Críticas simétricas

Imagem: roger kuzna
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Por VALTER POMAR*

Resposta ao artigo de Luis Felipe Miguel

1.

Luis Felipe Miguel acaba de publicar, no site A Terra é Redonda, um texto acerca da Venezuela.

Segundo Luis Felipe Miguel, “a situação da Venezuela é nebulosa, mas não é a crença em clichês militantes que ajuda a desvendá-la”.

Isto é verdade? Em parte é verdade: afinal, como dizia Mao, devemos combater os “clichês”. Parte não é verdade: afinal, é errado dizer que a situação da Venezuela seja “nebulosa”. Convenhamos: aconteceu um ataque militar, sequestraram o presidente Nicolás Maduro e a deputada Cilia Flores, os Estados Unidos chantageiam publicamente o governo venezuelano.

Que existe de “nebuloso” nisso tudo? Estamos ou não estamos diante do imperialismo clássico?! Ah, mas tem pontas soltas! Ah, mas talvez tenha havido uma conspiração!

Pontas soltas, sempre existem. Mas quem acha que existiu uma conspiração precisa provar. Evidente, quem é “irresponsável” (no sentido de não ter responsabilidades dirigentes) pode se dar ao luxo do devaneio supostamente acadêmico.

Mas quem tem responsabilidades dirigentes precisa lembrar que investir nesse tipo de “conjectura” sem prova tem como efeito prático enfraquecer um dos lados – a Venezuela – ao mesmo tempo que distrai a atenção acerca do que é principal, a saber: enfrentar a ofensiva dos Estados Unidos sobre a América Latina e Caribe.

O texto de Luis Felipe Miguel é um bom exemplo dessa “operação distração absoluta”, uma espécie de lado B da Operação Determinação Absoluta (nome dado pelos gringos ao ataque contra a Venezuela).

Luis Felipe Miguel começa falando que todos nós, humanos, teríamos dois traços marcantes: “criar narrativas e tomar lado, separando os bons dos maus”. Isso é verdade? Não sei dizer, até porque sempre desconfio dessas considerações genéricas sobre os “humanos”, abstraindo da história, da política, da situação concreta. Ademais, não concordo que tomar lado conduza necessariamente a “separar os bons dos maus”.

Claro que há quem pense e aja assim. Mas também existe quem não caia nesse tipo de maniqueísmo. E para isso não é necessário ser acadêmico.

2.

Aliás, nas entrelinhas do texto de Luis Felipe Miguel está uma óbvia, tola e falsa crença de que a militância seria cega às sutilezas do real, acessível apenas a quem tem a academia como “lugar de fala”.

Esta superioridade “científica” a priori do saber supostamente acadêmico é real? Não, não é.

Por exemplo: na guerra da Ucrânia, o melhor para nós da esquerda brasileira é que a OTAN seja derrotada. Isso não transforma Vladimir Putin num “good fellow”. Mas tampouco é um “devil“, visão acerca de Putin que predomina em parte importante da academia.

Outro exemplo: no conflito entre a República Popular da China e os Estados Unidos, o melhor para nós da esquerda brasileira é que os EUA sejam derrotados. Isso não converte a China em “salvadora da humanidade”. Mas admitir isso não significa aderir, como faz parte importante da academia, a uma visão hipercrítica acerca da China.

A verdade é que “clichês” estão por todas as partes. E as pesquisas demonstram que as pessoas com maior educação formal não são, nesse momento, aqui no Brasil pelo menos, as que melhor se posicionam do ponto de vista político, nos grandes temas nevrálgicos de nossa época.

Dito de outra forma: há pessoas que, ao invés de atacar a OTAN e os EUA, concentram suas energias em atacar os inimigos dos nossos inimigos. Gastam mais tinta contra a Rússia e contra a China, do que contra os Estados Unidos. E, fazendo assim, as vezes sem perceber o que estão fazendo, as vezes percebendo e sendo premiados por isso, de repente cruzam a linha e se convertem em amigos úteis aos gringos e seus aliados.

Premiados significa, por exemplo, espaço na grande mídia e acesso facilitado a financiamentos para projetos acadêmicos. Para que não reste dúvida, não estou acusando nem insinuando que Luis Felipe Miguel corresponda a este comportamento fenício.

O que digo é que Luis Felipe Miguel, em nome de não cair na “tentação de estabelecer um vilão e um mocinho”, adota o procedimento de fazer críticas simétricas às interpretações da direita e da esquerda acerca da Venezuela. Emulando um comportamento comum na época da Guerra do Vietnã: a “teoria dos dois demônios”.

3.

Mas de repente, não mais que de repente, a suposta simetria de Luis Felipe Miguel some, restando apenas a crítica contra a Venezuela, como se pode ler aqui: “Também é verdade que o regime perdeu legitimidade ao longo dos anos, o que tanto estimulou quanto foi resultado de uma escalada autoritária, acentuada fortemente nos anos de Nicolás Maduro no poder. As suspeitas de que as últimas eleições presidenciais foram fraudadas são, para dizer o mínimo, bastante verossímeis. Desde o começo, porém, iniciativas de participação política popular eram combinadas com forte centralização do poder, personalismo exacerbado e militarizaçnão do aparelho estatal”.

Suponhamos que o acima transcrito fosse 100% verdade. Pergunto: os defeitos e problemas citados caíram do céu? Ou têm fortíssima relação com a postura do imperialismo, da classe dominante e da oposição venezuelana? Se têm, por que isto não é citado?

A razão é bem simples: o alvo principal de Luis Felipe Miguel no texto analisado é criticar os que supostamente exageram ao defender a Venezuela. Portanto, na prática ele pesa a mão contra o lado mais fraco da disputa. Me lembra algumas pessoas que, diante de acusações de assédio na academia, concentram suas energias em desqualificar as denúncias e denunciantes.

Ressalto que Luis Felipe Miguel tem todo o direito de falar da “gravidade dos problemas da própria Venezuela”, criticar o “autoritarismo” de Nicolás Maduro e “o caráter duvidoso de sua eleição”. Mas isso não converte o exercício deste direito em algo neutro, sem consequências.

Pergunto: a quem ajudava criticar o governo de Stálin, quando as tropas soviéticas estavam matando nazistas? A quem ajuda criticar o chavismo, quando os chavistas estão sob ataque extrema do império?

Não admira, portanto, que parte do texto de Luis Felipe Miguel seja dedicado a criticar Breno Altman. Cito textualmente: “É constrangedor ver um jornalista como Breno Altman – um sujeito capaz, sem dúvida, mas preso em sua persona de stalinista impenitente e porta-voz brasileiro do regime venezuelano – vituperando contra quem sugere que possa ter havido um acordo entre a presidente interina, Delcy Rodríguez, e Donald Trump”.

Luis Felipe Miguel afirma que, segundo Breno Altman, “pensar nessa hipótese seria como uma traição, destinada a ‘desmobilizar a resistência’.”

Supondo que Breno Altman tenha utilizado estes termos, pergunto: a quem interessa lançar suspeitas sobre a lealdade de Delcy Rodríguez aos princípios do chavismo? Quem na prática se beneficia disso? Especular sem provas a respeito ajuda quem?

4.

Luis Felipe Miguel também diz que Breno Altman “sempre propagandeou que o grande diferencial da Venezuela era a ‘mobilização popular’.” Mas que agora, “quando a reação popular à agressão imperialista se mostra quase inexistente, revelando o desânimo e o desencanto dos setores que no passado foram base do chavismo, ele [Breno] tem pouco a falar”.

Não sei de onde Luis Felipe Miguel tira que a reação popular “se mostra quase inexistente”. Claro que também há desânimo, claro que também há desencanto, entre outros motivos porque os EUA tiveram êxito no ataque e Nicolás Maduro foi sequestrado.

Mas na condição de quem vem acompanhando há tempos os acontecimentos na Venezuela, simplesmente não vejo base fática para dizer que a “reação popular à agressão… se mostra quase inexistente”.

Nessa e noutras questões, talvez porque os fatos não cooperem como esperado, Luis Felipe Miguel adota o modo especulativo, típico da grande imprensa. Ele diz, por exemplo, que “regimes fechados costumam ter sua cúpula dividida em camarilhas imersas em disputas internas. Processos inicialmente revolucionários em decrepitude fomentam o oportunismo. Muitos relatos sobre a Venezuela, inclusive de antigos apoiadores de Hugo Chávez, dão conta de ambos os fenômenos”.

É óbvio que entre “antigos apoiadores” existe quem destaque e exagere ao máximo esse tipo de fenômeno. Mas a pergunta é: o que isso teve que ver com o êxito do ataque militar e do sequestro? A resposta de Luis Felipe Miguel, textual, é a seguinte: “São suposições, claro, mas a hipótese de colaboração interna é a que melhor explica a surpreendente ausência de baixas estadunidenses na operação de sequestro de Nicolás Maduro. Não pode ser descartada por dogmatismo”.

Aqui há três afirmações misturadas. Primeiro: algumas pessoas têm muita informação sobre o ocorrido e é com base nelas que opinam. Nesse caso, não se trata de dogmatismo, mas de pesquisa. A atitude de Luis Felipe Miguel, ao converter ignorância em argumento, também constitui uma forma de “dogmatismo”, muito comum na extrema direita mas também presente noutros pontos do espectro político.

Segundo: não sei dizer se é verdade a citada ausência de baixas estadunidenses. Não tenho motivo para acreditar no que dizem os EUA. Mas obviamente as baixas do lado venezuelano foram significativas. E a causa disto é um combinado entre poderio militar, eficiência militar, infiltração, traição e falhas pontuais e sistêmicas nas contramedidas.

Terceiro: dentre todas estas causas, ao escolher focar na traição, usando o eufemismo “colaboração interna”, para em seguida falar da posição de Delcy Rodríguez frente ao governo de Donald Trump, o que Luis Felipe Miguel insinua é que a colaboração teria sido do mais alto nível. Ou seja e noutras palavras, insinua que Maduro teria sido entregue, não sequestrado.

5.

Ao chegarmos neste ponto, por um passe de mágica, via “suposições”, o vilão deixa de ser o vilão ou, pelo menos, deixa de ser solitário. E a culpa, ou parte importante dela, passa a ser da vítima. Não consigo deixar de pensar no modus operandi mental de alguns luminares acusados de assédio.

Luis Felipe Miguel chega a dizer que Donald Trump “aceitou” Delcy Rodríguez “como presidente do país. E ela, por sua vez, continua com a retórica de que Nicolás Maduro deve ser libertado, mas ao mesmo tempo anuncia que deseja uma relação “equilibrada e respeitosa” com Washington. Donald Trump anunciou que 50 milhões de barris de petróleo venezuelano que seriam destinados à China agora serão dos Estados Unidos. Os chineses deram mostras que acreditaram”.

Por partes: a tática de Delcy Rodríguez é a mesma tática que Nicolás Maduro já vinha adotando. A saber: negociar. Pois já era óbvio que, em caso de guerra convencional, os Estados Unidos levariam vantagem, fato confirmado no dia 3 de janeiro. Assim como já se sabia que, em caso de invasão, as chances da Venezuela aumentariam, mas o custo também aumentaria. Assim, Maduro antes e Delcy agora não tinham nem têm outra alternativa senão negociar.

Quem acha que toda negociação é por definição uma traição, buenas, só posso dizer que vive noutro mundo. E quem acredita que depois da negociação virá a paz, também não entendeu nada do que está ocorrendo nesses tempos de crise, guerra e extrema-direita.

A respeito de Delcy, Luis Felipe Miguel é capcioso ao dizer que Donald Trump “aceitou Rodríguez como presidente do país”, uma “narrativa” que conduz, via insinuações, a tratar Delcy Rodríguez como “colaboradora”.

Proponho outra “narrativa”: Donald Trump achava que sequestrando Nicolás Maduro e chantageando o chavismo, obteria – sem os custos de uma intervenção militar ao estilo Iraque ou Afeganistão – um governo capacho ou a convocação de novas eleições, que poderiam resultar no tal governo capacho. É por isso que nesse momento descartou María Corina e cometeu frases ambíguas e fakes sobre Delcy Rodríguez.

Acontece que, ao menos aos preços vigentes dia 9 de janeiro as 8h da manhã, nenhuma das pretensões de Donald Trump se materializou. Motivo pelo qual Donald Trump também disse que pode voltar a atacar. Mas ao mesmo tempo que ameaça, Donald Trump também quer negociar.

A situação, portanto, não tem nada de “nebulosa”, embora tenha muita confusão e várias desdobramentos possíveis, como aliás acontece tanto na política quanto na guerra. Tudo isso agravado pelo estilo Donald Trump.

Ao descrever a situação como “nebulosa”, Luis Felipe Miguel prepara o terreno para concluir que nessa história tem vilão dos dois lados.

Exemplo: “é razoável imaginar que os dois lados veem como possível tentar um acordo – e os termos dele, não é preciso ser muito perspicaz para imaginar, incluiriam a permanência da camarilha dirigente venezuelana no poder, de um lado, e tratamento mais camarada para as petroleiras estadunidenses, do outro”.

Que os venezuelanos preferem um acordo a uma guerra, repito que não tenho dúvida. Que Donald Trump também queira um acordo, também me parece óbvio. A diferença é que os venezuelanos querem ganhar tempo, enquanto Donald Trump tem pressa e quer arrancar um acordo colocando uma arma na nuca da Venezuela.

Ao omitir este detalhe e agregar que tal acordo incluiria “a permanência da camarilha dirigente venezuelana no poder”, fica confirmado – a meu juízo – que para Luis Felipe Miguel tem vilão nos dois lados do conflito. Talvez por isso ele não imagine que o governo venezuelano possa simplesmente querer ganhar tempo.

Luis Felipe Miguel toma o cuidado de dizer que “é razoável, eu escrevi – não é certo”. E ele acha que devemos “reconhecer a incerteza, pensar em cenários prováveis sabendo que não estão definidos, usar a navalha de Ockham, resistir à tentação de acreditar em narrativas mirabolantes apenas porque aquecem nosso coração. E lembrar sempre que embora claramente exista um vilão, não há mocinho nessa história”.

Nada mais natural que atribuir aos outros a condição de “mirabolante”. Ademais, a atitude de Luis Felipe Miguel é totalmente compatível com alguém “irresponsável” (ou seja, uma pessoa que não tem a responsabilidade de dirigir partidos, movimentos, governos, nem considera que seja papel de um militante orientar todo um entorno). Mas na prática este tipo de atitude ajuda o verdadeiro “vilão”, que pode a qualquer momento atacar de novo, inclusive noutros países, como é o caso de Cuba.

Um ponto final: é bastante curioso que se use, nesses tempos em que os EUA exigem vassalagem, o termo “vilão”. Mas deixo esta digressão especulativa para outro momento.

*Valter Pomar é professor da Universidade Federal do ABC e membro do Diretório Nacional do PT.

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