As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Mallarmé xamânico

Imagem: Berry Bicke
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por EDUARDO GALENO*

A musa de Mallarmé devora livros como o buraco negro devora massa

Escrever como se fosse o penúltimo escritor. Num silêncio prolongado pelas linhas que sucedem, declive total. O abismo, a hiância. Chegou a hora do mergulho. Zaratustra, aquele nietzscheano, o pensou bem: aconselhando mergulhar para a declinação absoluta, parindo o poema, “dar à luz uma estrela dançante”. Esse espaço indefinido do poço profundo, ou do mar vacante, é a imagem poética de um mundo sem imagens, onde o plano náufrago do lá fora repercute, junto ao cálculo do Mestre (Le Maître) pelo ricochete da escrita.

É lá, no lugar em que existe apenas o lugar, o efeito incondicional da experiência de auto-anulação, nascente do impossível da escolha. Nada nem ninguém pode combater o fenômeno, pois a inutilidade da autoridade se revela a partir mesmo desse engolfamento. Feita, sendo — eis a disseminação volátil do poder de resistência da obra àquilo que faz. Na obra, o que importa nunca é o indivíduo, mantendo em pé somente a decisão do que ela própria significa a si. Ela, desse modo, nunca cessa de falar. Nunca termina porque seu esgotamento último depende da origem, que é seu fim: sempre é elíptica. Traçando nas letras o tempo finito da conversa, o dictare se transforma do templo ao calabouço, movendo, nisso, o apagamento final de seu ser. No monólogo: não há coisa mais falsa na literatura do que o monólogo interior.

A derrisão da obra pelo autor mostra a violência do acontecimento. A escrita não é simplesmente a exposição gráfica ao olho: é a certeza radical, sim, do inciso, com o apoio instrumental do estilete que possui. Por isso que, nela, o apego a nada significa exatamente o apego a tudo (pelo menos nas experiências ditas limítrofes, de transbordamento). Estendida, não é mais escrita. Talvez a palavra mais adequada, agora, seja (ex)crita: puxar ao máximo o carretel da linguagem para que pule ao exterior, movida pelo sentimento de desgarre. Titubeante, movimentos de aparição e desaparecimento são cíclicos, mas colocados, paradoxalmente, em um mesmo momento, durante a eternidade.

A literatura dá e tira numa mesma unidade de palavra. Por que isso? Se a literatura é ficção, de que ponto vem sua paixão por tudo que não é seu? Quando Mallarmé falava ptyx no soneto, não era exatamente emergindo a ironia na qual a literatura expõe e desemboca? Do seu oposto, negado, mas impossibilitado de morrer, vem a realidade da ficção. A constelação das duas Ursas, distantes há centenas de anos-luz, dialoga com a constelação de letras no branco da página, no ideograma.

Un coup de dés é um poema futurista na medida em que instala a matéria-morta das estrelas ao lado da carne humana. Não à maneira kantiana (Mallarmé é o primeiro escritor, sem prosa, a fissurar a tese de subjetividade/objetividade): fizera, particularmente, ao assassinar o velho Mestre no afogamento, regrando a falta como constitutiva à poesia, unindo a pena, cheia de tinta e fricções de presença (embora subtraída e isolada), ao universo, cheio de ausência e de morte. O último ganha.

Interregno, a literatura atua no limiar da inclinação à morte, preparada no ato solitário. Mallarmé sabia de antemão que nenhum ser é mais auxiliar quando a fenda é submetida a seus próprios cuidados. Daí nasce a superfície de abertura incalculável, pois a profundidade é alcançada como experiência-limite, na qual desordena a uniformização (do livro tradicional) e faz reverberar o feitio de recuo do sentido(não há telos). Por ocasião, jamais se morre por completo; apenas por morte dyferida.

O espectro do Rei Hamlet é a prova cabal dessa verdade de existências postadas à metamorfose entre material e imaterial, que não podem morrer porque se esqueceram de morrer. Semelhante ao caso do caçador Graco, criação kafkiana: incapaz de morte sem ser um corpo vivo. Em ambos, o estatuto ontológico vai além e está aquém do homem. Ao Mestre, o que maneja com os dados na mão no poema, a insígnia do angustiado. Ele hesita lançar porque oprimido pelo céu e pelo mar: se tornando uma ponte entre Hamlet (antecedente) e Graco (sucessor), constitui a difusão heroica ao manobrar o barco, ao mirar as ondas insanas da probabilidade, sabendo já, antecipadamente, do seu fracasso (talvez as imagens de Le bateau ivre, de Rimbaud, tenham sido cruciais aí).

O mestre é tanto o homem frente ao absoluto quanto o escritor perante a literatura. Indica um laço decisivo de criação de novas geometrias espaciais e novas existências por vir, mesmo aquelas que nunca vimos antes, mas já aqui, em função de aprendermos a subjugá-las historicamente. O caráter entre passado e futuro aparece através do risco entre acaso e necessidade na figura do dado. É nesse modelo de escape que se encontram o ulterior demônio imemorial e as espumas primordiais, ambos, através do tempo, se locomovendo para chegarem à hora do lance.

O silêncio sepulcral desafia. Essa ideia ficta sobrenatural reage contra o determinismo fincado (o acaso não é absorvido pela necessidade, como a necessidade se põe radicalmente em contingência), dessa forma ampliando a possibilidade, o provável, o talvez conjurado pelo texto mallarmeano. Clausura e abertura, o poema consome a si mesmo, o Livro se torna o oroboro, devorando eternamente sua própria cauda: tão logo o Livro afirma, também nega. É desse jeito que o círculo do devir é exportado ao poema, à literatura, seja de que forma for. Operando o acaso, recusando a sorte, a frase de sagre à obra é aquela: vigiando duvidando rolando brilhando e meditando.

Os cinco pontos pleiteados saem da certeza poética à indeterminada movimentação (équilibre instable de Claudel), tanto fechando quanto abrindo a matéria, fazendo nascer o Sol da chance. No fundo, essa estrutura suicida em Mallarmé se liga à escrita automática de que falavam e buscavam os surrealistas na década de 1920, embora relativamente em caminhos opostos, no rebaixamento humano às coisas. A maneira do diabo assombroso de Mallarmé permanece riste frente a quem escreve, com seu espírito zombeteiro, porque o escritor quase nunca sabe do pacto que antecede cada fonema (ou brancura). Ele faz de qualquer modo, devido ao ornamental feitio da estrutura dispersiva das palavras, dissolução real ou, como o poeta francês dizia, o território em que toda realidade se dissolve.

Mallarmé é distante, ao contrário do que pensava Oswald de Andrade, do aparato humanista. Na medida em que apartava de si a pujança da interioridade, restou a indiferença exterior. Eu, sem mim mesmo é a abertura para a magia. Mens in alieno conversa — destacadamente, a porta à modulação na alteridade, posta na errância dos sonhos (eu não me modifico. Se modifica algo em mim). São lutas corporais e imagéticas contra Deus, que o poeta trava até quase enlouquecer, descobrindo o Nada. Descobrir o abismo tem seu preço e, para ele, o naufrágio executa, em particular, quem sabe pelas leituras que teve de Hegel, sua consciência infeliz, seu mal-estar.

Nesse encantamento irrefreado, no qual Mallarmé se dispõe a encarnar, emerge a linha do começo e fim da literatura: a percepção irrompe e liga várias das heterogeneidades, humanas ou inumanas, atuais (à sua época ou para nós) e ancestrais. O fim da literatura é um começo, dado esse fim que não existirá como conhecemos, porque liquidaria o devir do centro sempre movente e deslocado. À percepção, portanto, vem o limiar entre o começo e o fim do autor, na troca desta figura pela do xamã, resgate etnográfico de Barthes em 1968, uma verdadeira experiência onírica que a literatura nunca mais se desvencilhou. Ou não seja uma percepção, mas um atravessamento possessivo, possivelmente, para ser exposto numa linha não fenomenológica da coisa.

E como avaliar a tal concepção do Número? Aquele único Número que não pode ser um outro? Quais as tratativas na escrita mallarmaica que impulsionam o séptuor ao Absoluto, explicitado no quadro geométrico (cadre)? O Número 7 ratifica os números alternativos (1, 2, 3, 4, 5, 6) e os une na proporção de deriva, sendo ele o que não pode mudar. Mallarmé, assim, sai por evocar à experiência literária uma radicalidade absoluta: na literatura, como o sobrenatural nunca é exorcizado, o que pode passar se move rumo à destruição espiralada. A musa de Mallarmé devora livros como o buraco negro devora massa.

Isso é dizer: isso é certo, isso não pode ser mudado de forma alguma, isso faz parte. O não-todo que sobra faz parte da imutabilidade, então, quando a escrita literária se completa, ela consegue se desterritorializar. Podemos, certamente, pensar na indecidibilidade cética perante a tudo. Aí estaremos um pouco longe da certeza radical engendrada pelo poema, na qual clarifica e qualifica o substrato do lance de dados: 1+6 = 7, 2+5 = 7, 3+4 = 7. Mallarmé não acompanha, entretanto, a tentativa hegeliana de condicionar o acaso na necessidade. É o contrário. O que é absoluto é o jogo. O nome do poema afirma o que nega: “um lance de dados jamais abolirá o acaso” também quer dizer que todo lance de dados é necessidade do arbitrário, fundamentando o jogo na indeterminação da imposição.

A esse transbordamento mallarmaico, é evidente o asserto, mas de modo algum pode explicar o momento pelo qual se transforma em implicância de preconceito modernista, apenas revista quando sobrevém a prática de que, apesar de antecipar a inovação da poética contemporânea, Mallarmé acabava por se ligar à condição de toda a prática da palavra desde Homero. Concebê-lo tipo da transformação radical na literatura vale a pena no caminho se, e apenas se, também vê-lo um herdeiro.

Mas, por outro lado, extemporâneo (da música de Cage à pintura de Rothko), caberão aos séculos que vêm dar a garantia ao Un coup de dés como rastro fundamental na história da literatura. Sendo ele o primeiro conjurador, de fato, deste demônio residente em cada espaço literário, passou os vestígios triunfais à declaração do surgimento enigmático. Enigma que não é alegoria, muito menos símbolo, mas um sussurro alucinante (murmúrio condolente), apoiado, vejam bem, a tudo que aconteceu e, mais, a tudo que poderá acontecer. Relação, porém, não totalitária, mas significantemente advinda da Ideia (universal), atualizada, assegurada pelo domínio impersonalizado da letra silente, poeticamente tornada oblíqua no planeta e fora dele.

O demônio de Mallarmé age assim: para ele, todo devir é dever, toda exigência literária é não-literária. Ce jeu insensé d’écrire

*Eduardo Galeno é graduado em Letras pela UESPI.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Luiz Bernardo Pericás Everaldo de Oliveira Andrade Juarez Guimarães Renato Dagnino Manuel Domingos Neto Daniel Brazil Eleutério F. S. Prado Andrew Korybko Remy José Fontana Leonardo Sacramento João Lanari Bo Dennis Oliveira José Dirceu Chico Whitaker Ronald Rocha Elias Jabbour Alexandre Aragão de Albuquerque Maria Rita Kehl Anderson Alves Esteves Claudio Katz Chico Alencar Leonardo Boff Ricardo Abramovay Roberto Noritomi Eliziário Andrade Roberto Bueno Fernão Pessoa Ramos Mariarosaria Fabris Atilio A. Boron Lucas Fiaschetti Estevez Celso Frederico Vladimir Safatle Bruno Fabricio Alcebino da Silva Manchetômetro Marcus Ianoni Boaventura de Sousa Santos Anselm Jappe Vanderlei Tenório Luis Felipe Miguel Rubens Pinto Lyra Ronald León Núñez Ricardo Musse Luiz Carlos Bresser-Pereira João Paulo Ayub Fonseca Tales Ab'Sáber Berenice Bento Daniel Afonso da Silva André Singer Afrânio Catani Francisco Pereira de Farias Michael Löwy Paulo Nogueira Batista Jr Heraldo Campos Antonio Martins Leonardo Avritzer Jorge Branco Mário Maestri Rafael R. Ioris José Geraldo Couto Valério Arcary Sandra Bitencourt Érico Andrade Luiz Eduardo Soares Henry Burnett Ari Marcelo Solon Luiz Marques Yuri Martins-Fontes Airton Paschoa Paulo Martins Eugênio Trivinho Armando Boito Flávio Aguiar Paulo Sérgio Pinheiro Eduardo Borges Gilberto Lopes Alexandre de Lima Castro Tranjan Luís Fernando Vitagliano Luiz Werneck Vianna Carlos Tautz Caio Bugiato Samuel Kilsztajn Jorge Luiz Souto Maior Ricardo Fabbrini Celso Favaretto Leda Maria Paulani Thomas Piketty Marilena Chauí Igor Felippe Santos José Luís Fiori Valerio Arcary Salem Nasser Marjorie C. Marona Benicio Viero Schmidt Vinício Carrilho Martinez Slavoj Žižek José Micaelson Lacerda Morais Flávio R. Kothe Kátia Gerab Baggio Liszt Vieira Otaviano Helene Marcelo Guimarães Lima Paulo Capel Narvai João Adolfo Hansen Ladislau Dowbor Jean Pierre Chauvin João Sette Whitaker Ferreira Eugênio Bucci Lincoln Secco Gilberto Maringoni Marcos Silva Bernardo Ricupero Antonino Infranca Milton Pinheiro Marcos Aurélio da Silva Rodrigo de Faria Priscila Figueiredo Luiz Costa Lima Tadeu Valadares Luciano Nascimento Walnice Nogueira Galvão Annateresa Fabris Sergio Amadeu da Silveira Daniel Costa Ricardo Antunes Ronaldo Tadeu de Souza Jean Marc Von Der Weid Eleonora Albano Gerson Almeida Francisco de Oliveira Barros Júnior Marilia Pacheco Fiorillo Fernando Nogueira da Costa André Márcio Neves Soares Luiz Roberto Alves Alysson Leandro Mascaro João Carlos Loebens Michael Roberts Julian Rodrigues Denilson Cordeiro José Raimundo Trindade Fábio Konder Comparato Tarso Genro Antônio Sales Rios Neto José Costa Júnior Carla Teixeira Lorenzo Vitral Marcelo Módolo Paulo Fernandes Silveira Osvaldo Coggiola Plínio de Arruda Sampaio Jr. Dênis de Moraes Francisco Fernandes Ladeira Bento Prado Jr. Bruno Machado João Feres Júnior Alexandre de Freitas Barbosa Luiz Renato Martins João Carlos Salles Henri Acselrad Gabriel Cohn José Machado Moita Neto

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada