A guerra híbrida anunciada

Imagem: Jonathan Meyer
image_pdf

Por SANDRA BITENCOURT*

Já estamos em guerra? Quais serão nossas armas?

Com apenas três dias de governo, o jornal O globo anuncia em editorial que a lua de mel com o governo Lula já chega ao fim, devido à impaciência da população e à desconfiança do mercado. São escassas 72 horas para decretar a erosão recorde de capital político saído das urnas. Estamos, portanto, já em posição de vidraça e com os estilingues de todo tipo voltados para um novo governo popular. O escrutínio de cada gesto, cada declaração, cada movimento já teve partida, buscando identificar fontes de desgaste e símbolos de vícios esquerdistas.  Quais serão nossas armas nessa guerra híbrida já anunciada?

O conceito de “guerra híbrida” é escorregadio, embora largamente utilizado. Do ponto de vista militar, de acordo com Frank G. Hoffman, esses tipos de conflitos “incorporam uma gama de diferentes formas de guerra, incluindo capacidades convencionais, táticas e formações irregulares, atos terroristas envolvendo coerção e violência indiscriminada e desordem criminal”.  Essa abordagem engloba duas tendências: “convergência” e “combinação”, que incluem estruturas criminosas e organizações terroristas com vínculos organizacionais e estratégias comuns.

Para além da teoria militar da guerra híbrida, gostaria de me fixar na estratégia mais difundida e alargada, que envolve a comunicação coletiva de massas. Trata-se de um fenômeno de caráter internacional, alinhado politicamente com as agendas, instituições e projetos hegemônicos que sustentam uma nova direita extremada e apta para fazer o papel sujo na captura das nações pelos sistemas financeiros/rentistas que pretendem acumular cada vez mais em cenários de direitos devastados.

A tecnologia disponível e já apropriada por essa direita nativa digital maximiza o efeito de conflito de informações e desordem das redes, com a lógica da confrontação. Não está limitada à produção de fake news, mais bem é vinculada à criação e disseminação de influenciadores que vendem um modo de vida, alguns valores libertários e propiciam o vínculo simbólico com a visão de extrema direita, capturando sobretudo os que vivem à margem da cidadania e da proteção social.

Através da tecnologia se produz um imperativo industrial de remodelação do mundo. Mas esta metamorfose não vem produzindo a democratização da informação, e sim uma sociedade da informação global que leva à concentração dos meios de comunicação e a ascensão do poder do mercado sobre a vida.

Como responder a isso? Como se preparar para esses movimentos e táticas que arregimentam frações significativas de uma sociedade aviltada pela desigualdade e o empobrecimento?

A primeira resposta, no meu entendimento, é que o campo da comunicação não deva ser compreendido, pelo novo governo, como algo meramente instrumental, uma ferramenta de visibilidade do poder. E sim adotado como médium complexo das aspirações cidadãs, que precisa estar coordenado com diagnósticos e monitoramentos para interferir e disputar nas mais diversas áreas de políticas públicas tão urgentes. Essa visão, por exemplo, necessita reconhecer que não vamos passar a trabalhar melhor com as novas tecnologias. Não são novas, já foram apropriadas, utilizadas largamente e seus efeitos já foram sentidos.

Não se trata de introduzir redes sociais na comunicação governamental. O que exatamente o novo governo pretende em termos de transformação digital democrática? Precisamos de compreensão e respostas capazes de lidar com segmentos expressivos que atuam com crença e sentido de comunidade, não necessariamente com razão e bom senso. E o que esperar da relação com um sistema midiático em transformação, com meios de referência que precisaram decapitar o líder facínora tolerado pelos interesses de mercado, mas que agora não querem dar a impressão de estar de joelhos para a nova ordem comunista do país?

A primazia tecnológica, econômica e militar é estabelecida a partir do domínio das redes de informação e comunicação. Precisamos agregar a isso o papel dos meios de comunicação e o Estado como promotor de regulação e credibilidade nesses ambientes. É o momento também do encontro da academia com as grandes questões estratégicas da nação.

Desse ponto de vista acadêmico e ativista da comunicação pública, seria importante observar três eixos inescapáveis: (i) fortalecer a comunidade acadêmica que constitui e constrói o campo. Há acúmulo de saberes que precisam ser acessados; (ii) aproximar os horizontes conceituais do que é Comunicação social nos conflitos contemporâneos e na geopolítica; (iii) desenvolver investigação que permita enriquecer o património teórico-metodológico existente e a partir daí desenhar ações, medidas, pactos e regulações.

É tarefa difícil, mas urgente e com construções em marcha. São nossas armas de defesa. Pelo que parece, não teremos tempo para respirar aliviados.

*Sandra Bitencourt é jornalista, doutora em comunicação e informação pela UFRGS, diretora de comunicação do Instituto Novos Paradigmas (INP).

 

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
A rede de proteção do banco Master
28 Nov 2025 Por GERSON ALMEIDA: A fraude bilionária do banco Master expõe a rede de proteção nos bastidores do poder: do Banco Central ao Planalto, quem abriu caminho para o colapso?
2
A poesia de Manuel Bandeira
25 Nov 2025 Por ANDRÉ R. FERNANDES: Por trás do poeta da melancolia íntima, um agudo cronista da desigualdade brasileira. A sociologia escondida nos versos simples de Manuel Bandeira
3
O filho de mil homens
26 Nov 2025 Por DANIEL BRAZIL: Considerações sobre o filme de Daniel Rezende, em exibição nos cinemas
4
A arquitetura da dependência
30 Nov 2025 Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR: A "arquitetura da dependência" é uma estrutura total que articula exploração econômica, razão dualista e colonialidade do saber, mostrando como o Estado brasileiro não apenas reproduz, mas administra e legitima essa subordinação histórica em todas as esferas, da economia à universidade
5
A disputa mar e terra pela geopolítica dos dados
01 Dec 2025 Por MARCIO POCHMANN: O novo mapa do poder não está nos continentes ou oceanos, mas nos cabos submarinos e nuvens de dados que redesenham a soberania na sombra
6
Colonização cultural e filosofia brasileira
30 Nov 2025 Por JOHN KARLEY DE SOUSA AQUINO: A filosofia brasileira sofre de uma colonização cultural profunda que a transformou num "departamento francês de ultramar", onde filósofos locais, com complexo de inferioridade, reproduzem ideias europeias como produtos acabados
7
Raduan Nassar, 90 anos
27 Nov 2025 Por SABRINA SEDLMAYER: Muito além de "Lavoura Arcaica": a trajetória de um escritor que fez da ética e da recusa aos pactos fáceis sua maior obra
8
A feitiçaria digital nas próximas eleições
27 Nov 2025 Por EUGÊNIO BUCCI: O maior risco para as eleições de 2026 não está nas alianças políticas tradicionais, mas no poder desregulado das big techs, que, abandonando qualquer pretensão de neutralidade, atuam abertamente como aparelhos de propaganda da extrema-direita global
9
O empreendedorismo e a economia solidária
02 Dec 2025 Por RENATO DAGNINO: Os filhos da classe média tiveram que abandonar seu ambicionado projeto de explorar os integrantes da classe trabalhadora e foram levados a desistir de tentar vender sua própria força de trabalho a empresas que cada vez mais dela prescindem
10
Totalitarismo tecnológico ou digital
27 Nov 2025 Por CLAUDINEI LUIZ CHITOLINA: A servidão voluntária na era digital: como a IA Generativa, a serviço do capital, nos vigia, controla e aliena com nosso próprio consentimento
11
Walter Benjamin, o marxista da nostalgia
21 Nov 2025 Por NICOLÁS GONÇALVES: A nostalgia que o capitalismo vende é anestesia; a que Benjamin propõe é arqueologia militante das ruínas onde dormem os futuros abortados
12
Biopoder e bolha: os dois fluxos inescapáveis da IA
02 Dec 2025 Por PAULO GHIRALDELLI: Se a inteligência artificial é a nova cenoura pendurada na varinha do capital, quem somos nós nessa corrida — o burro, a cenoura, ou apenas o terreno onde ambos pisam?
13
O arquivo György Lukács em Budapeste
27 Nov 2025 Por RÜDIGER DANNEMANN: A luta pela preservação do legado de György Lukács na Hungria de Viktor Orbán, desde o fechamento forçado de seu arquivo pela academia estatal até a recente e esperançosa retomada do apartamento do filósofo pela prefeitura de Budapeste
14
Argentina – a anorexia da oposição
29 Nov 2025 Por EMILIO CAFASSI: Por que nenhum "nós" consegue desafiar Milei? A crise de imaginação política que paralisa a oposição argentina
15
O parto do pós-bolsonarismo
01 Dec 2025 Por JALDES MENESES: Quando a cabeça da hidra cai, seu corpo se reorganiza em formas mais sutis e perigosas. A verdadeira batalha pelo regime político está apenas começando
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES