Por CLÁUDIA BARBIERI, HAROLDO CERAVOLO SEREZA & LEONARDO MENDES*
Trecho da apresentação do livro recém-lançado “Quem me comeu a carne tem de roer-me os ossos!”: Aluísio Azevedo pela crítica contemporânea”
1.
Como é amplamente conhecido, após uma intensa trajetória como romancista, cronista e dramaturgo, Aluísio Azevedo ingressou na carreira diplomática, onde permaneceu até o fim da vida. Entre os diversos postos que ocupou, destacou-se sua passagem por Buenos Aires, cidade em que faleceu em 1913. A experiência diplomática não significou, contudo, um afastamento da vida literária: na capital argentina, Aluísio Azevedo dedicou-se à tradução de parte de sua própria obra para o espanhol, ampliando o alcance de sua produção e inserindo-a em um circuito de leitura transnacional.
Entre as obras traduzidas figurava O mulato, romance que lhe proporcionou um raro episódio de recepção internacional imediata. O livro despertou o interesse da crítica local e gerou, entre outros textos, uma apreciação assinada pelo escritor argentino Gustavo Martínez Zuviría – reproduzida integralmente no presente volume –, que oferece um testemunho singular sobre a circulação do naturalismo luso-brasileiro na América do Sul.
Em seu comentário, publicado no livro El gran cuento del tío en la literatura nacional, Martínez Zuviría realiza uma leitura comparada entre Aluísio Azevedo e Benito Pérez Galdós, o grande romancista espanhol cuja obra consolidou o naturalismo ibérico. “Acabo de ler Doña Perfecta, de Pérez Galdós”, escreve o crítico. “Que coincidência rara! Há dois dias li a última página de O mulato, de Aluizio Azevedo, da biblioteca do La Nación.”
Ele continua: “E digo rara coincidência, porque, não tivessem sido quase simultâneas ambas as leituras, acho que não teria observado a surpreendente semelhança entre os dois romances, a exata correspondência dos tipos que neles aparecem. E vou demonstrar isso, sem cair por algum momento nas perigosas profundezas da originalidade artística; gostaria de afastar até a mais remota ideia de plágio, que sempre deixa ver timidamente a ponta da orelha nas imaginações mais longínquas do leitor malicioso”.
“Afirmo apenas que Dona Perfeita é do ano [18]76 e O mulato é do ano [18]80. E, apesar disso, desconhecendo essas datas, se houvesse dúvida, afirmaria que Pérez Galdós pegou de Azevedo as personagens e até o enredo de seu romance, que aparecem tão vigorosos e soltos em O mulato e descoloridos e emaranhados em Dona Perfeita”. (Martínez Zuvíria, 1907, p. 53-54; tradução de Maria Fernanda Gábera).
2.
A leitura de Gustavo Martínez Zuviría sobre O mulato constitui um testemunho raro e de grande valor para a história da recepção internacional de Aluísio Azevedo. Ao contrário de certas leituras brasileiras e portuguesas que, ainda no início do século XX, insistiam em subordinar o romance de 1881 aos modelos europeus, o crítico argentino o inscreve num horizonte de equivalência estética e intelectual com o naturalismo espanhol de Benito Pérez Galdós. O gesto é revelador: ao colocar ambos os autores lado a lado, Gustavo Martínez Martínez não apenas reconhece em Aluísio Azevedo um legítimo representante do realismo ibero-americano, mas também inverte a direção do olhar, conferindo ao escritor brasileiro uma precedência moral e artística.
Para o crítico, O mulato supera Doña Perfecta “em diversos aspectos”, sobretudo pela força de sua denúncia social. Martínez rejeita explicitamente qualquer hipótese de plágio ou imitação – tema recorrente na crítica brasileira – e afirma que a superioridade de Azevedo reside justamente na energia e na contundência de seu texto. “A tese do romance de Galdós se resume em suas últimas linhas: ‘é o que podemos dizer por agora das pessoas que parecem boas e não o são’”, escreve (p. 64), para logo acrescentar que “na alma do livro de Azevedo há uma candente discussão contra os preconceitos raciais”.
O juízo é ainda mais incisivo quando Gustavo Martínez Martínez contrapõe os temperamentos dos dois autores: “Os dois me desagradam por seu caráter de polêmica antirreligiosa. Nisto, Galdós é tíbio e dissolvente; Aluísio é brutal e explosivo”. A contundência da observação desloca o eixo da comparação: não se trata mais de avaliar a fidelidade de Azevedo a um modelo europeu, mas de reconhecer nele uma força de expressão própria, marcada por uma violência estética e ética que o aproxima das urgências políticas da América Latina do período. O crítico conclui, de modo categórico: “Porém, como obra de arte prefiro O mulato a Doña Perfecta”.
Apesar dos elogios de Gustavo Martínez Zuviría e de sua explícita tentativa de afastar qualquer suspeita de plágio, Aluísio Azevedo não deixou de se pronunciar sobre o episódio. Em carta enviada ao tradutor argentino A. Costa Alvarez, o escritor brasileiro manifesta surpresa diante da comparação com Benito Pérez Galdós, afirmando não se recordar de haver lido qualquer obra do romancista espanhol. Azevedo insiste que não conhecia Doña Perfecta nem tampouco críticas relativas a ela, reafirmando assim a autonomia criativa de O mulato e o caráter local das situações e personagens que o compõem.
Esse documento epistolar tem, ainda, um expressivo valor do ponto de vista da construção do romance, pois, em defesa de sua originalidade em relação da Doña Perfecta, confirma aquilo que a crítica posterior viria a sugerir como hipótese – e que Jean-Yves Mérian consolidaria em sua biografia de referência sobre o autor: a inspiração direta da personagem Raimundo em um episódio vivido pelo poeta maranhense Gonçalves Dias. A confissão de Aluísio Azevedo desloca, portanto, o debate da imitação para o terreno da experiência nacional, repondo o sentido histórico e social do romance.
3.
Ao reivindicar a origem maranhense de O mulato, Aluísio Azevedo não apenas reafirma o enraizamento local de sua narrativa, mas também intervém na própria economia simbólica do naturalismo, deslocando seu eixo do determinismo científico europeu para o drama racial e social brasileiro.
“[…] o que me fez criar O mulato foi a indignação que me causou um fato perfeitamente real e conhecido: o procedimento da sociedade maranhense para com o poeta Gonçalves Dias. Gonçalves Dias era mulato, filho de negra; havia nascido na cidade de Caxias do Maranhão, e não pôde casar-se com uma senhorita branca, a quem adorava, só porque era mulato. Gonçalves Dias, como Raimundo, havia se formado em Coimbra; era, como este, filho de um comerciante português, e em seus versos escritos no Maranhão: “Palinodia”, etcétera, está toda a história de Raimundo: “E, acaso no sangue tão clara que eu me dourasse de unir-me contigo?” A poesia que começa com estes versos poderia servir de epígrafe a O mulato (Azevedo, 1907, p. 193-194).
Na mesma carta endereçada a A. Costa Alvarez, Aluísio Azevedo acrescenta detalhes ainda mais precisos sobre a construção do protagonista de O mulato, oferecendo uma chave para compreender o romance. “Quanto ao tipo físico, Raimundo foi copiado do pintor Horácio Tribuzy”, escreve o autor (p. 194). “Horácio Tribuzy, nascido no Maranhão e formado em Roma e depois em Paris, havia percorrido as principais cidades da Europa e foi morrer no Maranhão, envenenado, justamente na idade em que morre Raimundo. Era filho do meu professor de pintura, o italiano Domingo Tribuzy, que o teve com uma mulata; razão pela qual a sociedade maranhense o repudia”.
Aluísio Azevedo prossegue, acentuando a dimensão estética e sensual do modelo real que inspirou o personagem: “Esse produto mestiço de um italiano talhado pelos modelos da Roma Antiga e uma mulher meio mulata e meio índia tinha tanto de Hércules como de Apolo: era um conjunto tal de graça anatômica, de força e de destreza, que as mulheres se morriam de amores só ao vê-lo, e mais de uma dama que o depreciava em público o chamava secretamente para sua alcova” (Azevedo, 1897, p. 194).
O retrato de Horácio Tribuzy, elaborado com o olhar pictórico e sensual de um romancista que fora também artista plástico, revela o quanto O mulato se funda numa percepção concreta da mestiçagem como força estética e social. A combinação entre as heranças clássicas – evocadas pela referência aos arquétipos greco-romanos de Apolo e Hércules – e a materialidade tropical da mestiçagem confere ao corpo de Raimundo uma dupla significação: ele é, simultaneamente, símbolo de beleza e objeto de repulsa das elites locais. Ao associar Raimundo à figura de Tribuzy, Aluísio projeta na mestiçagem um ideal estético próprio – exuberante, contraditório e moderno.
Acreditamos que os dois textos recuperados neste livro – praticamente desconhecidos do público crítico e universitário brasileiro contemporâneo – constituem testemunhos de inestimável valor para a reavaliação de Aluísio Azevedo. Ambos evidenciam o alcance internacional de sua obra e a complexidade de um autor cuja recepção, por muito tempo, permaneceu restrita a um único título, O cortiço, transformado em emblema tanto de seu êxito quanto de suas limitações criativas.
Essas páginas revelam, contudo, um Aluísio múltiplo: escritor cosmopolita e atento à vida urbana, diplomata e tradutor, observador das tensões entre ciência e moral, entre o corpo e a sociedade.
Cláudia Barbieri é professora de Literatura Portuguesa no Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
*Haroldo Ceravolo Sereza, jornalista e editor, é doutor em literatura brasileira pela USP. Autor, entre outros livros, de Trinta e tantos livros sobre a mesa: críticas e resenhas (Oficina Raquel).
*Leonardo Mendes é poeta.
Referência

Cláudia Barbieri, Haroldo Ceravolo Sereza e Leonardo Mendes (orgs.). “Quem me comeu a carne tem de roer-me os ossos!”: Aluísio Azevedo pela crítica contemporânea. São Paulo, Alameda, 2026, 458 págs. [https://amzn.to/46Yl4PI]






















