O som e a fúria

Sergio Sister, Me ame ou te esmago, 1971, Ecoline, hidrográfica,nanquimsobre papel,50 x 71cm
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por JOSÉ FERES SABINO*

Comentário sobre o livro de William Faulkner

W. G. Sebald escrevendo sobre O medo do goleiro diante do pênalti, de Peter Handke, observou que, para este autor, a linguagem nunca pode ultrapassar a realidade, mas apenas rodeá-la. Talvez essa caracterização, válida não só para pensar essa obra como o restante do trabalho literário de Handke, sirva também para a obra narrativa de William Faulkner. Envolver um núcleo, do qual emerge a narrativa e que a sustenta, parece ser a marca característica de Faulkner.

No livro O som e a fúria, publicado em 1929, Faulkner utiliza quatro narradores para contar a mesma história. No centro está a agonia (a fúria da decadência); ao redor uma família que a sofre. A narrativa está reduzida a quatro dias. Três dias de abril, 7, 6, e 8, nesta ordem, de 1928; e o dia 2 de junho de 1910, intercalado entre os dias 7 e 6.

Esse capítulo recuado, narrado por Quentin, filho prodígio da família Compson, abre com uma reflexão sobre o tempo. Quando o narrador, de manhã, escuta o relógio que havia sido do avô, presente de seu pai, recorda o que seu pai havia lhe dito no momento da entrega:

“Estou lhe dando o mausoléu de toda esperança e todo desejo; […] Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero” (p. 73).

E a composição do livro não faz nenhuma tentativa de domar a soberania do tempo, mas opera uma desarticulação das tradicionais unidades de tempo e espaço, mostrando-nos que nossas vidas se tornam mais intensas e mais complexas com essa desarticulação. A concentração temporal funciona como uma força de expansão do espaço.

O primeiro capítulo é o exemplo radical disso. O narrador, Benjy, um débil mental, não está inserido na ordem linear do tempo. Só pertence a essa ordem porque os outros membros da família nos dizem que ele tem 33 anos de idade. Suas impressões são articuladas num presente absoluto. Tudo lhe é vivo e intenso sem qualquer remissão seja ao passado ou ao futuro. E por sentir o mundo desse modo, pode ter a vida inteiramente dedicada ao que realmente ama: a flor que carrega, sua irmã Caddy, o pasto e a luz do fogo.

Essa dissolução do tempo no espaço ocorre em todos os outros capítulos. No segundo, Quentin rememora sua relação amorosa-incestuosa com sua irmã, enquanto se prepara para deixar a vida; no terceiro, Jason Compson, acrescenta seu depoimento sobre a decadência, centrado em sua relação com o dinheiro, a mãe e a sobrinha. E, por último, um narrador em terceira pessoa, conta o dia 8 de abril na vida da empregada negra, Dilsey, que recolhe em si o princípio e o fim da família Comspon.

Nós leitores, página a página, já que ainda somos dependentes da linearidade temporal, sentimos a dissolução do tempo no espaço, e, com uma visão-audição quase total, vamos descobrindo o que se passa no centro. Nunca o leitor está cara a cara com o centro da narrativa. Sempre rodeando, vislumbramos o suicídio do irmão, a fuga da irmã, a morte do pai, o incesto dos irmãos, a fuga da sobrinha. A cada capítulo sentimos o drama comum e o reflexo dele em cada personagem, e nossa leitura é o resultado do recolhimento das expressões indiretas.

Essa narrativa indireta, no entanto, não deve autorizar a apoteose do subjetivismo linguístico. Aqui o real não é tragado pelos personagens, como se o inchaço do eu tornasse o real inexistente. No centro há algo, a agonia de uma família, como em outro livro de Faulkner, Enquanto agonizo, havia uma mãe agonizando; o que cada personagem faz é exprimir a agonia a seu modo, segundo a conformação que a vida lhe deu. E esse centro tampouco pode ser suprimido com uma simples troca de nome, como se o jogo da nomeação, nas mãos do sujeito linguístico, pudesse alterar a tragédia. A tentativa de mudar o nome do personagem Benjamin, que antes se chamava Maury, de nada aliviou sua condição de débil mental.

Esta multiplicidade de vozes narrativas num mesmo livro serve a uma equiparação narrativa dos personagens, pois nenhum deles tem soberania sobre o real, todos estão submetidos ao mesmo turbilhão da vida. E o movimento desse turbilhão sempre é descendente (a literatura de Faulkner é a da queda). Todos estão descendo: da vida à morte, da riqueza à pobreza, dos bons costumes à vilania das ruas, da sanidade à loucura, da ordem à desordem, do som à fúria.

Cabe ao homem, em relação à fúria – vida misteriosa, central, infinita – que o atinge e o sustenta ser apenas o som articulado dela, expresso de vários modos, segundo a boca de cada um. Haverá, porém, sempre um risco na descida: a fúria ao tornar-se muito intensa é capaz até mesmo de suprimir a palavra dotada de sentido da boca dos homens, transformando-os numa “agonia sem olhos e sem língua, puro som”.

*José Feres Sabino é doutorando no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP).

Referência

William Faulkner. O Som e a Fúria. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Cosac & Naify, 2003 (https://amzn.to/3OE4xXm).

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Samuel Kilsztajn Fernando Nogueira da Costa Francisco Fernandes Ladeira Andrew Korybko Bruno Machado Michael Roberts Daniel Afonso da Silva José Machado Moita Neto Marcus Ianoni Luiz Carlos Bresser-Pereira João Feres Júnior Vinício Carrilho Martinez Heraldo Campos Luiz Roberto Alves Flávio Aguiar Antonio Martins Boaventura de Sousa Santos Leonardo Boff Kátia Gerab Baggio Bruno Fabricio Alcebino da Silva Paulo Fernandes Silveira Alexandre de Oliveira Torres Carrasco Plínio de Arruda Sampaio Jr. Bernardo Ricupero Mário Maestri Mariarosaria Fabris Eugênio Bucci Ronaldo Tadeu de Souza Tadeu Valadares Luis Felipe Miguel Otaviano Helene Ladislau Dowbor José Costa Júnior Anselm Jappe Francisco Pereira de Farias Slavoj Žižek Osvaldo Coggiola Michel Goulart da Silva Ari Marcelo Solon Paulo Martins Jorge Branco Carlos Tautz Denilson Cordeiro Daniel Brazil Luiz Renato Martins Remy José Fontana Ricardo Musse João Paulo Ayub Fonseca Celso Frederico Sergio Amadeu da Silveira Tarso Genro Annateresa Fabris Marcelo Guimarães Lima Leonardo Avritzer Marcos Aurélio da Silva Ricardo Fabbrini Tales Ab'Sáber Gabriel Cohn Luciano Nascimento André Singer Marilena Chauí André Márcio Neves Soares Sandra Bitencourt Ronald Rocha Manchetômetro José Dirceu Flávio R. Kothe Alexandre Aragão de Albuquerque Milton Pinheiro José Luís Fiori Walnice Nogueira Galvão Igor Felippe Santos Armando Boito Andrés del Río Airton Paschoa Afrânio Catani Michael Löwy Berenice Bento Vanderlei Tenório Luiz Bernardo Pericás Paulo Nogueira Batista Jr João Adolfo Hansen Jean Pierre Chauvin Marcelo Módolo João Carlos Loebens João Lanari Bo Yuri Martins-Fontes Leda Maria Paulani Henry Burnett Luiz Werneck Vianna Valerio Arcary Juarez Guimarães Elias Jabbour José Micaelson Lacerda Morais Jean Marc Von Der Weid Luiz Eduardo Soares Ronald León Núñez Dennis Oliveira Lorenzo Vitral Daniel Costa Rodrigo de Faria Salem Nasser Antonino Infranca Eleonora Albano Eleutério F. S. Prado Rubens Pinto Lyra Gilberto Lopes Eliziário Andrade Celso Favaretto Gilberto Maringoni Valerio Arcary Ricardo Antunes Eugênio Trivinho Alexandre de Lima Castro Tranjan Gerson Almeida Liszt Vieira Benicio Viero Schmidt Renato Dagnino Carla Teixeira Caio Bugiato Fábio Konder Comparato Chico Alencar Dênis de Moraes João Carlos Salles Rafael R. Ioris Alysson Leandro Mascaro Manuel Domingos Neto Claudio Katz Fernão Pessoa Ramos Thomas Piketty Henri Acselrad Luís Fernando Vitagliano Paulo Capel Narvai Ricardo Abramovay Vladimir Safatle Leonardo Sacramento Everaldo de Oliveira Andrade Eduardo Borges José Geraldo Couto João Sette Whitaker Ferreira Marjorie C. Marona Priscila Figueiredo Atilio A. Boron Jorge Luiz Souto Maior Matheus Silveira de Souza Francisco de Oliveira Barros Júnior Lucas Fiaschetti Estevez Chico Whitaker Paulo Sérgio Pinheiro Maria Rita Kehl Érico Andrade Julian Rodrigues José Raimundo Trindade Antônio Sales Rios Neto Bento Prado Jr. Luiz Marques Alexandre de Freitas Barbosa Marilia Pacheco Fiorillo Marcos Silva Lincoln Secco

NOVAS PUBLICAÇÕES