A estratégia bolsonarista

Clara Figueiredo, série_ Brasília_ fungos e simulacros, super quadra, 2018
image_pdf

Por JOSÉ DIRCEU*

O contra-ataque do presidente com uma operação de Estado Maior o salvará até 2022?

Sempre é arriscado escrever em cima dos fatos. Mas temos experiência suficiente e já conhecemos bem nosso personagem para dizer, a exemplo de outros analistas, que o presidente da República, na prática, saiu das cordas e reforçou seu controle sobre peças-chave do xadrez de seu governo. Braga Netto assume o Ministério da Defesa no lugar de Fernando Azevedo, que, pela sua nota e por fatos recentes como  declarações do diretor de RH do Exército, general Paulo Sérgio, na linha oposta à do governo na mais importante questão hoje do país, a pandemia, caiu porque pretendeu manter as Forças Armadas fora da estratégia bolsonarista.

As declarações da deputada Bia Kicis, presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, no mesmo dia da troca de comando no Ministério da Defesa, compõem o cenário de radicalização que Bolsonaro vem desenhando. A deputada bolsonarista estimulou, em post na redes sociais, a greve dos PMs da Bahia contra o governo Rui Costa  em função de fato gravíssimo ocorrido no final de semana que, no entanto, não é responsabilidade do governo estadual. Essa não é a primeira agitação em quartéis das PMs; já houve motim no Ceará. Fora o fato de que as declarações de Kicis ocorreram logo depois de as milícias bolsonaristas estimuladas por Eduardo Bolsonaro iniciarem uma série de manifestações nas portas dos quartéis do Exército pedindo intervenção militar. O que vem depois ainda não sabemos.

A troca de Ernesto Araújo por Carlos França e a indicação da deputada do PL Flávia Arruda expressam a força dos partidos do chamado centrão: agora PP, PR, PL estão no governo, garantindo, por enquanto, uma maioria capaz de impedir o processo de impeachment. No Itamaraty, a troca não expressa uma mudança de política, no máximo de estilo, mas foi estimulada pelo consenso dos senadores contra Ernesto Araújo, agravado ao limite após seu ataque covarde à senadora Kátia Abreu, presidente da Comissão de Relações Exteriores.

Já na Saúde houve de fato uma mudança relativa, o que demonstra fraqueza do governo frente à crescente indignação e oposição à sua política negacionista e criminosa frente à pandemia. No fundo, o governo teve que ceder à pressão da Câmara, por meio de discurso de seu presidente Artur Lira, e do Senado, com as posições defendidas pelo seu presidente Rodrigo Pacheco.

Blindagem da Família

O presidente moveu mais duas peças importantes, uma torre e um bispo, o Ministério da Justiça e a AGU, sua primeira linha de defesa depois do Congresso Nacional com risco real de termos um Estado policial. Nesses postos colocou dois guarda costas – Anderson Torres, delegado da Polícia Federal e íntimo da família, e André Mendonça, que já integrou seu governo – para proteger sua família e atacar seus adversários, não tenhamos nenhuma dúvida. Manteve ao seu lado Luiz Eduardo Ramos na Casa Civil. A conclusão desses movimentos é que o presidente reforçou sua linha de defesa no Congresso e buscou superar os vetos, isso mesmo, a dois ministros já sem nenhuma sustentação política, Eduardo Pazuello e Ernesto Araújo. E colocou dois fiéis na Justiça e AGU  preparando-se para a batalha que continua e depende de outras variáveis, a pandemia e a economia.

Quem é o rei e a rainha, Bolsonaro ou as Forças Armadas? Essa pode ser a variável ainda não esclarecida, principalmente com a demissão dos comandantes das três armas, o que pode indicar uma crise militar. E os adversários com as peças brancas, a oposição e o povo o que farão, até onde o país suportará Bolsonaro e seu governo?

Os últimos sinais políticos –aumento da pressão no Parlamento e na mídia, a manifestação dos banqueiros, a volta de Lula com força para mudar o cenário para 22 e, principalmente, o agravamento da pandemia e da crise social– indicam um isolamento cada vez maior do governo e riscos reais de perda do controle. Afinal, o fim do auxílio emergencial e a aprovação de uma ajuda irrisória para fazer frente à escalada de preços da cesta básica vão aumentar miséria. Daí o contra-ataque de Bolsonaro com uma operação de Estado Maior. Resta saber se o salvará até 22.

*José Dirceu foi ministro da Casa Civil no primeiro governo Lula. Autor, entre outros livros, de Memórias (Geração editorial).

Publicado originalmente em Poder 360.

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
2
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
6
Além de Jürgen Habermas e Richard Rorty
19 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
7
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
10
Fernando Haddad entrevistado por Breno Altman
19 Mar 2026 Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES: Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
11
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
12
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
13
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
14
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
15
A arte ante o neoliberalismo - parte 1
17 Mar 2026 Por LUIZ RENATO MARTINS: De que modo a tônica pró-capitalista envolve e afeta as artes e o público hoje em processo de formação, e, principalmente, as novas gerações universitárias, que, em breve, assumirão posições proativas no quadro da cultura brasileira?
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES