Lilia Schwarcz, Beyoncé, George Floyd e João Pedro

Imagem_Oto Vale
image_pdf

Por RONALDO TADEU DE SOUZA*

Novos ângulos da polêmica à luz da obra de Frantz Fanon

Gostaria de iniciar essas breves linhas ressaltando que o autor destas é um homem negro. E o faço não para conferir autoridade ou legitimidade, advinda por alguma espécie de pertencimento étnico ou racial, às questões que levanto, e sim para reafirmar a pluralidade e multiplicidade das perspectivas negras. Obviamente como negro me coloco veementemente nas trincheiras da luta antirracista em seus vários aspectos reprodutivos na sociedade brasileira.

Dito isso, passo à polêmica da vez, o texto publicado por Lilia Schwarcz no jornal Folha de S. Paulo sobre o filme Black is King de Beyoncé. Afirmo nesse sentido, que não tenho a pretensão desnecessária de fazer algo que a própria pesquisadora não o fez: a defesa de seu texto. A historiadora e antropóloga admitiu seu erro e se desculpou com a comunidade negra brasileira em geral. Ademais não possuo a competência e talento de meus colegas e minhas colegas negros e negras para tratar o assunto da perspectiva que o fizeram, pois, feliz ou infelizmente, a agenda de pesquisa a que dediquei minha formação como pesquisador na academia é outra.

Minha voz aqui é dissonante, por isso, iniciei estas linhas ressaltando a pluralidade e a multiplicidade das perspectivas negras.Desloco-me, de certo modo, de muitas crítica (qualificadas) tecidas por meus pares, pesquisadores e pesquisadoras negras. O ponto de partida da polêmica é o filme Black is King de Beyoncé e a crítica que Schwarcz fez a ele. Em si mesmo tanto o filme como a crítica, e a crítica da crítica são fundamentais e positivos para nossos debates públicos acerca de questões candentes. No caso o racismo nas sociedades estadunidense e brasileira.

Ao fazer uma crítica à ressignificação que Beyoncé faz da ancestralidade negra – agora, segundo o crivo da antropóloga, glamourizada via os padrões atuais da dita indústria cultural – Lilia Schwarcz recebeu desaprovações de intelectuais, pesquisadores, ativistas e figuras públicas negras. Argumentou-se que ela fala do espaço de mulher branca; que ela não problematiza sua branquitude (um conceito fora de lugar, mas esse é tema para outro debate); que ela de modo arrogante e prepotente desejou ensinar e dizer a Beyoncé como se faz luta antirracista; que ela, por ser branca privilegiada não compreende a importância da posição da maior artista pop viva, assim como da potência educativa e representativa de ela encenar o passado belo dos povos negros em África.

Assim, por localizar-se no território da branquitude, Lilia Schwarcz não está autorizada a expressar a crítica nestes termos, isto é criticar uma artista negra elaborando teatral e musicalmente o passado de seus ancestrais em África. Que seja. Mas alguns e algumas estão, como nos mostra o legado de Frantz Fanon. O problema de reivindicar o passado da negritude já foi tratado por ele na sua obra [Peles Negras Máscaras Brancas, Edufba, 2008] e atividade intelectual. (Não obviamente do mesmo lugar que faz sua enunciação Lilia Schwarcz.) Percorrendo a trilha da obra do psicanalista martiniquense vemos o alerta que fazia, quando atuante em congressos, encontros de escritores negros e trabalhando em hospitais psiquiátricos,sobre o ardil de considerar-se o passado produzido em algum lugar do tempo histórico (africano) como recurso para as lutas contra o racismo. Seguindo, também aqui, o pesquisador que melhor vem interpretando Fanon no Brasil, o sociólogo Deivison M. Faustino da Unifesp [ver Frantz Fanon: um revolucionário peculiarmente negro, Ciclo Contínuo Editorial, 2018] importa observar que este modo de travar a luta é um inconveniente duvidoso, dado que a consideração positiva de aspectos da cultura africana feita inteiramente é agir como o branco europeu. Estes abordam sua cultura enquanto fundamento existencial geral e completo para toda a “humanidade”. Fanon via aquilo como efeito insinuante e problemático do racismo. Nos termos de Faustino: era (e é) um fetichismo que “inverte os polos da hierarquia”. É como se ao incensar Black is King estivéssemos inocentemente transformando a luta antirracista em elogio à essencialidade da nossa “musicalidade”, “ritmo”, emoção – estes sendo “superiores e desejáveis ante” a cultura branca europeia. Ou seja, uma inversão pouco efetiva do ponto de vista político.

Seria equivocado, portanto, argumentava Fanon ir em busca de um lugar cultural e simbólico longínquo em “detrimento de uma realidade objetivamente desumanizada” (Deivison M. Faustino). Com efeito, é urgente dirá Fanon, estarmos a impulsionar nossas ações a partir das pessoas reais que sofrem o racismo e que de certa maneira produzem cultura de resistência.Por outras palavras, é “necessário ir além da afirmação das especificidades culturais, historicamente negadas”.

Isto significa dizer que a posição de Beyoncé (ainda que não se saiba efetivamente quais as suas intenções) pode ser colocada em questão. Senão por Lilia Schwarcz ao menos por aqueles que discordam deste evento da cultura iniciado por aquela e que também não se encantam irrestritamente pelas argúcias do mainstream.Black is King (e os que o defendem) pressupõe os negros como que vivendo no “mesmo saco” histórico e contemporâneo. É como se todos os negros e negras tivessem em um passado de glória e riqueza existido (e vivido) como o quer a cantora pop, e como se na contemporaneidade (e no futuro) todos os negros e negras pretendessem a reivindicação virtuosa de um lugar histórico-cultural completa e “incondicionalmente” (Fanon/Faustino) elogioso. Haveria que se perguntar, num exercício imaginativo, a Rafiki o sentido histórico-existencial mesmo de ele ter segurado Simba com a força de seus braços no alto da montanha; e devolvendo a pergunta a nós, negros e negras espalhados pelo “Atlântico Negro” se as exigências antirracistas de Beyoncé e dos que a defendem é a mesma da de George Floyd, João Pedro, Miguel, do entregadores de aplicativos e tantos outros e outras?

*Ronaldo Tadeu de Souza é pesquisador de Pós-Doutorado no Departamento de Ciência Política da USP.

 

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
O STF está validando a fraude trabalhista
03 Mar 2026 Por DURVAL SIQUEIRA SOBRAL: Ao legitimar a pejotização, o sistema jurídico reconfigura o trabalho como negócio e não como relação social
2
Guerra na Ucrânia – um duelo sem vencedores
04 Mar 2026 Por EURICO DE LIMA FIGUEIREDO: O conflito que deveria ser relâmpago virou atrito eterno, onde vidas são o preço que nenhuma planilha consegue calcular
3
O cinema revela Jeffrey Epstein
05 Mar 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: Para entender Epstein, a lição dos filmes que expõem a orgia dos poderosos
4
Lévi-Strauss
06 Mar 2026 Por AFRÂNIO CATANI: Comentário sobre a biografia do antropólogo realizada por Emmanuelle Loyer
5
O escritor e o intelectual
28 Feb 2026 Por LUCIANA MOLINA: Na escrita acadêmica, já vi quem compartilhasse da ideia de que deve existir uniformidade no tamanho dos parágrafos. O sentido passa a ser construído por coerção externa. Essa homogeneização artificial substitui melodia por monotonia
6
Quem tem medo das mestiçagens?
05 Mar 2026 Por ALIPIO DESOUSA FILHO: Reconhecer as mestiçagens é encarar a história e recusar as ficções de pureza que sustentam o racismo
7
Erro de cálculo?
07 Mar 2026 Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: A resistência do Irã e a coesão interna do país só aumentaram com a decisão realmente estúpida, tomada por Estados Unidos e Israel, de assassinar o aiatolá Ali Khamenei
8
Tempos de exceção
04 Mar 2026 Por OLGARIA MATOS: Na lógica da segurança que governa a desordem, a alienação não é mais apenas do trabalho, mas da própria condição de existir no tempo — e só a reabertura do futuro como promessa, não como ameaça, que se pode interromper a regressão para o reino das emoções primárias
9
A hegemonia da lógica da financeirização
04 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Sem compreender a simbiose entre plataformização e financeirização, toda análise do capitalismo contemporâneo permanece cega para a alma dos trabalhadores e vazia de transformação possível
10
Universidade pública e coragem institucional
05 Mar 2026 Por RODRIGO OTÁVIO MORETTI: A universidade pública sustenta direitos no tempo longo. Defendê-la é um gesto de responsabilidade democrática
11
O novo imperialismo de Donald Trump
03 Mar 2026 Por CARLOS EDUARDO MARTINS: O Hemisfério Ocidental substitui o Oriente Médio na condição de espaço vital estadunidense, mas o projeto de poder mundial de Trump não delimita zonas de influência: é o de construir um império global que impeça o surgimento de qualquer força regional
12
Cenários para o fim da terceira guerra do Golfo
06 Mar 2026 Por ANDREW KORYBKO: Entre a rendição estratégica e a balcanização, o futuro incerto do Irã no tabuleiro do Golfo
13
Marx, a técnica e o fetichismo tecnológico
07 Mar 2026 Por ANTONIO VALVERDE: Artigo da coletânea recém-lançada “Figuras do marxismo”.
14
Europa: 50 países em busca de um continente
06 Mar 2026 Por FLAVIO AGUIAR: Do Concerto Europeu ao silêncio obsequioso, a longa agonia de um continente
15
Trabalho e desenvolvimento no Brasil
07 Mar 2026 Por FLORESTAN FERNANDES: Texto da arguição da tese de livre-docência de Luiz Pereira
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES