Não há “solução” militar na guerra da Ucrânia

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Por VALERIO ARCARY*

Pela derrubada dos governos de Wolodymyr Zelensky e Vladimir Putin

“Disseram-nos que, durante a semana crítica de setembro, se ouviram vozes, mesmo na ala esquerda do socialismo, a sustentar que, em caso de “combate singular” entre a Checoslováquia e a Alemanha, o proletariado devia ajudar a Checoslováquia e salvar a sua “independência nacional” (…) Este caso hipotético não ocorreu – como era de esperar, os heróis da independência checoslovaca capitularam sem luta. No entanto, para memória futura, temos de assinalar a este propósito o grave e perigosíssimo erro de (…) teóricos da “independência nacional” (…) Ainda que outros Estados imperialistas não se envolvam imediatamente, é inadmissível considerar uma guerra entre a Checoslováquia e a Alemanha de fora desse emaranhado de relações imperialistas europeias e mundiais do qual tal guerra pudesse estalar como episódio. Um ou dois meses depois, a guerra checo-alemã – se a burguesia checa pudesse e quisesse lutar – já teria, quase inevitavelmente, o envolvimento de outros Estados. Para um marxista, seria, portanto, o maior dos erros definir a sua posição com base em agrupamentos diplomáticos e militares temporários e conjunturais em vez de baseá-la no carácter geral das forças sociais que estão por trás da guerra. (Leon Trotsky, “A Questão da Defesa da “Independência Nacional” da Checoslováquia”, outubro de 1938).

O governo brasileiro renunciou à neutralidade ao votar na resolução aprovada na ONU. Sacrificou, talvez, de forma irreversível, a possibilidade de ocupar um papel progressivo na mediação de um cessar fogo e construção de uma saída negociada. Infelizmente, a diplomacia brasileira cedeu à pressão dos EUA em um alinhamento indesculpável. A esquerda brasileira não pode deixar de criticar, frontalmente, esta capitulação às pressões imperialistas dos EUA e da OTAN.

A guerra da Ucrânia não é uma guerra justa. Todas as guerras são uma catástrofe, mas há guerras justas e injustas. Vivemos em uma época histórica de guerras e revoluções. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, embora o perigo apocalíptico do terror nuclear, entre outros fatores, tenha evitado um confronto global, guerras entre Estados e guerras civis continuaram eclodindo. Toda guerra é uma tragédia humanitária, mas a comoção sincera com o sofrimento humano não justifica uma posição de neutralidade incondicional.

Na época do imperialismo, ou seja, da dominação mundial do capitalismo, o pacifismo como princípio é, na melhor das hipóteses, politicamente, ingênuo e, quase sempre, uma cumplicidade com o lado mais forte. A tradição marxista se posicionou, irredutivelmente, contra a guerra, pela paz e pelo anti-defensismo revolucionário, portanto, pela derrubada dos governos de seus países, quando de guerras entre Estados imperialistas. São guerras injustas. Assim foram as duas guerras mundiais do século XX.

A esquerda mundial estabeleceu quatro critérios para aferir se uma guerra é ou não justa: (a) a natureza histórico-social de cada Estado; (b) o lugar de cada Estado no sistema internacional; (c) o tipo de regime político de cada Estado; (d) o papel de agressor de um Estado. Mas reconheceu a existência de guerras justas: (i) pela defesa de Estados pós-capitalistas contra Estados capitalistas, ou seja, pela defesa de países onde triunfaram revoluções sociais; (ii) pela defesa de Estados periféricos ou coloniais contra Estados imperialistas; (iii) pela defesa de Estados com regimes democráticos-liberais contra Estados fascistas ou bonapartistas; (iv) pela defesa do Estado agredido contra o invasor, quando de guerras entre países dependentes ou não capitalistas.

O primeiro critério legitimou o apoio ao Estado soviético contra a invasão alemã em 1941 e a defesa da Coreia do Norte em 1951. O segundo critério legitimou o apoio a todas as lutas de libertação nacional como no Vietnam, Egito e Argélia. O terceiro critério legitimou a defesa de todas as guerras contra regimes fascistas. O quarto critério legitimou a defesa do Vietnam contra a China no conflito do final dos anos setenta.

A guerra da Ucrânia não se enquadra em nenhum destes quatro critérios. Rússia e Ucrânia são Estados capitalistas e ambos têm regimes autoritários, bonapartistas ou semifascistas. Não é uma guerra justa porque não é nem uma guerra defensiva da Rússia, nem uma guerra de libertação nacional da Ucrânia. Trata-se de uma guerra inter-imperialista.

Não é uma guerra defensiva da Rússia porque não existia perigo real e imediato para Moscou. A invasão foi uma provocação “preventiva”. O recente discurso de Vladimir Putin evocando tudo o que há de mais paranoico, reacionário e grotesco no nacionalismo grão-russo extremista foi a máxima expressão do caráter bonapartista, até semifascista do regime. Foi Moscou quem precipitou a guerra.

Mas, se a guerra da Ucrânia começou como uma guerra defensiva justa de Kiev diante de uma invasão imperialista, mudou de natureza com o engajamento militar da OTAN ao lado da Ucrânia. A ausência de tropas da OTAN no terreno não legitima aqueles que insistem na defesa militar da Ucrânia. Não pode ser o critério decisivo e nem tem, militarmente, importância decisiva se não há infantaria norte-americana ou europeia no terreno de combate. As guerras modernas se decidem em função de outros fatores. Superioridade militar depende de armas sofisticadas de última geração. Além, claro, da capacidade de coesão social e mobilização popular dos governos. A dissimulação da escancarada intervenção da OTAN na guerra é uma manobra política para evitar a explosão de um movimento antiguerra contra o governo de Joe Biden e da subordinada União Europeia com a chegada de caixões com milhares de mortos. Mas é indisfarçável.

Aqueles que na esquerda se posicionam pela vitória militar do governo ucraniano ou do governo russo estão errados. Uma vitória militar de Vladimir Putin condenaria a Ucrânia à condição de semicolônia russa. Preservado o governo de Volodymyr Zelensky, a Ucrânia seria reduzida à condição de um protetorado norte-americano. Não há desenlace progressivo com a continuidade da guerra.

Mas, além disso, um mínimo de realismo sugere que a guerra da Ucrânia não tem solução militar à vista: ninguém está hoje mais próximo de vitória militar. O governo russo estava e permanece em uma posição fragilizada diante da ofensiva dos EUA e da OTAN de aumentar o cerco sobre Moscou. Tem máximo interesse em uma negociação que estabeleça um estatuto de neutralidade da Ucrânia. A decisão de precipitar a invasão não foi uma iniciativa defensiva. Foi uma agressão. Vladimir Putin já tinha enviado o exército para a Georgia em 2007, anexado a Crimeia em 2014, e enviado tropas para defender o governo de Hafez Assad na Síria. Errou o cálculo ao invadir a Ucrânia.

Washington não pode ir além de um apoio a Kiev que permita a contenção do exército russo. Manterá e pode até aumentar o apoio militar a Kiev, mas não pode apoiar uma contraofensiva que cruze a fronteira russa. Seria uma sinalização da disposição de tentar derrubar o regime de Putin. A ameaça russa de possível uso de armas nucleares táticas permanece como um alerta vermelho. Mas o governo Biden não tem interesse em um cessar fogo. Vai deixar a Rússia sangrar.

Moscou, mesmo com a preservação, por enquanto, do apoio popular a Vladimir Putin, sabe que a OTAN não pode deixar que Volodymyr Zelensky seja derrubado. O que é certo é que a continuidade indefinida da guerra destruirá, irreparavelmente, a Ucrânia, pelo intervalo de uma geração. Depois de um ano, o impasse é terrível. A única posição internacionalista é a luta pelo cessar fogo e pela paz e o anti-defensismo, portanto, a solidariedade com aqueles que lutam pela derrubada dos governos Zelensky e Putin. Sim, a situação não é nada animadora.

*Valério Arcary é professor aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo).

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