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A gênese do sionismo

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Por OSVALDO COGGIOLA*

Uma breve história do antissemitismo até a origem do sionismo

Edmund Burke tinha comentado com sarcasmo a ilusão dos revolucionários franceses de 1789 de acabar com o “problema judeu” concedendo a estes direitos políticos e igualdade jurídica, dizendo que os judeus continuavam unidos entre si por correntes “invisíveis como o ar, mas mais pesadas do que as da igreja de Nôtre Dame”. Teria cabido dizer o mesmo do antissemitismo.

Na segunda metade do século XIX, o redobrado conservadorismo político e social da burguesia europeia e sua expansão imperialista recolocaram essa questão, mas sobre uma nova base, pretensamente científica, baseada na classificação das raças realizada por “especialistas”. Isto respondia a necessidades políticas. No final do século XIX, o antissemitismo racial, “científico” e não religioso, apareceu na Europa com a obra do conde Arthur de Gobineau, que dividiu as raças humanas em três troncos principais (branco, amarelo e negro).

Na Alemanha foi fundado o Partido Social Cristão do Trabalho, liderado pelo pastor protestante Adolf Stoecker, em chave ideológica antissemita e antissocialista. Um “Congresso Internacional Antijudeu” realizou-se em 1882 em Dresden, Alemanha, com três mil delegados da Alemanha, Áustria-Hungria e Rússia; durante as discussões, Stoecker foi derrotado pelos “radicais”, que se reuniram um ano mais tarde em Chemnitz e fundaram a Alliance Antijuive Universelle.[i]

Não se tratava do retorno das velhas formas antissemitas, mas de formas modernas de reação racista. Em plena “república democrática”, o passado voltava, modernizado, anunciando uma onda racista “científica” (antecipada pelas teorias de “superioridade racial” de Gobineau, um “antropólogo” que proclamara a superioridade da raça ariano-germânica e a inferioridade de negros e judeus, entre outras “raças inferiores”) e, sobretudo, política.

Ao mesmo tempo, o antissemitismo tradicional acentuou-se de modo violento na Europa oriental e na Rússia czarista, onde habitava o maior contingente judeu do planeta. A zona de assentamento judeu na Rússia, o pale, já fora criada. Em 1882, foram proibidos aos judeus novos assentamentos e a concessão de hipotecas, restrita a aquisição por judeus de ações em companhias de capital aberto e proibido aos judeus o comércio aos domingos. Em 1891, vinte mil judeus foram expulsos de Moscou; no ano seguinte, eles perderam o direito a votar nas eleições municipais (zemstvos). O antissemitismo afundava suas raízes na histórica hostilidade cristã para com os judeus, tornada política oficial de segregação e de perseguição com a cristianização do Império Romano e continuada pelos reinos cristãos da Idade Média.

As revoluções democráticas dos séculos XVIII e XIX proclamaram, em maior ou menor grau, a emancipação dos judeus na Europa, a abolição das políticas e espaços segregacionistas (guetos) e da exclusão política e profissional dos judeus. Mas essas revoluções pouco tocaram a Rússia e a Europa oriental, “que haviam incorporado enormes comunidades judias, com a característica muito pouco judaica de seu empobrecimento em habilidades técnicas, em empreendimentos independentes, em capacidade profissional, em sólidas organizações comunais, todas cosas normais da vida judia organizada. Elas existiam nas comunidades da Europa oriental na época em que a maioria da população era composta por súditos dos reis da Polônia, mas um século de opressão czarista, o antissemitismo da Igreja Ortodoxa e a ignorante hostilidade da burocracia russa se combinaram para socavar sua vitalidade e destruir sua autonomia econômica e comunitária. Só lhes restou o respeito de si. Os judeus que fugiram para o Oeste, conseguindo uma vida livre nos EUA e nas democracias ocidentais, demonstraram, assim como seus filhos, que as qualidades básicas judias continuavam intactas”.[ii]

Esses judeus ocidentais e ocidentalizados não foram a base social do sionismo, nascido em finais do século XIX postulando a necessidade de um Estado territorial judeu; o sionismo encontrou sua base entre os judeus não emancipados da Europa oriental e, sobretudo, da Rússia czarista: “Nos países do Leste europeu a mensagem do Judenstaat teve – na Galizia, na Romênia, na Rússia czarista – o efeito de uma tocha acessa lançada em um palheiro. Poucos tinham uma cópia [de O Estado Judeu de Theodor Herz], mas sua fama se espalhou rapidamente de boca em boca e, justamente porque se falava tanto de um texto desconhecido, criou raízes a ideia de que estava acontecendo algo grande e maravilhoso. David Ben-Gurion [futuro chefe de Estado em Israel] tinha dez anos de idade quando Der Judenstaat foi publicado em Viena e vivia no pequeno shetl de Plonk [na Polônia]. Muito depois lembrou que se espalhara a ideia de que ‘havia chegado o Messias, um homem alto e belo, muito instruído, nada menos do que um doutor, Theodor Herzl’”. “No século XIX eram muitos os judeus europeus assimilados que afirmavam sua origem sefardita. Os poetas românticos – sobretudo Byron e Heine – haviam pintado com um ar de esplêndida nobreza os orgulhosos judeus da Espanha medieval. No período no qual os ricos [judeus] emancipados faziam tudo para se dissociar de seus correligionários da Polônia e da Rússia, pobres e marginalizados, a origem sefardita provava de modo conclusivo que eles nada tinham em comum com os primitivos e incultos Ostjuden das comunidades israelitas orientais”.[iii]

Foram os “atrasados” judeus orientais os que forneceram a base social do projeto sionista; seu fundador ficou surpreso, pois pensava que sua proposta acharia mais eco entre os instruídos judeus ocidentais, que lhe prestaram pouca atenção.

O primeiro grupo de socialistas judeu russos surgiu em Vilna na antiga escola rabínica, que em 1873 transformou-se no Instituto de Professores. Desse grupo saíram importantes ativistas para o Narodnaia Volia, como Aron Zundelevitch e Vladimir Jochelson, contando entre seus líderes Aaron Liberman. Intelectuais judeus russos, nas décadas de 1870 e 1880, tiveram papel dirigente no movimento populista. De início, esses revolucionários entregaram-se a uma atividade voltada à população oprimida russa sem qualquer referência à condição específica das massas judias.

O mais importante foi Marc Nathanson, um dos fundadores do Zemlia i Volia. Na geração posterior, a intelectualidade judia da Rússia incorporou-se em grande parte à socialdemocracia. As primeiras organizações socialistas judias buscavam sintetizar os princípios gerais do socialismo com as necessidades particulares do povo judeu. Os socialistas internacionalistas, inclusive os judeus, propugnavam a assimilação dos judeus, pois as diferenças nacionais desapareceriam na luta de classes e na sociedade socialista. Seus antecedentes eram os judeus que em meados do século XIX questionavam os valores tradicionais, interessando-se pelas ideias constitucionalistas de Ocidente e simpatizando com o movimento “dezembrista”.

Foram judeus alguns dos introdutores do marxismo na Rússia, como Pável Axelrod. Na Alemanha, Moses Hess, comunista vinculado a Marx e Engels (que o tinha considerado seu mestre) escrevia Roma e Jerusalem, propugnando, diante da renovação do antissemitismo europeu, o retorno do povo judeu à Palestina. Em 1882, Leo Pinsker, socialista judeu vinculado ao populismo, diante da extensão e brutalidade dos pogroms no Império russo, passou a defender a criação de um Estado com território próprio para os judeus na Rússia.

Esse contexto conturbado viu nascer o sionismo como nacionalismo judaico. Foi definido como um movimento de “revitalização nacional” judia, e logo foi associado, pela maioria dos seus líderes e teóricos, à colonização da Palestina. Sionismo deriva de Sião, um dos nomes de Jerusalém na Bíblia. Segundo os teóricos do “novo sionismo”, a Palestina fora ocupada por “estranhos”. O principal formulador e impulsionador do sionismo foi Theodor Herzl, advogado nascido em Budapeste (situada no Império Austro-Húngaro; Herzl era austríaco) que, na sua juventude, chegou a solicitar ao papa romano que ajudasse os judeus da Europa a se converterem coletivamente ao catolicismo.

Theodor Herzl ganhou notoriedade quando passou a publicar matérias na imprensa alemã no final da década de 1880 e, graças a isso, recebeu um convite para se tornar correspondente do jornal Neue Freie Presse em Paris, onde cobriu o julgamento e condenação do oficial judeu Alfred Dreyfus. Em 1894, Herzl foi cobrir o caso e ficou impressionado com o renascimento do antissemitismo na França, com manifestações de rua em Paris em que muitos cantavam “Morte aos Judeus”.

Na Argélia francesa houve pilhagens de lojas de judeus e pogroms em Boufarik, Mostaganem, Blida, Médéa, Bab el-Oued, com estupros, mortos e feridos (o líder socialista Jean Jaurès chegou a escrever que nesses motins se exprimia um “espírito anticapitalista” sob uma forma deturpada…). A revisão do processo de Dreyfus em 1906 mostrou que Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy, outro major do exército francês, fora o verdadeiro espião dos alemães. Da constatação in situ da sobrevivência e do renascimento do antissemitismo, Theodor Herzl concluiu que a assimilação cultural nas nações em que habitavam não seria capaz de livrar os judeus da discriminação.

A emancipação política judia, na verdade, sempre tinha estado subordinada às necessidades da economia capitalista: “A emancipação jurídica foi precedida na Europa ocidental por um longo período de formas coletivas de acordo, entendimento, colaboração, aproximação e até simbiose; de complementação entre judeus e não judeus, embora essa complementação fosse pontuada por antagonismos, sobretudo de ordem econômica. Isso criou esferas de interesse comum entre elites judias e não judias, e produziu movimentos nas comunidades judias capazes de participar ativamente na luta pela emancipação e integração ‘nacional’. À emancipação seguiu-se uma integração social e profissional mais completa que alhures, porque tornou-se mais fácil para os judeus a participação na modernização política dos Estados, identificando-os com os valores e objetivos dos Estados nacionais… A distribuição dos mercados entre a burguesia local e os judeus se produziu no marco da rápida expansão daqueles. Chegava a acontecer que se invitasse os judeus a se estabelecer em algum país para contar com capital disponível. Assim aconteceu na Dinamarca”.[iv]

Com base nas reflexões feitas a partir do “caso Dreyfus”, Theodor Herzl escreveu e publicou, em 1895, Der Judenstaat – Versuch Einer Modernen Lösung der Judenfrage (“O Estado Judeu – Uma Solução Moderna para a Questão Judaica”) onde preconizou a necessidade da reconstrução da soberania nacional dos judeus em um Estado próprio, descrevendo, de forma romanceada, suas visões acerca de como tornar possível a construção de uma futura nação judaica, discorrendo sobre imigração, compra de terras, edificações, leis e idioma.

Para aglutinar as diversas tendências do judaísmo europeu, Theodor Herzl organizou o Primeiro Congresso Mundial Sionista, que deveria ser realizado em Munique, na Alemanha. Contudo, líderes religiosos da comunidade judia local se opuseram à iniciativa, por temerem uma exposição excessiva e uma possível retaliação antissemita. Assim, o evento acabou por se realizar na cidade suíça de Basileia, em agosto de 1897. O evento reuniu cerca de duzentos delegados; seus principais resultados foram a formulação da plataforma sionista, conhecida como “Programa de Basileia”, e a fundação da Organização Sionista Mundial, sob a presidência de Theodor Herzl.

O Primeiro Congresso Mundial Sionista estabeleceu o objetivo de “uma pátria judia juridicamente garantida na Palestina”. Durante a reunião, discutiu-se onde deveria ser instalado o Estado Judeu, dividindo-se os congressistas entre a Palestina ou algum território desabitado que poderia ser cedido aos sionistas, como a ilha de Chipre, a Patagônia argentina e até alguma das colônias europeias na África, como o Congo ou a Uganda. Venceram, no entanto, os partidários do assentamento na Palestina, com o argumento de que aquela era a região de origem do povo judeu na Antiguidade.

Em seu diário, Theodor Herzl escreveu: “Se eu tivesse que resumir o Congresso de Basileia numa só frase, ela seria: ‘em Basileia eu fundei o Estado Judeu’”. O movimento sionista reunia, sobretudo, lideranças oriundas da Europa oriental, e organizou as primeiras ondas de pioneiros judeus da Europa instalados no final do século XIX na Palestina com a intenção explícita – contrária à atitude da comunidade judia de vinte mil pessoas que residia na Palestina desde o século XIV – de colonizá-la: “Fomentar, por princípio, a colonização da Palestina por judeus operários agrícolas, trabalhadores em construção civil e de outros ofícios”, dizia a resolução do Congresso. Dirigentes sionistas se entrevistaram com autoridades britânicas, que estavam “de olho” na Palestina, em caso de decomposição do Império Otomano (de que a Palestina fazia parte), dado por descontado.

Theodor Herzl era não crente e era perfeitamente “germânico” nos seus hábitos e modo de vida. O renascimento do antissemitismo na Europa, em que pese a emancipação política dos judeus ter sido já proclamada pelos mais importantes Estados europeus ocidentais, se evidenciava na sobrevivência de um vasto antissemitismo popular, forte na Europa oriental e na Rússia, assim como um antissemitismo nada popular, pretensamente “científico”, em círculos dirigentes dos países europeus; a ideologia do “darwinismo social” que lhe servia de fundamento conquistou adeptos para justificar as pretensões imperialistas dos países retrasados na corrida colonial.[v]

Theodor Herzl, em uma mensagem destinada ao chanceler alemão Bismarck, assinalava que “a implantação de um povo neutro na rota mais curta para o Oriente [referência à vizinhança do Canal de Suez, recentemente construído] pode ter uma imensa importância para a política oriental da Alemanha”. Os judeus eram um povo, além disso, “obrigado quase em todas as partes a incorporar-se aos partidos revolucionários” devido às discriminações de que eram objeto.

Sete milhões de judeus da Rússia e de Europa do Leste, que falavam iídiche, viviam sua pobreza em situação de isolamento social. Dessa situação surgiu o “socialismo judeu”, a partir de uma vasta classe trabalhadora e de uma intelligentsia aculturada, mas não necessariamente assimilada, influenciada pelo socialismo russo, e depois também pelo nacionalismo judeu. Durante a administração do Império Otomano, entre 1881 e 1917, de uma emigração total de 3.177.000 judeus europeus, apenas sessenta mil foram à Palestina.

A ocupação judia da Palestina começou a ganhar força no final do século XIX. Em 1880, a Palestina pertencia ao Império Otomano, os judeus que a habitavam eram na sua maior parte sefarditas de origem espanhola, instalados na Galileia a partir do século XVI, falantes de ladino, um espanhol arcaico: durante a invasão espanhola do Marrocos, em 1859, no porto de Tetuán, o general espanhol O’Donnel, ao entrar na cidade, encontrou habitantes que falavam um espanhol arcaico: eram os judeus sefarditas da cidade, que haviam sido vítimas de um pogrom nos dias precedentes. Foi esse o primeiro contato “moderno” entre espanhóis ibéricos e sefarditas mediterrâneos.[vi] Havia comunidades sefarditas espalhadas por quase toda a África do Norte.

Grande parte dos judeus expulsos da Espanha pelos “Reis Católicos” encontrara refúgio no Império Otomano, em particular na Bósnia e em Tessalônica, províncias turcas, mas também na Palestina, no Iraque e na Síria. Em fins do século XIX começaram as ondas de imigrantes judeus sob os efeitos das políticas e eventos antissemitas na Rússia e na Europa oriental. As autoridades otomanas temiam que a imigração judaica reforçasse ainda mais a influência europeia, e apenas tinham meios para opor-se a ela.

A primeira onda migratória judia ou alliah (1882-1903) veio, sobretudo, da Rússia. Poucos provinham da Alemanha, onde o dirigente judeu Ludwig Bamberger declarava, em 1880: “Com nenhum outro povo se identificaram mais os judeus do que com os alemães. Germanizaram-se não só em solo alemão, mas também muito além das fronteiras alemãs. Os judeus europeus não se enraizaram com qualquer língua mais do que com o alemão, e quem diz língua diz espírito”.

No Congresso Mundial Sionista, um dos delegados, A. S. Jahuda, “um jovem especializado em estudos islâmicos, reclamou atenção para o fato de que a importante presença árabe na Palestina era um problema, mas poucos o escutaram. Leo Motzkin [que tinha visitado Palestina por encargo do comitê executivo sionista] informou acerca ‘do fato incontestável de que as zonas mais férteis de nossa terra (sic) estão ocupadas por árabes, 750 mil almas aproximadamente’. Informou também acerca de choques entre colonos judeus e habitantes árabes, sem indicar suas causas.

Na sua visão, a Palestina era uma combinação pitoresca de terras incultas, turismo e peregrinos, sob influência europeia nos aspectos externos, mas não em sua essência, e onde nenhum elemento predominava. Outro delegado destacou que 90% da Palestina estava pouco povoada e que seus escassos habitantes eram de raiz semita, ‘portanto, parentes nossos’”.[vii] A segunda onda de migração judia europeia (1904-1914) veio, sobretudo da Rússia e Polônia, e foi iniciada no ano posterior ao massacre de Kisinev. Em 1919, depois dessas ondas de imigração, estavam assentados na Palestina só sessenta mil judeus (devido a que muitos dos judeus imigrados à Palestina daí partiram novamente, em especial para os EUA) para um total de 800 mil habitantes.

O destino das saídas de judeus da Europa oriental não se encaixava nos planos dos dirigentes sionistas, pois a maioria migrava para a Europa ocidental e para os EUA. A Palestina era ainda parte do Império Otomano: “Ao final do século XIX havia mil povos ou aldeias. Jerusalém, Haifa, Gaza, Jaffa, Nablus, Acre, Jericó, Ramle, Hebron e Nazaré eram cidades florescentes. As colinas estavam laboriosamente tratadas. Canais de irrigação sulcavam todo o território. Os limoeiros, as oliveiras e os cereais da Palestina eram conhecidos em todo o mundo. O comércio, o artesanato, a indústria têxtil, a construção e a produção agrícola eram prósperos.

Os relatos dos viajantes dos séculos XVIII e XIX estão plenos de dados nesse sentido, bem como os informes acadêmicos publicados quinzenalmente no século XIX pelo ‘Fundo Britânico para a Exploração da Palestina’. Na realidade, foi precisamente a coesão e estabilidade da sociedade palestina o que levou Lorde Palmerston a propor, premonitoriamente, em 1840, quando a Grã-Bretanha estabeleceu seu consulado em Jerusalém, a fundação de uma colônia judaica europeia para preservar os interesses mais gerais do Império Britânico”.[viii]

A partir do Segundo Congresso Sionista Mundial, realizado em 1898, surgiram os “sionistas socialistas”, inicialmente um grupo minoritário oriundo da Rússia, que exigiu representação na Organização Sionista Mundial. A esquerda sionista se desenvolveu na virada do século, propugnando a migração para a Palestina, com grupos como Hashomer Hatzair, constituído por jovens de classe média “semiassimilados”, destacando-se os nomes de Meir Yaari e David Horovitz. A presença dos sionistas socialistas foi cada vez maior, chegando a obter a maioria dos delegados a partir de do 18º Congresso Sionista Mundial, realizado em Praga, em 1933.

O Poalei Zion foi reconhecido como representação palestina da Internacional Socialista. Os sionistas socialistas formaram o principal núcleo político dos ulteriores fundadores do Estado de Israel, com líderes como David Ben-Gurion, Moshe Dayan, Golda Meir, Yitzhak Rabin e Shimon Peres. Os pensadores fundamentais dessa corrente eram Dov Ber Borochov e Aaron David Gordon. Ambos encontraram em Moses Hess a ideia original de um Estado judeu e socialista: “O povo judeu faz parte dos povos que se acreditava estivessem mortos e que, conscientes de sua missão histórica, reivindica seus direitos nacionais. É com o objetivo dessa ressurreição que resistiu durante dois mil anos as tempestades da história. O curso dos acontecimentos o dispersou até as extremidades da Terra, mas seus olhares ficaram sempre dirigidos em direção de Jerusalém”.[ix]

Diferentemente de Theodor Herzl, os sionistas socialistas não acreditavam que o Estado judio seria criado apelando à comunidade internacional, mas através da luta de classes e dos esforços da classe trabalhadora judaica na Palestina. Os sionistas socialistas pregavam o estabelecimento de kibbutzim (fazendas coletivas) no campo (o povo judeu devia fincar na terra, cujo acesso lhe tinha sido vedado durante séculos na Europa) e de um proletariado nas grandes cidades.

A divisão da Organização Sionista provocou a formação do bloco dos “sionistas políticos”, com Theodor Herzl e Chaim Weizmann, que preconizavam a independência do Estado judeu pela via diplomática. O próprio Herzl encontrou-se com Guilherme II da Alemanha e com o sultão Abdul Hamid II da Turquia, pedindo o apoio para o estabelecimento do Estado judeu na Palestina. Após a morte de Theodor Herzl, em 1904, com apenas 44 anos de idade, e com o fracasso da solução diplomática negociada para a criação do Estado judeu, o “sionismo político” foi perdendo importância.

No período entre 1880 a 1914 houve movimentações migratórias de judeus de todo o continente europeu, mas sem se dirigir principalmente à Palestina, que não era um território ermo e vazio, mas uma região economicamente produtiva e culturalmente diversa. Os camponeses e a população palestina estabeleciam uma distinção clara entre os judeus que viviam historicamente entre eles, os judeus sefarditas, e os judeus europeus, askenazes, que vieram posteriormente, já que até essas migrações os judeus de Jerusalém se integravam pacificamente (ou, para ser mais precisos, sem grandes conflitos) na sociedade palestina.

Quando os armênios que escaparam do genocídio turco se estabeleceram na Palestina, também foram bem recebidos pela população local, judeus incluídos. Esse genocídio, no entanto, foi defendido por Vladimir Jabotinsky, dirigente sionista “revisionista” (pois “revisou” as teses originais de Theodor Herzl), em seu afã por conseguir o apoio turco para a criação do Estado judeu. Na Palestina não havia um ódio organizado contra os judeus, ninguém organizava massacres ou pogroms como os acobertados pelo czar da Rússia ou pelos antissemitas poloneses; não surgiu nenhuma reação simétrica do lado palestino contra os colonos armados que se utilizavam da força para expulsar os camponeses árabes. Estes ignoravam que seu destino estava sendo traçado nos conflitos sociais e nacionais que, sob uma forma cada vez mais racista e antissemita, digladiavam os países da Europa central e oriental.

A obra de Arthur de Gobineau fez nascer o “mito ariano”, inspirador de movimentos nacionalistas e racistas. As ideias deste autor (que foram, no século XX, leitura de cabeceira de nazistas e fascistas)[x] foram, no entanto, menos importantes nesse sentido do que as tiradas contra o “espírito semítico” do respeitado filósofo da história Ernest Renan que, dentre outros, dotou o antissemitismo de um ar de respeitabilidade intelectual.

No final desse século, outro escritor, cidadão alemão de origem inglesa, Houston S. Chamberlain, publicou um best seller chamado The Foundatons of the 19th Century em que, de modo aparentemente erudito, historiou um suposto conflito do espírito ariano contra o espírito semita, na Europa e alhures, ao longo dos séculos;[xi] ele teve muitos seguidores, panfletistas e jornalistas (alguns de bastante sucesso). A segunda metade do século XIX também viu o surgimento na Alemanha e na Áustria-Hungria do movimento Völkisch, que apresentava o racismo antissemita com uma base “biológica” na qual os judeus eram vistos como uma raça em histórico e mortal combate contra a raça ariana pela dominação do mundo. O antissemitismo Völkisch inspirou-se em estereótipos do antissemitismo cristão, mas diferia dele ao considerar os judeus como uma raça, não como uma religião.

Esses autores e movimentos contribuíram para que na Europa houvesse um renascimento antissemitismo, tanto em versões elitistas como populares, com destaque para o panfleto Os Protocolos dos Sábios de Sião, publicado graças aos bons serviços da polícia política czarista (a Okhrana) em 1905: o texto tinha o formato de uma ata supostamente redigida por uma pessoa presente em um congresso realizado a portas fechadas em Basileia, em 1898, onde um grupo de sábios judeus e maçons teria se reunido para estruturar um esquema de dominação mundial, formulando planos como o de controlar inicialmente uma nação europeia, controlar a produção e circulação de ouro e pedras preciosas, criar uma moeda amplamente aceita que estivesse também sob seu controle, confundir os “não escolhidos” com dados falsos, com vistas à dominação judia do mundo.

Investigações publicadas no jornal inglês The Times entre 16 e 18 de agosto de 1921 provaram tratar-se de um embuste: a base da história dos “Protocolos” fora criada por um novelista alemão antissemita chamado Hermann Goedsche, usando o pseudônimo de Sir John Retcliffe. Os “Protocolos” foram publicados nos EUA no Dearborn Independent, um jornal cujo proprietário era Henry Ford, o magnata do automóvel, que também publicou uma série de artigos coletados mais tarde no seu livro O Judeu Internacional.

Mesmo após as denúncias provadas de fraude, o jornal continuou a citar o documento apócrifo. Anos depois, Adolf Hitler e seu Ministério da Propaganda citaram os “Protocolos” para justificar a necessidade do extermínio de judeus.[xii] Em 1904 foi criado o DAP (Partido dos Trabalhadores Alemães da Áustria), antissemita e considerado o principal antecessor do nazismo.

No Oriente Médio, as reações que expressavam a raiva dos palestinos contra a expropriação de suas terras não eram dirigidas contra os judeus como tais. Na tradição árabe-otomana, a relação com a comunidade judia estava regulada mais ou menos pacificamente havia séculos, não constituindo certamente o mar de rosas que alguns panfletistas pintaram ulteriormente, mas também não levando a uma hostilidade geral contra os judeus.

A migração cada vez mais numerosa de judeus europeus para a Palestina tinha suas raízes em outras latitudes: “O sionismo se alimentou, na Europa central e oriental, da conjugação de três fenômenos próprios do século XIX: a decomposição da estrutura feudal dos impérios czaristas e austro-húngaro, que minou os fundamentos socioeconômicos da vida judia, as condições da evolução capitalista que bloquearam o processo de proletarização e de assimilação, e a escalada brutal do antissemitismo mais violento que precipitou a centenas de milhares de judeus ao caminho do exílio. Em direção à Palestina? Não. Na maior parte, para a América. Dos entre dois ou três milhões de judeus que saíram entre 1882 e 1914 da Europa Central, menos de setenta mil se instalaram na ‘Terra Santa’, e muitas vezes com caráter passageiro. Os dirigentes sionistas não o ignoravam. Nem a miséria de seus correligionários submetidos ao czar, nem a discriminação de todo tipo, nem sequer os pogroms bastavam para transportá-los massivamente para a Palestina. Entretanto, isso era possível com o apoio de uma grande potência. Assim, o criador da organização sionista ressaltou perante o sultão, além da contribuição que podia considerar para as finanças otomanas, a ajuda que os judeus palestinos podiam representar para sufocar a ameaça de uma insurreição árabe”.[xiii] O que de fato aconteceria durante as rebeliões árabes de 1916 e 1936.

Os mandantes locais, porém, só poderiam ser uma força de apoio auxiliar para o projeto de colonização. O movimento sionista teve sua sede em Viena até 1904, ano da morte de Theodor Herzl, transferindo-se depois para a Alemanha, primeiro para Colônia e depois, em 1911, para Berlim. O sétimo congresso sionista, em 1907, rejeitou a ideia de outro território que não a Palestina para o “lar nacional judeu”: Inglaterra tinha oferecido em 1903, logo depois do massacre de Kisinev, uma faixa de terra de quinze mil quilômetros quadrados na África Oriental (na atual Quênia, no Great Rift Valley), durante entrevista entre o chanceler Chamberlain e Herzl, um território onde seria permitido aos judeus um direito limitado ao “autogoverno” no quadro do Império Britânico, em uma região capaz de acolher, segundo o ministro inglês, até um milhão de imigrantes judeus. A oferta foi recusada por Theodor Herzl.

Como a Palestina ainda pertencia ao Império Otomano, que não manifestou a menor intenção de ceder esse território, nem sequer depois da revolução “civilista” de 1908, o sionismo viu-se reduzido a inação, perdendo adeptos na Europa oriental até a Primeira Guerra Mundial. Como já dito, o Estado projetado inicialmente pelos nacionalistas judeus não tinha necessariamente a Palestina por cenário. Dirigentes sionistas, como o barão Hirsch, encararam a possibilidade de criá-lo na região litorânea da Argentina, nas atuais províncias de Santa Fé (onde foi fundada a cidade de Moisesville) e Entre Rios: em 1895, porém, a colonização impulsionada por Hirsch só tinha conseguido fixar seis mil imigrantes judeus nessa região,[xiv] julgada conveniente por se encontrar afastada da Europa, sobretudo da Rússia.

Os nacionalistas judeusinsistiram na Palestina, escolha que se enquadrava mal ou bem dentro das estratégias coloniais das potências europeias, sobretudo da Grã-Bretanha e da França, que preparavam a partilha dos despojos do Império Otomano, o que implicava para os dirigentes sionistas num esforço para conquistar os círculos dirigentes dessas potências para seu projeto (esses círculos, no entanto, estavam infestados de antissemitas, inclusive de adeptos do “racismo científico” propagado por Gobineau e pelas teorias neodarwinistas “sociais”). O maior contingente populacional judeu se encontrava nos territórios do Império Russo, o primeiro a praticar o antissemitismo como política de Estado.

 Os judeus do império dos czares eram obrigados a viver em províncias e regiões periféricas (pale) pelo regime czarista, com escassos direitos trabalhistas e educacionais, confinado em pequenas aldeias (shetl); desempenhavam tarefas, sobretudo, como artesãos, vendedores ambulantes, domésticos e outras, de mera sobrevivência: “Em que pese o antissemitismo, uma pequena fração da população judia chegou a participar da expansão econômica da Rússia. O movimento começou nas décadas de 1860-1870, graças ao liberalismo econômico vigente, e se desenvolveu depois. Judeus como Abraham Varshavski e os três irmãos Polyakov participaram na criação da rede ferroviária; outros, na expansão industrial e comercial… Mas, ao lado de algumas famílias privilegiadas, a grande maioria dos judeus da Rússia formava um proletariado miserável, e muitos deles foram conquistados pela ideologia socialista, que se implantou fortemente entre a juventude”.[xv]

O “socialismo judeu” surgiu sobre a base de uma classe trabalhadora oprimida e de uma intelligentsia aculturada, mas não necessariamente assimilada. Houve uma forte oposição ao sionismo entre os judeus da Rússia, da Europa central e oriental, muitos deles engajados nos partidos socialistas, sem falar na influência importante do Bund na Rússia, na Polônia e nos países bálticos. O Bund (em iídiche, “união”, abreviação de União Geral dos Trabalhadores Judeus da Polônia, Lituânia e Rússia) era uma organização judaica dentro do partido socialdemocrata da Rússia.

Foi organizado em 1897 no congresso constituinte dos grupos socialdemocratas judeus em Vilna, na Lituânia, chamada de “Jerusalém do Leste”; agrupava principalmente os elementos semiproletários e artesãos judeus das regiões ocidentais da Rússia; seus principais líderes eram Arkadi Kramer e Vladimir Medem. Ele foi formado um ano antes do POSDR, a socialdemocracia russa, e foi o principal organizador do congresso de fundação deste, em 1898.

Em abril de 1903 ocorreu, no império russo, na porção ucraniana da “zona de residência” na Bessarábia, o maior pogrom já visto até aquela data. Os bairros judeus de Kisinev foram destruídos, as casas, devastadas, centenas de judeus foram feridos e mortos. O “pogrom de Kisinev” chocou o mundo todo e naturalizou o termo russo, pogrom, massacre, para todos os idiomas. O massacre foi incitado por agentes policiais e pelas Centúrias Negras; a massa dos pogromistas eram trabalhadores como os judeus que perseguiram.

A confiança dos operários judeus nos seus irmãos de classe russos ficou seriamente abalada: “Os distúrbios (sic) revolucionários de 1904 e 1905 provocaram novos e mais sangrentos pogroms, organizados com a participação ativa do exército e da polícia, que se converteram em parte essencial de uma política bem meditada, atingindo seu ponto culminante em outubro de 1906, depois da concessão de uma constituição pelo regime czarista. A criação de um órgão legislativo, a Duma, no qual havia espaço também para judeus, nada mudou a situação destes, pois diante de um punhado de deputados judeu e de seus aliados socialdemocratas estava a poderosa ‘União do Povo Russo’ (as ‘Centúrias Negras’) que apregoava um antissemitismo cada vez mais duro”.[xvi]

Até 1903 o Bund era a maior organização socialdemocrata de todo o império russo, com a maior estrutura, número de integrantes, publicação clandestina de jornais, traduções, circulação e contrabando de literatura revolucionária para a Rússia czarista:[xvii] “Antes do advento do nazismo, e mesmo depois dele, a maioria dos trabalhadores manuais judeus se recusava a responder aos apelos do sionismo. Até na Europa oriental, onde eles formavam comunidades grandes e compactas, falando seu próprio idioma, desenvolvendo sua própria cultura e literatura e sofrendo forte discriminação, eles se consideravam cidadãos do país em que viviam, ligados ao futuro desses países e não ao da Pátria Judaica, na Palestina. Considerável parte dos judeus da Europa oriental, principalmente os do grande e vigoroso movimento operário, via aquela ideia de pátria com irredutível e consciente hostilidade. Considerava-se o sionismo como uma mística nacionalista da classe média judaica que, entretanto, não queria abandonar sua situação já estabilizada… Nos outros lugares a resposta ao chamamento sionista foi incomparavelmente mais fraca”.[xviii]

A ambiguidade do Bund era seu drama: defendia que os trabalhadores judeus pertencessem à terra onde haviam nascido e vivido, mas exigia uma “autonomia nacional e cultural” para os judeus, em que o iídiche seria o idioma nacional. Baseavam-se nas teorias do austro-marxista Otto Bauer a respeito da “autonomia cultural”, mas o próprio Bauer, na sua principal obra (A questão nacional e a socialdemocracia)[xix] negava caráter nacional ao judaísmo. O Bund combatia o “territorialismo” (a reivindicação de um “Estado Judeu”, com território próprio), o que o enfrentou ao sionismo, considerado um movimento de intelectuais askenazes laicos, sem base popular.

Em outras latitudes, houve componentes do judaísmo, baseadas nas grandes comunidades sefarditas da África do Norte, que estiveram praticamente à margem do sionismo. Para a maioria dos rabinos da Europa central e oriental o projeto dos sionistas de criar o “Estado dos judeus” era a negação da esperança na “redenção de Israel” por iniciativa e obra exclusivas de Deus. A vitória do sionismo ficou garantida quando, quase no final do conflito bélico mundial de 1914-1918, a “Declaração Balfour” do governo inglês – prestes a exercer eu “mandato internacional” sobre a Palestina -, garantiu a colonização judia da Palestina: a “Declaração” forneceu a base legal da colonização judia da Palestina até a criação do Estado de Israel.[xx]

Qual era a base para a colonização sionista da Palestina? A Organização Sionista Mundial tinha amadurecido esse projeto e granjeado apoios muito sólidos na Grã-Bretanha. As “comunidades não judias” na Palestina, no entanto, constituíam 90 % da sua população: em 1918, a Palestina tinha 700.000 habitantes: 644.000 árabes (574.000 muçulmanos e 70.000 cristãos) e 56.000 judeus. O movimento sionista europeu ainda era pequeno e fraco em relação às outras alternativas (políticas inclusive) contra o antissemitismo europeu, como o Bund (partido operário judeu de Rússia, Polônia e Lituânia) e a emigração aos países do “Novo Mundo”, como os Estados Unidos ou a Argentina.

Durante a moderna administração da Palestina pelo Império Otomano, entre 1881 e 1917, de uma emigração total de 3.177.000 judeus europeus, apenas 60 mil foram à Palestina. Já na época do controle britânico da Palestina, de 1919 até a criação do Estado de Israel, um total de três décadas, de uma emigração de 1.751.000 judeus europeus, 487 mil migraram para essa região. A Primeira Guerra Mundial teve, assim, consequências decisivas para a Palestina.

As potências aliadas vencedoras não esperaram pelo fim da guerra para preparar o desmantelamento e a liquidação do Império Turco. Durante as hostilidades, procurando aproveitar o nacionalismo árabe contra seus inimigos, a Grã-Bretanha prometeu ao xeque da Meca seu apoio para a criação de um Estado árabe independente, tendo por fronteira ocidental o mar Vermelho e o Mediterrâneo, em troca da revolta árabe contra a Turquia. Disso resultou a revolta árabe de 1916.

Finda a guerra, e apesar de ter classificado a Palestina dentro de um grupo de nações às quais reconheceria imediatamente a independência formal, sendo prometida a independência efetiva num curto prazo, a Liga das Nações impôs-lhe um “mandato” externo cujo objetivo prioritário não era a instalação de uma administração nacional palestina, como previa o documento que instituiu o sistema dos mandatos, mas a criação do “lar nacional judaico”, conforme manifestado pela Inglaterra em 1917.

Esse objetivo não só contrariava o processo de transição para a independência política da Palestina, mas era incompatível com o princípio de sua independência com a população que tivesse no momento, que a Liga das Nações admitira previamente. Por outro lado, tendo nomeado a Grã-Bretanha como potência mandatária sem ter consultado os palestinos, o Supremo Conselho Aliado não respeitou a regra fixada pelo “Pacto da Liga das Nações”, segundo a qual os desejos das comunidades submetidas a esse tipo de mandato deviam ter uma consideração principal na escolha da potência mandatária.

Os palestinos constataram aos poucos a negação de fato do seu direito à independência, evidenciada no apoio da Grã-Bretanha e da Liga das Nações ao projeto sionista. Tanto a Grã-Bretanha como a Liga não só lhes tinham reconhecido esse direito, mas também lhes tinham prometido seu gozo pleno no curto prazo. Os palestinos, em geral, se opuseram ao projeto do lar nacional judaico na Palestina – logo que tiveram conhecimento da Declaração Balfour – e tentaram impedir a sua realização, pois temiam que dela resultasse sua submissão não só política, mas também econômica, passando do domínio turco para o domínio judeu com mediação britânica. Apresentaram oficialmente protestos contra a Declaração Balfour à Conferência de Paz de Paris e ao governo britânico.

A Declaração Balfour era originalmente um compromisso da Grã-Bretanha com o sionismo, mas ela recebeu o aval das principais potências aliadas, e foi incorporada ao texto do Mandato Britânico para a Palestina, adotado pela SDN em 24 de julho de 1922. O essencial da Declaração era citado explicitamente no artigo 2º do preâmbulo do documento. Era ainda reforçado no artigo 3º, graças a dois elementos que não constavam na Declaração: a menção da ligação histórica do povo judaico com a Palestina e a ideia da constituição do seu lar nacional nesse país.

Dos 28 artigos do texto do Mandato, seis tinham por objeto o estabelecimento do lar nacional judaico ou medidas relacionadas com ele. No artigo 2º se estabelecia: “A Mandatária terá a responsabilidade de pôr o país em condições políticas, administrativas e econômicas que assegurem/garantam o estabelecimento do lar nacional judaico”. E precisava: “A administração da Palestina facilitará a imigração judaica em condições convenientes e de acordo com o organismo judaico mencionado no artigo 4º. Estimulará o estabelecimento intensivo dos judeus nas terras do país, incluídos os domínios do Estado e as terras sem cultivar”.

Assim, sem excluir os países árabes, ou seja, o objetivo declarado de levar à independência a população que os habitava, o Mandato Britânico para a Palestina tinha um objetivo suplementar, promover a criação de um Estado judaico, com potenciais habitantes cuja maioria estava ainda espalhada pelo mundo. O documento também mencionava as comunidades não judaicas existentes na Palestina e seus direitos cívicos e religiosos – não se referindo aos seus direitos políticos – sob a forma de ressalvas às medidas destinadas a programar o objetivo principal.

Rapidamente, a primeira manifestação popular na Palestina contra o projeto sionista teve lugar a 2 de novembro de 1918, primeiro aniversário da Declaração Balfour. Essa manifestação foi pacífica, mas a resistência depressa se tornou mais combatente, com ataques que concluíam em confrontos sangrentos. Houve novas revoltas palestinas em 1920, durante a Conferência de San Remo que distribuiu os mandatos, em 1921, 1929 e 1933. As erupções de violência eram cada vez mais graves à medida que o mandato inglês se prolongava e a colonização sionista se estendia e fortalecia. A potência mandatária respondia às rebeliões nomeando uma comissão real de inquérito, cujas recomendações reconheciam a legitimidade das reivindicações palestinas e esboçavam tímidas medidas tendentes a satisfazê-las, mas as medidas prometidas ficavam como letra morta ou eram depressa esquecidas.

A Declaração Balfour, como vimos, foi denunciada pelos bolcheviques, para os que a atribuição da Palestina aos judeus não era uma manifestação de combate ao antissemitismo,[xxi] mas uma encenação do imperialismo britânico com o objetivo de mascarar a partilha imperialista do Império Otomano. Lorde Balfour afirmara, em caráter privado, durante uma reunião do gabinete de guerra britânico no final de outubro de 1917, que a Palestina “não era adequada para um lar para os judeus ou para qualquer outro povo”.

O segundo (e talvez principal) objetivo britânico foi admitido por David Lloyd George, primeiro ministro da Grã-Bretanha no momento da Declaração Balfour, em suas memórias: “Em 1917 já era evidente a grande participação dos judeus da Rússia na preparação daquela desintegração geral da sociedade russa depois conhecida como revolução. Acreditava-se que se a Grã-Bretanha declarasse o seu apoio à realização das aspirações sionistas na Palestina, um dos efeitos seria atrair os judeus da Rússia para a causa da Entente (…) Se a Declaração tivesse vindo um pouco antes, possivelmente alteraria o curso da revolução” (sic).

A Palestina, que fazia parte do território do futuro Estado árabe, era cobiçada ao mesmo tempo pela Grã-Bretanha e pela França, mas as duas potências tinham admitido o princípio da sua internacionalização nos acordos Sykes-Picot. As forças britânicas que renderam as forças turcas em Jerusalém em dezembro de 1917, concluíram a ocupação da Palestina em setembro de 1918. A Palestina ficou sob a administração militar britânica, substituída por uma administração civil em julho de 1920. Na Conferência da Paz reunida em Paris, em janeiro de 1919, as potências aliadas decidiram que os territórios da Síria, do Líbano, da Palestina/Transjordânia e da Mesopotâmia não seriam devolvidos à Turquia, mas formariam entidades administradas segundo o sistema dos “mandatos”.

Criado pelo artigo 22 do Pacto da Liga das Nações, em junho de 1919, esse sistema destinava-se a determinar o estatuto das colônias e territórios que se encontravam sob o domínio das nações vencidas. O documento declarava que “algumas comunidades outrora pertencentes ao Império Otomano atingiram um estádio de desenvolvimento” que permitiria reconhecê-las provisoriamente como nações independentes. O papel das potências mandatárias seria ajudá-las a instalar sua administração nacional independente.

O mesmo documento estipulava, como já dito, que os desejos dessas nações deveriam ter “consideração principal” na escolha da potência mandatária. Na Conferência de San Remo de abril de 1920, o Conselho Supremo Aliado repartiu os mandatos para essas nações entre a França (Líbano e Síria) e a Grã-Bretanha (Mesopotâmia, Palestina/Transjordânia). O mandato para a Palestina, que incorporou o “lar nacional para o povo judaico”, foi aprovado pelo Conselho da Liga das Nações a 24 de julho de 1922, tornando-se efetivo a 29 de setembro do mesmo ano.

Ao abrigo do artigo 25 do Mandato para a Palestina, o Conselho da Liga das Nações decidiu excluir a Transjordânia de todas as cláusulas relativas ao “lar nacional judaico”, e dotá-la com uma administração própria. O território que os sionistas pretendiam para estabelecer seu Estado era bastante mais vasto que a Palestina, pois abarcava também toda a parte oeste da Transjordânia, o planalto do Golã e a parte do Líbano a sul de Sudão. Mas, em 1921, os mandatários britânicos fizeram a partilha do território palestino, separando quase 80% para a criação de uma entidade árabe, chamada Transjordânia (que, com um território menor, se transformaria na futura Jordânia). O 20% restante seria destinado à criação do “lar nacional” do povo judeu.

Em 1931, vinte mil famílias camponesas palestinas já haviam sido expulsas de suas terras pelos grupos armados sionistas. No mundo árabe, a vida agrícola não era somente um modo de produção, como também uma forma de vida social, religiosa e ritual. A colonização sionista, além de retirar a terra aos camponeses, estava destruindo a sociedade rural árabe. Inglaterra, além disso, concedeu um estatuto privilegiado na Palestina ao capital de origem judia, lhe destinando 90% das concessões públicas, permitindo que os sionistas tomassem o controle da infraestrutura econômica.

Ficou estabelecido um código de trabalho discriminatório contra a força de trabalho árabe, que provocou desemprego em grande escala. Por esses motivos, desde o fim da Primeira Guerra Mundial, a rebelião árabe, inicialmente incitada pelos britânicos contra o Império Otomano, deixou de dirigir-se contra os turcos para apontar contra os novos colonizadores. Os primeiros choques importantes tiveram lugar em maio de 1921, entre manifestantes sionistas e árabes.

O Alto Comissário Britânico, Herbert Samuel, ele próprio judeu, em memorando ao governo britânico, sugeriu que se subordinasse a imigração judaica “à capacidade econômica do país de absorver novas chegadas, a fim de que os imigrantes não privassem de seu trabalho a nenhum setor da população atual”. Os enfrentamentos comunitários continuaram, cada vez mais agudos, durante toda a década. Em agosto de 1929, novos enfrentamentos provocaram 113 mortes entre os judeus e 67 entre os árabes. Em um segundo memorando publicado em outubro de 1930, Londres estimava que “diminuíra a margem de terras disponíveis para a colonização agrícola judaica”, e recomendava controlar a imigração dessa origem.

O mecanismo que provocou o aprofundamento da crise palestina se encontrava, porém, bem avançado, e escapava ao controle dos mandatários britânicos. Na década de 1920 se desenvolvera uma terceira onda (alliah) de imigração judia vinda do Leste europeu, canalizada para a Palestina. Em 1924, o governo norte-americano fez votar uma lei que restringia a imigração aos EUA, ao mesmo tempo em que o governo polonês do marechal Pilsudski adotava medidas econômicas internas antijudaicas. Isto provocou uma quarta alliah, ainda mais importante que as precedentes.

Logo o fluxo se reduziu: entre 1927 e 1929 deixaram a Palestina mais judeus dos que nela entraram. A recuperação da imigração datou de 1933, ano da ascensão de Hitler ao poder. Além dos judeus poloneses e de outros países da Europa central, a quinta alliah já incluiu numerosos judeus alemães. Em 1936 se assentaram 400 mil judeus na Palestina, a grande maioria azkenazes (judeus de tradição cultural germânica e língua yiddish). A criação da Transjordânia, sob o mando de um emir às ordens dos britânicos, completava o esquema político regional.

As cotas de imigração para os judeus foram estabelecidas a 16.500 ao ano; do final da Primeira Guerra Mundial até 1931 chegaram na Palestina mais 117.000 imigrantes judeus, não obstante a paralisação das imigrações devido à crise econômica mundial, que atingiu severamente a Palestina e provocou inclusive o retorno de muitos imigrantes recentes que não conseguiram se adaptar às duras condições de vida. Não cessaram de crescer os temores dos palestinos diante desta imigração e da perspectiva de se tornarem minoria em seu próprio país.

Em agosto de 1929, seguindo justamente a chegada de uma nova onda de imigrantes judeus, estourou a revolta árabe. O estopim da revolta foram as provocações dos sionistas “revisionistas” seguidores de Jabotinsky que desejavam aumentar o espaço reservado aos judeus no Muro das Lamentações.[xxii] Em meados de agosto centenas de jovens do grupo paramilitar revisionista, Betar, marcharam pelo bairro árabe de Jerusalém portando bandeiras sionistas azul e branco, armas e explosivos escondidos e cantando “o Muro nos pertence”, “Judá nasceu em sangue e fogo, em sangue e fogo ela se reerguerá”.[xxiii]

Na Polônia, onde se localizava a maior comunidade judaica da Europa, foram realizadas eleições locais em dezembro de 1938 e janeiro de 1939 em Varsóvia, Lodz, Cracóvia, Lvov, Vilnius e outras cidades. O Bund, a organização anti-sionista de trabalhadores socialistas judeus, recebeu 70% dos votos nos distritos judeus. O Bund conquistou 17 dos 20 assentos em Varsóvia, enquanto os sionistas conquistaram apenas um.

Em todos os territórios do Oriente Médio situados sob o mandato britânico ou francês, a repressão levada adiante pelas potências colonialistas foi brutal. De 1920 a 1926, os generais franceses Gouraud, Weygand e Sarrail submeteram Síria a uma ditadura militar, que provocou uma repressão sangrenta contra as massas árabes, que se sublevaram em várias ocasiões; os governantes estrangeiros provocaram conflitos procurando separar a população cristã dos muçulmanos. No Iraque, desde finais de 1919, se desenvolveu também uma revolta contra os britânicos, que explodiu durante o verão de 1920 na Thawra contra a instauração do mandato. Depois da sangrenta repressão, os britânicos decidiram substituir a administração colonial direta por um regime árabe, impondo Faisal (o destituído rei da “Grande Síria”) como rei do Iraque em agosto de 1921.

A luta árabe contra o mandato britânico na Palestina e contra a colonização sionista foi reprimida pelas tropas britânicas com a ajuda de milícias judias, em especial na década de 1930. Era uma aliança oportunista, produto do desespero: pouco depois da chegada ao poder do nazismo, o rabino Leo Baeck, líder da comunidade judaica na Alemanha, anunciou que “a história milenar do povo judeu-alemão chegara ao seu fim”. Sem alternativa aparente na Europa, muitos judeus europeus se aferraram ao salvavidas da emigração: fechadas as fronteiras dos EUA, da América Latina e até da China (uma forte comunidade judia tinha se instalado em Xangai), em virtude da crise econômica mundial (com os tradicionais países receptores alegando o desemprego) a Palestina sob o mandato britânico oferecia, não uma porta, mas ao menos uma fresta por onde os mais decididos poderiam passar.

Chaim Weiszman, o líder inglês do Congresso Mundial Sionista, fez uma turnê nos EUA, acompanhado de Albert Einstein, sendo recebido por grandes manifestações e atos públicos da comunidade judia desse país, a mais rica e livre de todas as comunidades judias do mundo. Weiszman buscava, e conseguiu, arrecadar importantes fundos para causa sionista no Palestina junto aos judeus norte-americanos, o que veio a fornecer uma base financeira sólida para a criação do futuro Estado de Israel.

Albert Einstein acompanhou a empreitada, mantendo-se bastante lacônico durante as manifestações: “O Einstein portavoz do sionismo dos anos maduros era profundamente sensível à cultura judia, apaixonadamente interessado pela conservação da identidade de seu povo e respeitoso de sua tradição intelectual; no que diz respeito à fé religiosa, nutria uma tolerância benévola, baseada na ideia de que não fizesse mais dano do que qualquer outra religião revelada”,[xxiv] uma atitude que demonstraria seus limites no final da década subsequente, depois da Segunda Guerra Mundial.

Em 1936, os judeus assentados na Palestina já eram 400 mil, oito vezes mais que em 1918, um crescimento resultado da nova onda de imigração, protegida pelas disposições do mandato. As potências vitoriosas na Grande Guerra, ao fechar suas fronteiras aos judeus que fugiam da Alemanha nazista, os canalizavam para a Palestina. Sobre que bases econômicas? O capital para o assentamento dos migrantes foi, em boa parte, obtido através do “Acordo Há’avara” (“acordo de transferência”), assinado em agosto de 1933 entre a Federação Sionista da Alemanha, o Banco Anglo-Palestino (agindo sob as ordens da Agência Judaica para a Palestina) e as autoridades econômicas da Alemanha nazista.

O acordo foi projetado para facilitar a emigração de judeus alemães para a Palestina: o emigrante pagava certo montante em dinheiro para uma empresa de colonização sionista, a título de investimento, e recuperava os valores pagos na forma de exportações alemãs para a Palestina. A Hanotea, empresa judia palestina de plantação de cítricos, captava dinheiro dos potenciais emigrantes, que deveria ser usado posteriormente, já na Palestina, para comprar produtos alemães. Os produtos eram despachados juntamente com os emigrantes judeus que, quando chegavam ao destino, recuperavam seu dinheiro. Sam Cohen, dirigente sionista polonês, representou os sionistas na negociação com os nazistas, a partir de março de 1933, quando Martin Buber escrevia: “Dentre todas as comunhões com os povos em que adentrou o judaísmo, nenhuma teve um resultado tão frutífero quanto a judia-alemã”, o que era já maIS uma lamentação desesperançada do que outra coisa.

A partir de 1933 houve uma campanha internacional de boicote aos produtos da Alemanha nazista, em razão de suas leis racistas. Enquanto organizações judaicas, sindicatos e partidos de esquerda apoiavam o boicote, os produtos alemães eram normalmente exportados para a Palestina, através do esquema da Ha’avara. A partir de 1935, foram assinados outros acordos semelhantes com a Alemanha nazista. A Há’avara colocava à disposição dos bancos na Palestina valores em marcos confiados por imigrantes judeus provenientes da Alemanha. Os bancos dispunham desses montantes para fazer pagamentos de mercadorias importadas da Alemanha, em nome de comerciantes palestinos. Os comerciantes pagavam o valor dessas mercadorias aos bancos e a Há’avara reembolsava em moeda local os imigrantes judeus.

Na Alemanha, o acordo do governo com os representantes sionistas funcionou regularmente até 1938; era conhecido como “transferência de capital para a Palestina”. Os migrantes judeus também podiam levar consigo certa quantia em dinheiro, mil libras esterlinas (em alguns casos, mediante permissão das autoridades do Estado nazista, até 2.000 libras). O acordo entre sionistas e governantes nazistas, além de permitir a saída de judeus da Alemanha, possibilitou a recuperação de boa parte dos ativos de que dispunham na Alemanha – apesar do imposto sobre a remessa de capitais para o exterior, correspondente a 25% sobre o valor transferido. 60 mil judeus alemães beneficiaram-se dessa cooperação entre organizações sionistas e autoridades do Estado nazista. Ao emigrar, levaram consigo 100 milhões de dólares (em torno de US$ 1,7 bilhões, em valores de 2009), recursos que serviram para lançar as bases da infraestrutura do futuro Estado de Israel.[xxv]

Protegido pelas disposições do “mandato”, o ainda não proclamado Estado Nacional Judeu (futuramente Israel) se administrava por si mesmo, com seu sistema de ensino, sua estrutura econômica e sua milícia legal, a Haganah.[xxvi] Logo que os imigrantes judeus se instalaram nas cidades, seu governo teve como política a aquisição de terras. Apesar de que uma grande parte do capital judeu se destinou a áreas rurais, e apesar da presença de forças militares britânicas e da imensa pressão exercida pela máquina administrativa em favor dos sionistas, estes só conseguiram resultados mínimos em relação à colonização da terra. No entanto, prejudicaram seriamente a situação da população árabe rural. A propriedade da terra urbana e rural por parte de grupos judeus passou de 300.000 dunums (26.800 hectares) em 1929 a 1.251.000 dunums (112.000 hectares) em 1930.

A terra legalmente adquirida pela Organização Sionista Mundial, porém, era insignificante desde o ponto vista de uma colonização massiva e da “solução do problema judeu (europeu)”. A apropriação de um milhão de dunums, quase um terço da terra cultivável na Palestina, no entanto, levou a um grave empobrecimento dos camponeses árabes.[xxvii] O objetivo sionista continuava minoritário entre as massas judias da Europa, em especial diante das perspectivas de emancipação e a influência da Revolução de Outubro, durante seus primeiros anos. Em A Orquestra Vermelha, Gilles Perrault descreveu o esqueleto da organização clandestina da Internacional Comunista, na Europa fascista, constituído basicamente por militantes de origem judia. O próprio Leopold Trepper, codinome do militante polonês que dirigia a célebre rede de espionagem soviética que deu título ao livro, era judeu polonês.[xxviii]

As organizações sionistas, de qualquer modo, continuaram aproveitando a infraestrutura administrativa e econômica que o mandato britânico pôs à sua disposição para acelerar a realização do projeto de criação do Estado judeu, e intensificaram a imigração à Palestina dos perseguidos judeus da Europa oriental e central. Em 1931 os judeus eram 174.610 de um total de 1.035.821 habitantes da Palestina. Em 1939, já eram mais de 445.000 para um total de 1.500.000 habitantes, e em 1946 (imediatmente depois do Holocausto judeu na Europa) atingiram finalmente o número de 808.230 de um total de 1.972.560 habitantes. Por outro lado, o Fundo Nacional Judaico, isto é, o fundo da Organização Sionista Mundial para a compra e o desenvolvimento de terras palestinas, intensificou suas aquisições. Estas se tornaram “propriedade eterna do povo judaico”, inalienável, que só poderia ser arrendada a judeus.

No caso das explorações agrícolas, até a mão de obra devia ser exclusivamente judia (origem dos kibbutzim). Por fim, o sionismo criou em pouco tempo a estrutura do futuro Estado, inclusive com um exército (cuja base foi a milícia Haganah), conquistando seu espaço mediante o incentivo à imigração, a compra de terras de proprietários árabes feudais ausentes e a expulsão dos trabalhadores árabes da terra. As instituições fundamentais de Israel (o partido hegemônico, Mapai, trabalhista, a central dos trabalhadores com funções mais amplas do que a de uma simples central sindical, a Histadrut, reservada aos trabalhadores judeus, o núcleo do exército, a Haganah, a universidade etc.) foram erguidas bastante anos antes da criação do Estado de Israel.

Uma minoria entre os judeus religiosos da Europa central e oriental aceitou colaborar com os sionistas. O movimento sionista, no entanto, evitava o termo “Estado”, falando de “lar nacional” ou de “pátria”, para não exacerbar a oposição turca ao projeto. Foi nesse período que o Egito testemunhou e sediou o nascimento do islamismo político contemporâneo, que não era só uma resposta religiosa à persistência da situação semicolonial do país.

Com a vitória da Revolução de Outubro de 1917 o governo bolchevique lançara um chamado pela paz democrática sem anexações, baseada no direito de autodeterminação para todas as nações, com a anulação da diplomacia secreta dos países imperialistas, que através dela dividiam entre si os espólios dos impérios derrotados na Primeira Guerra Mundial. O contexto árabe mudava rapidamente: foi o contexto da crescente influência comunista no Oriente, aliada ao crescente fracasso do nacionalismo laico, que condicionou o surgimento (ou melhor, ressurgimento, pois suas bases iniciais tinham sido lançadas, como vimos, no final do século XIX) do islamismo político.

O Islã, em todas suas (numerosas) vertentes, foi fortemente influenciado pela revolução soviética. O novo islamismo político podia ser visto tanto como um empreendimento dirigido a revigorar a religião islâmica diante dos desafios de uma nova era histórica, como também como uma reação contra a influência crescente do comunismo (marxismo) ao amparo da revolução soviética, que promovia (com enormes dificuldades políticas) a emancipação nacional das regiões com populações majoritariamente islâmicas do antigo império czarista, um processo que levou à criação do Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão soviéticos.

A gênese contemporânea do islamismo como movimento religioso-político esteve estreitamente relacionada com a queda do Império Otomano e a abolição do califado pelos “jovens turcos”, e com o fracasso do nacionalismo laico egípcio, a exemplo do partido Wafd. Assim, no final da década de 1920, o professor Hassan Al-Bana criou no Egito a Irmandade Muçulmana, com o objetivo programático explícito de aglutinar o mundo muçulmano numa comunidade muçulmana transnacional (umma). A Irmandade propunha uma “reforma” que deveria restaurar princípios morais islâmicos destinados a se impor em todos os aspectos da vida social. Para Al-Bana, a reforma devia consistir em uma “formação do indivíduo muçulmano em primeiro lugar, depois a família ou o lar muçulmano, depois da sociedade muçulmana, depois do governo, do Estado e da comunidade muçulmana”.[xxix]

Cada aspecto da vida social deveria ser “islamizado”, essa era a “missão sagrada” da Irmandade Muçulmana, que se recusou a adotar uma forma legal de organização, seja como partido político (forma considerada como ocidental, ou não islâmica) ou como simples associação cultural, que poderia ser controlada pelo governo. O fato do islamismo político vir a preencher o vazio deixado pelo fim do Império Otomano e por um nacionalismo árabe impotente não significa que preenchese um papel histórico progressista, e menos ainda um papel de superação de um nacionalismo estreito, substituído por uma sorte de “internacionalismo islâmico”: foi, antes do mais, um movimento de natureza reacionária, que iria descambar no clericalismo, dirigido contra a influência árabe e oriental da revolução soviética e do internacionalismo comunista.

É necessário, além disso, distinguir entre o conceito de “islamismo político” e o de “fundamentalismo”, sendo o primeiro composto pelos movimentos e partidos que tem no Islã a base de uma ideologia política, enquanto o “fundamentalismo” é um movimento teológico que surgiu no Egito no começo de século XX, dirigido a uma volta aos fundamentos do Islã nos seus textos sagrados.[xxx] O conceito de “fundamentalismo islâmico” veio a designar a aspiração para a instauração de um Estado Islâmico, a introdução da shariah, do direito islâmico e do seguimento das normas de Maomé e dos primeiros califas, sem renunciar aos benefícios da técnica moderna. O termo “fundamentalista” (usuli) existia no Islã desde há muito tempo: a palavra designava os acadêmicos da ilm al-usul, a ciência que se dedica ao estudo do fiqh (direito islâmico). O elemento decisivo da reviravolta política fundamentalista não era religioso, mas político.

O clima político internacional na década de 1920 estava marcado pela revolução soviética e pela perspectiva de sua expansão ocidental (europeia) e oriental (afro-asiática). Alguns clérigos do Islã, radicalizados durante a luta anti-imperialista no subcontinente indiano, fizeram nesses anos, sob essa influência, uma interpretação “esquerdista” do Islã, que o islamismo político veio a combater. O impacto da revolução bolchevique era enorme na Índia submetida ao Império Britânico, inclusive na Índia muçulmana. Durante os primeiros anos da revolução soviética, o clérigo islâmico-indiano Maulana Obaid-ou-llah Sindhi viajou para a União Soviética para entrevistar-se com Lênin. Em 1924, Maulana Hasrat Mohane, outro mullah, foi eleito primeiro secretário geral de Partido Comunista da Índia.

O poeta islâmico-nacionalista Iqbal escreveu longos poemas que elogiavam Lênin e os bolcheviques. Em um dos versos disse que Marx era um profeta que teve também um livro, como Maomé, mas não de caráter profético. Essa situação influenciou o islamismo político moderno que foi, a partir de sua fundação, uma presença constante na luta política das nações árabes: apesar de basear-se no passado islâmico e nos símbolos tradicionais, o idioma e as políticas dos fundamentalistas se constituiu como uma forma de ideologia contemporânea, que usava os tópicos tradicionais ou clássicos com fins políticos claramente contemporâneos e com formas emprestadas das ideologias modernas.

As linhas gerais dessa ideologia foram traçadas no Egito nas décadas de 1920-1930 e buscavam, em primeiro lugar, estabelecer uma linha de contenção e combate contra a crescente influência da revolução soviética, daí que fosse visto, pelo menos inicialmente, com um olhar favorável tanto pelas potências estrangeiras dominantes no mundo árabe quanto pelas elites econômicas e políticas locais. A depressão econômica mundial da década de 1930 provocou um declínio do comércio interno e externo do Oriente Médio: as viagens e o turismo decaíram, incluindo as peregrinações religiosas à Meca.

O número anual de peregrinos caiu notavelmente, afetando todo o comércio do Mar Vermelho. O fenômeno acabou tendo repercussões nas políticas coloniais das potências europeias. Lembremos que a França ocupara a Síria em 1920; que em 1926 o Iraque fora submetido ao mandato britânico, e que, finalmente, em 1927 as conquistas territoriais de Abdulaziz Ben Saud na Península Arábica foram reconhecidas pela Grã-Bretanha.

A monarquia saudita surgira no século XVIII com o reformador religioso Abd al-Wahab na parte central do deserto de Nejd, com o apoio dos Al-Saud. Essa aliança, que combinava as guerras dos beduínos com o puritanismo religioso, acabou dominando a maioria da península árabe. Os wahabitas também acreditam que seria necessário viver de acordo com os ditames estritos do Islã, que eles interpretavam como a vida de acordo com os ensinamentos do profeta Maomé e os seus seguidores durante o século VII, em Medina. Consequentemente, eles se opunham a muitas inovações religiosas, incluindo o minarete, as sepulturas, e mais tarde as televisões e rádios.

Os wahabitas também consideravam que os muçulmanos que violavam as suas interpretações eram heréticos. O rei saudita Abdulaziz Ben Saud, que em 1902 partira do Kuwait com um reduzido exército a pé ou montado em poucos camelos, para reconquistar para sua família a cidade amuralhada de Riad, no planalto central da península, teve no vácuo econômico-político-militar criado pela crise econômica internacional (iniciada em 1929) e na crise geopolítica regional decorrente boa parte das condições de sua vitória.

O emirado, pobre e escassamente povoado, pertencera no passado aos Al-Saud, que haviam sido depostos e expulsos dele várias vezes pelos egípcios e pelos otomanos. Depois de 52 “batalhas” (a maior parte das quais não passou de pequenos enfrentamentos entre grupos escassos de soldados irregulares, desnutridos e mal armados) Abdulaziz conquistou a cidade e, com ela, toda a região, proclamando em 1932 o novo reino dos sauditas.

O mundo, incluído o mundo empresarial, não imaginava, nessa altura, que acabava de ser criada a base política-estatal para o futuro maior produtor de petróleo do planeta. Com a união de Nejd e Hejaz no oeste da península foi estabelecido o Reino de Arábia Saudita.[xxxi] Quando o rei Abdulaziz Ben Saud fundou o novo reino, ele trouxe consigo os wahabitas para o poder.[xxxii]

O abalo geral do mundo árabe-islâmico se completou com o ingresso na concorrência colonial das potências marginalizadas dela. Três anos depois da proclamação da Arábia Saudita, a guerra ítalo-etíope foi uma típica guerra pela expansão colonial da Itália, começada em outubro de 1935 e terminada em maio de 1936. A guerra travada entre o Reino da Itália e o Império Etíope (também conhecido como Abissínia) resultou na ocupação militar da Etiópia, na prisão do rei Haile Selassie (dando fim ao único governo negro do mundo, à época), e na anexação do país à recém-criada colônia da África Oriental Italiana; além disso, expôs a inadequação da Liga das Nações para a manutenção da paz.

A Liga afirmava que trataria todos seus membros como iguais, no entanto, garantiu às grandes potências maioria no seu Conselho. Tanto a Itália quanto a Etiópia eram países membros da organização, mas a Liga nada fez quando a guerra claramente violou seu estatuto. O diplomata-historiador inglês Edward Hallet Carr criticou abertamente a “ordem internacional” baseada na Liga, dizendo que era uma ilusão pensar que nações fracas e desarmadas pudessem deter algum poder numa arena mundial dominada pelas potências. Edward H. Carr reformulou “diplomaticamente” as críticas de Lênin à natureza imperialista da Liga, na qual as decisões eram tomadas e o poder era exercido pelas grandes potências, em detrimento da suposta “igualdade jurídica” existente entre as nações, que não passava de uma encenação cínica. As nações menores seguiam ou sofriam pressão para seguir as maiores.[xxxiii]

As riquezas petrolíferas do Oriente Médio desempenhavam já papel determinante na atitude política das potências na região. Em 1908, concessionários britânicos descobriram uma primeira bacia no Irã e no Iraque. As negociações franco-britânicas sobre a divisão do Oriente Próximo giraram, em boa medida, em torno à sorte da antiga Turkish Petroleum Company. Em 1931 a Standard Oil dos EUA descobriu petróleo na Península Arábica e obteve, em 1933, uma concessão que abarcava o conjunto da Arábia Saudita, logo depois da proclamação e reconhecimento internacional do novo país, um acontecimento cujo alcance não foi estimado em toda a sua amplitude até depois de 1945.

Na primeira metade do século XX, o mercado internacional de petróleo foi dominado pelas “sete irmãs”, das quais cinco eram norte-americanas: Standard Oil de New Jersey, agora conhecida como Exxon; Standard Oil da Califórnia, agora conhecida como Chevron; Gulf, agora parte da Chevron; Mobil Oil e Texaco; uma era britânica (a British Petroleum) e uma anglo-holandesa (a Royal Dutch-Shell).[xxxiv]

Essas empresas, primeiramente, ganharam controle de seus mercados domésticos através da integração vertical (controle de oferta, transporte, refinamento, operações de mercado, além de tecnologias de exploração e refinamento) e se expandiram para mercados estrangeiros, nos quais obtiveram condições extremamente favoráveis. Tal oligopólio foi capaz de dividir mercados, estabelecer preços mundiais e discriminar contra terceiros. A época de maior dificuldade para as “sete irmãs” foi a da “grande depressão” econômica da década de 1930, durante a qual os preços caíram sensivelmente.

O oligopólio tentou controlar (garantir um piso) para os preços internacionais, mas sem sucesso. Os Estados Unidos, que já eram os maiores produtores mundiais, exportavam petróleo para a Europa e outras regiões e foram bem sucedidos em criar patamares de preços mínimos através da regulação da produção. O estado do Texas, o maior produtor de petróleo nos EUA, e especialmente sua Railroad Comission, foram particularmente influentes neste processo. A partir dessa plataforma econômica e produtiva, e da consciência da importância do controle do fornecimento mundial de energia, os EUA passaram a considerar a necessidade de uma presença permanente e hegemônica no Oriente Médio e no mundo árabe, que os levaria a tecer, com o tempo e até o presente, uma aliança privilegiada com Israel, depois do projeto sionista vingar através de uma resolução da ONU de maio de 1948, que deu lugar à expulsão da grande maioria dos palestinos de seu território histórico.

*Osvaldo Coggiola é professor titular no Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de Teoria econômica marxista: uma introdução (Boitempo). [https://amzn.to/3tkGFRo]

Notas


[i] Hannah Arendt. As Origens do Totalitarismo. São Paulo, Companhias das Letras, 2012.

[ii] James Parkes. Antisemitismo. Buenos Aires, Paidós, 1965.

[iii] Amos Elon. La Rivolta degli Ebrei. La storia di Theodor Herzl e del ritorno degli ebrei in Palestina. Milão, Rizzoli, 1979.

[iv] Victor Karady. Los Judíos en la Modernidad Europea. Madri, Siglo XXI, 2000.

[v] Arno J. Mayer. A Força da Tradição. A persistência do Antigo Regime. São Paulo, Companhia das Letras, 1987.

[vi] Danielle Rozenberg. L’Espagne Contemporaine et la Question Juive. Toulouse, Presses Universitaires du Mirail, 2007.

[vii] Amos Elon. La Rivolta degli Ebrei, cit.

[viii] Ralph Schoenman. Historia Oculta del Sionismo. Barcelona, Marxismo y Acción, 1988.

[ix] Moses Hess. Rome et Jérusalem. Paris, Albin Michel, 1981.

[x] Arthur de Gobineau. Essai sur l’Inégalité des Races Humaines. Paris, Pierre Belfond, 1967 [1853-1855].

[xi] Os termos “ariano” e “semita” designam origens linguísticas diversas, não diferenças “raciais”: toda definição racial ou “étnica” a partir deles é perfeitamente descabida.

[xii] Norman Cohn. El Mito de la Conspiración Judía Mundial. Madri, Alianza, 2010.

[xiii] Alain Gresh e Dominique Vidal. Palestine 1947. Une division abortée. Bruxelas, Éditions Complexe, 2004.

[xiv] A epopeia dos judeus instalados no litoral originou um clássico da literatura argentina, Los Gauchos Judíos, de Alberto Gerchunoff.

[xv] Renée Neher-Bernheim. Histoire Juive de la Révolution à l’État d’Israël. Paris, Seuil, 2002.

[xvi] Victor Karady. Los Judíos en la Modernidad Europea, cit.

[xvii] Henri Minczeles. Histoire Générale du Bund. Um mouvement révolutionnaire Juif. Paris, Denöel, 1999.

[xviii] Isaac Deutscher. O Judeu não Judeu e Outros Ensaios. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1970, p. 108.

[xix] Otto Bauer. La Cuestión de las Nacionalidades y la Socialdemocracia, cit. Otto Bauer (1882-1938) foi um dos dirigentes da socialdemocracia austríaca e da Segunda Internacional e um dos ideólogos do “austromarxismo”, autor da teoria da “autonomia cultural nacional”.

[xx] Leonard Stein. The Balfour Declaration. Londres, Vallentine and Mitchell, 1961.

[xxi] O último discurso radiofônico gravado de V. I. Lênin, de 1923, foi um chamado aos operários da URSS e de toda Europa para combater o antissemitismo, denunciado como um fator de divisão da classe operária e antevisto pelos bolcheviques como potencial base ideológica e política de um movimento reacionário de vastas dimensões em todo o continente europeu, não apenas na Rússia.

[xxii] O local é considerado sagrado tanto por judeus como muçulmanos. Para os primeiros, constitui o Muro ocidental (Kotel Maarivi) do Templo destruído pelos romanos nos tempos de Herodes; para os segundos, é o local onde supostamente Maomé montou o seu cavalo (Al Boraq) para subir ao céu.

[xxiii] Bárbara J. Smith. The Roots of Separatism in Palestine. British economic policy 1920-1929. Nova York, Syracuse University Press, 1992.

[xxiv] Ronald W. Clark. Op. Cit., p. 43.

[xxv] Francis R. Nicosia. The Third Reich & the Palestine Question. Nova Jersey, Transaction, 2000.

[xxvi] Claude Franck e Michel Herszlikowicz. Le Sionisme. Paris, PUF, 1984.

[xxvii] Lucien Gauthier. As origens da divisão da Palestina. A Verdade nº 8, São Paulo, julho de 1994.

[xxviii] Gilles Perrault. La Orquesta Roja. Buenos Aires, Sudamericana, 1973.

[xxix] Pierre Guchot (ed.). Les Frères Musulmans et le Pouvoir. Paris, Galaade, 2014.

[xxx] Segundo Abdullah bin Ali al-‘Ulayyan, “apesar das diferenças mínimas no significado do termo “fundamentalismo”, no Ocidente e no Islã, o pensamento ocidental permanece prisioneiro de sua experiência histórica e de seu longo conflito com o fundamentalismo cristão”. A visão “paroquial” do Ocidente não teria base na realidade, porque o “fundamentalismo”, de acordo com o Islã, seria o oposto ao imaginado no Ocidente. Os escritos de Samuel Huntington seriam típicos dessa tendência: “O Ocidente tem muito da responsabilidade por fortalecer o entendimento do “fundamentalismo islâmico” nos mesmos moldes do fundamentalismo cristão do século XVIII”.

[xxxi] Robert Lacey. Le Royaume. La grande aventure de l´Arabie Saoudite. Paris, Presses de la Renaissance, 1982.

[xxxii] Isto aconteceu um ano antes do primeiro acordo de exploração do petróleo estabelecido pelo reino saudita com a Standard Oil de Califórnia, que começou a extrair petróleo dois anos depois: o reino wahabita ficou economicamente poderoso já no seu nascedouro.

[xxxiii] Edward Hallet Carr. Vinte Anos de Crise 1919-1939. Brasília, UnB, 2001.

[xxxiv] André Nouschi. Luttes Petrolières au Proche-Orient. Paris, Flammarion, 1970.


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