O grande hiato

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A fonte de todos os problemas de hoje é o hiato entre como pensamos e como a natureza funciona

Por Antônio Sales Rios Neto*

“O óbvio é fácil, o que não é óbvio é para Prêmios Nobel e o profundo é complexo” (Mitchell Feigenbaum)

Se tem algo que a pandemia do coronavírus deverá despertar em cada um de nós é a forma como nos relacionarmos com o mundo em nossa volta e, no âmbito global, como a nossa civilização modelou-se ao longo de sua história milenar até alcançar essa situação de tensões sociais permanentes, que só se agravam no tempo. Enfim, como chegamos até aqui, em um mundo globalmente tão conflitante e tão contraditório? Geramos um conhecimento fenomenal nas últimas décadas, que supera todo o conhecimento já produzido na história da humanidade e, no entanto, não conseguimos evitar as sucessivas crises e desastres sociais e ambientais que nos ameaçam, muito menos gerar aprendizados e mudanças qualitativas em nosso modo de viver. A história do século XX e desse início de século confirma isso. Para inspirar e orientar nossa reflexão, trago neste breve artigo alguns elementos para tentarmos melhorar nossa visão de mundo e, ao mesmo tempo, propor um regresso a um longínquo modo de viver em que a ilusão da separação homem-natureza não existia.

A situação de crise gerada pela pandemia é tão dramática para a humanidade (e por isso também tão potencialmente geradora de novas bifurcações, para o bem ou mal), que o sociólogo francês Alain Touraine, pensador que deu valiosas contribuições para o entendimento da crise da modernidade, em uma entrevista publicada por El País, em 28/03/2020, quando confrontado pelo entrevistador com a ideia de que estaríamos enfrentando uma guerra contra o coronavírus, conforme entendem Emmanuel Macron, Pedro Sánchez e Donald Trump, declarou que “hoje, não há nem atores sociais, nem políticos, nem mundiais, nem nacionais, nem de classe. Por isso, o que ocorre é totalmente o contrário de uma guerra, com uma máquina biológica de um lado e, do outro, pessoas e grupos sem ideias, sem direção, sem programa, sem estratégia, sem linguagem. É o silêncio.” Por isso, o temor dele e de outros pensadores de que tenhamos um desdobramento similar ao da crise de 1929, época em que “o vazio foi rapidamente preenchido pelo senhor Hitler”. O meu temor é o de que esse vazio seja preenchido não por um líder despótico ou um regime estatal autoritário extremado, mas pelo restabelecimento das forças do Capital predatório, competitivo e excludente, aprimoradas pelo advento da hipervigilância digital despertada na pandemia do coronavírus, o que pode solapar, no médio e longo prazo, o que ainda resta de Estado, de democracia e de cidadania.

Tenho dito reiteradas vezes, por meio de outros artigos, amparando-me em pensadores de expressão mundial, que, para superarmos o mal-estar da nossa civilização, devemos observar, questionar e transcender os modelos mentais que sustentam a visão de mundo hegemônica, hoje representada pela visão econômica de mundo, que tem no neoliberalismo sua maior expressão. Ou seja, precisamos refletir sobre a trava do condicionamento que nos impede de mudar nosso modo de perceber e se relacionar com o mundo. No fundo, trata-se daquilo que o biólogo e antropólogo inglês Gregory Bateson afirmava: “a fonte de todos os problemas de hoje é o hiato entre como pensamos e como a natureza funciona”. Por isso precisamos urgentemente “reformar o pensamento” como defende o sociólogo francês Edgar Morin, ou superar a “doença do pensamento” como recomendava o físico americano David Bohm, só para citar dois expoentes do chamado pensamento complexo (conceito que explico a seguir), um, oriundo das ciências sociais, e o outro, das exatas.

Para uma melhor compreensão do leitor, usarei aqui algumas definições utilizadas pelo psicoterapeuta Humberto Mariotti, que é talvez o estudioso que mais tem difundido o pensamento complexo no Brasil, por meio de vários livros e artigos que tratam de forma bastante didática esse assunto. Proponho-me, portanto, a refletir sobre três modos de pensamento: o linear, o sistêmico e o complexo, que passo a descrever de forma bem suscinta, pois o tema é muito vasto.

1) O pensamento linear (enfoque em fragmentação, controle e previsibilidade): trata-se da lógica aristotélica (ou cartesiana, ou binária), uma abordagem necessária e indispensável para as práticas da vida mecânica, porém extremamente limitada para lidar com os sentimentos e emoções inerentes à condição humana. Esse é o modelo mental hegemônico que sustenta nosso modo de pensar, sendo hoje fácil observar que ele não é capaz de entender e lidar com a totalidade da vida humana e, especialmente, do planeta, já gravemente desregulado por conta das nossas ações. Esse modelo de pensamento constitui a base da cultura patriarcal (não confundir com machismo) que se instalou ao longo da história da humanidade e que nos trouxe até aqui, forçando-nos a conviver, nas últimas décadas, com graves comunalidades (questões de âmbito global sem solução dentro de fronteiras nacionais), cujas principais, conforme a última atualização do Consenso de Copenhague (2012), são: conflitos armados, ameaças à biodiversidade, doenças crônicas, mudanças climáticas, educação, fome e desnutrição, doenças infecciosas, desastres naturais, crescimento populacional, escassez de água e ausência de saneamento.

2) O pensamento sistêmico (enfoque em conjuntos, padrões e totalidades): surgido no século XX, trata-se do pensamento que leva em consideração as relações dinâmicas entre as partes. Mostrou-se um instrumento valioso para melhorar um pouco a compreensão da complexidade do mundo natural. Entretanto, tem sido utilizado mais como ferramenta no mundo da gestão e da economia, especialmente nos EUA, para produzir melhores resultados operacionais. Como diz Mariotti, “o pensamento sistêmico pode proporcionar bons resultados no sentido mecânico-produtivista do termo, mas certamente não é o bastante para lidar com a complexidade dos sistemas naturais, em especial os humanos”. Visto desse modo, o pensamento sistêmico, em matéria de desenvolvimento humano, termina por produzir quase os mesmos efeitos do pensamento linear, ou seja, também é limitado para lidar com a complexidade da condição humana.

3) O pensamento complexo (enfoque em interações, incerteza e imprevisibilidade): trata-se da abordagem que resulta da integração ou complementariedade (do abraço, no olhar de Edgar Morin) dos pensamentos linear e sistêmico. Essa abordagem possibilita a elaboração e religação de saberes e a adoção de práticas que permitem buscar novas formas de entender a complexidade do mundo real, incluindo o ser humano e suas culturas. Trata-se de uma visão de mundo relacional, em que tudo está ligado a tudo (origem do termo complexo vem do latim complexus, que significa “o que está tecido junto”) onde o mundo natural é constituído de forças, ao mesmo tempo, antagônicas e complementares (o yin e o yang da tradição taoísta representa bem essa condição da existência). Um dos principais benefícios do pensamento complexo é perceber, com mais clareza, extensão e profundidade, os problemas em nosso entorno e melhorar nossa capacidade de tomar decisões de maior amplitude e longo prazo, consequentemente mais sustentáveis e mais integradas aos seus contextos.

É importante dizer que tanto o pensamento linear quanto o sistêmico têm sua importância e, portanto, não devem ser eliminados, pois também constituem operadores cognitivos do pensamento complexo. Porém, para que tenham eficácia e potencialidade, precisam ser utilizados sem perder o vínculo com a ideia de complexidade. Enfim, o pensamento complexo trata-se, como diz Mariotti, de “algo que pode atenuar um modo de viver segundo o qual com enorme frequência a palavra é separada do real, a justiça se preocupa menos com o sofrimento dos homens do que com a letra da lei, e esta busca verdades que pouco ou nada têm a ver com o cotidiano”. Ele explica bem melhor todos esses conceitos e de forma muito didática no artigo “Complexidade e Pensamento Complexo: Texto Introdutório” (disponível em http://www.escoladedialogo.com.br/complexintro.asp?id=5) e, para quem deseja aprofundar nesse assunto e, principalmente, nas suas aplicações, sugiro o seu livro “As Paixões do Ego – Complexidade, Política e Solidariedade” (Palas Athena, 2000).

Para exemplificar a aplicação do pensamento complexo, podemos observar a recente entrevista que o escritor americano David Quammen deu para o site InfoAmazonia, em 03/04/2020, sobre a pandemia do coronavírus. Ele previu, oito anos atrás, em um de seus livros sobre natureza e biodiversidade (sua área de estudo), que estávamos sob forte risco de enfrentar uma grande pandemia que chamava de The Next Big One (a próxima grande), a partir das conversas que mantinha com alguns cientistas que estudavam zoonoses que se tornavam doenças humanas. Quammen avalia que doenças como a do coronavírus corresponde a uma situação de transbordamento (spillover), quando o vírus passa de um animal para o seu primeiro hospedeiro humano em decorrência de situações geradas por grandes degradações ambientais em áreas ricas em biodiversidade, que também são lugares que abrigam muitos vírus. Para ele, “é quase como se nossos grandes ecossistemas tivessem uma armadilha montada para evitar interferência. Ao passo que vamos entrando neles e destruindo, nós disparamos estas armadilhas contra nós”. Ao longo da entrevista, percebemos que Quammen estabelece uma ideia de relação circular (retroalimentação), não-linear, entre causa e efeito (a principal característica do pensamento complexo) para explicar a pandemia, enquanto o senso comum vê a questão pela lógica linear, apontando como causa apenas o fato de ter havido o contato direto do ser humano com o animal (supostamente um morcego, hospedeiro do vírus) em mercados de animais silvestres vivos na cidade de Wuhan, na China. Quammen ainda nos alerta que, assim como surgiu, no Congo, que abriga um grande ecossistema de floresta tropical, o ebola, o marburg, o zica e outras doenças virais assustadoras, é só uma questão tempo para que a Amazônia seja o epicentro de uma epidemia no futuro.

O leitor deve estar se perguntando: é possível, então, a transição do pensamento linear para o pensamento complexo no âmbito global? Diria que mesmo entre aqueles que entendem ser o modelo mental linear (ou a cultura patriarcal) nosso maior obstáculo para o desenvolvimento humano e da civilização, há quem pense que tal transição é impossível, inclusive porque já tem um bom tempo que o pensamento complexo foi concebido e sistematizado pelas novas ciências da complexidade (teoria do caos, autopoiese, teoria das catástrofes, lógica fuzzy, fractais, dentre outras). Essa reforma do pensamento, como defende Morin no seu ensaio “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, deveria ocorrer especialmente por meio do ensino. Entretanto, faz séculos que o sistema educacional no mundo todo foi apropriado pela cultura patriarcal e, portanto, opera a partir de fundamentos meramente adestradores e utilitaristas, uma “educação bancária”, como denunciava Paulo Freire, que só reforça ainda mais o individual, a competição e a propriedade, exacerbando o individualismo. Nossas crianças nascem naturalmente com o pensamento complexo: são criativas, curiosas e extremamente relacionais e cooperativas, até irem para a escola e depois para o mundo do trabalho, onde são moldadas para o pensamento linear.

O fato é que essa mudança de paradigma civilizacional em direção a uma visão complexa de mundo, embora já existam as bases científicas que a sustentam, não é tarefa fácil, muito menos rápida, porque diz respeito à necessidade de termos que abandonar princípios, crenças e valores marcados a ferro e fogo em nossas mentes (o imprinting cultural, segundo Edgar Morin). Para reforçar esse diagnóstico, como estamos nesse momento tão carentes de um Estado keynesiano, lembro aqui o pensamento do economista britânico John Maynard Keynes: “a elaboração de novas ideias depende da libertação das forças habituais de pensamentos e expressão. A dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar das velhas, que se ramificam em todos os cantos da nossa mente.” Ou, olhando do ponto de vista do drama que enfrentamos nesse momento, como diz o filósofo italiano Antônio Gramsci, “a crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem”. Esse é o âmago do dilema civilizacional nos tempos atuais, que agora acentua-se ainda mais diante da pandemia que aflige a humanidade, instigando-nos a pensar com urgência um outro mundo possível.

O pensamento linear é o operador cognitivo da cultura patriarcal. Porém, não foi sempre assim que a humanidade conduziu a sua longa história. Tudo teve início quando, não se sabe bem o porquê, a cultura patriarcal instalou-se há aproximadamente sete mil anos atrás, por volta de 5000 a.C., entre os povos indo-europeus, segundo estudos da arqueóloga lituana Marija Gimbutas, os quais foram sintetizados no livro The Chalice and the Blade (O Cálice e a Espada) da escritora austríaca Riane Eisler. Este evento é considerado o marco inicial do longo processo de moldagem da mente humana pelo modelo mental linear ou cartesiano, aquele que privilegia o lado esquerdo do cérebro (racional, lógico, objetivo, repetitivo) e sufoca o lado direito (emotivo, intuitivo, subjetivo, criativo). Essa cultura patriarcal tem como principal característica a ideia de apropriação, compreendida como a vontade de poder e dominação do homem sobre si mesmo, sobre o outro, sobre a verdade e sobre a natureza. Foi a partir deste momento que o homem começou a se ver separado da natureza. Antes da cultura patriarcal, havia uma cultura chamada matrística (não confundir com matriarcal ou feminismo), caracterizada pelo senso de participação, espiritualidade, interatividade, confiança e convivencialidade – uma vida altamente integrada à natureza.

Se considerarmos que o homo sapiens surgiu há 350 mil anos, os sete mil anos de cultura patriarcal podem ser compreendidos como um comportamento não sedimentado na trajetória natural da evolução humana, o que nos dá certa esperança na possibilidade de uma correção de rumos. Logo, uma transformação gradual nesse momento de crise global em direção a um modelo neomatrístico, como defende o neurobiólogo chileno Humberto Maturana, me parece bastante plausível, considerando que o rompimento da relação homem-natureza constitui o cerne da crise civilizacional que vivenciamos hoje. Quais seriam, então, os vetores que apontam hoje para essa mudança a partir das aplicações do pensamento complexo? Escrevi recentemente dois artigos intitulados “Mais quarenta anos de insensatez” e “O que herdaremos do coronavírus”, publicados em 25/3/2020 e 01/04/2020, respectivamente, pelo jornal digital GGN, em que procuro fazer justamente essa investigação. Nesses artigos, o pano de fundo da abordagem é a mudança de época (mudança de paradigma civilizacional) que estamos vivendo. Para tanto, busco amparo na leitura de mundo do historiador francês Jacques Attali, um dos pensadores onde encontrei as pistas para o desfecho mais provável sobre como o pensamento complexo poderá tornar-se hegemônico, resgatando, desse modo, um modelo de sociedade neomatrístico.

Nos últimos 400 anos, a história da humanidade vem sendo conduzida por duas principais forças: o Estado e o mercado. Entretanto, à margem dessas duas forças sempre existiu uma terceira força que é integrada pelo conjunto de entidades da sociedade civil com fins públicos e não lucrativos, o chamado terceiro setor da economia, uma espécie de híbrido entre Estado e mercado, cujo princípio de funcionamento ampara-se na participação voluntária, tais como: Cruz Vermelha, Médicos sem Fronteiras, Care, Greenpeace, WWF e tantas outras. Dessas três forças, o terceiro setor é a que, a meu sentir, mais se aproxima do pensamento complexo em sua forma de operar e que representa uma verdadeira força global crescente e sustentável. É o tipo de arranjo societário que mais se associa à definição de comunidade dada por Dee Hock, fundador e ex-CEO da Visa, considerado uma das referências na aplicação do pensamento complexo. Para Hock, “a troca não-monetária de valor é o coração e a alma da comunidade, e a comunidade é o elemento essencial, inevitável, da sociedade civil… Numa troca não-monetária de valor, dar e receber não é uma transação. É uma oferta e uma aceitação. Na natureza, quando um ciclo fechado de dar e receber se desequilibra, logo vem a morte e a destruição. É assim na sociedade.” Estas me parecem ser as bases de funcionamento do terceiro setor: criatividade, humanismo, cooperação e evolução.

Attali, no seu livro “Uma breve História do Futuro” (2006), afirma, com base nos diversos padrões de funcionamento que ele identifica na evolução da longa história da democracia de mercado, que a “cara mais verossímil do futuro” será a de que, até 2060, rebentarão, uma após a outra, três ondas do futuro: 1) o hiperimpério (entre 2035 e 2050), onde o Estado será suprimido pelas forças do mercado, representada pelas corporações transnacionais; 2) o hiperconflito (entre 2050 e 2060), em que “ambições regionais”, “exércitos piratas e corsários” e a “cólera dos laicos e dos crentes” irão desencadear guerras de toda ordem, em escala mundial; e 3) a hiperdemocracia planetária (por volta de 2060), cujos principais atores, já atuantes hoje, serão o que Attali chama de trans-humanos e empresas relacionais. A meu ver, é aqui que se inserem os agentes do terceiro setor ao qual me referi antes, tendo a ONU como órgão de liderança global responsável por impulsionar essas iniciativas e assegurar uma política de civilização nesse sentido. Estas seriam as novas forças altruístas e universalistas, com uma visão complexa de mundo, que poderiam assumir o protagonismo num futuro próximo, devido a uma premência ética, cultural, política e, especialmente, ecológica.

Assim, surgiria nessa fase da hiperdemocracia planetária uma civilização biocentrada, com uma nova economia relacional direcionada ao interesse público, que proporcionasse gratuidade a todos os domínios essenciais à vida, gerando, no plano coletivo, a “inteligência universal” e, no plano individual, o “bom tempo”, como projeta Attali. Enfim, um mundo de difícil compreensão a partir dos referenciais que temos hoje para descrevê-lo. Como diz Attali, um mundo em que “o mercado e a democracia, no sentido em que nós o entendemos hoje, se tornarão conceitos ultrapassados, lembranças vagas, tão difíceis de compreender como o são hoje o canibalismo ou os sacrifícios humanos”. Embora indesejável no tocante à metamorfose da travessia das duas primeiras ondas (o hiperimpério e o hiperconflito), este me parece ser o percurso mais provável da trajetória da história humana se ela conseguir superar o imponderável século XXI.

*Antônio Sales Rios Neto é engenheiro civil e consultor organizacional.