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Antonioni na Amazônia

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Por AFRÂNIO CATANI*

André Ristum irá filmar “Tecnicamente Doce”, baseado num roteiro inédito do cineasta italiano

Eu acredito que apenas o Brian De Palma (1940) assistiu a Blow-Up (1966) mais vezes do que eu. Brincadeira à parte, Michelangelo Antonioni (1912-2007) é um de meus diretores prediletos, tendo colocado em tela imagens inesquecíveis e instigantes ao longo de vasta carreira, que incluiu grandes êxitos e não menos fracassos.

Em artigo publicado no ano passado no site A Terra é Redonda [1] escrevi sobre sua prosa literária, comentando o livro O fio perigoso das coisas, [2] uma reunião de 33 histórias, que Antonioni denominava de “núcleos narrativos”. Modestamente, ele se definia não como um escritor, mas “um diretor que escreve”. Blague: leitor voraz, vai citando, aqui e ali, vários clássicos e contemporâneos, mostrando domínio completo da técnica de contar histórias. Das 33 mencionadas no livro, 4 saíram do papel em Além das Nuvens (1995), filme de Wim Wenders que o italiano não aprovou totalmente.

Uma das histórias que ficou inédita no cinema foi “Antártida”, de apenas três linhas: “As geleiras da Antártida caminham três milímetros por ano em nossa direção. Calcular quando chegarão. Prever, num filme, o que acontecerá” (p. 19). Pois bem, outra inédita, mas que não está no livro é “Tecnicamente Doce” que, de acordo com a maravilhosa matéria de Leonardo Sanchez, publicada no jornal Folha de S. Paulo, [3] “deveria ter sido filmado entre Zabriskie Point, de 1970, e Profissão: Repórter, de 1975”. A ação transcorre, dentre outros cenários, na Amazônia – ou seja, o mestre de Ferrara passa do gelo para o calorão tropical.

Mas, do que se trata, exatamente, esse roteiro? É um Antonioni em estado bruto: “Um jornalista italiano entra numa crise existencial que o sopra para o além-mar, até terras brasileiras, onde ele embarca numa expedição pela Amazônia. Ele se envolve com uma jovem enigmática e tem como companhia um estudante de antropologia – pronto, o triângulo amoroso está formado”. A ação vai se desenvolver em Roma, na ilha da sardenha e na Amazônia, e será dirigida pelo cineasta André Ristum, numa produção da Gullane Entretenimento e da italiana Similar Film.

Leonardo Sanchez esclarece que os direitos foram adquiridos junto à viúva de Michelangelo, Enrica Antonioni, que em uma nota declarou que “foi um sofrimento para ele ter de abandonar a produção (…) Eu o conheci quando ele estava preparando o filme e o acompanhei em suas viagens à Sardenha e em busca de selvas ao redor do mundo, até chegarmos à Amazônia”. O texto acrescenta, ainda, que Antonioni pensou em fazer locações em solo brasileiro e a escalar Jack Nicholson e Maria Schneider para os papeis principais, mas Carlo Ponti, o produtor, acabou por não financiar a película.

Assisti, de André Ristum, apenas a Meu País (2011). Ele foi assistente de direção de Bernardo Bertolucci em Beleza Roubada (1996) e dirigiu mais de uma dezena de filmes, destacando-se O Outro Lado do Paraíso (2014) e A Voz do Silêncio (2018), além de ser roteirista de várias outras. Entretanto, o mais interessante, e pouco conhecido, é que Jirges Ristum, pai de André, era amigo de Antonioni, foi seu assistente em O Mistério de Oberwald (1980), também colaborou com Bertolucci e recebeu a autorização do diretor de Blow-Up para filmar “Tecnicamente Doce”, que seria sua estreia na direção. Entretanto, em 1984, um câncer o levou e quase sepultou de vez o roteiro.

André declarou a Leonardo Sanchez que “esse era um roteiro que sempre habitou meu imaginário e agora me permite ter uma reconexão com o meu pai”. Todos nós esperamos, com ansiedade, que a reconexão com Antonioni também se estabeleça, sendo o início das filmagens previsto para 2023. Oxalá!

*Afrânio Catani, professor aposentado da USP, é professor visitante na UFF e autor, dentre outros, de A Sombra da Outra: A Cinematográfica Maristela e o cinema industrial paulista nos anos 50.

Notas


[1] Afrânio Catani, “Antonioni: o fio perigoso das coisas”. In: A Terra é Redonda, 21. 04. 2020. Disponível em https://aterraeredonda.com.br/antonioni-o-fio-perigoso-das-coisas/

[2] Michelangelo Antonioni. O fio perigoso das coisas e outras histórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.

[3] Leonardo Sanchez. A nova aventura. Folha de S. Paulo, “Ilustrada”, 11. 03. 2021, p. B10.

 

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