Caminhos da utopia

Imagem: Evgeniy Smersh
image_pdf

Por LUIZ MARQUES*

Da ilha imaginária de Morus ao colapso soviético, a utopia sobrevive como resistência iconoclasta à barbárie do presente

“Todos os sonhos que me levas, / dize, ao menos, para onde vão!” (Cecília Meireles).

1.

O século XVI traz a “utopia” no título de um livro do diplomata inglês Thomas Morus. O autor inventa o termo (u-tópos, nenhum lugar) para descrever uma ilha imaginária. Idem, a “antiutopia” ao exercer a condição de chanceler. Com isso, a tolerância do lorde humanista some e, este, propõe que em seu epitáfio conste ter sido um “perseguidor de ladrões, assassinos e hereges”. Pelo que João Paulo II, o papa inquisidor da Teologia da Libertação, nomeia-o padroeiro dos políticos. No século XX, o editor J. Max Patrick cria a palavra “distopia” numa coletânea de obras utópicas.

Um ponto de inflexão recente é o fracasso do comunismo soviético, o qual respinga nos críticos à esquerda: os que denunciam os “desvios burocráticos” como Leon Trótski e os que apontam o “totalitarismo” e, a exemplo de Cornelius Castoriadis, cobram dos trotskistas um tom mais incisivo sobre o fenômeno.

Com as revelações das atrocidades do “farol dos povos”, vinte anos após o relatório secreto de Nikita Kruschev, o dissidente alemão Rudolf Bahro, em A alternativa – para uma crítica do socialismo real (1977), absolve a teoria marxista, mas condena a prática stalinista pela tragédia. A separação é elogiada por liberais no Ocidente, que reiteram o corte epistemológico no balanço.

Diferentemente os “novos filósofos franceses” diante dos horrores do stalinismo concluem que os crimes de Joseph Stalin já estão, em embrião, nas formulações de Karl Marx. Há continuidade entre utopia e distopia. A desqualificação do marxismo abarca o estruturalismo de Louis Althusser – de projeção internacional até em um surto estrangular a esposa, a socióloga Hélène Rytmann, no apartamento do casal na École Normale Supérieure, em Paris.

A virada de sentido se dá na convergência da crítica dos nouveaux philosophes com uma ascensão dos quadros do neoliberalismo, reforçada pelos Prêmios Nobel de Economia para Friedrich Hayek (1974) e Milton Friedman (1976). A seguir, Margaret Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nos Estados Unidos transformam a ordem do egoísmo em políticas assumidas pelo Estado. Distopias então são vistas como o complemento lógico das utopias.

O comunismo e o nazismo são igualados na responsabilização, embora na Segunda Guerra Mundial se aquartelassem com bandeiras antagônicas. “Devemos nos precaver da utopia”, sublinha Ralf Dahrendorf. O sociólogo estuda as classes não sob o viés da propriedade dos meios de produção, senão do poder e da autoridade; e atribui às instituições o papel de regulação dos conflitos políticos. “Para evitar o pior – uma revolução”.

Assim, o senso comum joga fora a criança junto com a água suja do banho e a utopia, órfã, cai em um ostracismo. Não obstante, o liberalismo desenha um horizonte inconfiável. As promessas não se realizam. O fim da história com a economia de mercado e a democracia representativa aumentam a desigualdade e o ressentimento. A necropolítica toma as rédeas da sociedade.

No decênio de 1990, a internet livre reinaugura o espírito utópico. Entusiastas anunciam a era do “socialismo digital”. O anjo cibernético reatualiza o inconformismo e ataca o mal – a alienação social – na webesfera. O destino reabre as portas à incerteza e, a política, à ação dos internautas. Mas os sonhos libertários esbarram nas megacorporações dos monopólios tecnológicos.

2.

Russell Jacoby, em Imagem imperfeita pensamento utópico para uma época antiutópica, expõe a contradição. “As utopias buscam a emancipação ao visualizar um mundo baseado em ideias novas, negligenciadas ou rejeitadas. As distopias buscam o assombro ao acentuar as tendências contemporâneas que ameaçam a liberdade (leia-se mercado)”. Num caso, a presidenta do México Claudia Sheinbaum; noutro, o presidente da Argentina Javier Milei.

Para o professor da Universidade da Califórnia, o utopismo é “projetista” ou “iconoclasta”. O projetista mira a sociabilidade de amanhã no parâmetro de ontem, com o que veem. O iconoclasta age feito um profeta do Primeiro Testamento. Não acredita na iconografia visual de símbolos e de imagens; e recusa fazer o inventário do futuro. Apenas compartilha uma orientação – lazer, harmonia, cooperação, paz, prazer – para um coletivo. Importa manter os ouvidos abertos e a espinha ereta, com dignidade.

Três razões são elencadas para o enfraquecimento da ideologia utopista: (i) o referido colapso da URSS, iniciado em 1989 e oficializado em 1991; (ii) a convicção propagada de que nada distingue os utópicos dos totalitaristas na geleia geral e; (iii) o empobrecimento crescente da imaginação social, com adaptações ao status quo. A mercadoria vira panaceia para a depressão.

A imaginação confere energia ao utopismo; sem o que degringola no totalitarismo. Explica-se a perseguição a artistas e intelectuais censurados no regime de exceção, com prerrogativas suprimidas e filhos estimulados a denunciar os pais, na política de vigilância no seio das famílias. Afetos privados desmancham no ar fétido.

Uma geração atrás se tinha a sensação de que outro mundo é possível, na versão otimista do Fórum Social Mundial (FSM, 2001). Hoje parece estarmos na plateia da crise climática, do genocídio da Faixa de Gaza, do controle orwelliano da verdade e da conversão dos indivíduos em empresas. No teatro do ódio, o imaginário é preso pelo discurso da corrupção e das fake news. O farisaísmo tira da coxia o medo e coloca-o no palco.

Nasce a “rebeldia a favor” que afronta os poderes institucionais, mas aceita e enrijece as hierarquias sociais e a dominação do capital-rentista e do capital-nuvem na sociedade. E mais, libera o mando-obediência em cada estrato. Se o melhor no capitalismo é ser capitalista; o melhor num sistema hierarquizado em que os deveres superam os direitos é ser aquele que manda em alguém. A extrema direita cresce no terreno árido da desvalia e da desdemocratização da democracia – “onde os fracos não têm vez”.

No ensaio sobre a redenção judaica e a utopia pós-capitalista, Michael Löwy fala da necessidade de descrever a história sob o prisma dos vencidos para “uma nova percepção da temporalidade, em ruptura com o evolucionismo e com a filosofia do progresso”. É preciso questionar o processo civilizatório. A terceira via liberista prega o caminho do meio entre os de cima e os de baixo; a politeia aristotélica. Mas é uma comensal no banquete da burguesia que conspira contra o Estado de direito democrático.

O perigo se esconde na demagogia; o atraso espia as pesquisas. Como na canção The Sound of Silence: “As palavras dos profetas / Estão escritas nas paredes do metrô / E nos corredores dos cortiços / Sussurradas no som do silêncio”. Que os corações estejam prontos, em 2026, para superar o risco de o apelo utópico se confundir com o outdoor do paraíso ou o neon da opressão. Trata-se, antes, de uma estação de resiliência e esperança.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Psol – coligação sim, federação não
11 Feb 2026 Por VALERIO ARCARY: Há uma dialética inteligente em lutar pela construção de um partido socialista que vai além dos limites do PT e, ao mesmo tempo, lutar ao lado do PT e do governo Lula contra o bolsonarismo. A ideia de que deve existir um só partido de esquerda parece atraente, mas não é progressiva
2
Fascismo histórico e novo fascismo
11 Feb 2026 Por JALDES MENESES: Encontramo-nos diante de novas causalidades e de um fenômeno politicamente distinto, embora familiar em seu ethos: um "novo fascismo". Esta categoria merece aprofundamento
3
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
4
A prova nacional docente
11 Feb 2026 Por ALLAN ALVES: Quando um ministro da Educação vem a público e conclama a categoria profissional que ele representa a buscar oportunidades de ingresso no magistério, é razoável esperar a existência de uma política. No entanto, tal política não se materializou
5
O contradissenso de Douglas Barros
10 Feb 2026 Por RAFAEL PANSICA: A crítica de Douglas Barros perde sua força quando adota o mesmo tom debochado e elitista que pretende combater, tornando-se exemplo do que ataca
6
O livro de Fernando Haddad
09 Feb 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O livro de Haddad revela uma desconexão entre o ministro experiente e o acadêmico: falta a reflexão madura sobre a simbiose entre capital financeiro e capitalismo de plataforma que ele vive no dia a dia
7
Capitalismo superindustrial
06 Feb 2026 Por FERNANDO HADDAD: Apresentação do autor ao livro recém-lançado
8
A tragédia está morta?
10 Feb 2026 Por TERRY EAGLETON: Primeiro capítulo do livro recém-traduzido “Tragédia”
9
Palestina, terra santa
10 Feb 2026 Por JEAN TIBLE: Palestina emerge como metáfora e chave de leitura para as lutas globais, conectando a máquina de morte israelense às violências contra indígenas e periféricos no Brasil
10
Para além de Hannah Arendt e Antonio Gramsci
04 Feb 2026 Por DYLAN RILEY: Arendt erra ao diagnosticar a atomização como causa do totalitarismo; a análise ganha rigor com Gramsci, para quem a crise é disputa de hegemonia na sociedade civil organizada
11
Assassinatos por meio da fome e do frio
11 Feb 2026 Por YURI PIVOVAROV: O que Joseph Stalin conseguiu apenas parcialmente, Vladimir Putin decidiu concluir. Ele já demonstrou sua habilidade, causando uma nova “ruína” à Ucrânia. Mais precisamente, uma devastação
12
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
13
Os quatro cavaleiros do apocalipse
11 Feb 2026 Por MATHEUS DALMOLIN GIUSTI: Ao tratar da ideologia que guiou a redação legislativa e orienta a interpretação do texto dela resultante, está-se a versar sobre o próprio direito positivo. A manifestação da política brasileira de ciência se dá, especialmente, no plano jurídico, junto do econômico e do institucional
14
A Escola de Campinas
09 Feb 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: A abordagem heterodoxa da Escola de Campinas, com seu projeto desenvolvimentista e crítico à financeirização, enfrenta a hostilidade do mercado e da mídia neoliberal
15
Walter Benjamin, o marxista da nostalgia
21 Nov 2025 Por NICOLÁS GONÇALVES: A nostalgia que o capitalismo vende é anestesia; a que Benjamin propõe é arqueologia militante das ruínas onde dormem os futuros abortados
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES