Da dificuldade de repensar

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Por FLÁVIO R. KOTHE*

Precisamos dar a volta por cima do que nos foi doutrinado na família, na escola, na mídia, no Estado

Mais decisiva que a aparência externa de liberdade de poder dizer o que se pensa – que é bem menos efetiva do que se supõe, pois tende a ser inversamente proporcional ao público receptor – é a liberdade interior de abrir espaços para repensar fundamentos. Se eles não forem repensados, não se pensa: apenas se repetem rotinas de entendimento, que podem ser tanto menos verdadeiras quanto mais institucionalizadas forem. Precisamos dar a volta por cima do que nos foi doutrinado na família, na escola, na mídia, no Estado. São formas diversas de servidão, nenhuma voluntária, mas em geral aceitas como normais.

Serpentes trocam de pele a cada ano para poderem crescer. Nós precisamos nos reciclar por dentro sempre que as circunstâncias nos induzem a ver as coisas de novos ângulos. Friedrich Nietzsche dizia que não se entra duas vezes no mesmo rio, mas que ele conhecia muita gente que entrava sempre igual no rio mutante. Chama-se isso de coerência, mas ela pode ser insistência no erro ao longo das errâncias.

Para ler textos e contextos – contextos como se fossem textos –, o discernimento do seu gesto semântico, o direcionamento do seu discurso e da política subjacente às variadas estruturas de superfície, é preciso o contraste das sombras projetadas por seu perfil. Para indiciar percursos, é preciso ver quais vias foram evitadas, quais metas potenciais foram deixadas de lado. A afirmação se faz como negação implícita de algo outro que poderia ter sido dito e não foi. A omissão lava as mãos, mas nem tudo sai com água. Há negações em toda afirmação. Discursos não feitos no discurso feito.

Nada precisa ser como é. Se é, assim é por várias razões, nunca uma só. Tais razões podem ser irracionais, mas há nelas causas, que são por sua vez causadas. Desvendar as razões de ser, por absurdas que pareçam, é um modo de suspender sua eficácia imediata no âmbito da teoria, fazendo da coisa uma espécie de fantasmagoria que permita aproximar-se de sua coisidade. Mergulha-se assim na zona cinzenta entre razão e racionalização, como se fosse entre verdade e mentira.

O conceito de verdade precisa ser revisto, pois sua definição tradicional, a coincidência ou adequação entre mente e objeto, não é verdadeira. O que está na mente nunca é igual à coisa pensada. O princípio da matemática é a equivalência: X = Y. Só que X não é igual a Y. Então X seria = X, e Y =Y. Deus seria a garantia de que 3 + 2 = 5, já dizia Agostinho e repetia Descartes, quer estejamos acordados ou dormindo. Também 2 + 3 = 5. Na teoria, pois na prática se sabe que a ordem dos fatos ou dos argumentos pode alterar o resultado.

Para simplificar se diria então 1 = 1, e 2 = 2, assim como 2 + 2 = 4. Tudo certo. Na teoria. Na prática, posso comer 2 + 2 jaboticabas, mas não 2 + 2 melancias. Quando digo 1 = 1, o primeiro 1 é o sujeito, enquanto o segundo 1 é o predicado: o segundo 1 é que confere a identidade de 1 ao primeiro 1; portanto, o primeiro 1 vem como 1 depois do segundo 1. Não são idênticos, segundo Hegel. Se digo que 2 + 2 = 4, é como se dois ninhos, com dois ovos em cada, fossem iguais a um ninho com quatro ovos, o que está na contramão dos fatos.

Ao fazer do semelhante algo idêntico, descartam-se as diferenças, que também existem. A conceituação de verdade como adequação (ad aequum) torna igual o que não é. Reduz o mundo à quantidade, descartando a qualidade como se ela fosse apenas subjetiva, não um modo de ser da coisa, o estado em que ela se encontra. A “ciência” acaba sendo cálculo.

Os americanos implantaram ditaduras por toda a América Latina nas décadas de 1960 e 1970, a pretexto de preservar a liberdade e a democracia. Agora Joe Biden pede uma fortuna ao congresso americano para custear três frentes de guerra promovidas por ele, mas tudo para preservar a paz. A mídia brasileira só se refere ao Hamas como terroristas, enquanto Israel tem o direito de praticar genocídios. Faz de Gaza um gueto e, agora, um treino de tiro ao alvo e campo de extermínio, como se nunca tivesse existido o gueto de Varsóvia ou Auschwitz.  

Mais cômodo do que o esforço de repensar fundamentos em mão dupla é ficar na apatia que ora domina ruas e mentes, deixar que a lavagem cerebral em curso na mídia corra solta, devorando almas como se fossem carniças de neurônios perdidos. A apatia acaba pagando o pato da alienação: as coisas não deixam de acontecer, por maior que seja o negacionismo. O preço a pagar sempre há de vir. Pode-se ignorar a geopolítica, mas ela acaba batendo à porta.

Para captar o ser das coisas delineado no background do seu não-ser, o sujeito tem de negar a si mesmo, descobrir-se sujeitado, para romper o casulo em que se encontra, daí bater asas e virar ao menos borboleta. Parece bom conseguir esse truque epistemológico, que na alegoria busca fazer dialética de uma dicotomia. Ele pode, porém, olvidar a divisão entre ser e ente.

O que é, porém, o ser? Pode ser o ser do ente, o genérico que nele há e que está concretamente nele como a cavalidade no cavalo, a essência desse ente, para retomar Hegel; pode ser a totalidade dos entes, algo que ninguém sabe o que seja; pode ser, para os cristãos, o mais essencial dos entes, Deus mesmo, ainda que tenha de fazer o milagre de ser um ente e ao mesmo tempo o ser de todos, algo que Aristóteles achava impossível; pode ser o homem quando ele se autodenomina ser em algo como “ser ou não ser, essa é a questão”; pode ser tudo o que tenha mais vigência para nós, aquilo que se mostra para nós como sendo. Esses vários sentidos se misturam e se confundem.[i] O primeiro problema é que em todos esses modos de entender o “ser” estamos sempre determinados pela tradição metafísica.

Pode-se retomar Aristóteles para mostrar que nenhum ente pode ser o ser de todos os entes, pois é um erro lógico supor que um ente possa conter nele o ser de todos os entes, mas a crença pouco se importa com isso. Ainda que haja cavalidade em qualquer cavalo, nenhum é a própria cavalidade, por mais premiado que seja. Mesmo o último exemplar de uma espécie não é A espécie: ele é apenas o último espécimen.

Desenvolvendo a noção de Tomás de Aquino, pode-se dizer que Deus teria passado por várias etapas: (i) sozinho, sem nada; (ii) sozinho, bolando ideias de como as coisas poderiam vir a ser; (iii) dando materialidade a essas formas puras de sua mente; (iv) governando esse cosmos e descobrir que faltava um ente supremo; (v) fazendo Adão do barro, insuflando-lhe uma alma e daí fazendo Eva de uma costela dele, porque não é bom que o homem viva só; (vi) dando o nome de todas as coisas e gerenciando o paraíso, para inventar o trabalho como castigo; (vii) fazendo aparições aqui e acolá para o povo escolhido por Moisés para preservar o monoteísmo, caído em desgraça no Egito, e invadir terras alheias, promovendo matanças; (viii) seduzir uma donzela com ajuda de um anjo e fazer um filho; (ix) acompanhar as andanças do filho, como se o maior sinal de amor de um pai fosse deixar o filho ser torturado e morto; (x) abdicar do trono em favor do filho, gerando uma nova era.

O que se vê é um deus que muda, que está, portanto, dentro do tempo, não podendo ser eterno. Ele se comporta como um ente, não como o ser de tudo. Tomás de Aquino achava que o Espírito Santo tinha surgido do relacionamento do Pai com Cristo, mas ele era um monge.

Pode-se argumentar que a crença num deus que sirva de garantia para tomar posse de alheios territórios ou ao menos um terreninho no céu é a projeção de um desejo, cuja verdade é ser projeção e desejo, mas não a prova da existência desse deus nem da realização do desejado, só que argumentos de nada servirão diante da fé inabalável, do desejo absolutizado. Pode-se continuar argumentando que esse “desejo” freudiano é uma versão modesta da “vontade” de Artur Schopenhauer e da mais assertiva “vontade de poder” nietzschiana, mas isso seria continuar crendo que a argumentação lógica possa ter mais força que a crença, com seus desejos encapsulados.

Seria como que uma crença se contrapondo a outra crença: resultaria no in dubio pro reo. Cada um fica na sua, sempre achando que culpado é o outro. O próprio conceito de culpa se superaria pela dupla negação. A lógica que se dane.

Immanuel Kant pode ter percebido que seu esquema da mente reproduzia as figuras da trindade divina, mas não quis sair da perspectiva luterana. Achava que havia uma razão universal (de fato europeia e colonialista) para ditar comportamentos. Disse até que a democracia era a tirania da maioria sobre a minoria. Esqueceu de acrescentar que a aristocracia era a tirania da minoria sobre a maioria e que um déspota nunca é esclarecido (por mais que o flautista Frederico II fosse culto), mas que ele é sempre a tirania de um sobre todos os demais. Mesmo uma constituição não fica acima de quem se dá o direito de interpretar o que nela está contido. A lei acaba dizendo o que ele quer que ela diga.

Se o crente se vê como um “escolhido” pelo simples fato de ser crente ou por pertencer a uma classe ou etnia, não adianta rezar argumentos para que ele desça do pedestal em que se alçou, pois para ele só serve o que ele quer ouvir. Assim, se dá o direito de exercer “os direitos” que sua superioridade lhe confere. Essa arrogância não vai suprimir a força dos fatos, mas ela é uma forma de negacionismo, que trata de exorcizar o indesejado, e de narcisismo, o que impede de reconhecer deficiências e erros (exceto para se tornar ainda mais forte). O resto, o indesejado, “não existe”. Se existir de algum modo, precisa ser exorcizado. No exorcismo não se mata: apenas se expulsa o demônio…

O crente age conforme suas “verdades”, ele é “fiel”, seja indo à missa cada domingo para ir ao céu, seja tomando a terra que crê ter-lhe sido destinada por certa vontade divina. Em ambos os casos, trata-se de um problema de crítica literária, dum modo de ler e interpretar um texto. Alçado à categoria de sagrado, deixa de ser visto, porém, como ficção literária. Vira documento cartorial. Crê-se que tudo ocorreu conforme é contado. Num caso, na hora de cobrar, o detentor do suposto direito está morto e não pode mais reclamar; no outro, prefere-se que morram os infiéis.

Quem crê ser melhor se acha também no direito de fazer o que sirva para provar essa condição. As piores ações serão então abençoadas, tornadas virtudes. Quanto mais o sujeito fizer, mais ele fica obcecado e disposto a continuar. Não consegue reconhecer erros em sua errância: acha que segue os caminhos do Senhor. Transforma pecados em virtudes. Quanto mais longe for, mais vai querer continuar seguindo, menos condições terá de repensar seus fundamentos, ouvir a voz rouca da razão. A crença é mais forte que o pensamento.

Se a suposta razão é uma voz de outro, sendo esse outro um “infiel”, alguém que não faz parte da comunidade dos eleitos, ela vai ser lida como racionalização, propagação de interesses, manipulação, nunca como desvelamento de “vontades pessoais” que levam à crença, à projeção de desejos pela crença. Essa projeção de desejos não é apenas pulsão subjetiva: ela é impulsionada por interesses externos concretos. Passa por cima de contradições. Os americanos impuseram ditaduras pela América Latina a pretexto de preservar a liberdade; agora o presidente Joe Biden pede ao Congresso uma imensa subvenção bélica, a pretexto de preservar a paz, apontando três frentes de guerra, em que outros lutarão por eles. Se essa quantia fosse aplicada em preservar a natureza, lutar contra a fome e a favor da saúde, haveria mais paz do que essa pax romana.

De nada adianta tentar convencer o sectário mediante argumentos. A sua fé é inabalável. Passa pelas águas dos fatos e dos argumentos como o pato pelas águas da lagoa. Nada o toca. Tudo serve para reafirmar sempre o mesmo. Ele é capaz de projetar no outro o que mais caracteriza a ele mesmo, e tanto menos ver a si quanto mais acha que está vendo. Sua teimosia não tem fim, acha que é persistência.

Há esforços em provar, mais uma vez, que a espécie humana talvez seja um erro da natureza e mereça ser extinta. Não aguenta viver sem guerras, não deixa de estar dominada pela ânsia de dominação, destruindo a pretexto de construir. Isso já foi tantas vezes provado, não precisaria ser mais demonstrado.

A natureza é, no entanto, piedosa conosco: todos temos um tempo limitado de existência, por mais negacionistas que sejamos. Não há medo ou angústia que nos salve. Com “Angst” ou sem, a natureza acaba tendo razão e impõe sobre todos a sua “vontade de poder”.

*Flávio R. Kothe é professor titular aposentado de estética na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Benjamin e Adorno: confrontos (Ática). [https://amzn.to/3rv4JAs]

Nota


[i] HEIDEGGER, Martin. Schwarze Hefte 1948/49 – 1951. Gesamtausgabe Band 98, Frankfurt a.M., Klostermann Verlag, 2018, p. 361.


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