A parte maldita da economia política

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Por MARCEL ALENTEJO DA BOA MORTE & LÁZARO VASCONCELOS OLIVEIRA*

A crítica da economia política do signo revela que objetos e corpos, na orgia da classe ociosa, não satisfazem necessidades — validam hierarquias raciais e selam a endogamia do poder sob a fantasia da pureza ocidental

“Trata-se de decifrar o nascimento da forma/signo, tal como Karl Marx, na Crítica da economia política, pôde decifrar o nascimento da forma/mercadoria” (Jean Baudrillard”.

“Eu nunca pensei que nada assim poderia acontecer nos EUA. O único crime que cometi foi defender a nação daqueles que buscam destruí-la” (Donald Trump).

Semiótica da ociosidade

Na costa da Ilha, distante de qualquer panóptico, um templo branco pintado com linhas horizontais azuis é adornado pelo símbolo estatuário de Poseidon. Esse monumento inspirado na Hammam Yalbugha, semioticamente, estabelece as raízes ocidentais naquilo que seria um espaço neutro, sem história, uma ilha. Ao adentrar em seu interior, os objetos revelam uma outra lógica, outro valor, que não aparece nas grandes teorias clássicas do capitalismo.

Não se sabe ao certo se no centro do vultoso templo marítimo, encontra-se a caixa de pandora da riqueza humana, ou o segredo do rentismo do capitalismo contemporâneo. Os objetos em meio ao templo representam o valor simbólico, esse diferente valor, que implode ao menos as teorias que entendem as elites econômicas como condição sine qua non para a produção de valor.

Este outro valor é o que talvez revele neste espaço mágico, em que todos desejos de consumo são atendidos, a incógnita da sinestesia das novas classes capitalistas, por ser, senão, um niilismo total. O mais escabroso niilismo das classes ociosas, de maneira que, ainda que tudo possa ser consumido, impera-se a falta.

Quais instrumentos teóricos são necessários para desvendar esse mistério? O caminho mais sólido parece ser compreender como as classes se constituíram historicamente, e nisso a crítica marxista nos auxilia. Ela mostra que o modo de produção capitalista se formou por meio da expropriação e espoliação tanto no centro quanto na periferia. Ademais, que se deve precaver com a tese da emergência virtuosa da acumulação primitiva, não só como fábula genealógica mas também como atual descrição da acumulação e centralização de capital.

É errôneo também considerar que a guerra, sob esse modo de produção, seria temporária ou derivada de incompetência administrativa e diplomática, por conseguinte que o atual estágio – globalizado e financeirizado – preveniria tais ações belicosas. A expansão do capital é senão o mercado da guerra e colonização, as atuais associações com a gestão de políticas genocidas e regime change reforçam essa tese.

A dinâmica global da sociedade capitalista é delimitada pelo valor, que é sua característica particular. Ela se desenvolveu para um sistema financeiro monopolista que, junto ao aperfeiçoamento técnico do último século, diluiu a categoria de produtividade, descolando a produção do mais-valia e valor. Duas coisas se sucedem desse processo: a ampliação do que pode ser transformado em mercadoria, e uma intensa expansão e centralização mundial do poder.

Assim, as análises que dissociam o global do local não explicam as grandes lutas internas e externas das nações, mas resta a dúvida do que “…actualmente pode tornar a captar a análise de Marx a um nível global?” (p. 145) senão a análise do consumo através dos seus signos particulares?

Alguns fenômenos pressionam a teoria ao ponto de evidenciar fissuras no campo que, dificilmente serão reparadas na antiga crítica da economia política. O atual escândalo é um exemplo que não pode ser colocado como um simples esquema de poder da alta sociedade. A conexão com complexas redes criminosas – envolvendo setores distintos da sociedade civil – e as questões raciais dominantes no pensamento dessa elite não podem mais ser colocados como aspectos secundários. Elas não estão ligadas às classes, mas estão no que integra as classes.

A teoria marxista descreve parcialmente as leis do valor na sociedade capitalista, e em consequência, somente algumas das condições materiais de reprodução das classes. É válido que elas sejam determinadas com relação a sua posição na relação de produção e apropriação do excedente da riqueza. Não obstante, é preciso compreender suas formas de diferenciação para explicar algumas dessas insuficiências descritivas.

Outras ausências dependem que as aporias da economia política sejam reformulados no que concerne às contradições inerentes e os conflitos das classes. Portanto, é preciso superar as antigas categorias, aprofundando-a com suas outras determinações. Um possível modo iniciar a primeira tarefa – a saber, da diferenciação – é por meio da inquirição da linguagem das únicas testemunhas restantes, os objetos.

Jean Baudrillard apostava no desentranhamento da crítica da economia política em novos sistemas e modos de produção. Para ele a mass production exauriu o valor de uso e de troca. Os objetos por meio da semiologia dão acesso aos códigos de uma subdimensão dessas classes, cuja análise subsequente não poderá ser realizada através da psicologização dos indivíduos, tampouco numa investigação dos desejos exóticos de um segmento da elite.

O primeiro método restringe a análise ao discurso do patológico, enquadrando como individual aquilo que é somente uma parte da estrutura; no segundo, seríamos levados a entender o fenômeno como somente um distúrbio, um desvio moral.

Para não reduzir o entendimento ao subconsciente de cada integrante, o fenômeno deve ser explorado, na semiótica, por meio do consumo; isto porque o consumo enquanto uma instituição social coercitiva e não uma gratificação social, adentra a substância psicológica, mas não se limita a ela. Ademais, deve-se abstrair da cena todas as figuras, pois apenas quando “os objetos se encontram autônomos, que surgem diferenças e assim se tornam (relativamente) sistematizáveis, que se pode falar de consumo e de objetos substituíveis” (p. 62).

É absurdo, à primeira vista, entender os objetos enquanto independentes da agência humana, como se as leis que a economia política descreve lhe fossem inerentes, tal como as propriedades da matéria, mas é exatamente essa abstração da “pura relação” autônoma que eles são. Vivemos sob relações de objetos. Inversamente do que possa parecer, são eles que também “discursam” sobre as classes.

A classe dominante dos crimes é um entrecruzamento de grupos que se estende dos resquícios das antigas aristocracias europeias até os investidores dos novos setores emergentes do capital, que já não estão diretamente conectados à produção de valor e mais-valia. A completeza da avaliação requer compreender a formação desses variados grupos (genealogia e reprodução do seu poder global), e assim identificar seus conflitos e associações. O tratamento é mais complexo do que pode ser feito neste ensaio; não impedindo, porém, que sejam traçadas suas similitudes, que para o propósito é o suficiente.

Essas elites apresentam uma característica em comum, dependem do dispêndio (destruição) do valor para se constituir; como na teoria das classes ociosas de Theodor Veblen em que elas “têm primeiramente como função trabalhar e produzir, têm simultaneamente como função (e, quando mantidas na ociosidade, como única função) ostentar o standing do Senhor” (p. 13).

É nessa relação entre os objetos que o dispêndio excêntrico e excessivo não pode ser percebido como um evento particular. A prodigalidade compõe aquilo que discrimina a classe, cujo entendimento requer uma análise da lógica dos objetos. Nesse sentido, cabe a pergunta “o valor de uso ainda teria sentido tendo em vista que os objetos não possuem mais necessidade, i.e, são usados para preencher um vazio e satisfazer uma pulsão?” (p. 67).

Não se trata, como faz Jean Baudrillard, de subverter a noção de necessidade como abstrata, mas um reposicionamento diante das unilateralidades de ambas as críticas com relação ao conceito. É neste vínculo comum entre rentismo, poder hereditário e dispêndio simbólico que essas classes se encontram para decidir o futuro e concretizar suas hiperstições geopolíticas mundiais, seja na produção de dossiês das classes burocráticas, quanto na construção de redes de capital social para especulação financista contra o terceiro mundo.[i]

Diante da contradição da necessidade, surgem diversas teses que tentam restabelecer uma relação racional entre os atos hediondos e a finalidade dos agentes. Essa simulação funcional somente nos distancia da compreensão do fenômeno. Há uma finalidade e necessidade.

Contudo, elas atuam como um álibi naquilo que a ontogênese dos objetos pode nos revelar; que é na função social distintiva dos objetos que está associada a substância psicológica, em que o ócio dessas classes opera “como material de troca e de significação. Tal como acontece com a parte maldita de Georges Bataille, ele [o objeto] ganha valor na própria troca ou na destruição; e o lazer é o lugar desta operação simbólica” (p.76).

O cardápio de mulheres, pianos, esculturas, estofados, o quadro preto e as obras de arte, não fazem outra coisa senão significar a transcendência do êxito econômico. Os artigos polidos e envernizados comprimem num mesmo espaço a contradição moral de dois ethos em conflito, um do mérito puritano e outro da pura prodigalidade aristocrática. Eles são uma duplicidade, uma redundância estatutária da conspicuous morality.

Jean Baudrillard estabelece ironicamente, citando a teoria da comunicação two-step-flow, essa relação de equivalência entre objetos de consumo (necessidade) e padrões de condutas morais. Os objetos não só sinalizam o status, mas também validam a moralidade do grupo. Como a figura da dona de casa que aparece na mass production representando essa relação essencial entre o interior do lar e o feminino. Assim, a identidade é moldada sob a sociedade de consumo e seus papéis.

A ironia da cibercultura diante do caso está na diluição total do real, de modo que os crimes executados, ainda que escancarados em carne crua ou leiloada, incidem nos tokens viraisda cibercultura; O moletom azul marinho, os relógios falsos, a moda e a própria conspiração. Das máquinas estatais, são os segredos de Estado e tão somente eles que importam. E a crítica da economia política? Se esvazia em um espaço-tempo constituído pela parte maldita, em que “a exploração econômica e a dominação “de classe” não sejam mais, no fundo, que uma variante “histórica” e um desvio na imensa genealogia das formas da dominação social” (p. 138).

O leilão é senão Wall Street e seus juros derivados, a Ilha, o desmembramento do espaço-tempo da velha fábrica, “não: não se trata aqui da reprodução alargada do capital e da classe capitalista; trata-se da produção de uma casta pela graça colectiva de um jogo de signos e da produção desses signos pela destruição do valor econômico” (p. 137).

O leilão de carne humana

O capitalismo possui pilares essenciais além da expropriação e privatização das terras, que inauguram uma relação social baseada na troca de mercadorias, como a economia sexual de gênero e raça. Todavia, a questão do parentesco foi dissociada das trocas enquanto campos distintos que não deveriam se interpenetrar, constituindo posteriormente o discurso da identidade e do Estado.

O sujeito moderno como categoria baseou-se em duas formulações: a filosofia kantiana e a aristotélica, isto é, genealogia e lógica; e o que Claude Lévi-Strauss definiu como tabu do incesto foi elevado a uma das lógicas do Estado-nação, sendo a prática política colonial regida através da endogamia patrilinear.

A modernidade constituiu a dinâmica de exportação de instabilidade social da metrópole para o terceiro mundo, de forma que a internacionalização econômica ocorria paralelamente ao fortalecimento de práticas xenofóbicas (de cunho nacionalista) baseadas em laços de parentesco, preservando a concentração do poder político e econômico em um grupo étnico fechado e sedentário. Reavaliando as leis com base nesses fatos nota-se um dilema na compreensão da dinâmica da expansão do capital, que não altera somente os modos das relações da produção da riqueza e partição do excedente, mas também compreende uma expansão exogâmica do outro, absorvendo-o e excluindo-o.

A teoria marxista compreende dialeticamente como essas classes metropolitanas se constituíram e se reproduziram materialmente, e nisso avança consideravelmente. Todavia, ela leva somente a metade do percurso, já que a endogamia fica eclipsada pela exogamia das trocas.

Além disso, utilizando-a como instrumento entenderíamos a ilha como somente um espaço de fruição ao lado de uma ordem racial, o que argumentamos ser inadequado. É preciso chegar mais próximo. Avançamos ainda mais quando identificamos que a crítica à economia política do signo desvenda características dos objetos como valor-signo, mas tampouco esgota sua totalidade.

A ausência explicativa na articulação dos objetos reside no fato que, na interação há também um corpo antropomórfico que, contraditoriamente, deveria cindir a relação, e ainda assim a sustenta. Quais juízos podem ser feitos sobre o corpo que é o objeto privilegiado, que funciona como o postulado dos sujeitos, e que mesmo não possuindo um equivalente é consumido e trocado numa economia da morte? Esse corpo genérico está submetido a uma extração total que não se encerra nem no simbólico nem na troca; portanto, ainda que intimamente relacionado ao valor, não é descrito por essas leis.

Esses limites impõem a emergência de uma nova lente, que justapõe no objeto dimensões distintas: a classe, o consumo e a raça. Evidentemente, isso não poderá ser feito sem as ressalvas das contradições internas das metodologias que serão utilizadas, não impedindo que por ora elas sejam contornadas. Pode-se traçar o que essa nova compreensão terá em seu horizonte.

A lógica limiar será nomeada aqui como esse instrumento mais complexo, pretensamente total, que contém tanto a lógica das trocas como a dos objetos e quanto a racial. Ela não pode ser uma reunião – um equivalente da combinação dos seus elementos –, mas uma fusão daquelas lógicas, que as retoma sob um terreno comum; tem, portanto, finalidade científica similar àquela da ciência física que uniu o inanimado e animado sob os mesmos princípios naturais.

Deve possibilitar a organização dos objetos segundo seus códigos de hierarquia cultural e, negativamente, a hierarquia da violação dos tabus; em alguma medida deve ser a base para elaboração de uma linguagem que expresse algo acerca daquele corpo cindido.

Além disso, tem a seu favor uma contraposição imediata à unilateralização ingênua de que o capital é somente a lógica da produção e reprodução da riqueza como fim em si próprio, e nesse sentido impessoal. Implica, portanto, uma urgência na reavaliação dos fundamentos da crítica da economia política. No entanto, restringirmos aqui na análise do que essa união nos possibilita, isso porque essa lógica exigiria adentrar as contradições, o que seria contrário ao objetivo do texto que é inferir algo sobre o ocidente e suas classes, mesmo que insuficientemente.

Ode à falência

Little Saint James, sob essa ótica, pode ser considerado a epítome da endogamia, que parece concentrar toda ideologia da supremacia branca. Sem a junção das três dimensões, o ponto geográfico seria entendido como sendo somente ocasional, não obstante sua situação não é acidental, representa o santuário intocado da fantasia insular da pureza racial. A ilha é um quadro, cujo relevo pincelado por John Gast guarda no coração da península a doutrina do Estado-nação. Olhando para essa pintura, vê-se perambular pela ilha o espírito de uma mulher alva com fraldas e luminárias nas mãos. Ela guia os convidados aos seus aposentos.

Nas fraldas geriátricas da “elite esclarecida” está o reavivamento dos sentimentos da nostalgia sulista, uma volição nacional vinculada às teorias raciais judaico-cristãs. Essa foi a política externa norte-americana nos últimos anos, “doutrina Donroe”, que recuperou o destino manifesto em termos mais palatáveis, aparentemente menos raciais, mas mantendo a aspiração da nação de ser o “next friend” mundial.

O capital é assim o modo de superposição da produção da dominação irrestrita à frustração da expansão gâmica frente a seu princípio “ético”, o tabu do incesto. Ele é a absorção limitada – legitimada na modernidade pelos dogmas científicos da superioridade racial – cuja divisão simultaneamente possibilita a extração do excedente; paradoxalmente, essa expansão pretende ser ilimitada. As mensagens do arquivo concretizam todos estes fatos: do racismo sistemático da Trump Management, Inc. ao violar a Fair house acting até as trocas de emails, a quem “Goym” jamais poderia ser filiado. Disso não há escândalo.

Os arquivos são um monumento virtual cujo impacto é comparável somente à queda das torres gêmeas. Ambos fazem parte do réquiem performático da superioridade ocidental, juntos explodem o ponto nevrálgico do sistema. Os edifícios encarnavam uma ordem contável que sublimou a concorrência em prol do monopólio e do digital, era o “código genético imutável” do poder absoluto. Os registros, ao contrário, sucedem o acontecimento como uma implosão do próprio digital e seu genoma, mostrando as entranhas da farsa.

Não é mais possível pensar a simulação sem ambas, pois são assustadoramente simétricas. Enquanto as torres desapareceram para dar lugar a um espaço imaginário que transcende à metrópole nova-iorquina, tornando-se um signo mundial, diferentemente, os arquivos se separam da rede mundial para tomar a forma de uma ilha na “U.S Virgin Islands”.

*Marcel Alentejo da Boa Morte é doutorando em física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

*Lázaro Vasconcelos Oliveira é graduado em ciências sociais pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).

Referências


BAUDRILLARD, Jean. Pour une critique de l’économie politique du signe. Tradução de Aníbal Alves. Lisboa: Edições 70, 1972.

BAUDRILLARD, Jean. Power inferno. Paris: Galilée, 2002.

Notas


[i]https://operamundi.uol.com.br/guerra-israel-x-palestina/como-epstein-usou-tecnologia-testada-em-gaza-para-viabilizar-acordos-comerciais/.

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