A década da revolução perdida

Imagem: Nils Strindberg
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Por VICENT BEVINS*

Prefácio do autor à edição brasileira, recém-lançada

Vou incluir aqui uma passagem que ficou fora da versão estadunidense deste livro. Na introdução do manuscrito original, eu dizia: “Escreverei esta história como se São Paulo fosse o centro do mundo. E por que não? Faz tanto sentido quanto agir como se fosse Nova York”. Meus editores – de Nova York – a cortaram da versão final.

Este não é um livro sobre o Brasil. É um ensaio de história global escrito por um jornalista que passou a maior parte da última década morando em São Paulo. Foi redigido em uma pequena cabana na Mata Atlântica. Assim sendo, este país funciona como quadro de referência inconsciente para toda a história. Brasileiros aparecem como alguns dos seus personagens principais, e como os pensadores que nos ajudam a dar conta das consequências dos estranhos anos de 2010 a 2020. Os editores removeram a frase, mas ela permanece sendo verdadeira.

É também um livro que parte do princípio de que a coisa mais importante a acontecer nesses anos foi o protesto de massas que cresce tanto que se torna outra coisa. Isto é, a manifestação de rua que explode em uma escala e temperatura tamanhas a ponto de produzir mudanças reais, mas cujos efeitos estão muito longe de ser exclusivamente positivos – um fenômeno nada fácil de compreender. O episódio brasileiro é apenas um dos muitos ao redor do planeta – cerca de uma dúzia –, que acredito terem remodelado o mundo de maneira profunda e confusa nessa década.

Um egípcio ou um ucraniano talvez se queixem de que minha proximidade com a história brasileira significa que eu dou foco excessivo a elementos que importam menos em outros lugares. As revoltas no Cairo e em Kiev não foram iniciadas por pequenas unidades coesas com firmes compromissos ideológicos como o Movimento Passe Livre. (Em ambos os casos, no entanto, algo como o Movimento Brasil Livre exerceu, sim, um efeito profundo no resultado final.) Os leitores nos Estados Unidos talvez reclamem (e de fato reclamaram!) que a obra não se debruça tanto sobre nenhum movimento estadunidense, ou que os entrevistados não oferecem um roteiro para uma revolução no Primeiro Mundo.

Mas o fato é que nenhuma revolta nesse país adquiriu proporções suficientes para abalar as estruturas do núcleo central do imperialismo; e a história nos oferece lições, não um programa partidário. Além do mais, todas as regras são diferentes nos Estados Unidos.

Em retrospecto, minha caracterização inicial era na verdade muito fraca: faz muito mais sentido agir como se o Brasil fosse o centro do mundo do que proceder como se os Estados Unidos fossem o único caso que realmente importa, como fazem tantos livros em inglês (e em português também). Sendo os Estados Unidos a potência hegemônica do sistema capitalista global, não há bem outro país como ele.

O Brasil, por outro lado, ocupa um lugar no sistema mundial que permite dialogar com um conjunto muito mais amplo de preocupações. Como escreveu o sociólogo Volodymyr Ishchenko, os sujeitos do antigo Segundo (e antigo Terceiro) Mundos não devem ser tratados como “vozes” simbólicas da periferia a serem incorporadas aos discursos do Norte global; cabe enxergá-los como centrais para os projetos de conhecimento e emancipação universais. Há muito mais países como o Brasil do que como os EUA. O Brasil enfrenta um conjunto de desafios e oferece um potencial real que, penso eu, têm relevância para uma grande parte da humanidade. Os Estados Unidos, não.

Tenho aguardado ansiosamente a oportunidade de publicar este trabalho em português e descobrir como ele será interpretado no país em que foi concebido. Tenho a convicção de que aprendemos mais sobre esses anos estranhos aqui neste país colocando-os em um contexto global.

Leitores de outros lugares parecem ter encontrado utilidade num relato detido da história nacional para compreender um fenômeno global. Espero que os leitores brasileiros não achem ruim que dediquei tanto tempo a este lugar. Sou verdadeiramente grato pela oportunidade de fazer do Brasil o centro do meu trabalho desde que cheguei, em 2010.

Os leitores anglófonos devem ter notado que o título da edição brasileira é um pouco diferente do título em inglês: If We Burn: The Mass Protest Decade and the Missing Revolution. Avaliamos que o título original, extraído da tradução de um cidadão de Hong Kong de uma frase de um filme de Hollywood, não ficava muito elegante nem eloquente em português. Este novo título talvez capture o espírito da época ainda mais do que o original, e é capaz que esta edição brasileira, publicada graças à Boitempo, venha a ser muito mais importante do que as cópias impressas na América do Norte.

Mas o novo título levanta a questão – houve uma revolução perdida na década de 2010 global? Acredito que sim. Teria sido a década definida, em muitos casos e países diferentes, pelo sentimento eufórico de que uma revolução simplesmente apareceria, dadas as condições certas, se um número suficiente de pessoas com as intenções certas comparecesse às ruas? Mais uma vez, acredito que sim; esse o significado do subtítulo original em inglês: a revolução ausente, a transformação que não veio.

No Brasil, no entanto, dá pra dizer que houve de fato uma revolução possível e desejável na década de 2010? Suponho que um pequeno número de pessoas, por um curto período de tempo, pode ter pensado assim. Mas uma das muitas “lições” difíceis do livro é a de que uma revolução não é realmente necessária para que os reacionários e as elites lancem uma contrarrevolução.

Não é preciso nenhuma ameaça real à velha classe dominante – basta que eles se sintam ameaçados para que coloquem em marcha uma contrarrevolução. E, ao menos desde 2018 – embora também possamos datar sua origem em 2016, ou 2014, ou quem sabe até nos dias estranhos de 2013 –, o Brasil tem mesmo sofrido um processo contrarrevolucionário. É um movimento que se dirige mais contra o progresso moderado representado pelos anos-chave de 1988 ou 2003 do que contra qualquer tipo de transformação social verdadeiramente radical, mas não deixa de ser contrarrevolucionário.

Gostaria de dedicar esta edição às forças democráticas que enfrentaram bravamente essa contrarrevolução.

*Vicent Bevins é jornalista e escritor. Autor, entre outros livros, de O método Jacarta: a cruzada anticomunista e o programa de assassinatos em massa que moldou o nosso mundo (Autonomia Literária).

Referência


Vicent Bevins. A década da revolução perdida: a onda de manifestações que incendiaram o mundo. Tradução: Carlos Eduardo Matos. São Paulo, Boitempo, 2025, 340 págs. [https://amzn.to/4detbcQ]


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