As formas do mar – poesia chinesa contemporânea

Renê Burri, Antigo Palácio de Verão. Flores de lótus mortas no lago Kunming. Pequim, 1964.
image_pdf

Por FRANCISCO FOOT HARDMAN*

Apresentação da antologia bilíngue recém-lançada

Raridade e estranheza que somente a boa poesia nos traz, as leitoras e leitores brasileiros têm agora a oportunidade de conhecer uma amostra preciosa da produção poética contemporânea na China.

Esta edição bilíngue em português e chinês só se tornou viável graças ao trabalho de uma equipe para lá de afinada. Na tradução, o cuidado e competência de Inez Zhou e Dora Ribeiro. E na organização, o trabalho produtivo de Hu Xudong, que teve sua suspensão repentina com o trágico falecimento de nosso grande amigo e poeta Hu, em 2021. Ironia das mais tristes, esta: das 2 poetas mulheres e dos 8 poetas homens aqui selecionados, nascidos entre 1968 e 1991, somente Hu já não está entre nós. Justamente ele, um dos maiores animadores da cena poética chinesa contemporânea…

Além disso, essa antologia se vê enriquecida pela nota introdutória das tradutoras Inez Zhou e Dora Ribeiro, cuja parceria, vocês logo lerão, deu supercerto.

São 10 poetas e 52 poemas os mais diversos, com notas biobibliográficas que nos introduzem muito bem na leitura necessária dessa produção. Cuja marca maior parece não conter marcas, isto é: vários espaços-tempos perpassam na voz dessa jovem poesia, bem de acordo com aquele delineamento sugerido pelo erudito professor Zhang Longxi, em sua síntese monumental A History of Chinese Literature (2023). Isso, quando ele sugere, a propósito, essa abertura temática e quebra de paradigmas na produção literária chinesa contemporânea, ou seja, aquela feita a partir dos anos 1980, em seus mais diferentes gêneros.

Assim sendo, as vozes que aqui se alternam nos lembram de romances clássicos como o magistral Margem da Água (século XIV), ou então, a era esplendorosa da antiga poesia Tang (séculos VII a X), intercruzadas em cenas cotidianas, prosaicas, que beiram algumas vezes o fantástico e o surreal, outras vezes a contemplação melancólica de paisagens belas e distantes de uma acelerada hiperurbanização, com seus efeitos notáveis e, ao mesmo tempo, muito complexos na vida comum das pessoas.

Apenas como amostra dessa experiência poética feita de imagens ao mesmo tempo próximas e estranhas, transcrevo um trecho do poema em prosa de Jiang Hao[i], “A forma do mar”, escrito na província insular mais ao Sul da China, Hainan, em outubro de 2003, e que certamente inspirou o título do livro que a Jabuticaba ora nos oferece:

A forma do mar

Toda vez que você me perguntar sobre a forma do mar,
Vou buscar dois sacos de água do mar.
Esta é a forma do mar, como um par de olhos;
Ou a forma do mar vista pelos olhos.
Se você tocar neles, parece que está limpando
Duas lágrimas escaldantes.
[…]

Quantas rotas será possível seguir neste país tão maravilhoso e imprevisível? As leitoras e leitores podem, agora, ensaiar suas próprias viagens, por poemas que convidam, ao mesmo tempo, ao exílio e à meditação. Porque impressiona muito, aqui, nesta antologia, a sucessão de lugares diversos, seja nos textos das/os 10 poetas, seja em seus próprios destinos pessoais.

E nesse entardecer de primavera, aqui em Pequim, onde escrevo essas linhas de apresentação, me vem viva a memória de Hu Xudong, e sua alegria contagiante. Numa tarde de agosto de 2018, ele retornava a São Paulo de uma viagem que o emocionara tanto. Visitara Alagoinhas, e daí Canudos, a convite do Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural da Universidade do Estado da Bahia, e ficara feliz de ter pisado num espinho do cacto de mandacaru, ao caminhar pela caatinga dos sertões baianos.

Depois, em Campinas, no IEL da Unicamp, declamava alguns de seus poemas como um aguerrido militante. Nas traduções primorosas e simultâneas de Ma Lin, então nossa pós-graduanda, tínhamos uma jornada de Poesia, Modernidade e Revolução das mais animadas e comoventes por lá. Foi ali, também, que Hu e Marcelo se conheceram pessoalmente.

O volume que aqui se publica resulta, também, portanto, dessa viagem. Quem o puder ler, agora, que faça a melhor escolha de seus próprios caminhos.

*Francisco Foot Hardman é professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Autor, entre outros livros, de A ideologia paulista e os eternos modernistas (Unesp). [https://amzn.to/45Qwcvu].

Referência


Hu Xudong (org.). As formas do mar: poesia chinesa contemporânea. Antologia bilíngue. Tradução: Inez Zhou e Dora Ribeiro. São Paulo, Edições Jabuticaba, 2024, 176 págs. [https://shre.ink/gcrK]

Nota


[i][i] Jiang Hao nasceu em 1971, em Chongqing, no sudoeste da China, uma das maiores metrópoles do mundo (cerca de 32 milhões de habitantes), próxima do rio Yangtzé e da hidrelétrica gigante das Três Gargantas. Ele é poeta, crítico e editor. Tem sua obra traduzida, entre outros idiomas, em inglês, alemão e francês. Vive há um bom tempo na província-ilha de Hainan, extremo sul da China.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES