As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

A Passagem Invisível

Imagem: Elyeser Szturm
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por DANIEL BRAZIL*

Comentário sobre o livro de contos de Chico Lopes

Chico Lopes é escritor prolífico, com vários títulos publicados. Contista consagrado experimentou também o romance, a poesia, a crônica e a crítica literária e cinematográfica, além de traduzir clássicos como Henry James e Hawthorne.

Um dado curioso de sua biografia é o fato de ter nascido e morado em pequenas cidades do interior, como Novo Horizonte, Brotas ou Poços de Caldas. Isso não o impediu de acumular um conhecimento cosmopolita, espelhado principalmente em sua atividade crítica. Por outro lado, é determinante do universo onde seus personagens transitam asfixiados por horizontes estreitos, ruas escuras, bares decadentes e certo pessimismo em relação à vida.

Chico já confessou, em entrevista, que sua literatura fala de perdedores, de marginalizados. Mesmo que vivesse numa megalópole, é bem provável que o enfoque fosse o mesmo, pois esta é uma postura estética e filosófica em relação ao mundo que já rendeu vários clássicos da literatura mundial.

A escrita de Chico Lopes não usa truques moderninhos, não depende de aparelhos eletrônicos, não é feita para consumo rápido e descartável. Em seus contos, desde que publicou seu primeiro livro, se aprofunda nos caminhos mais tortuosos da alma humana, pisando em terreno onde o sórdido e o sublime podem germinar lado a lado. Leu os russos, os franceses, leu Machado e Graciliano, e destilou desses mestres a essência que anima suas narrativas.

A Passagem Invisível (Laranja Original, 2019) reúne oito contos, sendo o último quase uma novela, com 46 páginas. Histórias densas e tensas, onde a violência subjacente às vezes explode de forma sangrenta, seja através de ciúme incontrolável, da revolta surda contra o destino ou de brutalidade institucional.

Exemplo soberbo desta última situação é o admirável conto White Christmas, onde um homem é perseguido por dois policiais pelo “abominável” gesto de ter urinado numa árvore. As consequências deste ato atingem proporções inusitadas, num crescendo angustiante que nada fica a dever aos melhores autores de suspense, com um desfecho de grande impacto que se iguala os melhores momentos de Rubem Fonseca.

Neste, como em outros contos, há algo também de Kafka. Não se procura apenas distrair o leitor com uma boa história, mas inquietá-lo, num sentido mais existencial. Os personagens são oprimidos pelas circunstâncias, pelo medo, pela angústia, pelo abandono, e é na exploração destas situações que a literatura de Chico Lopes cresce, ocupando um nicho essencial no panorama da literatura brasileira contemporânea.

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

Referência

Chico Lopes. A Passagem Invisível. Editora Laranja Original, 2019 (https://amzn.to/3QHuesu).

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Eleonora Albano Valerio Arcary Eduardo Borges Celso Frederico Sergio Amadeu da Silveira Boaventura de Sousa Santos Paulo Capel Narvai Salem Nasser Chico Alencar Marcos Aurélio da Silva Francisco Pereira de Farias Alexandre de Lima Castro Tranjan Gilberto Maringoni Celso Favaretto Julian Rodrigues Tales Ab'Sáber Fábio Konder Comparato Luiz Bernardo Pericás Liszt Vieira Jorge Luiz Souto Maior Marilena Chauí Walnice Nogueira Galvão Rodrigo de Faria João Adolfo Hansen André Singer Maria Rita Kehl Bento Prado Jr. Anselm Jappe Remy José Fontana Denilson Cordeiro José Costa Júnior Eugênio Trivinho Anderson Alves Esteves Annateresa Fabris Mário Maestri Vinício Carrilho Martinez João Feres Júnior Henry Burnett Paulo Fernandes Silveira Roberto Noritomi Otaviano Helene Ricardo Abramovay Juarez Guimarães Heraldo Campos Ricardo Musse Francisco Fernandes Ladeira Plínio de Arruda Sampaio Jr. José Geraldo Couto Tarso Genro Everaldo de Oliveira Andrade José Dirceu Leonardo Boff Eliziário Andrade Lincoln Secco Jean Marc Von Der Weid Ricardo Fabbrini Roberto Bueno Eugênio Bucci João Lanari Bo Luis Felipe Miguel Luciano Nascimento Marcus Ianoni Gerson Almeida Berenice Bento Sandra Bitencourt Leonardo Avritzer Slavoj Žižek Jean Pierre Chauvin Osvaldo Coggiola Luiz Marques Marcos Silva Paulo Sérgio Pinheiro João Paulo Ayub Fonseca João Carlos Loebens Luís Fernando Vitagliano Antônio Sales Rios Neto Alexandre de Freitas Barbosa Luiz Carlos Bresser-Pereira Milton Pinheiro Renato Dagnino Andrew Korybko Thomas Piketty Ronaldo Tadeu de Souza José Luís Fiori Luiz Eduardo Soares Alexandre Aragão de Albuquerque Tadeu Valadares Bruno Fabricio Alcebino da Silva Eleutério F. S. Prado Fernando Nogueira da Costa Henri Acselrad Manchetômetro Lorenzo Vitral Luiz Renato Martins Afrânio Catani Lucas Fiaschetti Estevez Bruno Machado Jorge Branco Érico Andrade Benicio Viero Schmidt Daniel Costa Ari Marcelo Solon Samuel Kilsztajn Michael Löwy Marcelo Guimarães Lima Alysson Leandro Mascaro Ricardo Antunes Gilberto Lopes Luiz Werneck Vianna Luiz Costa Lima José Machado Moita Neto Ronald León Núñez Atilio A. Boron Carlos Tautz Gabriel Cohn Mariarosaria Fabris Bernardo Ricupero Michael Roberts Flávio Aguiar Leda Maria Paulani Caio Bugiato Paulo Martins Vladimir Safatle Yuri Martins-Fontes Marilia Pacheco Fiorillo Priscila Figueiredo Fernão Pessoa Ramos Daniel Afonso da Silva Manuel Domingos Neto Marjorie C. Marona André Márcio Neves Soares Valério Arcary Carla Teixeira Dênis de Moraes Daniel Brazil José Micaelson Lacerda Morais Airton Paschoa João Carlos Salles Igor Felippe Santos Ladislau Dowbor Claudio Katz Rubens Pinto Lyra Flávio R. Kothe Luiz Roberto Alves Leonardo Sacramento Dennis Oliveira Ronald Rocha João Sette Whitaker Ferreira Rafael R. Ioris Elias Jabbour Paulo Nogueira Batista Jr Chico Whitaker Kátia Gerab Baggio José Raimundo Trindade Antonio Martins Vanderlei Tenório Armando Boito Antonino Infranca Francisco de Oliveira Barros Júnior Marcelo Módolo

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada