A carta de D. Pedro I

Imagem: Renan Almeida
image_pdf

Por HERMES ZANETI*

Carta escrita há quase 200 anos tem passagens atualíssimas para o Brasil de hoje

O coração de D. Pedro I chegou ao Brasil dez dias após a memorável leitura no claustro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo da Carta aos Brasileiros em defesa da democracia. Mais que reverenciar a relíquia que o responsável pela nossa independência destinou em testamento à cidade do Porto, seria oportuno concentrar nossa atenção em outro legado de nosso primeiro imperador: a “Carta Póstuma”, esta sim destinada a nós, que ele ditou em seu leito de morte, menos de 24 horas antes de falecer de tuberculose, em 24 de setembro de 1834.

Me atrevo a dizer que essa carta, lamentavelmente esquecida, pode ser tão importante para o futuro do Brasil, a despeito de escrita há quase 200 anos, quanto a lida no dia 11 de agosto último. E digo isso porque nessa “Carta Póstuma de d. Pedro, duque de Bragança, aos Brasileiros”, publicada no Rio de Janeiro, no ano seguinte, D. Pedro, com a sinceridade de um moribundo que se confessa, reconhece erros e dá conselhos ponderados que contrastam com sua famosa impetuosidade.

Sobre o Brasil, disse: “Embora nascesse eu em Portugal! É no Brasil que eu nasci ao sentimento de mim mesmo. É no Brasil (…) que a vida com seus mistérios, a mocidade com os seus encantos se manifestaram à minha alma”. Por isso, declarava-se em dívida conosco. “Já estou quite com Portugal (…) regenerei suas instituições; dei-lhe uma Constituição e duas vezes a liberdade e por ele morro na flor dos meus anos” (tinha então 35 anos). “Mas convosco, brasileiros, a minha consciência não me outorga tão satisfatório testemunho (…) o foro interior me acusa de ter parado na metade da tarefa”.

Três conselhos, apresentados em sequência na sexta das oito páginas da edição facsimilar que consultei, são atualíssimos no Brasil de hoje: (i) “Evitem-se os erros que perderam minha administração. Sem criar novos mananciais de rendimento, ela se antecipou por exagerados empréstimos de toda a sorte sobre o futuro e quando chegou a época em que não houve meio para fazer frente ao déficit anual; quando a bancarrota bateu à porta, ela caiu. Meu governo pereceu pelas Finanças como outros muitos Estados”.

Esse conselho me comove em especial porque, como deputado constituinte, fui autor de projeto que determinava a realização de um exame pericial e analítico da dívida brasileira. A proposta acabou convertida no Art. 26 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, que jamais foi cumprido cabalmente. Este fato escandaloso me levou a escrever o livro O complô – como o sistema financeiro e seus agentes políticos sequestraram a economia brasileira, com base no qual em breve será possível aos brasileiros assistirem um documentário homônimo.

(ii) Influência militar – “Também sob este lado minha administração errou completamente. Depositei a minha confiança na tropa. Para sustentar numeroso Exército, eu dizimei a população e esgotei as riquezas do Brasil, e por fim de contas, a tropa deu no meu trono a última pancada”. Ah D. Pedro! Parece ver o que se passa em tua pátria afetiva que acabou nas mãos de um aventureiro, como temia teu pai D. João VI quando recomendou que tomasses para ti a coroa.

(iii) “Não posso deixar de vos dirigir uma advertência acerca da escravidão dos negros. A escravidão é um mal e um atentado contra os direitos e a dignidade da espécie humana, mas as suas consequências são menos danosas aos que padecem o cativeiro do que à nação cuja legislação admite a escravatura. É um cancro que devora sua moralidade”. Uma imoralidade 200 anos depois, D. Pedro, ainda praticada por muitos que juraram defender “a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos”, como determina o preâmbulo da Constituição.

*Hermes Zaneti foi deputado constituinte em 1988. Autor de O complô: como o sistema financeiro e seus agentes políticos sequestraram a economia brasileira.

 

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
3
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
6
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
7
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
8
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
9
Linguagem inclusiva
12 Mar 2026 Por BEATRIZ DARUJ GIL & MARCELO MÓDOLO: Mais sintaxe, menos torcida: permitir não é prescrever, inovar não é normatizar
10
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
11
Fim da guerra no Irã?
11 Mar 2026 Por LISZT VIEIRA: A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho
12
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
13
A escolha de Donald Trump
13 Mar 2026 Por MICHAEL ROBERTS: Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
14
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
15
O STF está validando a fraude trabalhista
03 Mar 2026 Por DURVAL SIQUEIRA SOBRAL: Ao legitimar a pejotização, o sistema jurídico reconfigura o trabalho como negócio e não como relação social
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES