Arredondando a saúde

Por Paulo Capel Narvai*

Naqueles tempos em que se cria que a terra era plana, o mundo já era assombrado pelos demônios, conforme contou Carl Sagan. Quase 27 séculos depois que os primeiros pré-socráticos começaram a cogitar a esfericidade do planeta, dentre os quais um tal de Pitágoras, o mundo segue atormentado por fantasmas e outros bichos. A teoria dos miasmas, quase dois séculos depois que John Snow acabou com duas epidemias de cólera, sem conhecer o Vibrio cholerae, apenas fechando torneiras estratégicas em Londres, segue, para muitos, como modelo explicativo dessa e outras doenças.

Não foi suficiente que, em 1522, Fernão de Magalhães completasse a circum-navegação da Terra, atestando sua esfericidade, nem que Isaac Newton, no século seguinte, explicasse que a gravidade nos permitiria habitar qualquer ponto da Terra – e não apenas o topo dela, para não cairmos no vazio –, para nos livrarmos de fantasmas e espíritos que nos fariam adoecer, algo em que ainda se crê, firmemente.

Ainda nos anos 1990, Carl Sagan escolheu um subtítulo significativo para seu livro O mundo assombrado pelos demônios (Companhia das Letras), dedicado a combater explicações pseudocientíficas e místicas: a ciência vista como uma vela no escuro. Preocupava-o a irresponsabilidade dos meios de comunicação com a veiculação de crendices e misticismos, em busca de audiência e dinheiro. Sagan procurava reafirmar o papel positivo e benéfico da ciência e da tecnologia. Acreditava no poder da razão iluminando o mundo: “Não sei até que ponto a ignorância em ciência e matemática contribuiu para o declínio da Atenas antiga, mas sei que as consequências do analfabetismo científico são muito mais perigosas em nossa época do que em qualquer período”.

Em O Amor nos tempos do cólera (Record), Gabriel García Márquez nos brinda com a história de amor, que atravessa o tempo, do telegrafista, violinista e poeta Florentino Ariza por Fermina Daza. Foram necessários 53 anos de espera, entremeados pelo matrimônio de Fermina com Juvenal Urbino, o médico tido como o responsável pelo que Márquez considerou ser a erradicação da pandemia de cólera, que à época matava aos milhares na Colômbia.

Não era a erradicação. O amor e os tempos do cólera seguem sendo, atualíssimos, nesta parte do nosso planeta redondo e azul. Com certa perplexidade, vemos reemergir nas décadas iniciais do século XXI epidemias e pandemias que pensávamos sepultadas naquele passado remoto a que García Márquez aludiu. Mas estavam apenas adormecidas. O ressurgimento nos dá, porém, a exata medida da importância de combater a pseudociência e, simplesmente, a ignorância, pois podem matar. Tanto ou mais que vírus e bactérias.

É o que ocorre em nossos dias na África Ocidental, que segue fustigada por surtos de ebola, um tipo de febre hemorrágica que, em casos extremos, causa sangramentos fatais. A taxa de letalidade é alta, superior a 50% podendo chegar a 90%. Entre 2013 e 2015, um desses surtos atingiu Guiné, Libéria e Serra Leoa, matando mais de 11.300 pessoas. Em fevereiro deste ano, novo surto na República Democrática do Congo matou 502 pessoas, em seis meses. A falta de confiança nas orientações dos profissionais de saúde é a principal dificuldade para controlar os surtos.

Governos Temer e Bolsonaro aprofundam a privatização do SUS

Não há vacina. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda aos países que organizem sistemas de saúde com serviços equipados e equipes bem treinadas para fazer Atenção Primária à Saúde, como o melhor método de prevenção da doença.

Em outras palavras, fazer o que vem fazendo o Brasil com nosso Sistema Único de Saúde (SUS), presente e organizado em todos os municípios. Mas o SUS vem, a duras penas, sobrevivendo aos ataques que, diariamente, lhe são desfechados por empresas interessadas em vender “planos de saúde” e que, nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, têm contado com a ajuda de ministros da Saúde que, ao invés de comandar, organizar, fortalecer e dotar o SUS dos recursos de que necessita, transformaram-se em lobistas dessas empresas. Fazem o oposto do que recomenda a OMS – e a melhor ciência.

Nesse cenário, não surpreende a reemergência de enfermidades como sarampo que, mesmo dispondo de vacina eficaz, está fora de controle sanitário no Brasil. O acumulado no país nos meses de junho, julho e agosto de 2019 registrou 2.753 casos. A incúria sanitária matou quatro pessoas. Só mesmo pessoas ingênuas, ou de má fé, podem atribuir as mortes ao Morbillivirus.

Na origem dessa incúria encontram-se a pseudociência, cujas mentiras, disseminadas em redes sociais por pessoas irresponsáveis, causam medo e insegurança em pais e responsáveis, mas, sobretudo, o descaso com as instituições públicas do SUS. Estas, que padecem de crônico subfinanciamento, encontram-se agora na iminência de serem simplesmente desfinanciadas, em decorrência da conhecida como “EC da Morte”, a Emenda Constitucional 95/2016, que congelou por 20 anos os recursos do SUS, corrigindo-os pela inflação, com base em dados do orçamento de 2017. A previsão de economistas é de uma perda de recursos que, acumulada, pode chegar a cerca de R$ 900 bilhões, até 2036.

Uma das consequências da vigência da EC-95/2016 é o anúncio, pelo governo Bolsonaro, de uma redução de 7% no orçamento para compra e distribuição de vacinas, em 2020. O corte equivale a cerca de R$ 400 milhões. A decisão teria sido inspirada em pregações antivacinistas de um ideólogo “terraplanista” do governo federal.

Em tempos de sarampo, a hanseníase também ressurge com força: após mais de uma década registrando queda na incidência, o Brasil teve um aumento de 14% entre 2016 e 2018, com 25.215 casos novos em 2016 e 28.657 em 2018, segundo o Ministério da Saúde.

O aumento na ocorrência de hanseníase, conhecida como uma “doença bíblica”, é emblemático desses tempos de ódio, pseudociência, fantasmas e espíritos rondando a vida de cada um, mas, sobretudo, projetando-se sobre o Estado e influenciando políticas públicas.

Sagan faz falta. Mas também nos fazem muita falta Oswaldo Cruz, Paula Souza, Sérgio Arouca e muit(x)s que, com seu talento e compromisso público, tanto contribuíram para nos tirar dos tempos do cólera que, não obstante, insiste em não se apartar de nossa gente.

*Paulo Capel Narvai é professor titular de Saúde Pública na USP