As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Cadê a utopia?

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por LUIZ MARQUES*

Ou prevalece no imaginário popular que a democracia pode e deve orientar a economia, na sociedade autorregulada; ou afundaremos em um retrocesso civilizacional

Os problemas sociais e políticos percorrem todas as épocas. As ideias se destacam em períodos de acontecimentos rápidos e confusos, quando encarnam um mobilismo redentor. Nenhuma época alterou tanto os seres humanos, com fanatismo e sangue nos olhos, do que a década de incubação do nazifascismo. Quase um século depois, o cenário se assemelha, revalidando o estoque de conceitos que fundou a modernidade. República x tirania, democracia x autoritarismo, esquerda x direita, cidadão x servo, tolerância x arbítrio são categorias que servem ainda de leme para os países.

As questões de antanho enlaçam as que, no presente, agitam e polarizam as nações com as cores do ódio, do ressentimento e da ignorância. A indagação que fica é se o indispensável enfrentamento da boa política com a necropolítica implica, sempre, uma escolha entre a “liberdade” e a “obediência”?

Rumo ao autogoverno

Para Étienne de La Boétie, no Discurso sobre a servidão voluntária, de 1549, o fato de um homem aceitar de espontânea vontade o jugo de déspotas é expressão torta do desejo de também dominar. O espírito renascentista salienta a condição autônoma das individualidades que, pela primeira vez, assumem as consequências de intervir para emoldurar o futuro como sujeitos ou objetos da história, para o bem e o mal. Em nosso tempo e espaço, com a carga de 350 anos de escravidão, o argumento da subserviência “consciente” e “consentida” soa esquisito. Não capta a dinâmica da dominação nas sociedades coloniais, a cultura da mercantilização das gentes qual coisas e as técnicas de martírio.

Hoje indivíduos adaptam-se a uma realidade que substitui o “ser ou não ser”, em face da autoridade, pelo totalitarismo da mercadoria. Almas e corpos se persignam ao mercado. Experiências pessoais relativizam os paradigmas impessoais da sociedade (preservação do meio ambiente, sinalização das estradas, vacinação). Os pós-modernos fazem da necessidade uma virtude, ao acatar a nova forma do capitalismo. A autonomização caricata confronta o Estado de direito democrático que protege, a privacidade, da vigilância invasiva da Big Tech. Pior: coroa a “infocracia” que, com algoritmos da inteligência artificial, controla o consumo e o voto para converter a autonomia em um “destino”.

A liberdade negativa dá a tônica no ataque da extrema direita à ingerência estatal para regular o fluxo mercadológico, sob a alegação dos “direitos individuais” para legitimar um laissez-faire. Por outro lado, a liberdade positiva inspira-se na filosofia moral kantiana (regras da própria conduta) para prospectar um autogoverno, onde aquiescer traduz o comportamento livre na medida em que cada um participa na elaboração da legislação da coletividade. É o que, em parte, sucede à multidão de adeptos do Plano Plurianual Participativo criado pelo governo Lula, no corrente. Quem respeita as deliberações que ajudou a aprovar, supera a falsa contraposição entre a liberdade e a obediência.

Concepção de socialismo

No mapa da rebeldia, a metáfora da “margem” e do “centro” irrompe em uma conferência de Isaac Deutscher, acolhida sob desconfiança pelos estudantes estadunidenses na febril agitação sessentista. “Vocês estão em atividade efervescente às margens da vida social, e os trabalhadores estão passivos no centro dela. É esta a tragédia de nossa sociedade. Se não enfrentarem esse contraste, vocês serão derrotados”. Apesar de promissores, os insurgentes nas ruas não agiam no coração das engrenagens; tangenciavam a dialética da majestosa máquina sistêmica. O alerta prossegue em plena vigência.

A Parada do Orgulho LGBT, de São Paulo, em 28 de junho de 2023, segundo os organizadores do grandioso evento, mobilizou um elenco formidável: quatro milhões de entusiastas anti-homofobia. Nem por isso ruiu a muralha que separa suas causas específicas das demais lutas em curso e, em especial, a dos trabalhadores formais sindicalizados e a dos batalhadores de aplicativos sem vínculo empregatício. Urge desenvolver, com a práxis de camaradas, a síntese superior das contestações ao status quo parapôr abaixo as barreiras existentes,eis aí o desafio posto para todas, todos e todes.

Nada a censurar na audiência contra os preconceitos sexistas. Mas achar que “o movimento é tudo” não eleva, ao nível socialista, a conscientização política dos lutadores. Politizar é romper com os nichos. A democratização setorial incentiva a consecução de muitos bens imateriais, é certo; em contrapartida, reduz a concepção de socialismo dos partidos de esquerda à extensão dos direitos do cidadão. O discurso moderado coloca em ato uma interpretação reformista das mudanças e joga na lixeira a perspectiva de modificações profundas nas estruturas sociais. Parafraseando o título de uma obra de Emir Sader, O poder, cadê o poder?, é de se perguntar – a utopia, cadê a utopia?

Democracia e economia

A contradição entre o capital e o trabalho, núcleo primordial da luta de classes, trocou de endereço. De acordo com Ellen Wood, em Democracia contra capitalismo: A renovação do materialismo histórico, a ênfase transferiu-se ao “extra-econômico”: afirmação de gênero, igualdade racial, saúde ecológica. Trata-se de um salto da emancipação de classe à emancipação humana. A transição não surgiu de reflexões no Fórum Social Mundial (FSM), no Foro de São Paulo ou no Grupo de Puebla. Aconteceu no vácuo das “grandes narrativas”. Com efeito, não é evidente o vetor antissistêmico dos movimentos identitários. As identidades extra-econômicas aumentam a representação parlamentar (negros, mulheres, gays). Não obstante, as identidades do trabalho diminuem, eleição após eleição.

O que singulariza o teatro capitalista é a separação, agravada na fase neoliberal, entre o circuito da produção econômica e o da política. A economia foi feudalizada por “sábios competentes”. A política confinou-se em salões de brancos héteros, graças ao custo das campanhas eleitorais que consolidam o perfil ultraconservador do Legislativo. A proposta de democracia, que o socialismo oferece às comunidades, baseia-se na reintegração da economia ao rol da política, o que começa com sua subordinação à autodeterminação dos produtores. A interpelação do povo tem de acenar para os ideais da solidariedade. A unificação de uma frente plural, com palavras de ordem sobre a vida, o trabalho e a dignidade, potencializaria as vitórias, e aprofundaria o ânimo transformador.

Desde o decênio de 1980, usa-se o poder do choque para impor sofrimentos. O fantasma da crise visa afugentar a “grande recusa” marcuseana. Compõe o programa das finanças o arrocho salarial, a precarização do labor, a extração da mais-valia, os ajustes fiscais da austeridade e o desemprego de longo prazo – o melhor indicador do colapso estrutural. Para avançar há que designar um porto utópico aos anseios das massas. Ou prevalece no imaginário popular que a democracia pode e deve orientar a economia, na sociedade autorregulada; ou afundaremos em um retrocesso civilizacional.

O ocaso do capitalismo

Eleutério Prado, em Capitalismo no século XXI: Ocaso por meio de eventos catastróficos, conta que o livro mencionado “nasceu para sacudir uma bandeira: atenção, há grande turbulência a frente, a nave capitalismo se desgovernou por si mesma. Agora somos verdadeiramente muitos e estamos na mesma viagem, precisamos nos unir para mudar o rumo da história. Há motivos para pensar que a humanidade entrou em uma nova era de catástrofes (aquecimento global, desastres ecológicos)”. O fenômeno atingia lugares isolados. No exato minuto, ameaça a totalidade do homo demens. Não basta acusar prefeituras, e calar sobre o culpado pelo caos – o capitalismo. Falta a crítica radical do sistema. O “antropogênico” (ações das criaturas adâmicas) é um eufemismo para absolver o réu.

O capitalismo é incapaz de garantir o bem-estar no mundo. Vide as rebeliões na África, o conflito bélico entre OTAN-Ucrânia e Rússia, a disposição colonialista e racista de Israel no Oriente Médio e a desigualdade esgaçada com as leis de terceirização, no Ocidente. O relatório SOFI 2023, da ONU, sobre a urbanização e as evoluções agroalimentares informa que, diariamente, 735 milhões de excluídos passam fome no planeta. A crise climática bateu na irreversibilidade, conquanto o cuidado ambiental tenha virado um produto rentável; tipo os carros elétricos ou as placas de energia solar. A “destruição criativa” já não consegue restaurar o que destrói. A “ceifadora” ronda a nossa casa (Gaia).

O PPA Participativo, ensaio embrionário de autogoverno fora de uma conjuntura revolucionária, tem um caráter pedagógico para o bloco histórico das classes laboriosas. O aproveitamento dos flancos institucionais abertos contribui na organização da sociedade civil. Hora dos movimentos sociais e dos partidos progressistas sacudirem a tentação da “estatolatria”, que consiste em esperar conquistas vindas do alto. As iniciativas coletivas, de baixo para cima, é que sedimentam a unidade política, cultural e moral para ir além dos direitos negados.

O governo federal é um aliado, que fará mais com uma retaguarda forte e mobilizada. Se fosse fácil como ir ao parque, domingo, não se estaria falando de uma revolução. “Esforçai-vos / Por criar uma situação que a todos liberte / E também o amor da liberdade / Faça supérfluo!”, anuncia o profético poema de Bertolt Brecht.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
José Costa Júnior Chico Whitaker Everaldo de Oliveira Andrade Paulo Martins Luis Felipe Miguel Eliziário Andrade João Sette Whitaker Ferreira Marilena Chauí Eduardo Borges Marcos Silva Gabriel Cohn Luiz Costa Lima Plínio de Arruda Sampaio Jr. Luís Fernando Vitagliano Eleutério F. S. Prado Chico Alencar Caio Bugiato Daniel Costa Ladislau Dowbor Jorge Branco Alysson Leandro Mascaro Roberto Noritomi Ari Marcelo Solon Leonardo Avritzer Vladimir Safatle Leda Maria Paulani Ricardo Antunes Celso Favaretto Luiz Roberto Alves Tarso Genro Paulo Sérgio Pinheiro Denilson Cordeiro Francisco de Oliveira Barros Júnior Claudio Katz Alexandre de Lima Castro Tranjan Rafael R. Ioris Kátia Gerab Baggio Fernando Nogueira da Costa José Raimundo Trindade Rubens Pinto Lyra Sergio Amadeu da Silveira Manchetômetro Vanderlei Tenório Marilia Pacheco Fiorillo Bernardo Ricupero Atilio A. Boron Antonino Infranca Jorge Luiz Souto Maior Antonio Martins Julian Rodrigues Luiz Eduardo Soares Berenice Bento Eugênio Trivinho José Luís Fiori Dênis de Moraes Celso Frederico Luiz Carlos Bresser-Pereira Renato Dagnino José Geraldo Couto João Adolfo Hansen Benicio Viero Schmidt Lincoln Secco Marcelo Guimarães Lima Yuri Martins-Fontes Walnice Nogueira Galvão João Lanari Bo Paulo Nogueira Batista Jr Valério Arcary Priscila Figueiredo Elias Jabbour Bruno Fabricio Alcebino da Silva Daniel Brazil Milton Pinheiro André Márcio Neves Soares Eleonora Albano Paulo Fernandes Silveira Lorenzo Vitral Jean Marc Von Der Weid Dennis Oliveira Liszt Vieira Gilberto Maringoni Gerson Almeida Anderson Alves Esteves Marcus Ianoni Igor Felippe Santos Osvaldo Coggiola Armando Boito Ricardo Fabbrini Afrânio Catani Roberto Bueno André Singer Luciano Nascimento Anselm Jappe João Carlos Salles Mariarosaria Fabris Flávio Aguiar João Feres Júnior Michael Löwy José Dirceu Daniel Afonso da Silva Bento Prado Jr. Lucas Fiaschetti Estevez Ronaldo Tadeu de Souza Fernão Pessoa Ramos Ronald Rocha Francisco Pereira de Farias Rodrigo de Faria Henri Acselrad Fábio Konder Comparato Tales Ab'Sáber Sandra Bitencourt Francisco Fernandes Ladeira Otaviano Helene Boaventura de Sousa Santos João Paulo Ayub Fonseca José Micaelson Lacerda Morais Juarez Guimarães Ronald León Núñez Henry Burnett Bruno Machado José Machado Moita Neto Tadeu Valadares Thomas Piketty Paulo Capel Narvai Slavoj Žižek Luiz Marques Vinício Carrilho Martinez Ricardo Musse Marcos Aurélio da Silva Carlos Tautz Heraldo Campos Érico Andrade Maria Rita Kehl Remy José Fontana Michael Roberts João Carlos Loebens Alexandre Aragão de Albuquerque Luiz Bernardo Pericás Leonardo Boff Gilberto Lopes Annateresa Fabris Luiz Renato Martins Samuel Kilsztajn Salem Nasser Airton Paschoa Marcelo Módolo Luiz Werneck Vianna Andrew Korybko Carla Teixeira Flávio R. Kothe Leonardo Sacramento Antônio Sales Rios Neto Eugênio Bucci Jean Pierre Chauvin Mário Maestri Manuel Domingos Neto Alexandre de Freitas Barbosa Ricardo Abramovay Marjorie C. Marona Valerio Arcary

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada