As garras do império

Imagem: Nikolay Atanasov
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Por QUINN SLOBODIAN*

O Ocidente está em retrocesso, tentando administrar uma situação em que, de repente, não controla mais os acontecimentos mundiais

O conflito Israel-Palestina joga no caos as relações dos EUA com seus parceiros do Oriente Médio. A subida dos preços do petróleo reforça a posição dos países produtores e oferece a perspectiva de um realinhamento em relação às potências centrais dos Estados Unidos, da Europa e da Rússia. O Ocidente está em retrocesso, tentando administrar uma situação em que, de repente, não controla mais os acontecimentos mundiais.

O ano dessa referência não é 2023, mas há 50 anos, 1973, no início da Guerra do Yom Kippur. A situação de então levou os países árabes produtores de petróleo a um embargo dos envios para os Estados apoiadores de Israel. Ora, esse aniversário provavelmente não é uma coincidência. Ele deve ter feito parte dos planos do Hamas para seu ataque de 7 de outubro de 2023. Contudo, vale a pena perguntar qual foi a diferença entre o que acontece agora e aquele momento passado? Como mudaram as condições? Os países pobres têm mais ou menos influência do que naquela época?

Um novo livro de Henry Farrell e Abraham Newman, Underground Empire: How America Weaponised the World Economy, ajuda a responder a essa pergunta. O uso militar do petróleo em 1973 foi possível pela existência de pontos de estrangulamento no sistema produtivo mundial. Embora os Estados Unidos continuassem a ser um grande produtor, a Europa Ocidental, em particular, dependia dos embarques feitos no Oriente Médio. Havia uma torneira que podia abrir e fechar com efeitos potencialmente devastadores.

O que o livro citado mostra é que os Estados Unidos aprenderam diretamente – e, com mais probabilidade, indiretamente – a lição desse momento em que uma fraqueza ficou bem exposta. Farrell e Newman descrevem o aumento nos últimos 50 anos do que chamam de “imperialismo em rede” dos Estados Unidos. Numa época em que os mercados deveriam estar cada vez mais dissociados dos Estados, os autores demonstram que o contrário é o que verdadeiramente ocorreu.

Os EUA, em particular – com a China como um hábil inovador tardio –, esforçaram-se, de fato, para inventar habilmente maneiras de transformar as aparentemente confusas infraestruturas globais de finanças, informação, propriedade intelectual e cadeias de suprimentos de produção em laços, visando controlar e mesmo abafar, potencialmente, qualquer desafio ao poder americano.

O embargo da OPEP e a Guerra do Yom Kippur ocorreram em 1973, mas este também foi o ano da criação do sistema de transações financeiras Swift (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication). Como se sabe, essa estrutura foi construída a partir da Holanda pelo banqueiro holandês Jan Kraa. Isso permitiu que os bancos “conversassem entre si além das fronteiras”, substituindo o sistema anterior em que os operadores tinham que “realizar cálculos logarítmicos usando livros de códigos compartilhados (code-share)” para garantir a segurança.

Em 1975, já havia 270 bancos cadastrados. Hoje, mais de 11 mil bancos enviam, em média, 42 milhões de mensagens por dia. No final dos anos 90, a Swift era a câmara de compensação para a maioria das transações financeiras internacionais. Também serviu como um meio do que os autores chamam de “guerra sem armas” com o qual o governo dos EUA passou a enfrentar os seus oponentes geopolíticos.

O primeiro uso foi contra um dos membros fundadores da Opep, o Irã, que havia empunhado a arma petrolífera após a revolução de 1979. Ao excluir aqueles que faziam negócios com o Irã do Swift, na década de 2010, o país efetivamente foi colocado em quarentena em relação ao sistema financeiro global.

A segunda ferramenta utilizada foi a chamada “lista de entidades”. Esta “arma” proíbe os países de vender, sem licença, tecnologia ou produtos fabricados nos EUA para empresas consideradas de risco à segurança nacional. Embora os EUA tivessem terceirizado a maior parte de sua própria fabricação, ainda continuam produzindo pequenos componentes-chave ou, de modo mais importante, persistem em patentear as partes-chaves das tecnologias.

Desde a declaração de guerra comercial do governo Trump com Pequim, a China tem sido o principal alvo dessa forma de controle de exportações, a qual restringe a liberdade de manobra de terceiros por meio de uma lei de propriedade intelectual criada pelos EUA, mas aplicável globalmente.

Há meio século, a coalizão de países em desenvolvimento das Nações Unidas, chamada G-77, via o corte no fornecimento de petróleo como uma forma para pressionar, se não mesmo chantagear, os países mais ricos, forçando-os a empreender uma transformação mais ampla das relações internacionais, que foi chamada de “nova ordem econômica internacional (NOEI).

Enquanto os países mais pobres sofriam as consequências do aumento dos preços do petróleo, a ideia do G-77 era usar a ameaça de futuros bloqueios de outras commodities para forçar o Norte Global a aumentar a ajuda ao desenvolvimento. Ele deveria, também, aceitar acordos de estabilização dos preços das commodities e até oferecer reparações pelo colonialismo. Uma parte menos conhecida do NOEI era a demanda por uma “nova ordem internacional de informação”.

Como a capacidade de relatar eventos mundiais estava altamente concentrada nos países mais ricos, as novas nações dependiam quase sempre dos serviços de notícias localizados nas antigas potências coloniais, mesmo para o noticiário do dia a dia. A nova ordem internacional da informação propunha a descentralização do jornalismo e das infraestruturas de comunicação.

Essas crenças não repercutiram muito na década de 1970. Entretanto, nos anos 1990 e até o início dos anos 2000, alguns acreditavam por algum tempo que a democratização da produção de notícias havia se dado com a ascensão dos chamados jornalistas cidadãos. Havia, pois, uma fé em plataformas abertas de mídia social, como Facebook e Twitter, assim como nas plataformas de vídeo, como o YouTube. O livro Underground Empire prova que esse otimismo está errado.

As redes de internet aparentemente abertas sempre operaram por cabos de fibra óptica, os quais têm pontos de estrangulamento tão facilmente identificáveis e observáveis quanto os oleodutos. Embora houvesse uma breve ideia de que a tecnologia de fibra óptica era mais difícil de espionar porque não permitia vazamentos de forma audível como os cabos tradicionais, logo ficou claro que era realmente ainda mais fácil obter acesso total por meio da cumplicidade dos provedores de serviços privados que operam a internet.

Em uma de suas muitas passagens evocativas que tornam visível a infraestrutura oculta da vida cotidiana, Farrell e Newman descrevem como “os cabos terminaram na Folsom Street [em São Francisco], permitindo que a NSA [a Agência de Segurança Nacional dos EUA] usasse um prisma para dividir os feixes de luz que transportam informações através de cabos de fibra óptica em dois sinais separados e idênticos.

Um deles transporta as mensagens de e-mail, consultas da Web e dados do usuário para os destinos pretendidos, enquanto o outro desvia para a sala 641A. Lá, esse material é analisado por uma máquina Narus STA 6400, construída por uma empresa israelense com profundas conexões com a comunidade de inteligência norte-americana. As comunicações privadas tornaram-se, assim, propriedade da inteligência dos EUA. As empresas foram ricamente compensadas por abrir essas portas dos fundos – escrevem eles; asseveram, ademais, que aquelas que se recusaram foram ameaçadas com multas incapacitantes.

Na história contada por Farrell e Newman, a globalização sempre reforçou silenciosamente o poder unipolar dos Estados Unidos. Dado seu retrato da economia mundial na década de 2020, parece que qualquer esforço de realinhamento nos moldes dos anos 1970 está fadado a ficar preso nas redes do império subterrâneo dos Estados Unidos. Certamente, é isso que os formuladores de políticas dos EUA estão esperando.

 Surpreendentemente para os próprios autores, algumas partes do governo dos EUA retomaram uma versão anterior de seu argumento que introduziu o termo “interdependência armada”. Descrevendo o uso de pontos de estrangulamento na guerra comercial com a China, um funcionário do governo Trump teria comentado que essa “interdependência armada é uma coisa linda”.

No final do ano passado, a vice-presidente da Comissão Europeia, Margrethe Vestager, também usou o termo, afirmando de forma um tanto fatalista que a União Europeia “teve um despertar rude na era da interdependência armamentista”; isso só aconteceu depois de perceber os “limites gritantes de um modelo de produção baseado em energia russa barata e mão de obra chinesa barata”. Essa forma de império será eterna?

Talvez. Mas pode haver outra maneira de ler as suas evidências. O resultado do regime de sanções contra a Rússia sugere que a exclusão do sistema financeiro global – uma ação de guerra feita pelos Estados Unidos – pode não ser o golpe de morte imediato que muitos esperavam. Embora o comércio denominado em outros termos que não o dólar continue sendo uma pequena (embora crescente) parte da economia mundial, há esforços incipientes e moderadamente plausíveis para construir outros impérios.

No entanto, Farrell e Newman deixam claro que, para que isso tenha alguma chance, eles precisam de uma combinação de duas coisas: um grande mercado interno, acesso aos recursos extrativos necessários como insumos para uma economia digital moderna e ainda baseada em carbono e os meios de autodefesa contra um potencial adversário apoiado pelos EUA.

Os autores são fãs de ficção científica e o livro é salpicado de referências esclarecedoras a certos romances. Um deles é Snow Crash, de Neal Stephenson, um romance de 1992 que apresenta uma visão de um futuro próximo em que a soberania foi mercantilizada. Essa ficção tem pouca semelhança com as utopias tecnológicas dos anos 1990, mas parece ter oferecido a Mark Zuckerberg o conceito possivelmente pírrico do “metaverso” – mas com um fundo muito mais sombrio.

Stephenson lembra aos seus leitores que nos canhões de Luís XIV foram inscritos o lema “ultima ratio regum”, ou seja, de que, por último, vale sempre o argumento dos reis. Ora, nenhum dos aspirantes a se constituírem em forças descentralizadoras que aparecem em Underground Empire – seja Walter Wriston, chefe do Citibank, que sonhava com um mundo offshore livre do controle estatal, seja Vitalik Buterin, que fantasiou fazer existirem organizações autônomas sem comando central –, consegue escapar da atração gravitacional do poder estatal apoiado pelo monopólio da violência. Apenas os gigantescos “estados civilizados” da Rússia e da China têm chance nessa empreitada.

Considerando a história contada no Underground Empire, podemos ver que, como era o caso há 50 anos, o próprio povo palestino não tem meios de travar uma guerra por conta própria com base em armamentos, finanças, informação ou manufatura intensiva em capital. Então, como agora, os seus supostos aliados na região têm apenas um interesse limitado em criar uma verdadeira “nova ordem econômica internacional” que vire a economia mundial de cabeça para baixo.

Aliás, por que deveriam? A atual lhes atende muito bem. A resolução para a primeira crise do petróleo foi a quadruplicação do preço mundial do petróleo, quadruplicando assim as receitas dos Estados produtores de petróleo do Golfo e criando o oceano de liquidez que inundou na ocasião o mercado imobiliário de Londres.

Agora, ele produz capital de risco em abundância, assim como projetos futuristas de urbanismo do deserto e (potencialmente) tecnologias verdes de ponta. O actual conflito de Gaza pode ter perturbado a distensão entre Israel e os países árabes, mas não mudará o fato sombrio de que, a médio prazo, a situação do povo palestiniano não passa de uma nota de rodapé no jogo de poder da região.

Retoricamente, o sonho do realinhamento continua vivo. No ano passado, a Assembleia Geral da ONU adotou uma nova declaração sobre uma nova ordem econômica internacional. Uma reunião dos países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) realizada na África do Sul prometeu ampliar os horizontes da chamada colaboração Sul-Sul.

Mas o que o livro de Farrell e Newman ajuda a ver é o quão lento qualquer potencial realinhamento poderá ser. Os cabos de fibra óptica atravessam oceanos e não podem ser duplicados da noite para o dia. Não é fácil ter fundições de semicondutores, que exigem investimentos de dezenas de bilhões e prazos de realização próximos a décadas.

A visão que emerge do seu livro é a de um conflito entre grandes potências em que, como habitualmente, os que estão na base da hierarquia global da riqueza continuarão a sofrer mais e mais, sem refúgio à vista. “O que não faremos, porque não podemos” – alertam – “é traçar rotas de fuga plausíveis do império subterrâneo. É fácil chegar a ele, mas não é tão fácil dele sair”. Na década de 1970, o G77 disse que estava pedindo a descolonização econômica como um complemento à independência política. O império subterrâneo sugere que isso está mais longe do que nunca.

*Quinn Slobodian é professor de história no Wellesley College, Massachusetts. Autor, entre outros livros de Crack-up capitalism: market radicals and the dream of a world without democracy (Metropolitan Books).

Tradução: Eleutério F. S. Prado.

Publicado originalmente no portal New Statesman.


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