Por LUIS BONILLA-MOLINA*
Nos 30 dias seguintes ao ataque imperialista e a imposição de uma situação de protetorado, a Junta de Administração Colonial iniciou um conjunto de reformas legislativas estruturais buscando garantir que a burguesia crioula receba uma parte da acumulação rentista
As corretoras e sociedades de corretagem nos esquemas de acumulação
Após a crise bancária, a maior parte do modelo de concentração de capital e enriquecimento burguês (2008-2010) transferiu-se para as operações nas corretoras e sociedades de corretagem, período conhecido como a era do dólar permuta.
Nesse período, a acumulação também se deu por meio da arbitragem de títulos. Como o acesso aos dólares oficiais através da CADIVI (agência estatal de controle cambial) era muito lento (e preferencial), as corretoras criaram o mercado paralelo legalizado baseado na compra e venda de títulos, denominados em dólares, mas adquiridos em bolívares.
Nessa triangulação, as corretoras transferiam o título para uma conta no exterior (Panamá, Suíça, Miami), vendendo-o pelo dólar normal (não subsidiado), fazendo com que o proprietário desses títulos obtivesse dólares (fuga de capitais) no exterior e as corretoras ganhassem pela intermediação. Isso fez com que começasse a existir uma diferença crescente entre o dólar oficial e o dólar paralelo.
Por sua vez, a arbitragem de títulos fazia com que algumas corretoras recebessem adjudicações diretas de títulos pelo Tesouro Nacional, que eram vendidos a outros atores econômicos do mercado com sobrepreço, ficando as bolsas com o diferencial; alguns analistas estimam que, em um único dia, uma corretora poderia ganhar milhões de dólares. Nesse esquema, operadores da bolsa, funcionários e novos burgueses desenvolviam um modelo de acumulação de riqueza muito particular.
Isso criou, entre 2008 e maio de 2010, uma bolha das corretoras, que operavam em escritórios luxuosos sem ter uma carteira real de clientes minoritários, entidades que eram usadas para obter lucros a partir da superfaturação de contratos estatais e retirar capitais do país.
Esse esquema explodiu com o chamado Casazo, que levou o Banco Central da Venezuela (BCV) a proibir as corretoras de operar títulos em dólares, criando o SITME (Sistema de Transações com Títulos de Moedas Estrangeiras), que centralizou o negócio de títulos no BCV. Isso mostrava que a dinâmica de captura de capitais pela burguesia se movia para onde o Estado estava colocando o excedente da renda petrolífera.
Controle cambial, importações e acumulação
A partir de 2010, um eixo da apropriação burguesa do capital rentista passou a ser a importação de alimentos para os setores populares, fossem eles concedidos a preços subsidiados ou por meio de entrega direta a custo zero. Esse esquema é construído a partir da arbitragem de importações (a era CADIVI/CENCOEX), por meio da terceirização internacional e do controle da logística, usando a experiência da arbitragem bancária para a arbitragem alimentar e a colocação da renda em caixas de alimentos.
De fato, com o cancelamento do mercado de ações, o mecanismo ideal para obter dólares baratos (subsidiados pelo petróleo/captura de renda) era solicitá-los ao Estado com o objetivo de trazer alimentos. Isso criava um mecanismo muito perverso, pois ao importador podiam ser concedidos 1.000.000 de dólares, ele deixava 500.000 em uma conta sua no exterior e destinava apenas metade para trazer alimentos para o país; ao adquiri-los, o Estado, a preços de mercado calculados com o dólar real, liquidava o empréstimo.
Nesse período, falava-se de contêineres vazios, outros cheios de pedras que eram declarados como carga alimentícia, e dos escândalos de produtos vencidos que haviam sido adquiridos dessa forma para maximizar o lucro. Para entender melhor o mecanismo de acumulação, precisamos saber que, enquanto o valor real de um dólar era de 100 bolívares, os importadores recebiam 6,30 bolívares por dólar, e somente a diferença cambial já era uma fortuna que se acumulava imediatamente.
A morte de Hugo Chávez (2013) permitiu o surgimento do madurismo, expressão política de um novo momento de voracidade acumuladora da nova burguesia e resposta à queda dos preços do petróleo, que levou esse setor a liquidar a parte do projeto nacional-popular-socialista impulsionado por Hugo Chávez, para se concentrar na consolidação do processo de acumulação dos novos ricos.
Delcy Rodríguez (atual presidente interina), Jorge Rodríguez (presidente do parlamento (ministro das Relações Internas) e Vladimir Padrino (desvalorizado ministro da Defesa) foram parte estrutural do madurismo e hoje estão em processo de mutação e acomodação ao papel de junta administrativa colonial que lhes foi atribuído pelos Estados Unidos.
A solução do problema alimentar e o modelo de acumulação por desapropriação
A partir da formação e estatização dos Conselhos Locais de Alimentação e Planejamento (CLAP), em 2016, passou-se de empresas privadas de importação que serviam como aspiradoras de renda para redes de intermediários transnacionais com conexões diretas nas altas esferas do poder.
Isso permitiu não apenas acumular, mas também construir relações políticas que antes eram adversas com setores empresariais internacionalmente ligados à social-democracia ou mesmo à extrema direita (caso de empresários colombianos associados a setores acusados de ligações com o paramilitarismo). Essas empresas compravam produtos de baixa qualidade no mercado mundial e os vendiam como se fossem de primeira qualidade no país, quadruplicando os lucros.
O controle da logística (onde havia muitas empresas ligadas a figuras militares) funcionava como outro mecanismo de captura de renda por meio do frete e dos processos de distribuição nos territórios (a entrega aos conselhos comunais ou CLAP). A pobreza, a escassez, a inflação e a falta de poder aquisitivo contribuíam para o enriquecimento burguês e para a manutenção da estrutura não ideológica do poder.
Ou seja, das notas estruturadas e dos bônus passou-se para as cestas básicas, do diferencial bancário do BCV para a ampliação desse diferencial mais os sobrepreços, da soberania financeira para a soberania alimentar, especialmente após as sanções ou medidas coercitivas unilaterais aplicadas pelos Estados Unidos e pelas nações europeias.
As sanções foram funcionais ao modelo de captura de renda, concentração de capital e enriquecimento da nova burguesia. Nesta fase, a acumulação de riqueza não exigia a intermediação bancária, mas a existência de uma empresa associada em países com controles flexíveis, contatos de alto nível governamental que concedessem as licenças de importação e acesso às divisas subsidiadas pelo Estado.
O arco minerador e economia digital na consolidação de uma nova burguesia
Com a entrada em vigor das sanções norte-americanas e a saída da Venezuela do sistema Swift, os mecanismos tiveram que se desmaterializar (criptomoedas) e voltar aos valores físicos (exploração e apropriação do ouro). Quando os Estados Unidos congelaram as contas no exterior do BCV e da PDVSA, o projeto do Arco Mineiro foi ativado com toda a força e, por não ter controle público nem prestar contas, fez com que a produção de ouro se tornasse o fundo de caixa da nova burguesia e do governo, criando um novo mecanismo de acumulação de riqueza.
A opacidade a esse respeito é total, não se sabe quais são as reservas atuais de ouro, como foi vendido e armazenado o metal precioso proveniente do arco minerador. Além disso, ao redor do Orinoco, começou-se a explorar terras raras, ou as chamadas “arenas negras”, por meio da Corporação Venezuelana de Mineração (CVM), especialmente em torno da casiteria, do níquel, do ródio, do titânio e de outros minerais, cuja exploração, comercialização e receitas de recursos altamente flexibilizados contribuem para a acumulação de riqueza para a nova classe social burguesa.
Por sua vez, as criptomoedas, especialmente promovidas pelo governo desde 2016-2017, com fazendas de mineração, constituíram outro modelo de acumulação por desapropriação, por meio de mecanismos financeiros especulativos, que permitiram à burguesia crioula “aprender” a gerar lucros em ambientes tão voláteis como esses. Com a criação do Petro (2017), a criptomoeda crioula, essa moeda digital operou como um mecanismo de negociação internacional que contornava os controles dos países que aplicavam as sanções.
O uso de Stablecoins (USDT) permitia vender petróleo e comercializar, sem ter que pedir permissão ao sistema bancário global. Esse esquema entrou em colapso com o desaparecimento de US$ 23 bilhões das finanças públicas, quando ficou evidente que havia dívidas registradas como contas a receber pela PDVSA, apesar de terem sido canceladas, mas os recursos por esses conceitos foram convertidos em moedas digitais por novos ricos em altos cargos do governo, especialmente da petrolífera estatal.
A circulação de dólares provenientes do ouro, a arbitragem de criptomoedas e o superfaturamento geraram o que os economistas chamam de “miragem da recuperação”, ou a bolha de consumo, localizada e segmentada no raio de ação daqueles que gravitam nessa subeconomia. Isso levou ao surgimento dos chamados Bodegones, onde havia todo tipo de mercadoria importada, empresas que funcionavam como mecanismos de captura de renda, em sua maioria nas mãos de familiares de políticos e militares.
Da mesma forma, a abertura de concessionárias de veículos de alto padrão e de luxo operava como outra dinâmica de captura desse tipo de renda. Outras saídas para esse fluxo de capitais se expressaram na ativação do mercado imobiliário, na construção de grandes edifícios e centros comerciais.
Quando o procurador-geral da República informou sobre a prisão dos responsáveis pela corrida das criptomoedas, ele detalhou que as moedas digitais e os fundos da PDVSA haviam sido usados pelo setor acusado de corrupção para aumentar a desvalorização do bolívar e a elevação do preço do dólar, como outro mecanismo de apropriação de renda. Ou seja, a tragédia que a classe trabalhadora venezuelana estava vivendo, produto da desvalorização do poder aquisitivo do bolívar e da inflação, não era apenas resultado das sanções norte-americanas, mas do esquema de acumulação que operava por meio da corrida constante e ascendente do preço do dólar por parte da nova burguesia e dos altos funcionários que controlavam as criptomoedas e as receitas do petróleo.
Em cada uma dessas etapas, o dinheiro da corrupção era legitimado por esses mecanismos de captura ampliada da renda, sendo o orçamento público outra das fontes de enriquecimento burguês, o que explica como a Venezuela, apesar de ter recebido receitas equivalentes a 10 planos Marshall nos últimos 25 anos, viu sua infraestrutura ser destruída de forma acelerada, assim como as condições materiais de vida da população. A dupla corrupção-pobreza funcionava como um sistema de acumulação por desapropriação.
A necessidade interburguesa de chegar a um acordo
A busca por acordos interburgueses para se manter no poder faz parte da natureza da burguesia como classe social. Por isso, desde 2018, a nova burguesia venezuelana trabalhou intensamente para chegar a um acordo com a velha burguesia e formar uma única classe sem divisões conflitivas.
Para esse fim, era necessário recompor a relação com os Estados Unidos, mostrando que o que restava da revolução bolivariana havia perdido toda a capacidade e vontade de radicalidade; as negociações tornaram-se públicas a partir de 2019, quando Nicolás Maduro confirmou que haviam sido iniciados diálogos com o primeiro governo de Donald Trump, que continuariam com Joe Biden (reconhecido em 8 de março de 2022), devolvendo à Venezuela seu papel de fornecedora segura de petróleo aos Estados Unidos no contexto da guerra na Ucrânia.
Entre 2018 e 2026, houve uma aproximação acelerada entre as duas burguesias (quarta republicana e quinta republicana), a tal ponto que hoje muitos pensamos que ambas estão praticamente integradas em seus interesses, e cuja face visível dessa fusão é Delcy Rodríguez, a atual presidente interina. Desde 2021, Delcy Rodríguez é convidada de honra das assembleias anuais da FEDECAMARAS, e após os eventos de 3 de janeiro de 2026, é ela quem convoca a flexibilização jurídica para o fomento do investimento privado, nacional e internacional, com o aplauso consensual, não apenas de toda a burguesia nacional, mas também internacional.
Para alcançar esse consenso burguês, entre 2018 e 2026, não apenas tornaram ilegais e intervieram em todos os partidos de esquerda, mas também aplicaram um pacote de liberalização da economia, restrição das liberdades sindicais e do direito à greve, limitaram a liberdade de opinião e confiscaram a soberania popular. A Lei Antibloqueio (eufemismo para impor um novo ajuste neoliberal à economia venezuelana) e a Lei de Zonas Econômicas Especiais são apenas expressões dessa reorganização.
No contexto do surgimento de uma nova ordem mundial, que os Estados Unidos aspiram liderar, a concessão de direitos sobre o petróleo e a economia impulsionada por Nicolás Maduro era insuficiente; a administração de Donald Trump quer acesso total à energia e às riquezas venezuelanas. Em agosto de 2025, inicia-se a ofensiva militar norte-americana no sul do Caribe, que encontra a burguesia venezuelana unificada, tentando manter o status quo de acumulação de riqueza.
Para a burguesia unificada, o fim da democracia ocorrido desde julho de 2024 não é o centro de suas preocupações, assim como não o é para os Estados Unidos após os acontecimentos de 3 de janeiro de 2026.
Nos 30 dias seguintes ao ataque imperialista contra a Venezuela, a captura e sequestro de Maduro e a imposição de uma situação de protetorado, vigiada diretamente no território pela encarregada de negócios norte-americana no país, Laura Dogu, a Junta de Administração Colonial (Delcy Rodríguez, Jorge Rodríguez, Diosdado Cabello e Vladimir Padrino) iniciou um conjunto de reformas legislativas estruturais, que buscam garantir que, na nova situação de dominação, a burguesia crioula receba uma parte da acumulação rentista.
As leis comerciais foram modificadas e simplificadas, houve uma reforma da Lei de Hidrocarbonetos que rompe até mesmo com o tipo de nacionalismo limitado que impulsionou a social-democracia venezuelana em 1943 e 1976, levando o país de volta ao momento em que as transnacionais petrolíferas ditavam a relação com o fisco nacional.
A diminuição da porcentagem de royalties (de 30% para 15%), a concessão às transnacionais para que vendam diretamente o petróleo e a aceitação da capacidade dos Estados Unidos de decidir sobre a administração dos recursos provenientes do comércio petrolífero são a tentativa vergonhosa da burguesia unificada e da junta administrativa colonial de manter algum nível de controle sobre a acumulação.
Agora é anunciada a reforma da lei do trabalho para acabar com o ajuste estrutural, ditado pela administração de Donald Trump.
A burguesia unificada do presente foi mais longe do que a velha burguesia na quarta república, perdendo todo traço nacionalista, aceitando a situação de protetorado colonial que os EUA pretendem impor. Mas a última palavra será dada pelos acontecimentos da luta de classes que está por vir.[i]
*Luis Bonilla-Molina é professor de pedagogia na Universidad Nacional Experimental de la Gran Caracas (UNEXCA).
Para ler a primeira parte deste artigo clique neste link.
Nota
[i] Devido aos limites de extensão permitidos neste artigo, só pudemos abordar os marcos mais representativos na formação da nova burguesia no período 2002-2026, mas seria necessário complementar este trabalho com uma análise das tensões que isso gerou com o campo popular em cada um desses momentos, como evidência dos diferentes rumos que a luta de classes assume em cada situação e momento histórico. Certamente haverá tempo e espaço para realizar essa tarefa de análise no futuro.






















