A América de Baudrillard

Carlos Zilio, EU VOCÊ, 1971, caneta hidrográfica sobre papel, 47x32,5

Por AFRÂNIO CATANI*

Comentários sobre o livro América, de Jean Baudrillard

O sociólogo e filósofo Jean Baudrillard (1929-2007) escreveu mais de 25 livros. Apaixonado pela fotografia, desenvolveu um conjunto de teorias que discutem os impactos da comunicação e das mídias na sociedade e cultura contemporâneas. Trabalhou a hiper-realidade – realidade construída –, a realidade virtual e o signos que a cercam. Professor durante muitos anos na Universidade de Nanterre (Paris X) escreveu, dentre outras obras, O sistema dos objetos (1965), À sombra das maiorias silenciosas (1978), Simulacro e simulação (1981), 3 volumes de Cool Memories, A troca impossível (1999), A ilusão vital (2001), De um fragmento ao outro (2003).

Em América (ed. original, 1985) decidiu, como de costume, jogar alto: trata-se de uma reflexão sobre viagem que realizara há pouco aos Estados Unidos. Mas, não é supérfluo salientar, não é um diário linear, cronologicamente ordenado; ao contrário. O leitor se defronta com um texto multi-facetado, agradável de se ler, com muita verve e que, ao mesmo tempo, exige certa argúcia para captar as sutilezas desencadeadas por suas reflexões.

Produzido já em plena maturidade, captura imagens que abarcam desde o sorriso, a arquitetura, a rua, a solidão, o corpo e a loucura do povo estadunidense. A ideia de utopia realizada, da qual Baudrillard se vale no decorrer de toda a análise, é fundamental para a compreensão do modo de caracterizar a sociedade norte-americana. Para ele, os Estados Unidos são uma imensa utopia realizada, onde tudo (ou quase tudo) encontra-se disponível. “No coração da riqueza e da liberdade, é sempre a mesma interrogação: “O que faz você depois da orgia?”. Que fazer quando tudo está disponível, o sexo, as flores, os estereótipos da vida e da morte? É esse o problema da América e, através dela, tornou-se do mundo inteiro (p. 27). A América, comparada com a Europa – e com a França, em particular –, “é a versão original da modernidade; nós somos a versão dublada ou com legendas”, sendo que a América exorciza a questão da origem, não tem passado nem verdade fundadora e, “por não ter conhecido uma acumulação primitiva de tempo, vive numa atualidade perpétua”, vive na simulação perpétua, pois não experimentou uma acumulação lenta e secular do princípio da verdade. Entretanto, adverte, a crise por que passam os EUA deve ser vista em termos distintos daquela dos velhos países europeus: “A nossa”, diz Baudrillard , “é a dos ideais históricos em face de sua realização impossível. A deles é a da utopia realizada, em confronto com sua duração e sua permanência” (p. 66).

 

Nesse sentido, Baudrillard aponta a responsabilidade da Europa em tal processo, pois o surgimento dos EUA – na verdade, a colonização sofrida por ele – acaba por anular o destino das sociedades históricas. Ao extrapolarem brutalmente sua essência no ultramar, tais sociedades perdem o controle de sua própria evolução, que não será mais reatada sob a forma de alinhamento progressivo – os valores da “nova” sociedade tornam-se, a partir daí, irreversíveis. “É o que, aconteça o que acontecer, nos separa dos americanos. Jamais os alcançaremos e jamais teremos essa ingenuidade. Não fazemos outra coisa senão imitá-los, parodiá-los com 50 anos de atraso, e sem sucesso, aliás. Falta-nos a alma e audácia do que se poderia chamar o grau zero de uma cultura, a potência da incultura…“ (p. 67-68). E Baudrillard torna-se mais cáustico ao ponderar que os europeus continuam sendo utopistas nostálgicos, que o grande problema consiste em que as velhas finalidades europeias (revolução, progresso, liberdade) se dissiparam antes de terem sido alcançadas, sem que tivesse podido materializar-se. “Daí a melancolia. Os europeus vivem na negatividade e na contradição, enquanto os americanos vivem no paradoxo – convenhamos, a ideia de uma utopia realizada é paradoxal… E o modo de vida americano reside, para muitos, nesse humor pragmático e paradoxal, “ao passo que o nosso se caracteriza (…) pela sutileza do espírito crítico” (p. 68).

“Há produtos”, afirma, “que não sofrem de import-export”. Assim, a história e o marxismo são como vinhos finos e a cozinha: não conseguem transpor o oceano, apesar de inúmeras tentativas para aclimatá-los. E, com muito humor, acrescenta: “é a desforra justificada pelo fato de que nós, europeus, jamais podemos dominar verdadeiramente a modernidade, a qual também se recusa a transpor o oceano mas no sentido inverso (…) Tanto pior para nós, tanto pior para eles. Se para nós a sociedade é uma flor carnívora, para eles a história é uma flor exógena. Seu perfume não é mais convincente do que o buquê dos vinhos californianos… (p. 68-69). Mas Baudrillard leva seu raciocínio às últimas consequências, insistindo no princípio de que tudo o que foi heroicamente jogado e distribuído na Europa sob o signo da Revolução e do Terror, realizou-se além-Atlântico de maneira simples e empírica – “a utopia da riqueza, do direito, da liberdade, do contrato social e da representação”.

Do mesmo modo, tudo que os europeus sonharam sob o signo da anticultura e da subversão teórica, estética, política e social (maio/68 foi o último exemplo disso) está realizado na América. “Aqui se realizou a utopia e se realizou a anti-utopia: a da contra-razão, da desterritorialização, da indeterminação do sujeito e da linguagem, da neutralização de todos os valores, da morte e da cultura …” E, para deixar o leitor ainda mais estonteado, pergunta e responde: “Mas então, é isso uma utopia realizada, é isso uma revolução bem-sucedida? Sim, é isso! (… ) Santa Bárbara é um paraíso, a Disneylândia é um paraíso, os EUA são um paraíso. O paraíso é o que é, eventualmente fúnebre, monótono e superficial. Mas é o paraíso. Não existe outro…” (p. 84).

A alucinante viagem de Baudrillard, feita em parceria com Marx, Freud e Foucault, não deixa passar nada: analisa a mania de se praticar o jogging, espicaça a informática, considera os campi universitários isolados do mundo –tudo aí desaparece, a descentralização é total, a autoridade não é percebida, a arquitetura é fantástica mas, ao mesmo tempo, também é impossível a manifestação: “onde se juntarem, onde se reunirem?” (p. 39-40) – fala do fascínio que os estadunidenses têm pelo artifício (tudo é iluminado, a noite parece não existir), da proliferação das seitas (que se embrenham em precipitar o Reino de Deus na Terra) e, de maneira brilhante, da “californização” da América inteira à imagem de Reagan (ver o capítulo “O fim da Potência”), onde a visão cinematográfica e eufórica dá o tom.

América é para ser lido no mesmo momento em que se assiste a Paris, Texas, de Wenders: o deserto está por toda parte e ajuda os americanos a aceitarem sua insignificância enquanto humanos que vivem no paraíso.

Afrânio Catani é professor aposentado da USP e professor visitante na UFF.

O presente artigo é uma versão com algumas modificações de resenha publicada no extinto Jornal da Tarde, em 09/01/1987, p. 10

Referência

Jean Baudrillard. América. Tradução: Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.