As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Guerra, mídia e manipulação

Imagem: Lucas Vinícius Pontes
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por VANDERLEI TENÓRIO*

Considerações a partir de um artigo de Domenico Losurdo

Muitas vezes, nossas opiniões nos foram habilmente sugeridas pela manipulação da mídia sem que tivéssemos plena consciência disso. De fato, a mídia usa métodos sutis para implantar crenças em nós, enquanto nos faz acreditar que elas nos pertencem, que nós as escolhemos.

As motivações para a manipulação da mídia podem ser diferentes, mas, na maioria das vezes, visam à criação de cidadãos submissos. Aqueles que ignoram informações importantes e não conhecem seus direitos geralmente não criam problemas para a estabilidade do sistema político e econômico.

Em outros casos, como fica patente no artigo “Como funciona a indústria da encenação na guerra-espetáculo, parte da máquina de guerra do imperialismo desde o fim da guerra fria aos dias atuais” de Domenico Losurdo, a disseminação de notícias falsas ou a ênfase em casos limítrofes serve para criar divisões. O amplo espaço dado às opiniões infundadas ou lógicas difundidas pelas grandes agências de notícias servem justamente para isso.

Nessa perspectiva, o primeiro meio usado para direcionar a opinião pública em um sentido ou outro é o alarmismo. Em consideração a isso, palavras como alarme, guerra, genocídio, ataque, terrorismo, emergência e perigo são usadas com muita frequência pela mídia homogênea mundial. Tais palavras servem para fazer as pessoas se sentirem inseguras e gerar um medo sutil constante nelas.

Outro método eficaz é focar a atenção em notícias que geram uma forte resposta emocional. As questões que poderiam desencadear uma reação das massas contra o establishment ficam em segundo plano para estimular debates inúteis sobre fatos que, infelizmente, não podem mais ser alterados. A morte de crianças ou a violência contra as mulheres são frequentemente usadas para desviar a opinião pública de outras questões que seriam desconfortáveis.

No artigo de Domenico Losurdo, fica nítido a concepção da (falsa) superinformação que é outra técnica de manipulação midiática. Como bacharelando em geografia e jornalista, observo o seguinte: Hoje, falamos até a exaustão sobre um assunto para dar ao ouvinte a impressão de que ele sabe o suficiente, muito, demais.

Porém, na realidade, as mesmas coisas são repetidas várias vezes e nada é explicado. Por que isso Tenório? isso é para evitar que o cidadão tenha o desejo de se aprofundar, buscando informações em outros lugares e, portanto, construindo um pensamento autônomo sobre ela.

A exemplo disso, Domenico Losurdo cita o seguinte trecho em seu artigo: “em 08 de abril de 1989, Hu Yaobang, secretário do PCCh até há um par de anos, sofreu um enfarto durante uma reunião da Comissão Política e morreu uma semana depois. Para a multidão na Praça da Paz Celestial a sua morte está ligada ao duro conflito político verificado no decorrer naquela reunião (Domenach, Richer, 1995, p 550.). De qualquer modo ele se torna vítima do sistema que se tenta derrubar”.

Outro artifício estruturante é o de extrapolar uma notícia do contexto, o que é útil para direcionar a opinião pública. Tal artifício é presente na construção narrativa das guerras. Quando isso acontece, observe que, geralmente apenas o número de vítimas e os locais são divulgados.

Dito isto, a situação política/social/econômica desses países nunca é explicada, muito menos os reais motivos que levaram à violência. Infelizmente, atualmente, estamos a ver esse artifício presente em todos os noticiários nacionais e interacionais através da guerra da Ucrânia. O artifício de extrapolar o contexto da notícia é visto também na terceira seção do artigo de Domenico Losurdo (A produção do falso, o terrorismo da indignação e o desencadeamento da guerra). Quando o historiador cita: a dissolução da Iugoslávia, o massacre de Racak e a Guerra do Golfo.

Sejamos sinceros, para manipular o que pensamos, basta uma escolha cuidadosa de imagens, palavras ou tom. Desta forma, podemos automaticamente despertar aprovação ou dissidência para o assunto em questão. Essa constatação está presente na terceira seção do artigo de Domenico Losurdo, através do seguinte trecho: “Em agosto de 1998, um jornalista americano e um alemão “referem-se à existência de valas comuns contendo 500 cadáveres de albaneses, incluindo 430 crianças, perto de Orahovac, onde ocorreram severos combates. A notícia foi retomada por outros jornais ocidentais com grande destaque. Mas era tudo falso, como evidenciado por uma missão de observação da UE” (Morozzo Della Rocca 1999, p. 17)”.

Por esse ângulo, até mesmo o espaço dado a notícias e receitas fúteis nos telejornais faz parte da manipulação da mídia porque confunde as pessoas no conceito de informação. Não é por acaso que nunca ouvimos falar de certos assuntos, muito mais importantes nos noticiários televisivos e nos jornais impressos – a senhoriagem bancária, a produção e exportação de armas, as atividades do Fundo Monetário Internacional são alguns exemplos.

Logo, graças à manipulação da mídia, as pessoas não sabem que não sabem. Assistindo TV, lendo jornais ou obtendo informações nas redes sociais, a maioria de nós está convencida de que sabemos e, acima de tudo, que estamos definitivamente do lado certo. Além de que, os meios de comunicação de massa (rádio-TV-Web) tornaram-se decisivos na criação do senso comum.

Para tanto, a eficácia da manipulação midiática não depende de símbolos ou metáforas como tais, mas de sua capacidade de criar um contexto emocional favorável à aceitação de mensagens comerciais e principalmente as políticas (essas diretas e indiretas). Nesse sentido, a opinião pública acaba ficando presa na teia da propaganda política e recebe apenas estereótipos, ou seja, representações parciais e simplificadas da realidade. Posto isto, a mídia, embora uma ferramenta para o desenvolvimento da participação democrática, torna-se um risco potencial para a democracia.

Em resumo, a mídia de notícias e o governo estão entrelaçados em um círculo vicioso de manipulação mútua, criação de mitos e interesse próprio. Jornalistas, analistas e opinião pública, precisam de crises para dramatizar as notícias, e os funcionários dos governos das grandes potências hegemônicas precisam parecer estar respondendo as crises.

Muitas vezes, as crises não são realmente crises, mas fabricações conjuntas. As duas instituições tornaram-se tão enredadas em uma teia simbiótica de mentiras que os meios de comunicação são incapazes de dizer ao público o que é verdade e os governos democráticos são incapazes de governar efetivamente.

*Vanderlei Tenório é jornalista, bacharelando em geografia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Paulo Nogueira Batista Jr Paulo Capel Narvai João Lanari Bo Antonio Martins Fernando Nogueira da Costa Marcelo Guimarães Lima Luiz Eduardo Soares Marilia Pacheco Fiorillo Lincoln Secco Airton Paschoa Slavoj Žižek Marilena Chauí Boaventura de Sousa Santos Valerio Arcary Leonardo Sacramento Luís Fernando Vitagliano Vanderlei Tenório Chico Alencar João Carlos Loebens Jorge Branco Marcelo Módolo Lorenzo Vitral Anderson Alves Esteves Armando Boito Bruno Machado Claudio Katz Eugênio Bucci José Raimundo Trindade Henri Acselrad Ricardo Fabbrini Denilson Cordeiro Carlos Tautz Gilberto Lopes Bruno Fabricio Alcebino da Silva Luiz Roberto Alves Luiz Marques Eduardo Borges Salem Nasser Celso Favaretto Tadeu Valadares Atilio A. Boron Ronald León Núñez Yuri Martins-Fontes Anselm Jappe Chico Whitaker Jean Pierre Chauvin Henry Burnett Paulo Sérgio Pinheiro Kátia Gerab Baggio Manuel Domingos Neto André Singer Juarez Guimarães Priscila Figueiredo Leonardo Avritzer Flávio R. Kothe Paulo Fernandes Silveira Eliziário Andrade Gerson Almeida Luciano Nascimento Mário Maestri Roberto Noritomi João Adolfo Hansen Luiz Bernardo Pericás Gabriel Cohn Lucas Fiaschetti Estevez Elias Jabbour Bernardo Ricupero Francisco de Oliveira Barros Júnior Antônio Sales Rios Neto Luiz Werneck Vianna Berenice Bento Remy José Fontana Benicio Viero Schmidt Ricardo Antunes Mariarosaria Fabris Caio Bugiato José Machado Moita Neto Alysson Leandro Mascaro João Sette Whitaker Ferreira Afrânio Catani Andrew Korybko João Paulo Ayub Fonseca Flávio Aguiar Tarso Genro Alexandre de Lima Castro Tranjan Michael Roberts Eugênio Trivinho Francisco Pereira de Farias José Costa Júnior Paulo Martins Annateresa Fabris Marcus Ianoni Roberto Bueno Rafael R. Ioris Michael Löwy Bento Prado Jr. Carla Teixeira Dênis de Moraes Marjorie C. Marona João Carlos Salles Ronaldo Tadeu de Souza Milton Pinheiro Érico Andrade Fernão Pessoa Ramos Celso Frederico Rodrigo de Faria Liszt Vieira José Luís Fiori Ricardo Abramovay Heraldo Campos Ari Marcelo Solon Marcos Aurélio da Silva Luis Felipe Miguel Tales Ab'Sáber Leda Maria Paulani Vinício Carrilho Martinez Osvaldo Coggiola José Micaelson Lacerda Morais Ricardo Musse Manchetômetro André Márcio Neves Soares Rubens Pinto Lyra Eleonora Albano Thomas Piketty Gilberto Maringoni Daniel Costa Igor Felippe Santos Daniel Afonso da Silva Leonardo Boff Ronald Rocha José Geraldo Couto Walnice Nogueira Galvão João Feres Júnior Renato Dagnino Plínio de Arruda Sampaio Jr. Sandra Bitencourt Valério Arcary Maria Rita Kehl Vladimir Safatle Everaldo de Oliveira Andrade Luiz Costa Lima Daniel Brazil Luiz Renato Martins Luiz Carlos Bresser-Pereira Jean Marc Von Der Weid Antonino Infranca José Dirceu Alexandre Aragão de Albuquerque Francisco Fernandes Ladeira Samuel Kilsztajn Jorge Luiz Souto Maior Fábio Konder Comparato Sergio Amadeu da Silveira Marcos Silva Eleutério F. S. Prado Ladislau Dowbor Julian Rodrigues Alexandre de Freitas Barbosa Dennis Oliveira Otaviano Helene

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada