre defendeu o princípio de liberdade nas ideias e disso sofreu consequências, já que “a oligarquia não quer que se desenvolva nos estudantes e, obviamente, na população esse direito de pensar, para que ela não perca seus privilégios”, que vêm desde o início da construção da nação no século XVI.

Ele argumenta: “As grandes obras obrigam a pensar. São evitadas pelo sistema escolar brasileiro. As sequelas se mostram em palestras e falas de intelectuais, mas não são percebidas, porque o público sofre das mesmas deformações”, diz na introdução.

Na primeira parte da obra, Flávio R. Kothe defende que o Estado laico precisa ensinar a pensar na escola, para que os cidadãos aprendam a pensar por si, deixando de ser manipulados pela mídia, pela Inteligência artificial, pelas igrejas e propagandas. “Essa é a condição para que democracia, esclarecimento e cidadania sobrevivam”, garante, lembrando que filosofia não é decorar alguns dados bibliográficos e frases.

“Estudar a alegoria envolve revisar a filosofia que alimenta suas definições”, diz, observando, porém, que é também preciso desconstruir a alegoria, enquanto construção imagética, para ver a que fins serve sua definição e seu uso. “Ela tem servido para “auratizar” o poder, fazer propaganda de governantes como se cada um fosse a concretização da ideia de rei, papa, nobre. É preciso ver se ela serve não só para propagar o poder, mas se pode sugerir uma leitura diferente, mais livre, fugindo ao convencional”, adverte.

E aqui utiliza o pouco convencional verbo auratizar no sentido desenvolvido pelo filósofo judeu alemão Walter Benjamin (1892-1940), atribuindo um valor transcendental ou quase-divino a alguém, ou seja, uma aura, especialmente a uma autoridade ou a alguma obra de arte.

Para Flávio R. Kothe, a alegoria tem sido fundamento da pintura e da escultura sacra, enquanto representação concreta de uma noção abstrata, como a maternidade, a redenção, a fidelidade. “A leitura alegórica procura decifrar uma imagem, ainda que se desviando de seu sentido literal, como ver o salvador na figura de um crucificado”, acrescenta.

2.

Segundo o autor, a leitura alegórica de um fato pode ser tanto a busca da verdade quanto a imposição de um código de leitura, um paradigma de interpretação. Nesse sentido, cita o filósofo grego Plutarco (46 d.C-120 d.C.), que conta um episódio ocorrido na Roma antiga, durante uma rebelião de escravos, que haviam se retirado da cidade. E Menenius Agripa (?-493 a.C.), cônsul nos primeiros tempos da República Romana, teria ido conversar com eles para convencê-los a voltar para “casa” (e continuando sendo bons escravos).

Para tanto, teria inventado uma fábula em que o estômago, tendo ficado sem comida, causaria o enfraquecimento geral do organismo. E todos perderiam. Com essa fábula, teria convencido os escravos a voltar para “casa”. Para Flávio R. Kothe, essa história tem a estrutura da narrativa trivial de direita, sendo uma falácia, pois “finge que é da natureza o que é um regime social de opressão e exploração não remunerada do trabalho”.

Aliás, nesse sentido, algo similar a essa fábula, recentemente, foi ressuscitado em editorial por um tradicional órgão de imprensa para condenar a política do governo de reajuste real do salário mínimo com o argumento de que a economia seria incapaz de suportar o acréscimo, sob a alegação de que isso empurraria o País para o abismo, tal como já fizeram as classes dominantes no século XIX, ao condenar a abolição da escravatura em 1888, fato que provocou o derrube da monarquia no ano seguinte por meio de um reles golpe militar.

Entre as muitas variantes da alegoria, Flávio R. Kothe aponta a personificação ou prosopopeia em que coisas se tornam humanas e passam a agir. E cita como exemplo o episódio do gigante Adamastor no poema Os Lusíadas, de Luís de Camões, marco decisivo que teria ocorrido ao Sul da África na viagem em direção às Índias, em que se contam como dignos de menção apenas os europeus predecessores do imperialismo. “Os afros não contam. Isso faz parte da ideologia colonialista apregoada por Camões, numa obra de encomenda governamental”, observa.

3.

O autor lembra ainda que o cinema norte-americano faz parte, há um século, de um imperialismo mediático, que serve para legitimar a política do governo. “No faroeste se decantou como épico o avanço sobre as terras indígenas e o genocídio dos povos índios”, diz, recordando que os “americanos” tomaram grande parte do território mexicano. E que, na Guerra Fria (1947-1991), comunistas e russos foram criminalizados e achincalhados, como os mexicanos e os chicanos, assim como os muçulmanos seriam rotulados como fanáticos e perigosos.

Aliás, é que se repete agora quando o governo Donald Trump, a pretexto de combater o narcotráfico, trata de apreender navios petroleiros ligados à Venezuela, com fins inconfessáveis. E até sequestrar o presidente Nicolás Maduro.

Ou seja, como diz Flávio R. Kothe: “O que não se questiona nessa “narrativa” toda é o próprio fundamento do imperialismo ianque: ele representa o bem, é “heroico” participar dele, criminoso é ir contra os seus interesses”.

Na conclusão, o professor analisa ainda a publicidade, admitindo ser essa atividade uma prática alegórica, na medida em que concretiza a ideia abstrata de felicidade como consumo, mas observa que a propaganda comercial sempre faz de conta que está aí para servir ao freguês, mas nunca confessa que quer se servir dele. E define sua linguagem como a do engodo, da manipulação, e não a da informação, a de veículo da verdade. “No máximo, pode-se dizer que a publicidade veicula aspectos parciais da verdade” diz.

Ele acrescenta: “A linguagem publicitária procura auratizar mercadorias para aumentar a sua venda. Faz isso através de alegorias, querendo gerar fetiches. Fomenta, assim, a regressão mental como normalidade”.

*Adelto Gonçalves, jornalista, é doutor em literatura portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP). Autor, entre outros livros, de Bocage – o perfil perdido (Imesp).

Referência


Flávio R. Kothe. Alegoria, aura e fetiche. Cotia, Editora Cajuína, 2023, 184 págs. [https://amzn.to/4rZqkuV]

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