Fernanda Montenegro na Academia Brasileira de Letras

Gerd Winner, Sem título, 1978.

Por DANIEL BRAZIL*

A polêmica nomeação da atriz para a ABL

A polêmica nomeação da atriz Fernanda Montenegro para a Academia Brasileira de Letras tem causado reações, pró e contra, bem típicas de um Brasil polarizado. Pessoalmente admiro a grande, estupenda atriz, tenho algumas divergências com a cidadã Fernanda, e nutro muito desprezo pela Academia. O que é uma academia, afinal? E o que significa ser “de Letras?”

Fundada em 1897, tendo como modelo a Academia francesa, composta por 40 membros, teve um glorioso início. Machado de Assis como presidente, Joaquim Nabuco secretário-geral. Nabuco defendia que a nossa Academia fosse representada por figuras notáveis em todos os campos, como é a Academia Francesa, mas a corrente (panelinha?) de escrevinhadores foi mais forte. Isso não impediu que Nabuco indicasse um herói(?) da Guerra do Paraguai, Artur Jaceguai, para fazer parte do clube.

Claro que o nível artístico da ABL flutuou ao longo das décadas, de acordo com o estilo literário em voga, as panelinhas, a politicagem e o puxa-saquismo. Quem é mestre nestes últimos campos tem mais chance do que quem somente se dedica a produzir arte de qualidade.

Façamos uma pequena lista de figuras relevantes da literatura brasileira, que supostamente qualquer estudante de ensino médio deveria conhecer: Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Cecília Meireles, Mário Quintana, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Cora Coralina, Adélia Prado, Augusto e Haroldo de Campos, Antonio Cândido, Clarice Lispector, Raduan Nassar e Dalton Trevisan, sem se estender muito.

Segunda lista: Fernando Magalhães, Rodrigo Octavio, Augusto de Lima, Aloísio de Castro, Cláudio de Souza, Adelmar Tavares, Levi Carneiro, Elmano Cardim, Laudelino Freire, Teixeira de Melo, Gustavo Barroso, Ramiz Galvão, Antônio Austregésilo, João Neves da Fontoura e Aníbal Freire, entre outros.

Obviamente você conhece, leu ou ouviu falar, bem ou mal, dos primeiros. Nenhum fez parte da ABL, embora alguns até tenham tentado. Já da segunda lista todos foram, não só eleitos, mas presidentes da gloriosa Academia Brasileira de Letras. A mesma entidade que reúne nomes tão esdrúxulos como Lyra Tavares (ministro do Exército durante a ditadura militar), Getúlio Vargas, Ivo Pitanguy (cirurgião plástico), José Sarney, Merval Pereira e, agora, Fernanda Montenegro. Convém lembrar que a ABL, fundada em 1897, demorou 80 anos para admitir a presença feminina, mas aqui cabe uma ressalva curiosa: enquanto a Academia francesa só recebeu uma mulher em 1980 (Marguerite Yourcenar), por estas bandas Rachel de Queiroz derrubou a barreira em 1977.

Claro que é muito fácil destacar escritores de reconhecido talento que fizeram parte dos quadros da agremiação. Vanitas vanitatum, et omnia vanitas. Mas que diria Joaquim Nabuco de escolhas tão estapafúrdias, que na prática diminuem o papel do escritor em tempos de combate tão acirrado entre civilização e barbárie, entre cultura e ignorância?

Por ironia histórica, o indicado de Nabuco, Artur Jaceguai, fez um discurso patético, quebrando todas as regras da ABL. Não homenageou o antecessor, Teixeira de Melo, dizendo não ter conhecido “nem o homem, nem sua obra.” Propôs reduzir o número de cadeiras para trinta, o que provocou corporativos protestos. Enfim, desapareceu na vala comum dos quase-anônimos.

Feliz de quem entra pra Academia já famosa, como Fernanda Montenegro, aos 92 anos. Nem precisa ir ao chá das cinco para aturar conversas sobre a politicagem da vez. Já a imaginou trocando ideias sobre quando será o próximo funeral e quem será o escolhido? Poderia ter se poupado desse vexame e ter abdicado de sua indicação em nome de uma verdadeira escritora contemporânea. Conceição Evaristo, por exemplo, ou Maria Valéria Rezende. Certamente seria muito mais aplaudida.

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.