A cena brasileira

Imagem: João Nitsche

Por BENICIO VIERO SCHMIDT*

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O destaque da semana é o início da operação de vacinação nacional, que ocorre depois de alguns escândalos e supostos crimes de responsabilidade do governo capitaneado pelo capitão Bolsonaro. O general Eduardo Pazuello está sendo responsabilizado pela falta de oxigênio em Manaus, isto é, pela má gerência de uma crise anunciada, prevista com antecedência tanto pelas autoridades locais como por algumas autoridades nacionais da área médica, como o ex-ministro Mandetta.

A saída da Ford do Brasil decorre, em parte, da obsolescência de um setor industrial que já está sofrendo a pressão para a migração de combustível fóssil para a eletricidade e para outros meios, mas é também um sintoma da crescente desindustrialização brasileira. Essa crise – anunciada desde 1997 por vários economistas – tem se aprofundado. O governo do estado de São Paulo divulgou na semana passada uma estatística assustadora. No último ano a cada dia 17 indústrias fecharam as portas no Brasil.

Isso é realmente alarmante, pois indica que a continuar assim o Brasil nunca irá superar a situação de país de renda de nível médio, com a atividade econômica concentrada em serviços de baixa qualidade e com um grau elevado de importação de produtos industrializados. Um grave problema; sinalizando a necessidade de planejamento estrutural da economia brasileira que se assenta hoje em um parque industrial muito fechado e ainda preso a padrões ultrapassados de tecnificação.

O Auxílio emergencial, encerrado em 31 de dezembro, permanecerá, na prática, para 20 milhões de pessoas durante o mês de janeiro, metade do contingente que o recebeu nos meses anteriores. Uma prorrogação decorrente da distribuição segundo as datas de nascimento e de outros procedimentos. Não se sabe o que vai acontecer a partir de fevereiro. Ressurge a pressão pela volta do auxílio emergencial, tendo em vista o crescimento do desemprego que já se encontra acima de 14% e o fechamento em massa de empresas. O panorama não é muito otimista para a economia brasileira.

Teremos sucessão no Brasil em primeiro de fevereiro, a troca dos presidentes da Câmara e do Senado. Na Câmara e no Senado apresentam-se candidatos muito semelhantes. No caso da Câmara, com exceção da deputada Luiza Erundina que, furando o acordo da esquerda parlamentar para apoiar Baleia Rossi, lançou o seu nome pelo PSOL. Isso aumenta o risco de não haver segundo turno, pois menos votos em Baleia Rossi podem dar a vitória a Arthur Lira e assim ratificar o controle do Executivo sobre o futuro da Câmara Federal. No Senado o pleito aparenta ser da mesma natureza da Câmara. Candidatos muito semelhantes, com a diferença que a candidatura de Simone Tebet defende um compromisso maior com os ritos democráticos da casa. Uma proposição ainda muito abstrata. Espera-se um aprofundamento de discussão até a eleição em primeiro de fevereiro.

Por último, é importante salientar a retomada de panelaços nacionais, tão conhecidos no tempo da presidência de Dilma Rouseff, tirada do poder em 2016. Ressurgem agora contra o presidente Jair M. Bolsonaro e sua política genocida de tratamento do coronavírus no país. Trata-se por enquanto de um sinal de que o povo e especialmente as classes médias estão insatisfeitos com o comportamento governamental.

*Benicio Viero Schmidt é professor aposentado de sociologia na UnB. Autor, entre outros livros, de O Estado e a política urbana no Brasil (LP&M).