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Eliane Elias

LEDA CATUNDA, A Vitrine, 1984, acrílica s/ pelo artificial, 200x400cm
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Por LUCAS FIASCHETTI ESTEVEZ*

Comentário sobre a apresentação recente da pianista e cantora

No último sábado, 18 de março, a pianista e cantora Eliane Elias, acompanhada do contrabaixista Marc Johnson, deu início à Festa Internacional do Piano da temporada 2023 na sala São Paulo. Brasileira radicada nos Estados Unidos, Eliane Elias volta ao Brasil como uma das pianistas mais proeminentes do jazz contemporâneo. Com uma carreira que totaliza 31 álbuns, a artista já se apresentou em mais de 75 países e conquistou diversos prêmios internacionais. Recentemente, foi laureada com o Grammy de Melhor Álbum de Jazz Latino, com o trabalho Mirror Mirror (2022), uma parceria com Chick Corea e Chucho Valdés.

Durante mais de uma hora, o palco da Sala São Paulo cedeu espaço a uma prática pianística que faz da aversão às formas fechadas sua maior virtude – nas palavras da própria artista, um espetáculo de “caráter improvisatório”. Eliane Elias, com o apoio imprescindível de Marc Johnson, deslizava pelo interior de diferentes gêneros, temporalidades e geografias do jazz. Embora seja comumente descrita como uma artista que carrega a herança da bossa-nova, da dita “música latina” e do jazz norte-americano, devemos ir além de tal caracterização: Eliane Elias demonstra como essa constelação de múltiplas influências só faz sentido quando a própria separação entre um estilo e outro é abolida.

Vide, por exemplo, a inclassificável The Time Is Now, que animou o público. Como num rio agitado, ali tudo se confunde sem que isso resulte numa perda de sentido musical. Pelo contrário: um tema de bossa-nova, temperado com acentos tipicamente caribenhos, executados através da mais ágil improvisação jazzística dão o tom de uma música que faz do constante deslizamento entre estilos sua virtude, o que a coloca numa posição oposta ao padrão musical hegemônico. Eliane Elias demonstrou muito bem essa espécie de “bom atrevimento” na excelente performance de B Is For Butterfly, uma composição própria na qual a parceria com Marc Johnson encontra um de seus pontos altos. No contrabaixo de seu parceiro, os intensos glissandos se associam ao gesto de deslizamento de Eliane, exemplo de uma espécie de mutualismo ideal entre os dois.

Em sua extensa carreira, Eliane Elias conta com álbuns onde alia sua interpretação vocal com o piano, como é o caso de Made In Brazil (2015) e Dance of Time (2017). Por outro lado, a força de sua prática pianista se destaca de forma proeminente em álbuns instrumentais mais ousados, nos quais encontramos sua liberdade improvisatória aflorar. Em Holding Together (1999), da época em que integrava o grupo Step Aheads, notamos como a pianista também se sente muito à vontade em um jazz mais aberto e sem compromissos com atalhos e clichês.

Em Music from Man of La Mancha (2018), por sua vez, as influências caribenhas percorrem muitas das faixas. Já em Solos And Duets (1994), um álbum à quatro mãos com Herbie Hancock, nos deparamos com um dos melhores momentos de sua carreira. Em Asa Branca, a famosa passagem que abre a música de Luiz Gonzaga por vezes serve de referência distante, quase irreconhecível. Aos poucos, entretanto, ela alcança a superfície musical. No instante seguinte, já submerge de novo numa complexa trama improvisatória, que honra o tema por submetê-lo ao teste da elaboração artística contínua.

Na noite de sábado, o público pôde presenciar esse mesmo modus operandi na execução de I Love My Wife, numa prolixa reinterpretação da versão de Bill Evans. Em tais músicas, as velhas canções são mediadas a cada compasso por um trabalho antiformalista que tem como única intençãoproduzir algo novo e instável, que faz da performance um ato de reinvenção da tradição, que está lá para ser virada de ponta cabeça.

A apresentação foi coroada com uma excelente performance de Desafinado, especialmente na longa improvisação introdutória de Eliane Elias sobre o famoso tema de Tom Jobim. Nesse final, também merece destaque a breve troca de Marc Johnson do pizzicato pelo arco, num lírico momento em que o entrosamento entre os dois artistas se revela ainda mais profundo – uma linguagem sem amarras, uma espécie de conversa musical sem os interditos da música padronizada.

Em seu último álbum, Quietude (2022), Eliane Elias já adiantava sua volta ao Brasil misturando sua voz ao piano, reinterpretando clássicos bossanovistas. Em determinada altura de Brigas nunca Mais, o verso inicial serve de luva ao retorno da pianista ao Brasil. Naquele palco paulistano, Eliane Elias “chegou, sorriu, venceu e depois chorou”.

*Lucas Fiaschetti Estevez é doutorando em sociologia na USP.

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