Sociedade do espetáculo

Imagem: Pierre Blaché
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por CHRIS HEDGES*

O espetáculo é tudo que resta à classe dominante americana

O Comitê Selecionado para Investigar o ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Congresso dos EUA, cujas primeiras seis audiências públicas televisadas começaram no dia 09 de junho, é um espetáculo que substitui a política. Nada há de substancialmente novo nas acusações. O comitê não tem poderes de promotoria. Nenhuma acusação foi apresentada pelo Procurador-Geral dos EUA, Merrick Garland, contra o ex-presidente Donald Trump e não se espera que haja alguma.

As audiências coreografadas – assim com o foram os julgamentos para o impeachment de Donald Trump – não terão efeito algum sobre os eleitores de Trump, a não ser fazê-los se sentirem perseguidos, especialmente considerando-se as mais de 860 pessoas que já foram acusadas (incluindo 306 autodeclarações de culpa) pelo seu papel na invasão do Capitólio.[i] O comitê ecoa para os opositores de Trump aquilo que eles já acreditavam. Este comitê foi planejado para apresentar a inação como sendo uma ação e substituir a política pelo desempenho farsesco de papéis. Como escreve Guy Debord ele perpetua o norte-americano “império da passividade moderna”.

O comitê – boicotado pela maioria dos Republicanos – contratou James Goldston,[ii] um produtor de documentários e antigo presidente da rede de TV ABC News, para transformar as audiências em envolventes espetáculos televisivos embalados de maneira esperta e com uma variedade de frases de efeito concisas. O resultado disso é – como tinha a intenção de ser – a política como “reality TV”, uma diversão mediática que nada mudará na sombria paisagem estadunidense. Aquilo que deveria ser uma séria investigação bipartidária sobre a variedade de violações constitucionais praticadas pelo governo Trump, foi transformado em um comercial de campanha em horário nobre para um Partido Democrata sem combustível. A epistemologia da televisão está completa. E também assim está o seu artifício.

As duas alas estabelecidas da oligarquia – o velho Partido Republicano representado por políticos como Liz Cheney, uma dos dois Republicanos que estão no comitê, e a família Bush – agora estão unidas com a elite do Partido Democrata, formando uma única entidade política dominante.[iii] Os partidos dominantes já marchavam juntos há décadas nos assuntos importantes – incluindo: guerra, acordos de comércio, austeridade, a militarização da polícia, prisões, vigilância governamental e o assalto às liberdades civis. Eles trabalharam em paralelo para perverter e destruir as instituições democráticas, para benefício dos ricos e das corporações. Eles trabalharam desesperadamente juntos para repelir a revolta de trabalhadores e trabalhadoras brancas enfurecidos e traídos que apoiam Donald Trump e a extrema direita.

Os membros do comitê procuram enjoativamente santificar a si mesmos e as suas audiências, proclamando sustentar a constituição, a democracia, os Pais Fundadores dos EUA, o Estado de direito, o consentimento dos governados e o processo eleitoral.

O presidente do comitê, Bennie Thompson, falou sobre “os inimigos domésticos da Constituição que assaltaram o Capitólio e ocuparam o Capitólio, tentaram contrariar a vontade do povo e impedir a transferência de poder”. Liz Cheney chamou o Capitólio de “um espaço sagrado na nossa república constitucional”.[iv]

Não houve reconhecimento algum por parte dos membros do comitê que “a vontade do povo” foi subvertida pelos três poderes da república a fim de servir as ordens da classe bilionária. Ninguém mencionou os exércitos de lobistas a quem se permite assaltar diariamente o Capitólio para financiar o suborno legalizado das eleições e de escrever os textos das leis pró-corporações que eles aprovam. Ninguém falou sobre a perda dos direitos constitucionais – incluindo o direito à privacidade. Ninguém mencionou os desastrosos acordos comerciais que desindustrializaram o país e empobreceram a classe trabalhadora. Ninguém falou sobre os fiascos militares no Oriente Médio, os quais custaram US$ 8 trilhões aos contribuintes de impostos, nem o sistema de saúde para fazer lucro que logra o público e impede uma resposta racional à pandemia – que já resultou em mais de um milhão de mortes – nem a privatização de instituições governamentais, incluindo escolas, prisões, tratamento de água, coleta de lixo, parquímetros, serviços de utilidade pública e até a coleta de inteligência, para enriquecer a classe bilionária às custas da população.

O buraco aberto entre a realidade daquilo que nos tornamos e a ficção de quem nós somos supostos de ser é a razão pela qual o espetáculo é tudo que resta à classe dominante. O espetáculo toma o lugar da política. Esta é uma admissão tácita de que todos os programas sociais – seja o plano Build Back Better [Reconstruir Melhor], a proibição de armas de ataque de guerra, o aumento do salário mínimo, a diminuição da devastação da inflação ou a instituição de reformas ambientais para evitar a emergência climática – jamais serão implementados. Aqueles que ocupam o “espaço sagrado” da “nossa república constitucional” são só são capazes de despejar dinheiro em guerra, alocando US$ 54 bilhões para a Ucrânia e aprovando orçamentos militares cada vez maiores para enriquecer a indústria de armamentos.

Quanto maior fica o buraco entre o ideal e o real, tanto mais serão empoderados os protofascistas que estão fixados em retomar a maioria do Congresso nas eleições de novembro deste ano. Se o mundo racional e factual não funciona, por que não tentar usar uma das tantas teorias da conspiração? Se for isso que a democracia significa, por que apoiar a democracia?

A direita também se comunica através do espetáculo. O que foram os quatro anos da presidência de Donald Trump, senão um vasto espetáculo? Espetáculo versus espetáculo. A estética do espetáculo é tudo o que resta, como o foi nos dias derradeiros do Império Romano e da Rússia Tzarista. “A nossa política, a religião, as notícias, os esportes, a educação e o comércio foram transformados em adjuntos congeniais do show business”, escreveu Neil Postman no seu livro Amusing ourselves to death: public discourse in the age of show business [Estamos nos divertindo: o discurso público na era do show business]. Cega pela sua soberba e pomposidade, a atual classe dominante, no entanto, não é muito boa nisso.

A extrema direita – que acredita que vacinas provocam autismo, que anjos existem, que um conluio de satânicos e canibalísticos abusadores de crianças que operam uma rede global de tráfico sexual de crianças estão tentando destruir Donald Trump, e a inerrância da Bíblia – esta é muito mais divertida, mesmo enquanto acelera a solidificação da tirania corporativa. Se a república está morta, você quer ver Joe Biden balbuciar o seu caminho em mais uma conferência de imprensa, ou a paródia de Rand Paul serrando o código de impostos pela metade, e Ted Cruz acusando Barak Obama de tentar prove “Medicaid expandido” para o ISIS?

Você quer se acordar com o mais novo ultraje retórico de Donald Trump – que, quando estava fazendo a campanha presidencial, acusou Trump de ser o fundador do ISIS, que sugeriu que o pai de Ted Cruz estava envolvido no assassinato de John F. Kennedy, que argumentou que o ruído dos moinhos de vento da energia eólica causa câncer e recomendou a ingestão de desinfetante para lutar contra a COVID, ou prestar homenagem a uma conjunto de valores que foram descartadas há muito tempo pela classe dominante e substituídas por mentiras, corrupção e ganância?

Em resumo, já que o sistema traiu e tosquiou você, por que não desmontá-lo com a vulgaridade e a crueza que este merece? Por que não se entretido por incendiários políticos? Para que engajar-se em cortesias polidas e no decoro político exigido por aqueles que destruíram as nossas comunidades, arruinaram a nação, saquearam o Tesouro dos EUA, supervisionaram uma série de custosos desastres militares e nos tiraram a capacidade de ter um nível de vida adequado, bem como o futuro dos nossos filhos?

Em 1924, o governo da Alemanha de Weimar decidiu livrar-se de Adolf Hitler e do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, os nazistas, ao julgar Hitler por alta traição no Tribunal do Povo. Estava claro que Hitler era culpado. Ele havia tentado derrubar o governo eleito com o fiasco do seu “Golpe da Cervejaria” de 1923 – o qual, como o tumulto de 6 de janeiro de 2021 no Capitólio, era mais uma farsa do que uma insurreição. Aquele era um caso para abrir e encerrar. No entanto, o tiro saiu pela culatra e o julgamento transformou Hitler num mártir nacional e impulsionou o destino político dos nazistas.

A razão disso deveria ter sido aparente. A Alemanha estava uma bagunça, convulsionada pelo desemprego generalizado, os tumultos por comida, a violência nas ruas e a hiperinflação. As classes dominantes alemãs, como as norte-americanas não tinham credibilidade. O apelo ao estado de direito e aos valores democráticos era uma piada.

Houve um momento revelador nas audiências [no Congresso, na semana passada], quando a policial da guarda do Capitólio Caroline Edwards, que sofreu uma concussão craniana durante o assalto ao Capitólio, relatou uma conversa que ela teve com Joseph Biggs, o líder dos The Proud Boys que foi indiciado junto com outros quatro líderes do grupo por conspiração sediciosa em conexão com o assalto ao Capitólio.

“A maré começou a virar quando o que agora é o grupo de Arizona – é isso que você disse – o pessoal com os bonés laranja, eles chegaram entoando o canto “F-U-C-K Antifa”, Edwards contou ao comitê. “E eles se juntaram àquele grupo. Uma vez juntos, a retórica de Biggs se virou contra a polícia do Capitólio. Ele começou a nos fazer perguntas do tipo: “Você não deixou de receber o seu cheque de salário durante a pandemia, né?”, mencionado coisas sobre a nossa escala de salários e, sabe. Começou a virar contra nós”.

Aquela breve conversa salientou o enorme hiato entre os que têm e os que não têm – o qual, se não for respondido, transformará Donald Trump, os seus apoiadores, Biggs, os Proud Boys e os Oath Keepers em mártires.

O Congresso dos EUA é uma fossa sanitária. Os políticos corruptos de prostituem para os ricos e se tornam ricos em troca. Esta realidade – a qual as audiências ignoram – fica aparente para a maior parte da nação; é por isso que as audiências não reforçarão as fortunas salientes da classe política dominante, desesperadas para evitar a sua substituição.

A velha classe dominante está destinada à extinção, não que a que segue será melhor. Não será. Porém, o jogo de pilhagem e corrupção em nome dos sagrados valores democráticos já não funciona mais. Um novo jogo está tomando o seu lugar, no qual os bufões narcisistas que alimentam os fogos do ódio e que só sabem destruir, nos entreterão até a morte.

*Chris Hedges é jornalista. Autor, entre outros livros, de Empire of illusion: the end of literacy and the triumph of spectacle (Nation books).

Tradução: Rubens Turkienicz para o portal Brasil 247.

Publicado originalmente no The Chris Hedges Report

 

Notas


[i] https://www.insider.com/all-the-us-capitol-pro-trump-riot-arrests-charges-names-2021-1

[ii] https://www.nytimes.com/2022/06/09/us/the-committee-hired-a-tv-executive-to-produce-the-hearings-for-maximum-impact.html

[iii] https://scheerpost.com/2022/02/14/hedges-democrats-the-more-effective-evil/

[iv] https://theamericanonews.com/floricua/2022/06/10/full-transcript-heres-what-was-said-at-the-first-jan-6-committee-hearing/

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Flávio Aguiar Leonardo Avritzer Sandra Bitencourt Samuel Kilsztajn Luis Felipe Miguel Luiz Werneck Vianna Claudio Katz Luciano Nascimento Dennis Oliveira Marcos Silva Paulo Fernandes Silveira Marcelo Módolo Matheus Silveira de Souza Dênis de Moraes Mário Maestri Vanderlei Tenório Maria Rita Kehl Gilberto Maringoni José Costa Júnior Juarez Guimarães Otaviano Helene Luiz Bernardo Pericás Alexandre Aragão de Albuquerque Flávio R. Kothe José Geraldo Couto Chico Whitaker Celso Favaretto Lorenzo Vitral Luiz Eduardo Soares Gilberto Lopes Igor Felippe Santos Marilena Chauí Caio Bugiato Ricardo Musse Ladislau Dowbor Daniel Afonso da Silva Ricardo Fabbrini Yuri Martins-Fontes Lucas Fiaschetti Estevez Daniel Costa Rafael R. Ioris José Raimundo Trindade Lincoln Secco Tadeu Valadares Eugênio Trivinho Airton Paschoa Andrés del Río Ronaldo Tadeu de Souza Vladimir Safatle Fernão Pessoa Ramos Gabriel Cohn João Adolfo Hansen José Luís Fiori Rubens Pinto Lyra Renato Dagnino Fernando Nogueira da Costa João Feres Júnior Francisco Pereira de Farias Francisco de Oliveira Barros Júnior Alexandre de Freitas Barbosa Plínio de Arruda Sampaio Jr. Leonardo Boff Bento Prado Jr. Kátia Gerab Baggio Leda Maria Paulani Jorge Branco Annateresa Fabris José Machado Moita Neto Michael Roberts João Carlos Salles Eleutério F. S. Prado Érico Andrade André Márcio Neves Soares Henri Acselrad Paulo Nogueira Batista Jr Sergio Amadeu da Silveira Paulo Capel Narvai Michael Löwy Bernardo Ricupero Luiz Marques Tarso Genro Leonardo Sacramento Luiz Renato Martins Mariarosaria Fabris Eugênio Bucci Ronald León Núñez Luiz Carlos Bresser-Pereira Jorge Luiz Souto Maior Remy José Fontana Carlos Tautz Tales Ab'Sáber Walnice Nogueira Galvão Gerson Almeida Marcelo Guimarães Lima José Micaelson Lacerda Morais Marcus Ianoni Ricardo Antunes Alexandre de Oliveira Torres Carrasco Ricardo Abramovay Liszt Vieira Heraldo Campos Jean Pierre Chauvin Salem Nasser Thomas Piketty Eduardo Borges Fábio Konder Comparato Eleonora Albano Rodrigo de Faria Everaldo de Oliveira Andrade Alysson Leandro Mascaro Antônio Sales Rios Neto João Carlos Loebens Henry Burnett Celso Frederico Bruno Machado Milton Pinheiro Manuel Domingos Neto Marcos Aurélio da Silva Atilio A. Boron Ronald Rocha André Singer Denilson Cordeiro Ari Marcelo Solon Luiz Roberto Alves João Lanari Bo Paulo Martins Valerio Arcary Jean Marc Von Der Weid Valerio Arcary Eliziário Andrade Bruno Fabricio Alcebino da Silva Paulo Sérgio Pinheiro Marjorie C. Marona Priscila Figueiredo Alexandre de Lima Castro Tranjan Armando Boito Berenice Bento Daniel Brazil Julian Rodrigues Vinício Carrilho Martinez Manchetômetro Marilia Pacheco Fiorillo Boaventura de Sousa Santos Chico Alencar Benicio Viero Schmidt Francisco Fernandes Ladeira Luís Fernando Vitagliano Antonio Martins Carla Teixeira Afrânio Catani Anselm Jappe João Sette Whitaker Ferreira Andrew Korybko Slavoj Žižek Elias Jabbour João Paulo Ayub Fonseca Michel Goulart da Silva Antonino Infranca Osvaldo Coggiola José Dirceu

NOVAS PUBLICAÇÕES