Guerra, mídia e manipulação

Imagem: Lucas Vinícius Pontes

Por VANDERLEI TENÓRIO*

Considerações a partir de um artigo de Domenico Losurdo

Muitas vezes, nossas opiniões nos foram habilmente sugeridas pela manipulação da mídia sem que tivéssemos plena consciência disso. De fato, a mídia usa métodos sutis para implantar crenças em nós, enquanto nos faz acreditar que elas nos pertencem, que nós as escolhemos.

As motivações para a manipulação da mídia podem ser diferentes, mas, na maioria das vezes, visam à criação de cidadãos submissos. Aqueles que ignoram informações importantes e não conhecem seus direitos geralmente não criam problemas para a estabilidade do sistema político e econômico.

Em outros casos, como fica patente no artigo “Como funciona a indústria da encenação na guerra-espetáculo, parte da máquina de guerra do imperialismo desde o fim da guerra fria aos dias atuais” de Domenico Losurdo, a disseminação de notícias falsas ou a ênfase em casos limítrofes serve para criar divisões. O amplo espaço dado às opiniões infundadas ou lógicas difundidas pelas grandes agências de notícias servem justamente para isso.

Nessa perspectiva, o primeiro meio usado para direcionar a opinião pública em um sentido ou outro é o alarmismo. Em consideração a isso, palavras como alarme, guerra, genocídio, ataque, terrorismo, emergência e perigo são usadas com muita frequência pela mídia homogênea mundial. Tais palavras servem para fazer as pessoas se sentirem inseguras e gerar um medo sutil constante nelas.

Outro método eficaz é focar a atenção em notícias que geram uma forte resposta emocional. As questões que poderiam desencadear uma reação das massas contra o establishment ficam em segundo plano para estimular debates inúteis sobre fatos que, infelizmente, não podem mais ser alterados. A morte de crianças ou a violência contra as mulheres são frequentemente usadas para desviar a opinião pública de outras questões que seriam desconfortáveis.

No artigo de Domenico Losurdo, fica nítido a concepção da (falsa) superinformação que é outra técnica de manipulação midiática. Como bacharelando em geografia e jornalista, observo o seguinte: Hoje, falamos até a exaustão sobre um assunto para dar ao ouvinte a impressão de que ele sabe o suficiente, muito, demais.

Porém, na realidade, as mesmas coisas são repetidas várias vezes e nada é explicado. Por que isso Tenório? isso é para evitar que o cidadão tenha o desejo de se aprofundar, buscando informações em outros lugares e, portanto, construindo um pensamento autônomo sobre ela.

A exemplo disso, Domenico Losurdo cita o seguinte trecho em seu artigo: “em 08 de abril de 1989, Hu Yaobang, secretário do PCCh até há um par de anos, sofreu um enfarto durante uma reunião da Comissão Política e morreu uma semana depois. Para a multidão na Praça da Paz Celestial a sua morte está ligada ao duro conflito político verificado no decorrer naquela reunião (Domenach, Richer, 1995, p 550.). De qualquer modo ele se torna vítima do sistema que se tenta derrubar”.

Outro artifício estruturante é o de extrapolar uma notícia do contexto, o que é útil para direcionar a opinião pública. Tal artifício é presente na construção narrativa das guerras. Quando isso acontece, observe que, geralmente apenas o número de vítimas e os locais são divulgados.

Dito isto, a situação política/social/econômica desses países nunca é explicada, muito menos os reais motivos que levaram à violência. Infelizmente, atualmente, estamos a ver esse artifício presente em todos os noticiários nacionais e interacionais através da guerra da Ucrânia. O artifício de extrapolar o contexto da notícia é visto também na terceira seção do artigo de Domenico Losurdo (A produção do falso, o terrorismo da indignação e o desencadeamento da guerra). Quando o historiador cita: a dissolução da Iugoslávia, o massacre de Racak e a Guerra do Golfo.

Sejamos sinceros, para manipular o que pensamos, basta uma escolha cuidadosa de imagens, palavras ou tom. Desta forma, podemos automaticamente despertar aprovação ou dissidência para o assunto em questão. Essa constatação está presente na terceira seção do artigo de Domenico Losurdo, através do seguinte trecho: “Em agosto de 1998, um jornalista americano e um alemão “referem-se à existência de valas comuns contendo 500 cadáveres de albaneses, incluindo 430 crianças, perto de Orahovac, onde ocorreram severos combates. A notícia foi retomada por outros jornais ocidentais com grande destaque. Mas era tudo falso, como evidenciado por uma missão de observação da UE” (Morozzo Della Rocca 1999, p. 17)”.

Por esse ângulo, até mesmo o espaço dado a notícias e receitas fúteis nos telejornais faz parte da manipulação da mídia porque confunde as pessoas no conceito de informação. Não é por acaso que nunca ouvimos falar de certos assuntos, muito mais importantes nos noticiários televisivos e nos jornais impressos – a senhoriagem bancária, a produção e exportação de armas, as atividades do Fundo Monetário Internacional são alguns exemplos.

Logo, graças à manipulação da mídia, as pessoas não sabem que não sabem. Assistindo TV, lendo jornais ou obtendo informações nas redes sociais, a maioria de nós está convencida de que sabemos e, acima de tudo, que estamos definitivamente do lado certo. Além de que, os meios de comunicação de massa (rádio-TV-Web) tornaram-se decisivos na criação do senso comum.

Para tanto, a eficácia da manipulação midiática não depende de símbolos ou metáforas como tais, mas de sua capacidade de criar um contexto emocional favorável à aceitação de mensagens comerciais e principalmente as políticas (essas diretas e indiretas). Nesse sentido, a opinião pública acaba ficando presa na teia da propaganda política e recebe apenas estereótipos, ou seja, representações parciais e simplificadas da realidade. Posto isto, a mídia, embora uma ferramenta para o desenvolvimento da participação democrática, torna-se um risco potencial para a democracia.

Em resumo, a mídia de notícias e o governo estão entrelaçados em um círculo vicioso de manipulação mútua, criação de mitos e interesse próprio. Jornalistas, analistas e opinião pública, precisam de crises para dramatizar as notícias, e os funcionários dos governos das grandes potências hegemônicas precisam parecer estar respondendo as crises.

Muitas vezes, as crises não são realmente crises, mas fabricações conjuntas. As duas instituições tornaram-se tão enredadas em uma teia simbiótica de mentiras que os meios de comunicação são incapazes de dizer ao público o que é verdade e os governos democráticos são incapazes de governar efetivamente.

*Vanderlei Tenório é jornalista, bacharelando em geografia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL).