A história não se repete

Imagem: David Peinado
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Por JANETHE FONTES*

O autoritarismo no Brasil não é uma sequência de eventos isolados, mas um fio contínuo que se reinventa, sempre usando o mesmo manual: o medo do “comunismo” como espantalho para preservar privilégios elites, o controle da narrativa e a instrumentalização de instituições

O fio invisível das repetições

Embora já se tenha falado muito sobre a tentativa de golpe de 2023, sinto – sobretudo em sala de aula do Ensino Médio – que boa parte da sociedade ainda não percebeu as conexões entre esse episódio e os golpes militares que o precederam. Muitos o relativizam; outros, ainda hoje, o apoiam – mesmo sem compreender plenamente suas motivações, apenas repetindo o coro das forças que se uniram em torno do autoritarismo. Creio, portanto, que, se não formos capazes de enxergar essa continuidade, corremos o risco de repetir, em breve, o mesmo erro – talvez de modo ainda mais brutal e irreversível.

E é justamente essa repetição disfarçada que me leva a refletir sobre o fio invisível que atravessa nossa história: uma linha que, embora se apresente como progresso, conduz sempre ao mesmo ponto – a crença de que o autoritarismo é o preço necessário da ordem. O que muda são os uniformes, os slogans e os meios de comunicação. O que permanece é o mesmo medo: do outro, do pobre, do pensamento crítico, da liberdade.

Desde 1937, quando Getúlio Vargas justificou o golpe do Estado Novo com a farsa do Plano Cohen, até 2023, quando extremistas tomaram a Praça dos Três Poderes clamando por “intervenção militar”, o discurso é o mesmo – apenas traduzido em novas linguagens. O inimigo muda de rosto, mas nunca de função: é o bicho-papão ideológico necessário para que a elite conserve o privilégio sob a máscara da moral.

A história não se repete, como disse Karl Marx – ela insiste. E insiste porque a estrutura social que a produz continua a mesma.

O “pai dos pobres” e o autoritarismo paternal

A Revolução de 1930 colocou Getúlio Vargas no poder com o discurso da modernização e da justiça social. O país precisava de ordem, diziam – e, em nome dessa ordem, dissolveram o Congresso e impuseram, em 1937, a Constituição Polaca, inspirada nos regimes totalitários europeus.

A figura de Getúlio Vargas foi esculpida com perfeição simbólica pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). O rádio, então o meio de comunicação mais popular, transformou o “chefe” em pai e a política em liturgia. Vargas era o “pai dos pobres” – expressão que disfarçava a essência do autoritarismo: o controle das vozes que poderiam ser ouvidas.

O Estado Novo criou direitos trabalhistas, mas sob vigilância. Os sindicatos passaram a existir apenas com autorização estatal. Era o corporativismo paternalista – a inclusão subordinada. Como analisou Florestan Fernandes, o povo brasileiro foi convidado a participar da nação como súdito agradecido, não como cidadão consciente.

O Plano Cohen, forjado pelo Estado-Maior do Exército, simbolizou a gênese do medo político no Brasil moderno: a invenção do inimigo interno como fundamento do poder. A ideia de proteger a pátria do comunismo – esse conceito elástico que cabe em qualquer ameaça — nascia ali como retórica permanente das elites.

Entre Jânio e Jango – medo como método

A renúncia de Jânio Quadros em 1961 abriu uma crise que serviria de laboratório para o golpe de 1964. Seu vice, João Goulart, defendia as Reformas de Base – agrária, bancária, educacional e eleitoral –, buscando corrigir desigualdades estruturais. Mas, como denunciava Florestan Fernandes, a democracia no Brasil só se torna perigosa quando começa a incluir os pobres.

Os setores conservadores reagiram com violência simbólica. O anticomunismo voltou a ser o espantalho de sempre. E, sob o pretexto da fé, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade levou milhares às ruas, embalados por hinos religiosos e slogans moralistas. A religião foi instrumentalizada como escudo político do medo – o mesmo mecanismo que, décadas depois, voltaria às telas e púlpitos das igrejas neopentecostais.

O golpe civil-militar de 1964, apoiado por empresários, pela grande mídia e pelo governo dos Estados Unidos, mergulhou o país em duas décadas de censura e tortura. Os militares chamaram-no de “Revolução Redentora” – o nome pomposo que disfarça a violência. Como toda revolução de mentira, ela começou prometendo liberdade e terminou produzindo silêncio.

Ditadura, silêncio e resistência

Os porões do DOPS e do DOI-CODI tornaram-se laboratórios do medo. A tortura era método, a censura, rotina, e o exílio, destino. Mas, mesmo na escuridão, a resistência germinava.

A canção “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil, ecoava como oração e denúncia: “Pai, afasta de mim esse cálice / de vinho tinto de sangue”. A arte se fez trincheira quando a palavra foi proibida. Como observa Jessé Souza, a arte, quando se transforma em denúncia, é o último refúgio da verdade.

A repressão não era exclusividade brasileira. No Chile, Salvador Allende tombou em 1973 defendendo a democracia. “A história não perdoará aqueles que traíram o mandato do povo”. Na Argentina, o golpe de 1976 produziu cerca de trinta mil vítimas da ditadura. E no Uruguai, Pepe Mujica – preso por 14 anos, a maior parte em isolamento absoluto – demonstrou que a dignidade não se destrói nem com grades, nem com torturas.

Esses regimes formaram a Operação Condor, uma aliança repressiva continental com apoio dos EUA. A violência virou política de Estado, e o silêncio – política continental.

Com a Lei da Anistia (1979), o Brasil iniciou o caminho de volta à democracia. Mas a conciliação teve um custo: o perdão aos algozes. O país tentou se reconciliar sem lembrar, curar sem tocar a ferida.

Como nos ensinou Paulo Freire, “a educação muda pessoas, e pessoas transformam o mundo”. Mas sem memória, a educação se torna anestesia. O esquecimento virou estratégia de sobrevivência das elites, e o autoritarismo, em vez de ser extinto, apenas se recolheu – esperando o momento de ressurgir.

Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes invadiram os prédios dos Três Poderes em Brasília, pedindo intervenção militar e questionando eleições legítimas. A cena, transmitida ao vivo, parecia inédita – mas era uma nova versão (remake) do velho enredo.

Os tanques deram lugar aos tweets; o medo, às fake news; e a retórica da “salvação nacional” ressurgiu sob novas bandeiras. Mas algo permaneceu intocado: o medo do comunismo – o velho espantalho que, desde 1937, é ressuscitado sempre que a elite teme perder privilégios.

O “comunismo” virou o rótulo de tudo o que ameaça o poder: educação crítica, diversidade, consciência racial, igualdade de gênero e até políticas sociais básicas.

É o mesmo bicho-papão ideológico que justificou o auto-golpe de 1937, o golpe civil-militar de 1964 e que, em 2023, foi atualizado nas redes, pintando professores, artistas e jornalistas como “inimigos da nação”.

Durante as eleições de 2022, esse discurso foi amplificado. Púlpitos religiosos foram transformados em palanques eleitorais; pregadores confundiram fé com voto; e o medo, novamente, tornou-se evangelho. A religião, que deveria humanizar, foi politizada como arma de guerra cultural.

Ao mesmo tempo, o Judiciário e o discurso moralista da “anticorrupção” foram instrumentalizados para neutralizar vozes progressistas e legitimar perseguições seletivas. Era a velha tática da elite latino-americana: usar a lei e a moral como instrumentos de poder.

O que mudou foi o meio – não o enredo. A mesma elite ressentida, o mesmo moralismo, o mesmo ataque à escola e ao pensamento crítico. Mas também, como antes, a mesma resistência: professores, artistas, estudantes, jornalistas. A história insistia.

O eco que teima em voltar

“A história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte, 1852).

Como lembrou Marx, a primeira vez é tragédia, a segunda é farsa. Mas no Brasil – e em toda a América Latina –, a farsa é o eco prolongado da tragédia que teima em voltar. A cada geração, o autoritarismo muda de nome e de forma, mas continua a disputar corações, mentes e algoritmos.

Cabe à educação crítica, à arte e à memória impedir que o riso cínico da farsa apague o luto da tragédia. Porque esquecer – como ensinou a história – é sempre o primeiro passo para repetir.

P. S. Enquanto redigia este texto, uma desastrada operação policial nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, deixou oficialmente 121 mortos – um deles, decapitado. Uma chacina que o governador do estado teve a audácia de classificar como “sucesso”. Casos assim revelam, com clareza brutal, o quanto a extrema direita pode ser letal caso, um dia, reassuma o poder no governo federal.

*Janethe Fontes é professora de história e sociologia e escritora. Autora, entre outros livros, de Sentimento fatal (Dracaena).

Referências


ALLENDE, Salvador. Discurso final ao povo chileno, 11 set. 1973. Santiago do Chile: Rádio Magallanes, 1973. Disponível em: https://www.memoriachilena.gob.cl. Acesso em: 2 nov. 2025.

BUARQUE, Chico; GIL, Gilberto. Cálice. Composta em 1973. In: BUARQUE, Chico. Chico Buarque [LP]. Rio de Janeiro: Philips Records, 1978.

FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. São Paulo: Globo, 2005.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021. (1ª ed. 1968).

MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2011.

MUJICA, José (Pepe). Uma ovelha negra no poder: conversas com Pepe Mujica. Conversas com Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz. São Paulo: L&PM, 2015.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2017. AGÊNCIA BRASIL. Moradores de favelas protestam no Rio após megaoperação com 121 mortos. CartaCapital, São Paulo, 31 out. 2025. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/moradores-de-favelas-protestam-no-rio-apos-megaoperacao-com-121-mortos/


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