Brasil, um relacionamento abusivo

Salvador Dalí, Metamorfose de Narciso, 1937
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Por VITOR SILVEIRA*

A personalidade narcísica e o Brasil, exemplo claro de nação não-empática

Estou saindo de um relacionamento abusivo. Ou melhor dizendo, estou saindo de dois relacionamentos abusivos. Relações tóxicas, como o próprio nome já diz, nos envenenam, nos matam aos poucos. Sei bem que os estragos causados por anos e anos de sofrimento demorarão muito para serem superados. Se é que algum dia isso será efetivamente possível.

Quando se convive com alguém manipulador por muito tempo os maltratos passam a ser normalizados. Muitas vezes funciona assim: no início a vítima é coagida a se sujeitar, depois acaba naturalizando o abuso, pensa que não existem relações que se deem em outros termos e que é normal ser agredido, desrespeitado, humilhado, tratado como lixo, etc.

Quando alguém tenta entender a mente de um perverso e acaba pesquisando sobre os transtornos de personalidade narcisista e antissocial encontra um padrão assustador que se repete: aquelas situações às quais nos sujeitávamos calados por acharmos que eram terríveis demais para serem verdade e que só poderiam existir mesmo em obras de ficção mostram-se como o modus operandi destes predadores emocionais. Aqui ou no Japão os perversos agem da mesma maneira, quase como se seguissem um mesmo manual de conduta.

Pode parecer que eles são gênios calculistas ou membros de alguma seita satânica que os ensina como agir, mas a verdade é que seguem os impulsos mais básicos e primitivos do cérebro humano, aquela tal parte reptiliana. São imunes à ética, cultura, normas de convivência ou qualquer outra invenção cultural criada para normatizar a vida em grupos (embora possam fingir muito bem); muitos também apresentam danos neurológicos, algo que os impedem de sentir empatia, algo natural em muitos animais, especialmente em mamíferos.

O transtorno de personalidade narcisista durante muito tempo foi praticamente ignorado pelos profissionais de saúde mental e esteve realmente a ponto de quase ser excluído do DSM, o sistema de classificação de doenças americano que serve de base para muitos países. Como não sou especialista na área não vou me aventurar muito a dar definições, mas o que posso afirmar com base no que estudei é que os narcisistas são uma espécie de psicopatas (antissociais) em versão um pouco menos radical. Enquanto os psicopatas não sentem emoção nenhuma, os narcisistas só sentem emoções relacionadas a eles mesmos, na verdade eles sentem muitas emoções, só que tudo é sempre sobre eles, o outro é um mero objeto, por isso se acham no direito de usar e abusar de quem quiserem.

Como eu já disse, é incrível como se encontra um padrão de comportamento entre eles. Hoje com o avanço da internet há muitos canais de vídeos, blogs, artigos e fóruns tratando sobre o tema, algo incomum até alguns anos atrás. Nestes lugares, aonde os sobreviventes relatam seus casos, se percebe logo que não são somente tiros ou golpes que matam alguém; humilhações e abusos repetidos ao longo de anos também matam, e o pior, de forma lenta.

O número de vítimas que se suicidam, perdem irremediavelmente a sanidade ou simplesmente se tornam uma sombra daquilo que um dia foram é enorme. O tema do narcisismo maligno felizmente vem ganhando destaque no mundo inteiro, mas ainda é muito pouco. Faltam profissionais treinados e leis que amparem as vítimas. Recentemente o congresso aprovou uma lei contra o stalking, pratica odiosa que é usada em massa pelos narcisistas, e isso já é algum avanço. Esperemos que essa evolução continue.

Outra coisa que se percebe ao estudar o tema é que empresas, instituições, populações inteiras e até mesmo países também podem adotar uma postura narcisista e/ou antissocial (algo que é mais facilmente percebido por quem acredita em inconsciente coletivo, egrégoras e coisas afins).

É notória a alta incidência destas pessoas em cargos de liderança, seja no setor público ou no privado. Estas personalidades são atraídas pelo poder e pelo dinheiro basicamente, além do prazer, que é sempre mais fácil de ser alcançado com o bolso cheio e em uma posição de destaque.

Já há inclusive quem fale em uma epidemia de narcisismo, fomentada pela ideologia dominante hoje na sociedade ocidental que prega cada vez mais o individualismo e a não-empatia. Justamente aí mora outro grande perigo: as pessoas em posição de poder ao invés de restringir o espaço para estes seres disfuncionais e danosos ao conjunto social, lhe abrem, ao contrário, todas as portas.

O Brasil, em minha modestíssima opinião, é um exemplo claro de nação não-empática. Basta ver a forma como a maioria do nosso povo é tratado, afora a crônica e aviltante desigualdade que naturalizamos. Um acidente qualquer na Europa ou na América do Norte que deixe 29 mortos é mostrado como uma catástrofe e o fato é repercutido por dias a fio em toda a mídia, já quando a polícia sobe o morro armada até os dentes e deixa 29 corpos estendidos no chão, aí naturalizamos. “29 suspeitos”, diz a mídia. “Todos com ficha criminal” diz uma alta autoridade, antes mesmo da identificação dos corpos. “Morreram em troca de tiros” diz outro veículo de comunicação, apesar de nenhum dos policiais ter levado nem um tiro de raspão…

Já sobre a mentalidade do chefe do executivo federal, muito foi dito, psiquiatras renomados deram diferentes diagnósticos e, portanto, não vou me arriscar a caracterizá-lo. A título meramente educativo enumero algumas características gerais dos perversos, além das já citadas: nunca admitem estarem errados, não aceitam nenhuma crítica ou questionamento; não respeitam limite algum; acham que as regras não se aplicam a eles; pensam em branco e preto, ou seja, quem lhe faz todas as vontades é bom e quem não faz é mau; diminuem os outros para se engrandecerem; prometem mudar quando estão em risco, mas na verdade são incorrigíveis; quando são execrados por seu comportamento muitas vezes dizem que estavam apenas brincando; causam um trauma novo para encobrir o anterior; são mentirosos patológicos; são paranoicos. Encontraram alguma semelhança?

A médica Ana Beatriz Silva é uma das pessoas que aborda os transtornos de personalidade acima citados. Em um vídeo ela fala sobre a enorme quantidade de “genes da maldade” que ficaram em nosso país após tantos séculos de escravidão. Sim, porque para achar normal explorar até a morte, chicotear, estuprar, comprar e vender seres humanos como se fossem animais, é preciso estar morto por dentro. Ou, se não estava assim antes, perde-se a alma durante o processo. “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do país”, previu tristemente Joaquim Nabuco.

Aliás, além do fator genético parece haver também uma forte influência do meio social no surgimento destes transtornos. E isso eu posso afirmar com certeza: ninguém sai normal de um ambiente altamente tóxico. Viramos bodes expiatórios, nos tornamos como nossos algozes, fugimos ou morremos, as opções são basicamente essas.

Olhando o quadro mundial nota-se que esse tipo de comportamento é mais ou menos o padrão da nossa ainda primitiva humanidade e é assim pelos quatro cantos da terra. A diferença basicamente é que ao invés de serem indivíduos isolados que são explorados e abusados por outros, são, no contexto global, povos inteiros. A Europa aprendeu muito cedo a transferir as suas mazelas para além-mar, “que sofram os outros povos para que meus filhos tenham do bom e do melhor”, parece dizer ela.

Os estadunidenses, talvez também pela herança escravagista, não têm pruridos de fazer com que uma parte de seu povo sofra também, os bodes expiatórios ali são os negros, os latinos e nesses tempos de crise geral, todos os pobres. Já na América Latina a coisa é ainda pior, as potências neocoloniais não precisam nem sujar as mãos: encontram sempre e em todos os cantos da “pátria grande” lacaios da “elite” local dispostos a serem os algozes de seu próprio povo. Nem nacionalistas, como os americanos do norte, os latinos são…

E assim caminha a humanidade: séculos e milênios se passaram e apesar de todo o suposto desenvolvimento que alcançamos, continuamos vivendo de forma nada civilizada. E parece mesmo que a coisa não vai melhorar tão cedo, pelo contrário, na grande crise que nos encontramos, corremos o risco de uma regressão à barbárie.

Por tudo isso decidi abandonar não só um relacionamento abusivo, mas dois logo de uma vez. Estou deixando meu amado Brasil. Um “amor” que só nos faz mal não vale a pena ser vivido. Já gastei minha juventude toda nessa relação tóxica, não quero sofrer mais. Sei bem que quando encerramos uma relação deste tipo, impreterivelmente saímos destroçados, perdemos tudo e às vezes nem sabemos mais quem somos. Numa condição destas é difícil ter forças para qualquer coisa, especialmente para uma mudança radical que implica recomeçar tudo do zero. Porém, é no caminhar que se faz o caminho e se uma situação é realmente insustentável, bem, então qualquer outra é melhor.

Estou decidido, não voltarei atrás. Duvido que ele vá mudar, esse sempre foi o jeito dele. Deixo a luta neste momento para os que estão mais fortes, para quem ainda tem saúde e animo para encarar essa batalha. Boa sorte meus irmãos e irmãs, lembrem-se sempre: vocês merecem mais, reajam, não se deixem abusar.

*Vitor Silveira é graduado em comunicação social, escritor e fotógrafo. Autor, entre outros livros, de Uma vez na estrada.

 

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