A ameaça interna

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Por VLADIMIR SAFATLE*

Trecho da Introdução do autor ao livro recém-lançado

1.

Há mais de duas décadas escrevo livros e artigos sobre política para vários veículos, desde jornais de grande circulação até revistas acadêmicas especializadas. São estudos sobre teoria política contemporânea, artigos sobre conjuntura nacional e internacional, manifestos militantes, textos de intervenção, além de inúmeras participações em programas de televisão, rádios, podcasts e tudo o mais que se puder imaginar.

Se em algum momento desses anos passados eu ouvisse alguém afirmar que o desafio real das próximas décadas seria contrapor-se à ascensão de um novo fascismo mundial, tomaria isso como alguma forma de delírio ou, na melhor das hipóteses, como uma exageração típica de nossos discursos militantes. A retórica política permite certos exageros necessários para sensibilizar sujeitos e populações contra riscos potenciais, o que não significa que tais descrições correspondam a um estado atual de coisas.

Então, se alguém me falasse que em 2025 estaríamos lutando contra a ascensão irrefreável de um fascismo global, eu dificilmente acreditaria, ou entenderia que o interlocutor ou a interlocutora era alguém dado a imagens dramáticas, porém pouco analíticas.[i]

Pelo que se vê hoje, eu estava totalmente enganado.

Ao perceber o engano – o que aconteceu quando a extrema direita brasileira tomou o poder pelo voto em 2018, logo depois da eleição de Donald Trump em 2016 –, comecei a entender quão errada era nossa leitura hegemônica sobre as democracias liberais nos países centrais do capitalismo, assim como sobre os processos de redemocratização em países que passaram por ditaduras militares recentes, como o nosso. Se de fato há uma dinâmica fascista global, que ocorre por todos os lados, isso não poderia ser compreendido como se estivéssemos diante de um corpo estranho a invadir nossos processos de modernização social.

Antes, o fascismo deveria estar entre nós desde sempre, de alguma forma, como uma potencialidade pronta a assumir a totalidade de nossa vida social. Uma potencialidade negligenciada pela nossa normalidade universitária e por nossos analistas a povoar a imprensa.

Minha formação psicanalítica de base me fez sempre nutrir uma desconfiança profunda pelas múltiplas teorias da regressão social com suas tentativas de nos vender a crença de que nossas sociedades teriam passado por alguma forma de progresso moral a ser defendido contra a ação de pretensas forças regressivas que procurariam impedir o avanço de nossa emancipação social, nos jogando de volta a ditos arcaísmos do passado. Nossas racionalizações sempre foram muito boas em expulsar as contradições de nosso próprio pretenso progresso e encarná-las em corpos estranhos à espreita, em regressões, em arcaísmos prontos para “sujeitar a razão às emoções”, “sujeitar o diálogo às polarizações”, como se costuma dizer.

Por outro lado, vistos da perspectiva da periferia do capitalismo global, os processos pós-Segunda Guerra vendidos como anos de estabilização e negociação rumo à ampliação de direitos sociais, ou seja, os chamados “Trinta Gloriosos”, eram só delírios eurocêntricos que escondiam a guerra contínua na América Latina, África e Ásia, a continuidade dos processos coloniais até a aurora de nossos dias.

Em suma, eles escondiam a maneira como o Welfare State,quando visto no interior de uma teoria do capitalismo como sistema-mundo, era apenas uma figura do Warfare State,como o desenvolvimento social era solidário de um estado de guerra contínua. E se a guerra era um dado constituinte de nossas sociedades, então o fascismo não poderia estar efetivamente longe. Ele devia ter estado sempre entre nós, sempre em nós.

Assim, quando o Brasil se viu diante de um governo não apenas de extrema direita, mas que recuperava as dinâmicas próprias do fascismo nacional em sua versão integralista (pois é sempre bom lembrar que o Brasil foi o país fora da Europa a ter o maior partido fascista nos anos 1930), comecei por escrever sobre como nosso passado fascista havia voltado à tona de forma aberta.

Quando, anos depois, fomos atravessados pela pandemia e vimos 700 mil pessoas mortas enquanto massas de manifestantes iam para a frente de hospitais gritar contra políticas de prevenção e fazer campanha antivacinação, entendi que estávamos diante não da expressão de uma horda de zumbis autossacrificiais, mas do primeiro passo de uma mutação nas formas de governo, em que a proteção diante de catástrofes não era mais o eixo de justificação do Estado. Havia então um fenômeno de outra ordem, que não dizia respeito apenas ao Brasil, mas que antecipava uma mutação psíquica que seria vista globalmente, em intensidades variadas. Era só uma questão de tempo.

Foi para entender melhor tal fenômeno que comecei a dar cursos na Universidade de São Paulo sobre as teorias que optaram por uma abordagem libidinal do fascismo: Wilhelm Reich (Psicologia de massas do fascismo), Georges Bataille (A estrutura psicológica do fascismo), Erich Fromm (a natureza sadomasoquista da identificação das massas com o fascismo), Theodor Adorno e Max Horkheimer (o fascismo como uma patologia social paranoica), Adorno, Levinson, Sanford, Frenkel-Brunswik (Estudos sobre a personalidade autoritária), Gilles Deleuze e Félix Guattari (o microfascismo).[ii]

Essa escolha tinha uma razão de base. Todos esses autores insistiram, cada um à sua maneira e seguindo orientações divergentes de pensamento, na limitação radical que consistia em analisar o fascismo apenas como um fato histórico ligado ao advento de experiências políticas totalitárias na Europa dos anos 1930. Na verdade, para além de um “fascismo histórico”, eles apontavam para a existência do que poderíamos chamar de “fascismo estrutural”, que funcionava como uma latência sempre presente nas formas hegemônicas de vida no interior das sociedades liberais. Durante todo o século XX, tal orientação de análise permaneceu presente entre nós sob múltiplas figuras.

Insistir em um fascismo estrutural era, a meu ver, a chave correta para abordar o problema. Nesse sentido, lembrar autores que procuravam compreender o fascismo mobilizando conceitos aparentemente extemporâneos como “economia libidinal”, “identificação narcísica”, “família autoritária”, “repressão pulsional”, “pulsão de morte” era, na verdade, uma forma de se perguntar se as formas fascistas de violência, de exclusão, sua ideologia da identidade, do território, da fronteira, não seriam expressões possíveis de estruturas latentes da personalidade produzidas por nossos processos normais de socialização e individuação.

Isso obrigava a um uso do termo “fascismo” que não indicasse apenas um modelo específico de ordem político-econômica, mas uma “forma específica de violência e dessensibilização social” assentada na expressão aberta e generalizada de traços fundamentais da estrutura própria à personalidade da individualidade moderna. Como se a personalidade socialmente produzida pela ordem liberal fosse necessariamente agressiva, rígida, autoritária, como se sua identidade e unidade fossem necessariamente defensivas, segregacionistas e frágeis.

Ou seja, como se a personalidade do indivíduo moderno portasse o germe de sua própria realização como fascismo. Como se já estivesse escrito que a história do indivíduo moderno poderia terminar de forma terrorista. Esta era uma de suas possibilidades: um “devir fascista” de nós mesmos.

Mas nem sempre tais teorias funcionaram dessa maneira. Muitos desses mesmos estudos acabaram por abrir espaço para críticas que se serviam de conceitos psicológicos como ressentimento, ódio, obscurantismo, regressão, no intuito de fazer julgamentos morais. Como se tal psicologia fosse, na verdade, um setor avançado da moral, e suas análises fossem, no fundo, julgamentos morais que procuravam não dizer seu nome. Julgamentos que pouco serviam para a análise concreta das transformações produzidas pelo fascismo. Senti cada vez mais a necessidade de fugir deles por entender que só serviam para alimentar nossas ilusões narcísicas de superioridade moral, em vez de fornecer alguma arma teórica eficaz para lutar contra o pior.

Nesse sentido, este livro foi escrito para sistematizar o esforço de mostrar que, longe de ser alguma forma de explosão de irracionalidade e de regressão social, o fascismo é a realização possível de uma estrutura psicológica que nasceu como se fosse a condição subjetiva para a implementação de exigências normativas de liberdade, mas que se inverteu necessariamente em seu contrário.

Um capítulo da história das inversões da razão em princípio de dominação social.[iii] Algo que Theodor Adorno e Max Horkheimer haviam percebido quando insistiam, em Dialética do esclarecimento, que o fascismo não era uma exterioridade do projeto iluminista, como se estivéssemos vendo a reedição das lutas entre a civilização e a barbárie. Antes, ele era uma das figuras possíveis das Luzes, um de seus riscos imanentes, com seus ideais normativos de progresso que facilmente se invertem em extermínio, de desenvolvimento que logo se tornam catástrofe, de, como dizia Marx, forças produtivas que se tornam forças destrutivas.

Ou seja, e de certa forma esta é a tese central deste livro, as crises que geram o fascismo não resultam de degradações de nossa liberdade, de processos de alienação, reificação, anomia e desregulamentação de nossas normas sociais. Antes, elas são frutos diretos de nossa própria concepção de liberdade e de suas figuras de progresso social, psíquico e moral.

Nossa concepção de liberdade, tão hegemonicamente vinculada à construção do indivíduo moderno, é segregadora, violenta, agressiva, privilegia marcadores de gênero muito claros, baseada em bloqueios fundamentais de alteridades, vinculada a processos materiais cujo crescimento apenas nos levou a um sistema de crises terminais.[iv]

Nossa concepção de autonomia é, no fundo, a continuação de uma teologia do excepcionalismo humano e da degradação de nossas relações com o que chamamos até hoje de “natureza”.[v] Por isso, uma das tarefas mais importantes do pensamento crítico contemporâneo é reconstruir nossa noção de liberdade, conectando-a a outros impulsos, deixados para trás na história material de nossas tentativas de emancipação social.

É claro que há condições sócio-históricas para tal sistema de interversões da liberdade, há condições para que ela se realize em momentos específicos da história. Ninguém haveria de negar. Da mesma forma, essas condições sócio-históricas se aproveitam de traços constituintes de certas sociedades, como as experiências coloniais, as matrizes escravocratas, os resquícios de experiências ditatoriais e formas historicamente constituídas de segregação social. Não há que imaginar que uma análise libidinal pudesse se sobrepor ou descartar análises vinculadas à economia política, à sociologia e à história.

Mas uma reflexão que opera no campo do que um dia foi chamado de psicologia social tinha uma função que só ela poderia preencher. A história é feita de repetições, de encarnações e de fantasmagoria. Ela conhece incorporações que levam CEOs a falar como administradores de campos de concentração, que fazem donos de cadeia de lanchonetes adquirirem o tom de agitadores de província. Quem viveu em países governados pela extrema direita conhece bem esse fenômeno de transformação social no qual o exercício do poder autoritário parece autorizar sujeitos a agirem e falarem de forma aberta de uma maneira que dificilmente fariam antes.

Em Moisés e o monoteísmo, Freud afirma em certo momento que “Moisés criou o povo judeu”. Essa colocação pode parecer fruto de uma perspectiva claramente idealista. No entanto, ela visa insistir na força produtiva das identificações verticais, identificações entre a autoridade e quem ela subjuga. O poder produz subjetividades, modifica subjetividades, pois define o campo dos enunciados possíveis, das ações permitidas, reconstruindo o horizonte do permitido e do proibido, do autorizado e do censurado.

Idealista seria, ao contrário, acreditar que tais formas de exercício do poder não modificam sujeitos. Assim, ao modificar o campo do enunciável, o poder permite a explicitação de traços constitutivos de nossos processos de socialização que precisavam, até então, ser deslocados, recalcados, transfigurados e racionalizados. Ou seja, tais transformações ocorrem devido a fragilidades latentes no interior de nossas formas hegemônicas de vida, fragilidades essas vindas de nossos processos de socialização e individuação.

Nesse sentido, a questão relevante consiste em compreender por que tal virtualidade emerge em certas circunstâncias, por que ela se atualiza em certos contextos e lugares. Sobretudo, se é o caso de termos consciência da fragilidade imanente de nossas formas de vida, de sua degradação processual, se é o caso de insistir que a personalidade autoritária na qual o fascismo se assenta é uma virtualidade constituinte da individualidade moderna, então não podemos esquecer que a única forma efetiva de combater o fascismo é lutando por entender as contradições dos processos que fizeram nos tornarmos quem somos.

*Vladimir Safatle é professor titular de filosofia na USP. Autor, entre outros livros, de Maneiras de transformar mundos: Lacan, política e emancipação (Autêntica) [https://amzn.to/3r7nhlo]

Referência


Vladimir Safatle. Ameaça interna. UBU Editora, São Paulo, 2026, 240 págs. [https://amzn.to/4bIB75G]

Notas


[i] Um pouco como fizeram Pierre Dardot e Christian Laval, “Anatomie du nouveau néolibéralisme”. ContreTemps, n. 41, 2019; Robert Paxton, “Is fascism back?”. Project Syndicate, 2016. Disponível on-line; Dylan Riley, “What’s Trump?”. New Left Review, n. 114, nov. 2018; ou o conceito de “pós-fascismo” em Enzo Traverso, The New Faces of Fascism: Populism and the Far Right. London: Verso, 2019 [ed. bras.: As novas faces do fascismo, trad. Mônica Fernandes, Rafael Mello e Raphael L. Seabra. Belo Horizonte: Âyiné, 2023].

[ii] Além desses, encontraremos: Harold Lasswell, “The Psychology of Hitlerism as a Response of the Lower Middle Classes to Continuing Insecurity”, in The Analysis of Political Behaviour. London: Routledge, 1948; Bruno Bettelheim, “Individual and Mass Behavior in Extreme Situations”. Journal of Abnormal and Social Psychology, v. 38, n. 4, 1943; Otto Fenichel, “Psychoanalysis of Antisemitism”. American Imago, v. 1, n. 2, mar. 1940; Erick Erickson, “Hitler’s Imagery and German Youth”. Psychiatry, 5 nov. 1942; entre tantos outros.

[iii] Um importante exemplo a respeito do enraizamento heterodoxo do nazismo em nossos sistemas de valores pode ser encontrado em Johann Chapoutot, La Loi du sang: Penser et Agir en Nazi. Paris: Gallimard, 2014.

[iv] Seria o caso de lembrar da perspectiva de Pierre Charbonnier, Vers l’Écologie de guerre: Une Histoire environnementale de la paix. Paris: La Découverte, 2024, para quem são as dinâmicas de paz, e não exatamente as guerras, que aceleram as crises ambientais e suas consequências catastróficas. Pois os momentos de paz são alimentados pela ilusão de estabilização social através do crescimento, de pacificação através da abundância material, com sua generalização impossível e ecologicamente impagável, como já entendia Celso Furtado (ver O mito do desenvolvimento econômico. São Paulo: Ubu Editora, 2024).

[v] Ver, a esse respeito, V. Safatle, “Crítica da autonomia: Liberdade como heteronomia sem servidão”. Discurso, v. 49, n. 2, 2019.

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