A classe C na Globo

Imagem: Elyeser Szturm

A telenovela Avenida Brasil , geralmente associada ao lulismo, assenta-se, em seu momento crucial, nas bases ideológicas de uma espécie de reação conservadora ou restauradora

Por Caio Vasconcellos*

Avenida Brasil é considerada um marco na teledramaturgia nacional. Exibida pela Rede Globo em 2012, o folhetim eletrônico bateu recordes de audiência e de faturamento publicitário, invertendo uma tendência importante de queda no interesse do público por esse tipo de mercadoria cultural manifestada, ao menos, desde meados da década de 1990.

Notabilizando-se por explorar em sua trama temas candentes do contexto socioeconômico brasileiro daquele período, a telenovela dava impressão de render homenagem ao “lulismo” que, à época, se constituía como uma força político-ideológica quase sem adversários competitivos.

Embora Avenida Brasil tenha se aventurado a apresentar representações do cotidiano e de formas de sociabilidade de personagens que comporiam a chamada “classe C”, o propósito deste breve ensaio é uma discussão sobre as bases ideológicas de uma espécie de reação conservadora – ou melhor, restauradora – que estrutura a trama principal do folhetim eletrônico.

Anunciada já na primeira semana de exibição de Avenida Brasil, a vingança de Rita/Nina (Débora Falabella) sobre sua arquirrival Carminha (Adriana Esteves) foi o momento de ápice da telenovela. Após ser abandonada em um lixão por sua madrasta e por seu amante Max (Marcelo Novaes), a menina Rita promete se vingar dessas personagens por conta da morte de seu pai Genésio (Tony Ramos) e pelo roubo do dinheiro da venda da casa onde residiam.

Adotada por uma endinheirada família argentina, Rita transforma-se em Nina – educada em um ambiente de alta classe, torna-se uma prestigiada chef de cuisine e proprietária de um requintado restaurante em Buenos Aires. Com a morte de seu pai adotivo, a protagonista da novela resolve voltar ao Brasil mais de uma década após sua partida, e encontra em uma vaga aberta de cozinheira na casa de Tufão (Murilo Benício), atual esposo de Carminha, a oportunidade de, finalmente, executar a vingança planejada durante toda sua vida.

Exibida apenas entre os capítulos 103 e 132 da telenovela, a vingança de Nina parece, à primeira vista, se estruturar como uma simples inversão de seus respectivos papéis. De posse de fotos que comprovariam a relação extraconjugal que Carminha mantinha com Max, a protagonista da trama obriga a sua patroa a assumir as tarefas destinadas às empregadas domésticas da mansão, e o faz com crueldade equivalente à de sua arquirrival.

Nesse primeiro momento, a mocinha da trama ordena que Carminha prepare e lhe sirva um jantar, limpe o chão sob xingamentos e outras humilhações, desinfete o vaso sanitário da suíte principal e, de maneira quase pedagógica, comanda uma incursão ao seu quarto de empregada – ressaltando a falta de ventilação e de iluminação do diminuto cômodo, a falta de água quente no chuveiro, o cheiro ruim da habitação, entre outras precariedades. Nos diálogos entre as personagens, houve espaço, inclusive, para que Nina arrancasse de Carminha a promessa de um aumento substantivo dos salários de suas colegas, de respeitar limites às suas jornadas de trabalho e de, enfim, remunerar suas horas-extra.

Porém, além de uma crítica social de baixa intensidade e da sugestão de que as aviltantes condições de trabalho às quais é submetida parcela expressiva da população brasileira pudessem corresponder a uma punição merecida por alguma vilania do passado, a vingança de Nina mobiliza ainda outros temas e construções ideológicas importantes.

Se, em certa tradição crítica brasileira, há uma expectativa utópica recorrente de que setores populares possam, enfim, civilizar os maus hábitos e vícios das elites nacionais, a personagem Nina desempenha um papel completamente distinto. Ao se fantasiar de cozinheira de uma mansão no periférico bairro do Divino, a herdeira de uma rica família argentina assume também a missão de restaurar a ordem de posições sociais e de valores que, supostamente, estariam em ruínas.

Desde o início da vingança, a posse bastante desigual de convenções culturais de distinção de classe é instrumento utilizado para punir e disciplinar a patroa. Embora partilhassem a mesma origem popular, a personagem Carminha é retratada como inculta, fútil e cafona, como alguém preocupada apenas com as aparências, enquanto Nina parece ser portadora de uma elegância inata, seja por seus modos e gestos contidos, por certa cultura livresca e pela pronúncia correta de expressões e termos estrangeiros – frutos do mérito de sua adoção por uma família abastada ainda em sua infância.

Aos olhos e pelas falas de Nina, os anos de riqueza de Carminha não se traduziram em nenhum melhoramento de seus gostos, seu guarda-roupa seria composto por peças de confecção do bairro periférico do Divino, a personagem desconhecia regras básicas de etiqueta, mantendo-se a mesma “cafonuda” que, antes de se casar com o ex-jogador de futebol Tufão, trajava-se com “pochetinha e conjuntinhos jeans”.

Na cena em que é obrigada a servir o jantar para Nina, Carminha é repreendida para se aprumar e corrigir sua postura, suas mãos deveriam estar à frente do corpo – repousadas – e que, ao menos, ela precisaria fingir ser uma serviçal de classe capaz de servir a refeição da maneira correta, isto é, à francesa.

Em diálogo travado entre as personagens, Nina se dirige à sua patroa nos seguintes termos e em nível crescente de agressividade: – Nina: Exatamente, eu estou sentada na cabeceira porque hoje quem vai me servir é você, vaca! A partir de agora, eu sou a madame e você é minha empregadinha. Vai, anda, me serve que eu estou com fome, não estão vendo? Me serve, eu estou mandando, me serve! Anda, me serve! Eu estou mandando, não está vendo? Está esperando o que, hein? Me serve, vadia, me serve!

Ao mesmo tempo em que anunciava buscar restituir a posse de privilégios de classe à sua portadora supostamente legítima, esse trecho permite perceber também outro elemento bastante atuante na vingança de Nina. Aspecto presente nas diferentes fases de Avenida Brasil e proferido por tantas outras de suas personagens, o componente de misoginia nos diálogos entre Nina e Carminha é estarrecedor.

Em uma das primeiras cenas entre as duas, a protagonista ordena que sua rival esquente o seu jantar e, munida com uma colher de pau nas mãos, a golpeia nas nádegas, com a seguinte fala: – Nina: Esquenta essa comida direito, cavalgadura. Não sabe nem mexer uma panela, vadia. Mas esse seu traseiro bem que você sabe mexer pro teu macho, não é não?

Levando-se em conta apenas as cenas entre as personagens durante a vingança, Nina ofende sua arquirrival com termos como “vadia” – por mais doze oportunidades –, “vaca” – por cinco vezes –, “vagabunda”– em quatro ocasiões –, “prostituta” – três vezes – e “cadela” – por uma vez –, sem contar outros xingamentos como de burra, besta, imbecil, inútil, imprestável, etc. Mesmo ameaçada pela possível revelação ao seu marido de sua relação extraconjungal, a personagem de Carminha ainda assim foi capaz de retrucar as ofensas de Nina em algumas poucas oportunidades, também a chamando de “vadia” – por três vezes –, de “vagabunda” – em duas ocasiões – e de “piranha” – por uma vez.

Ademais, além dessa manifestação de misoginia nos diálogos entre as personagens, a vingança de Nina também mobilizou outros expedientes bastante violentos e conservadores em questão de gênero. Nos capítulos da primeira semana da revanche, a ausência dos demais empregados e dos membros da família de Carminha na casa no Divino, que haviam viajado para o município de Cabo Frio, possibilitava que o plano fosse executado sem qualquer disfarce.

Contudo, com o retorno à mansão dessas outras personagens, a protagonista da trama se via obrigada a voltar também ao seu antigo papel de cozinheira, e redirecionar suas estratégias de punição. Essa segunda fase da vingança é assim anunciada por Nina: – “Eu podia entregar essa bomba pro Tufão agora, junto com as fotos da sua traição. Mas em vez disso, eu vou acrescentar mais uma exigência no nosso pacto. Você vai tratar bem a Ágata [filha mais nova de Carminha], você vai aprender a ser uma boa mãe. Aliás, você vai aprender a ser uma boa dona de casa e uma mulher de família. E não uma perua louca que sai fazendo compras, corneando o marido, fingindo que está trabalhando em ONG. (…). Ah, e também vai cozinhar para o seu filho, você vai fazer o jantar hoje. Você não diz que ama tanto o Jorginho?”

Todavia, esse novo e derradeiro momento da vingança de Nina não se restringiu em tentar readequar a personagem de Carminha ao figurino de uma dona-de-casa tradicional. Na verdade, o plano explorava estereótipos ainda mais sórdidos – fazer crer que a vilã da trama se tornara louca e histérica. Após obrigar Carminha a preparar um jantar à sua família, Nina mistura lixo à refeição elaborada por sua antiga madrasta e servida aos demais moradores da mansão, levantando as primeiras suspeitas a respeito da sanidade mental de sua patroa.

O diagnóstico de sua loucura viria a ser atestado pelos homens da casa – primeiro o seu sogro Leleco (Marcos Caruso) e, alguns capítulos mais tarde, a suspeita foi transformada em certeza por seu marido Tufão. Como se também subscrevesse esse antigo e persistente preconceito contra as mulheres, a própria Carminha manifestava dia após dia tiques nervosos e outros movimentos incontrolados até que, em uma cena um tanto forçada, salta pela janela de seu quarto – localizado no segundo andar de sua mansão. Acudida por seus familiares, Carminha é recolhida, de modo bastante violento, por uma equipe médica, e os efeitos da vingança desencadeiam uma internação compulsória em um hospício. A loucura de Carminha encontra sua certificação científica.

Assim, mobilizando toda essa sorte de estereótipos e preconceitos, a vingança de Nina se baseia em um conjunto de expedientes que parecem querer restaurar os lugares e as posições de quem inverteu a ordem das coisas. Malgrado os motivos individuais que motivaram a revanche da protagonista, o significado da punição de Carminha se amplifica em termos sociais – quem ascendeu economicamente, mas não domina os códigos e formalismos das classes dominantes, deve voltar às suas origens; aquelas que subvertem o modelo da família patriarcal burguesa, ou retornam ao seu papel tradicional ou assumem a sua loucura.

É interessante observar certo paralelo entre a essa estrutura da vingança de Nina e uma disposição ideológica descrita por Adorno em Personalidade autoritária. Em um mundo no qual a força indomada da economia se revela em qualquer experiência cotidiana, os indivíduos se vêem obrigados a se adaptar à distribuição de poder que, de fato, organiza as sociedades.

Ainda que a ilegitimidade e a injustiça de tal situação sejam visíveis a todos, o ressentimento ante os privilégios tende a ser reprimido no plano da consciência, desencadeando uma espécie de compromisso emocional e ambivalente entre a aceitação forçada às regras de jogo e a resistência frente a elas. Então, o ódio pode ser deslocado dos mecanismos de opressão e de dominação propriamente ditos para aqueles que, como se usurpassem essas posições de comando, se identificam com elas, mas, ao mesmo tempo, violam certos códigos e convenções das relações de poder existentes – e a vida segue o drama.

*Caio Vasconcellos é pesquisador de pós-doutorado junto ao departamento de sociologia da Unicamp.