Covid-19: a crise que os “Tradicionalistas” radicais esperavam

Imagem: Elyeser Szturm

Steve Bannon, o protegido de Putin Alexandr Dugin e outros agentes da direita de alto nível são todos adeptos de uma ideologia obscura e poderosa, que veem na crise do coronavírus uma oportunidade rara para avançar com suas ideias ultraconservadoras

Por Benjamin Teitelbaum*

“É uma espécie de censura divina, um decreto divino contra a humanidade”, escuto a voz grossa acentuada no telefone em 17 março de 2020.

A princípio, suas palavras soaram como uma resposta previsível ao desastre de coronavírus por parte de um fanático religioso – como os sermões de fundamentalistas que viram o mal em epidemias de HIV ou o castigo de Deus em 11 de setembro por impiedade moral. Mas a pessoa com quem eu estava conversando por telefone da minha casa isolada nas montanhas do Colorado viu um tipo diferente de retribuição em jogo: “É um tipo de punição”, continuou ele, “pela globalização”.

O filósofo e agente político russo Alexandr Dugin pensa de maneira incomum. Imprecisamente rotulado como um extremista de direita, um neofascista ou um populista, ele é capaz de se identificar com o rótulo discreto de “Tradicionalismo”. Em outras palavras: ele se vê lutando contra a totalidade do mundo moderno.

O Tradicionalismo é uma doutrina radical – tão radical que estudiosos da extrema direita como eu muitas vezes a rejeitaram como uma curiosidade obscura, desprovida de consequências políticas relevantes. Alguns de seus primeiros adeptos da direita acreditavam que uma raça de arianos etéreos já viveu no Polo Norte e defendiam o estabelecimento de um patriarcado celibatário de padres guerreiros no lugar da democracia. Muitas vezes parece mais fingimento do que política; Dungeons and Dragons [RPG, em que jogadores de D&D criam personagens que embarcam em aventuras imaginárias, enfrentam monstros, acumulam tesouros e poder] para racistas, como disse um ex-aluno meu.

Entretanto, descartar o Tradicionalismo não é mais uma opção, agora que Dugin e sua turma estão ganhando influência excepcional em todo o mundo. Esses ideólogos infundiram um grande partido político na Hungria, o governo de Vladimir Putin e, mais tarde, o governo de Donald Trump e Jair Bolsonaro através de figuras como Steve Bannon e Olavo de Carvalho, um astrólogo e filósofo renegado que assessora o governo brasileiro em política externa e doméstica.

Eu converso com eles há quase dois anos enquanto pesquisava meu livro War for Eternity, e presenciei quando tentavam (lutavam) colaborar no avanço de uma visão mais estranha que o mero nacionalismo ou populismo, mais ampla que o destino de qualquer nação. Mas alguns agora veem o coronavírus como uma oportunidade rara de avanço.

Eles, é claro, não estão sozinhos. Vozes dissidentes de vários tipos consideram a crise atual como um potencial momento divisor de águas, introduzindo um novo conjunto de riscos e recompensas, vencedores e perdedores. Seus julgamentos ocorrerão em nossas rotinas pessoais, mas também testando e reordenando formas sociais e políticas mais amplas. O liberalismo venceu as batalhas do século XX, como nos dizem muitas vezes. Democracia, individualismo, livre circulação de pessoas, bens e dinheiro pareciam o melhor método para estabelecer segurança, estabilidade e riqueza. Porém, agora, no mundo em que entramos – um mundo em que a produção doméstica e o isolamento social são virtudes – que ideologia está pronta para se beneficiar disso?

Sempre com T maiúsculo, o Tradicionalismo funde os ensinamentos de religiões escolhidas para condenar o mundo moderno por causa de seu secularismo e à falta de todos os tipos de limites. Era, originalmente, uma escola filosófica e espiritual, tendo como principal patriarca um francês convertido ao Islã chamado René Guénon (1886–1951), embora o Tradicionalismo tenha se radicalizado e levado à política reacionária por um pensador italiano e colaborador de Mussolini chamado Julius Evola. Ele vê o tempo movendo-se em ciclos, e não linearmente, de uma Idade de Ouro para uma Idade das Trevas de colapso e, abruptamente, de volta ao ouro, em um movimento incessante.

Exceto por um momento transitório de cataclismo, nessa visão o tempo é igual à destruição, e passado, presente e futuro perdem significado em um ciclo em que nossa história também é nosso destino. Enquanto isso, o declínio da sociedade, de acordo com o Tradicionalismo, refere-se à disseminação do materialismo e da homogeneização à custa da espiritualidade e da hierarquia (isso também explica por que o Tradicionalismo cultiva um anseio apocalíptico incomum).

Se durante a Idade de Ouro a sociedade é estratificada, e diferentes pessoas seguem caminhos sociais e religiosos separados, o surgimento das trevas implica a quebra total da diferença e o nivelamento da humanidade global em busca de seus desejos mais básicos. É a fusão dessas crenças e sua associação com a ciclicidade que separa os tradicionalistas à direita dos conservadores religiosos mais comuns, como Ross Douthat. De fato, os tradicionalistas modernos usam essa lente para considerar o globalismo e a circulação aparentemente caótica de dinheiro, bens, poder e povos como símbolos de um secularismo decadente e um sinal de que o colapso – e com isso uma mudança de idade – está próximo.

Pelo menos é assim que Steve Bannon enxerga. Conversei com o ex-coordenador da campanha e consultor especial de Donald Trump durante uma brecha em sua agenda, agora dominada por atividades relacionadas ao surto de coronavírus (ele mantém um programa de rádio diário dedicado ao tópico desde 25 de janeiro). O que estamos testemunhando agora, ele afirma, é a virada dessa Idade das Trevas – o Kali Yuga, como ele chama, referindo-se ao relato do Hinduísmo do tempo cíclico. Os sinais disso são uma convergência de três catástrofes iminentes:

“Você tem uma enorme pandemia. Segundo, você tem uma crise econômica, e parte disso são essas perturbações da economia de viagens e serviços, que são horríveis, mas depois, mais profundamente, você tem um problema sistêmico, um é a cadeia de suprimentos – não fabricamos nenhum medicamento aqui, nós não fabricamos nenhuma das luvas. Mas mais profundo do que isso é o projeto de globalização, em que essencialmente enviamos tudo para a China manufaturar. Nós não fazemos nada. Portanto, temos esse sistema que pode entrar em colapso rapidamente. E agora desencadeamos algo que pode ser muito maior do que os dois primeiros: estamos em uma tempestade financeira, uma crise financeira.”

A economia em colapso, ele explica, nasce de problemas de liquidez e solvência. Subjacente a tudo isso está a “globalização”: na sua opinião, a incapacidade dos Estados de erigir fronteiras significativas regulando o movimento de pessoas e a produção de bens.

Alexandr Dugin fala em termos semelhantes, embora, às vezes, com alegria penetrante. “O presente ciclo cósmico está chegando ao fim.” Ele sabia que a virada estava se aproximando, Dugin me conta; o reino da democracia, a incapacidade da maioria dos sistemas políticos de debater qualquer coisa que não seja a riqueza material, a perda da comunidade nascida da migração em massa. A pandemia de coronavírus simplesmente amarrou com veneno nossos canais de troca já caóticos.

Dugin é frequentemente descrito como um grande influenciador da política exterior expansionista de Putin. Ele raramente ocupou posição oficial no governo, e muitas de suas ações foram absurdas e bizarras. Mas seus livros e pensamentos saturam a intelligentsia militar da Rússia há décadas – assim como Bannon, seu impacto na política é facilmente superestimado e subestimado. O Tradicionalismo inspirou Dugin a combater a modernidade através da geopolítica e da guerra convencional, considerando sua Rússia e Eurásia, sua terra natal, o bastião da Tradição, e os Estados Unidos o navio do globalismo diabólico. Além de folhetos que oferecem justificativas filosóficas e espirituais para rejeitar o liberalismo, ele também usou protestos e diplomacia para pressionar a incursão militar russa na Geórgia e na Ucrânia, além de aumentar a união entre Rússia, Turquia, Irã e China.

O objetivo é quebrar a hegemonia mundial dos Estados Unidos, ele explica. É acabar com o impacto homogeneizador do governo político e cultural centralizado e, ao contrário, permitir a fragmentação do globo em comunidades locais limitadas. Poderia haver ecos de anti-imperialismo de esquerda e relativismo cultural em sua retórica – se também não estivesse infundida em desprezo pela democracia, em devoção espiritual ao precedente e em um alinhamento transparente com as ambições expansionistas de um estado militar.

É surpreendente, então, que Dugin e Bannon buscaram colaboração entre si ao encontrarem-se em segredo em Roma em novembro de 2018. Dugin e Bannon podem representar interesses opostos no nível da política nacional, mas reconheceram um vínculo mais profundo como dois tradicionalistas que emergiram no poder independentemente um do outro aproximadamente no mesmo momento histórico. A comunicação deles, no entanto, têm relação com a geopolítica: Bannon tem pressionado Dugin a mudar suas lealdades e abraçar os Estados Unidos, a usar sua plataforma de influência suave, mas poderosa para defender o retorno da Rússia ao Ocidente judaico-cristão e a rejeição à China.

O esforço é menos formal e público do que o malfadado “Movimento” de Bannon; isso pode tornar tudo mais auspicioso. E suas motivações também são profissionais: Bannon está sendo pago ricamente pelo bilionário chinês fugitivo Guo Wengui para minar o Partido Comunista da China em todas as frentes, no entanto isso atrapalha a potencial parceria de Bannon com Dugin. O filósofo russo considera os Estados Unidos como essencialmente e para sempre um estado progressista, imperial e liberal, enquanto Bannon acredita que o país possui um núcleo pré-moderno mais profundo. Entre os vários acordos e divergências dos dois, agora está a motivação de respostas divergentes ao surto de coronavírus.

A atenção precoce de Bannon ao vírus (uma alternativa bem-vinda ao pouco caso que a Fox News e outras mídias conservadoras fizeram da pandemia) derivou de seu foco na China. Ele afirma que tomou conhecimento da turbulência em Wuhan em 2019, durante a descoberta e tentativa de mitigar o vírus. Suas mensagens desde então se mantiveram em relatórios diretos, juntamente com elogios a políticos que levavam a causa a sério (na maioria governadores democratas, de fato). Mas ele não tem vergonha de colocar a culpa pelo surto no PCC (Partido Comunista Chinês), chamando de não o “vírus chinês”, como Trump faz, mas o “vírus do Partido Comunista”.

O sinófilo Dugin, que vive intermitentemente em Xangai, não fala em tais termos. Ele me diz: “Vemos agora que, lidando com o coronavírus, a primeira reação é retornar da globalização para uma sociedade local mais concreta. É uma recusa do dogmatismo liberal de que mercados e abertura poderiam resolver tudo.” Isso, de acordo com Dugin, coloca pressão no Ocidente para abandonar o secularismo, abraçar o Estado sobre o indivíduo e estagnação sobre o movimento. E, embora ele parasse de celebrar a pandemia em massa que está matando dezenas de milhares em todo o mundo, elogiou a capacidade do coronavírus de esclarecer o que ele vê como verdade: “Os EUA devem escolher agora entre a vida e o liberalismo”.

Quando eu coloco um pouco do pensamento de Dugin para Bannon, ele empurra de volta. O Ocidente vai sair por cima, diz ele, soando como um típico conservador americano. Nosso modelo de sociedade aberta e livre produzirá mais inovação para enfrentar a crise, enquanto a ditadura da China perderá legitimidade por seus encobrimentos e corrupção. Os ecos de Dugin e o Tradicionalismo típico ressurgiram, no entanto, quando Bannon começou a descrever quais reformas precisavam ser tomadas agora. “Desligue tudo”, diz ele. “Tome uma ação draconiana … quando você tiver que passar pelo inferno, passe o mais rápido possível.” Imponha proibições de movimento e comércio, em outras palavras: sociedades livres e abertas podem chegar ao topo, mas não sendo livres e abertas.

Em pouco tempo, nossa conversa é sobre os comportamentos sem raiz e sem alma do individualismo que serão punidos pela morte, e onde existir a ação ousada do homem forte e do coletivo, e a reverência pela história personificada pela mobilização em nome dos mais velhos, serão recompensadas. Notando que ele demonstrou alguma veneração para o momento, perguntei: “Estaremos em um lugar melhor, do outro lado?”

Ele fez uma rara pausa antes de falar, devagar. “Estaremos em um lugar diferente. Eu acho que será o começo para chegarmos a um lugar melhor … Eu acho que você terá um sentimento de comunidade muito mais coeso, mais forte quando passarmos por isso, porque a única maneira de chegarmos através disso é o senso de comunidade. Todos nós precisamos nos unir nessa coisa, ou nem todos vamos superar isso. Eu acho que vamos ver isso. “

Sim, ele vê algo a ser ganho aqui. Quanto ao Dugin? Suas palavras de despedida para mim foram reveladoras: “O vírus é um sinal do fim dos tempos”.

“Ele quis dizer ‘fim dos tempos’?” Eu pensei comigo mesmo, começando a decodificar o inglês eficaz, mas fragmentado de Dugin em minha mente. Mas momentos depois que desliguei, percebi que ele poderia estar fazendo uma referência tradicionalista deliberada ao fim de nossa fé no progresso e na integração – que nosso experimento de criar um mundo cada vez mais livre e interconectado está recebendo uma repreensão brutal; que em breve aprenderemos a desistir do progresso, da história ou do “tempo”, e do retorno a uma eternidade mais virtuosa. E neste caso, eu não acho que ele seja o único.

*Benjamin Teitelbaum é especialista em radicalismo de direita e professor de musicologia e assuntos internacionais na University of Colorado Boulder. Seus escritos foram publicados no New York Times, Foreign Policy, na Los Angeles Review of Books, no Wall Street Journal e no Atlantic.

Tradução: Ricardo Kobayaski e Stéfanni Mota

Publicado originalmente no The Nation [https://www.thenation.com/article/politics/covid-traditionalist-bannon-putin/]