Um quarto de século muito significativo

Imagem: Annie Spratt
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Por EMIR SADER*

A fragmentação da liderança ocidental e a ascensão de novas alianças globais marcam a transição para um mundo onde a força política e a persistência do consumo de massa travam uma disputa pelo sentido do futuro

1.

O século XX foi, inquestionavelmente, um século norte-americano. Os Estados Unidos saíram da segunda guerra como a maior potência mundial. Só não reinaram sem contrapartida porque a Uniao Soviética tinha conseguido ter acesso à bomba atômica. Era um equilíbrio militar. Mas nos outros planos – econômico, tecnológico, midiático, cultural –, os Estados Unidos eram claramente superiores.

O plano econômico é aquele em que os Estados Unidos sempre ser se revelaram os mais fortes no mundo. Desde o esgotamento da hegemonia inglesa no século XIX, já no começo do século XX, quando os Estados Unidos se deram conta que a Alemanha ia se transformar na maior potencia no mundo, ele decidiu, apressadamente, intervir na primeira guerra mundial. Junto com a decisão da Uniao Soviética, que também passou a intervir na guerra contra o eixo da Alemanha com a Itália e o Japão.

A partir do desenlace da primeira guerra e da crise de 1929 – a maior crise do capitalismo até hoje –, com políticas keynesianas de reativação econômica, a economia norte-americana se projetou como a mais forte no bloco ocidental.

Com o ciclo longo expansivo da economia mundial a partir do fim da segunda guerra – o que o próprio Eric Hobsbawn chamou do momento de época de ouro de momento mais privilegiado do capitalismo em escala mundial, na década de 1950 –, a economia norte-americana se consolidou como a hegemonia em todo o mundo.

A força econômica, somada à capacidade de construção politica do bloco ocidental, unida ao seu inquestionável poderio militar e à influencia ideológica e cultural, fizeram dos Estados Unidos a maior potencia hegemônica de toda a historia contemporânea.

O bloco ocidental, liberado pelos Estados Unidos tinham os outros setores mais dinâmicos da economia mundial – a Europa ocidental e o Japão, que igualmente projetaram o estilo de vida norte-americano como o símbolo mesmo de progresso e de bem-estar social.

Ao mesmo tempo, o sistema politico norte-americano e europeu foi projetado no mundo como o modelo mesmo de democracia. Eleições periódicas, multiplicidade de partidos políticos, imprensa livre (em que livre queria dizer imprensa privada), definiam a democracia como o sistema consagrado como o nível mais avançado de sistema político no mundo.

Os meios de comunicação norte-americanos tiveram um papel essencial nesse poderio hegemônico norte-americano. Junto com Hollywood e com a mercadoria automóvel, representaram os fatores determinantes do predomínio norte-americano no século XX.

2.

O primeiro quarto deste século, desse ponto de vista, revela transformações fundamentais. É o momento de declínio da hegemonia norte-americana. Do ponto de vista econômico, militar, cultural os Estados Unidos mantem superioridade, porém, tecnologicamente a China o supera e, possivelmente, o superará também no plano econômico, até a metade do século XXI.

O elemento de maior força dos Estados Unidos é o que eles chamam de “american way of life”, o estilo de vida norte-americano. Que é, basicamente, o estilo de consumo norte-americano. Que tem nos shopping centers seu posto de avançada, sua expressão mais significativa e que tem uma existência global.

Até mesmo na China, pais que surge como a principal alternativa à hegemonia norte-americana, os shopping centers são similares aos dos Estados Unidos e aos de praticamente todo o mundo. São maiores e mais bonitos na China, mas com as mesmas marcas e o mesmo mecanismo de circulação das pessoas.

O surgimento dos Brics é o fenômeno mais importante deste começo de século XXI. Nele, pela primeira vez, se dá uma aliança formal entre o poderio militar da Rússia e a força econômica da China, aos quais se somam a capacidade de articulação política do Brasil e uma serie enorme de países já integrados e outros que solicitam a adesão aos Brics.

Agora se trata não apenas de um equilíbrio militar, porque há um processo de declínio dos países do bloco norte-americano. A Europa, em particular, apresenta, pela primeira vez na sua história, um processo de verdadeira decadência. A extrema direita penetrou profundamente no continente.

Um país como a França, que se orgulhava de ser o “laboratório de experiências politicas”, conforme a expressão de Friedrich Engels, passou a ser profundamente penetrada pela extrema direita.

A Europa, como um todo, que havia difundido uma visão de mundo que hoje pode ser caracterizada como “eurocentrismo”, considerada uma visão de mundo em que a Europa é o centro, o resto sendo sua periferia. Uma força ideológica, cultural, impressionante.

Este quarto de século tem no declínio ou mesmo na decadência da hegemonia norte-americana no mundo um dos seus aspectos fundamentais. Um fenômeno de dimensão histórica, que pode fazer com que este século seja o século que pode significar a possibilidade de termos um mundo sem a presença determinante dos Estados Unidos no mundo.

Está claro que o modo de vida norte-americano (o “american way of life”) sobreviverá muito ao declínio do poderio político dos Estados Unidos no mundo. Os próprios shopping centers, que vieram para ficar como espaço que define um estilo de vida, de consumo, com a globalização das marcas e a mercantilização generalizada das relações sociais.

O primeiro quarto do século é, assim, um período de transição, entre o século passado e o futuro, um mundo que poderíamos chamar de “pós-neoliberal”, mas cujas dimensões não estão claras ainda. Certamente um modelo que privilegie a expansão econômica e não os ajustes fiscais, que fortaleça a um Estado renovado e democratizado e não o Estado mínimo. Mas deverá ser um modelo novo, inédito, depois que o mundo tenha vivido o surgimento, o auge e o declínio do modelo neoliberal.

É um debate que apenas começa, que deverá se estender pelas próximas décadas, projetando um novo modelo econômico, politico, social e, principalmente, cultural. Sem que este aspecto, principalmente, não se poderá dizer que a hegemonia norte-americana no mundo esteja superada.

*Emir Sader é professor aposentado do departamento de sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo). [https://amzn.to/47nfndr]

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