A arquitetura da redação

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Por ANDRÉ R. FERNANDES & GEYCIANE DE OLIVEIRA MENDONÇA*

Escrever bem é organizar ideias para que o sentido se construa ao longo do texto

1.

A arquitetura na construção da redação refere-se à organização estrutural e funcional do texto, considerando a disposição lógica das ideias, a progressão temática e a articulação entre suas partes constitutivas. Nessa perspectiva, o texto é compreendido como uma unidade de sentido, planejada e construída de forma consciente pelo autor.

Para Marcuschi (2008), o texto constitui uma atividade social e cognitiva, sendo produzido a partir de escolhas linguísticas orientadas por objetivos comunicativos específicos. Dessa forma, a arquitetura textual assume papel central na produção escrita, pois é ela que possibilita a construção de sentidos e a interação entre autor e leitor.

A produção de um texto sem uma arquitetura bem definida tende a apresentar falhas estruturais, como incoerência, fragmentação e falta de clareza. Koch e Travaglia (2019) afirmam, de forma indireta, que a coerência textual não é um atributo isolado, mas resulta da interação entre elementos linguísticos, cognitivos e contextuais, organizados de maneira sistemática ao longo do texto. Assim, a arquitetura da redação torna-se um fator determinante para a qualidade da escrita acadêmica.

O planejamento textual configura-se como o alicerce dessa arquitetura. Nessa etapa inicial, o autor define o tema, delimita o recorte temático, estabelece os objetivos e formula a tese que norteará o desenvolvimento do texto. Segundo Koch (2018), o planejamento contribui diretamente para a construção da coesão textual, uma vez que orienta a seleção e a organização das informações.

Conforme destaca a autora, “a coesão não é um simples encadeamento formal de palavras, mas um fator essencial para a construção do sentido do texto” (KOCH, 2018, p. 45). Essa afirmação evidencia que a organização prévia das ideias é indispensável para a clareza e a unidade textual.

A introdução representa a etapa inicial da construção textual e exerce função estratégica na arquitetura da redação. É nesse momento que o autor apresenta o tema, contextualiza a discussão e explicita os objetivos do texto. Para Marcuschi (2008), a introdução funciona como um elemento orientador da leitura, pois antecipa o percurso argumentativo que será desenvolvido. De forma indireta, pode-se afirmar que uma introdução mal estruturada compromete a compreensão do texto como um todo, uma vez que dificulta ao leitor identificar a proposta e a finalidade da produção escrita.

2.

No contexto acadêmico, a introdução deve ser clara, objetiva e informativa, evitando excessos e generalizações. Koch e Travaglia (2019) ressaltam que a coerência global do texto depende, em grande medida, da forma como as informações iniciais são apresentadas e relacionadas às demais partes da redação. Dessa maneira, a introdução pode ser comparada à planta de um projeto arquitetônico, pois define os limites e a organização da construção textual.

O desenvolvimento corresponde à parte central da redação e constitui a principal estrutura de sustentação do texto. Nessa etapa, os argumentos são apresentados, explicados e fundamentados teoricamente, devendo estar organizados em parágrafos bem delimitados e articulados entre si. Segundo Koch (2018), a progressão temática é um dos aspectos fundamentais da coesão textual, pois garante a continuidade das ideias ao longo do texto. Conforme afirma a autora, “um texto só pode ser considerado coerente quando apresenta uma continuidade de sentidos perceptível pelo leitor” (KOCH, 2018, p. 31).

Além disso, Marcuschi (2008) destaca, de forma indireta, que a construção do sentido textual depende da relação entre os parágrafos e da forma como as informações são retomadas e ampliadas. Assim, o desenvolvimento deve apresentar uma sequência lógica de ideias, evitando rupturas abruptas ou contradições internas. A ausência dessa organização compromete a compreensão do texto e enfraquece sua argumentação.

Outro elemento essencial da arquitetura da redação é a coesão textual, responsável pela ligação entre palavras, frases e parágrafos. Os mecanismos coesivos – como pronomes, conjunções, advérbios e expressões referenciais – funcionam como elementos estruturais que mantêm o texto unido.

Koch (2018, p. 19) afirma que “a coesão permite que o texto seja percebido como uma totalidade, e não como um amontoado de frases”. Essa citação direta reforça a ideia de que a arquitetura textual depende do uso adequado dos recursos linguísticos.

A coerência, por sua vez, está relacionada à lógica interna do texto e à compatibilidade entre as ideias apresentadas. Koch e Travaglia (2019) defendem, de forma indireta, que a coerência resulta da interação entre o conhecimento linguístico do autor, o contexto de produção e o conhecimento de mundo do leitor. Dessa forma, a arquitetura da redação não se limita à estrutura formal, mas envolve também aspectos cognitivos e discursivos.

A conclusão representa o fechamento da arquitetura textual e deve retomar os principais pontos discutidos ao longo do texto, reafirmando a tese defendida. Nessa etapa, não se devem introduzir novas informações, mas sintetizar as ideias desenvolvidas. Para Marcuschi (2008), a conclusão desempenha papel fundamental na consolidação do sentido global do texto, pois permite ao leitor retomar o percurso argumentativo realizado.

Do ponto de vista arquitetônico, a conclusão pode ser comparada ao acabamento final de uma construção, pois confere ao texto equilíbrio, completude e consistência. Uma conclusão bem estruturada reforça a coerência textual e contribui para a eficácia comunicativa da redação.

Diante do exposto, observa-se que a arquitetura na construção da redação é um elemento essencial para a produção de textos acadêmicos claros, coesos e coerentes. O domínio dos princípios estruturais da escrita possibilita ao autor organizar suas ideias de maneira lógica e eficiente, atendendo às exigências do meio acadêmico e fortalecendo a comunicação científica.

*André R. Fernandes é graduado em Letras pela Universidade Nilton Lins (UNL).

*Geyciane de Oliveira Mendonça é graduada em Letras pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Referências


KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 22. ed. São Paulo: Contexto, 2018.

KOCH, Ingedore Villaça; TRAVAGLIA, Luiz Carlos. A coerência textual. São Paulo: Contexto, 2019.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

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