A música no Brasil que você toca

Ceri Richards, Natureza morta com música, 1933
image_pdf

Por DANIEL BRAZIL

Comentário sobre o livro recém-lançado de Edson Natale

Conversa puxa conversa, e quando o conversador é bom, rende muito. Este é o caso do surpreendente livro de Edson Natale, A música no Brasil que você toca.

Obviamente, é um livro sobre música brasileira. O que é menos óbvio é a maneira com que o autor vai emendando assuntos, e incluindo preciosos tópicos de história, cinema, literatura, artes plásticas, teatro, TV, folclore, política ou geografia, e não só do Brasil.

Fruto de mais de 30 anos de pesquisa e viagens pelo país, o resultado é um volume repleto de informações reveladoras e curiosas, às vezes inusitadas. Pode começar um capítulo falando do padre Landell de Moura, o inventor brasileiro do rádio, passar pelo movimento musical roraimense e enumerar vários artistas da Amazônia. Ou iniciar relembrando a história da aviação brasileira, passar por Agostinho dos Santos, citar a cantora lírica Maria d’Apparecida e falar de racismo, narrando os entreveros entre Tony Tornado e a ditadura militar.

Títulos provocantes como “Mulher pode tocar trombone” ou “Nenhuma guerra é justa” abrem narrativas concisas que falam de preconceito e machismo. Apresenta as pioneiras Chiquinha Gonzaga e Jovita Alves Pedrosa, passa por Gilda de Barros, Abbie Conant e Inezita Barroso, introduz o ex-combatente da Segunda Guerra Pedro Sorongo, futuro percussionista genial, e homenageia Tenório Jr., pianista brasileiro morto pela ditadura argentina.

Em outra chave, recorda a viagem do poeta surrealista Benjamin Péret ao Brasil, acompanhado pela sua mulher, a brasileira Elsie Houston, cantora e pesquisadora do folclore brasileiro, passa pelo almirante negro João Cândido, resume a vida militante da atriz Lélia Abramo e termina falando da missa em homenagem a Vladimir Herzog, marco da história recente brasileira.

E personagens vivos, contemporâneos, vão entrando na prosa. O compositor Maurício Pereira, o violeiro Paulo Freire, o produtor e técnico Pena Schmidt, o cineasta Fernando Meirelles ou o punk pernambucano Cannibal, sempre entremeados com figuras históricas como João Pacífico, Patativa do Assaré, Luiz Carlos Prestes, Cego Aderaldo, Dilermando Reis, Lampião e Volta Seca, Zaíra de Oliveira, Osvaldo Pugliese, Moacir Santos ou Possidônio Queiroz, o flautista piauiense que fez questão de tocar e fazer  o discurso de recepção para a Coluna Prestes quando ela passou por sua cidade, Oeiras.

A música acaba sendo linha-e-agulha com a qual Edson Natale vai costurando com maestria pedaços de um Brasil multicolorido e contrastante, desigual e injusto em tantos momentos, mas fascinante e criativo em muitos outros. Sem formalismo acadêmico, mas com notas de rodapé quando necessárias, e com as referências bibliográficas devidamente listadas no final, o livro pode ser definido como um belo conjunto de pequenos ensaios, ou crônicas-com-conteúdo (se é que existe essa classificação). O melhor mesmo é não tentar definir, mas mergulhar na leitura prazerosa e enriquecedora.

Apenas a edição merece alguns reparos, como a fonte sem serifa e a impressão pouco contrastada, que dificulta a leitura em ambiente pouco iluminado. Leve o livro para a praia e aproveite!

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

Referência


Edson Natale. A música no Brasil que você toca. São Paulo, Editora Paraquedas, 2023, 160 págs. [https://amzn.to/47XVXKV]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
2
Os últimos intelectuais
09 Jan 2026 Por EMIR SADER: A academia, ao engolir o intelectual público, trocou a praça pelo campus e a língua comum pelo jargão — e, com isso, silenciou-se uma voz essencial para o debate democrático
3
Os Estados Unidos estão às cegas
12 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Trump não é um novo imperialista, mas o sintoma de uma potência às cegas: onde o capital financeiro desterrou as elites e a política virou um espetáculo vazio de projeto
4
Críticas simétricas
10 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Resposta ao artigo de Luis Felipe Miguel
5
Marx, Kepler
12 Jan 2026 Por RODRIGO NAGEM DE ARAGÃO: Marx viu em Kepler um espírito revolucionário: aquele que desvela a essência por trás da aparência, gesto que ele próprio repetiu ao expor as leis do capital
6
A suposta nova riqueza do imperador
11 Jan 2026 Por PAUL KRUGMAN: A guerra por petróleo na Venezuela é uma ficção: as reservas são superestimadas, os custos proibitivos e os únicos lucros reais são os de aliados políticos de Trump, não do contribuinte americano
7
Desembaçando a Venezuela
09 Jan 2026 Por FABIO LUIS BARBOSA DOS SANTOS: O ataque à Venezuela expõe o colapso do liberalismo no abraço à direita radical, revelando um novo imperialismo que substitui a política pelo “embaçamento” entre mentira e força
8
O ditador (preferido) da rede Globo
08 Jan 2026 Por ROSÂNGELA RIBEIRO GIL: Na TV, a palavra "ditador" é arma ideológica: serve ao poder que a paga, encobre as tiranias reais e sequestra a soberania das narrativas
9
A racionalidade equívoca
11 Jan 2026 Por JOÃO QUARTIM DE MORAES: Posfácio do livro póstumo recém-lançado de Gérard Lebrun
10
A colônia petrolífera de Donald Trump
10 Jan 2026 Por CLAUDIO KATZ: Entre o sequestro de Maduro e o desejo pelo petróleo, Trump resgata o colonialismo explícito e desafia a soberania regional, transformando a Venezuela no marco zero de um novo e perigoso domínio imperial
11
O sequestro de Maduro e a terceira onda colonial
05 Jan 2026 Por VLADIMIR SAFATLE: O colonialismo 3.0 não disfarça mais: suas razões são a pilhagem, e sua lógica, a força bruta. Resta-nos responder com a clareza de quem sabe que a próxima fronteira do império é nosso próprio quintal
12
Se armar para salvar o capitalismo financeiro!
13 Jan 2026 Por MAURIZIO LAZZARATO: O rearmamento europeu não é um projeto de defesa, mas um mecanismo financeiro desesperado: a criação de uma nova bolha de capitais para salvar um sistema que só conhece a reprodução através da guerra e da destruição
13
Perspectivas econômicas para 2026
10 Jan 2026 Por LUIZ GONZAGA BELLUZZO, ANDRÉ LUIZ PASSOS SANTOS, NATHAN CAIXETA & MURILO TAMBASCO: Em 2026, o Brasil navega entre desemprego baixo e desaceleração, enquanto o mundo enfrenta estagnação avançada e bolhas de risco nos EUA
14
As bravatas de Donald Trump
08 Jan 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: A lucidez política exige rejeitar as fábulas maniqueístas: é possível condenar a agressão imperial sem endeusar regimes autoritários, pois a história real raramente oferece heróis
15
Nova ordem mundial?
10 Jan 2026 Por CÉSAR MORTARI BARREIRA: A nova ordem mundial é a anarquia brutal dos que comandam sem precisar de justificativas
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES