Márcia Denser (1949-2024)

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Por TALES AB’SÁBER*

Considerações sobre a escritora paulistana, recém-falecida

“Tudo o que escrevi nos anos 1980 e 1990, hoje seria impossível”
(Márcia Denser).

A obra de Márcia Denser me parece única na vida da literatura escrita por mulheres no Brasil. E também por homens. É única em suas implicações políticas e sexuais, no entendimento dos jogos de poder entre uma mulher moderna em busca de emancipação e um homem genérico, mas que também não é genérico, é um cafajeste da tradição brasileira, machista e desejante qualquer, postos ambos frente o próprio valor oscilante do sexo, mediador dos múltiplos sentidos, políticos ou psíquicos, que pulsam nos quadros vivos em que situava seus personagens.

Márcia Denser nos deu o universo limite do feminismo desejante e gozoso, da autonomia da mulher jovem dos anos de 1980, feminismo existencial e político – pop superficial, cinematográfico no conteúdo e na forma, envenenado com a cidade ruim, e a própria classe média empobrecida – de nova melancolia irônica cool, mas curiosa e divertida, acontecida em bares e motéis. Um feminismo, inventado em sua literatura, que lutava nas camas pela própria voz.

Neste quadro histórico, descrito com a precisão de traços e expressões cristalizadas da vida oral, aqueles contos invertiam a falsa potência do homem, poder pressuposto, em uma patética farsa, uma mascarada desfeita de potência. O sexo tinha o poder revelador, como uma espécie de acelerador de partículas, de explodir os elementos sociais ao redor do encontro de um homem e uma mulher: uma determinada luz, uma canção no rádio, um traço de maquiagem, uma grosseria encarnada, uma submissão reconhecida, tornando o inferno do desejo e das diferenças históricas entre os sexos transparentes, ao mesmo tempo em que envenenados.

Em seus pequenos e brilhantes contos, cheios de viravoltas mínimas, como o que há vivo na vida, o que o sexual revela em sua dialética mais fina – resolvendo tudo como literatura crítica, humorada, de espantos, mas sem drama – é o feminismo político da liberdade, e seu preço social real. Um feminismo que foi ironicamente vencido pela ordem geral de acusação, e de tentativa constante de controle do comportamento tão desagradável dos homens, próprio do feminismo de namoradas, moral, de hoje.

De fato, Márcia Denser nada tem a ver com isso. Porque o sexo, tão refinado em suas nodoas, seu kitsch e seus ambientes para-sociais, nela era concretamente imoral, e programaticamente amoral. Por isso, era político, como político era o seu esforço e combate permanente pela literatura. Olhando os homens do ponto de vista da cama e do sexo, a sua falsa potência se revelava tão patética quanto a falsa dominação da mulher sobre eles. Sujeito e objeto são desmascarados, no coração da coisa sexual, como uma dupla farça, necessária à vida de ambos. Se assim a mulher quiser, escrevia com insolência, “com suas fraturas”, retocando o rímel, por onde quase escapou algo como quase uma lágrima, que não existe, La Denser.

O foco no sexo, até a relação sexual reinventada na linguagem, é foco crítico e pequena dialética social. Pela lente do amor toda ordem patética dos poderes imaginários, de homens e de mulher, treme, em sociedade de poderes grotescos, mas mantida com a boa ou má maquiagem do espetáculo, e a vida se revela como algo entre a imagem alienada, o que falta e o artifício.

Mas ao final, que gozo é esse? Sexo, vida e poderes imaginários, despindo os homens, e os arruinando com o próprio julgamento crítico no meio da cama, são linhas de força reveladas de um sistema de crítica pela experiência. Nenhum poder imaginário se sustenta, todos são desvelados e dissolvidos, em nada, diante do sexo de Márcia Denser.

Considerando os percursos da personagem narradora Diana, o símbolo da situação literária e histórica geral da própria escritora, lemos quatro dimensões sempre presentes nos contos, seus fundamentos, seu horizonte, e seu embate de poderes marcados pela diferença sexual social anatômica:

(i) Diana gosta de sexo e Diana gosta de homens. Não há modelo de amor, de nenhum tipo, afora a grande ironia, que anteceda a sua verdadeira experiência com os homens. Experiência esculhambada, como seus atores, em que a ideia do amor é uma virtualidade, uma nostalgia projetada em um futuro, insubsistente. Só o sexo é real, nestes termos.

(ii) Diana se move bem pela cidade contemporânea, ela também é um mapa da grande cidade. Seu erotismo também é cultural, embora a cultura possa ser uma pilha de citações sem raízes. Se move por apartamentos, cozinhas, quartos, quartos de pensões, quartos de hotéis e quartos de motéis.

(iii) Diana confronta o mundo masculino, e o desejo da mulher por ele, na mesma medida em que o usa sexualmente. O sexo é gozo e pesquisa. Entre o desejo e a violência, o ato de desejo é também ato de submissão, e o lugar da escrita é o da resolução do embate. Diana não é vítima de nada. Seu sexo é dispositivo social e crítico, e a literatura é a sua arma final de gozo.

(iv) Diana é feminista caçadora e caçada. Autônoma, registrando o tempo no próprio corpo, é na medida da experiência, da cidade, dos quartos e do sexo, que faz a afirmação do feminino. O feminino é a experiência disso. Não há equivalência entre o desejo da mulher, seu modo de ser, e o do homem. Mas há equiparação no próprio desejo. Diana nunca reclama. Se move, goza e revela.

Fora isso, Márcia Denser é de fato escritora séria e viva. Seus modos de representar o desejo e o sexo de uma mulher emancipada, capaz de transformar o jogo do desejo objetificante do outro sobre si no próprio desejo, criaram um verdadeiro repertório contemporâneo de figurar o mundo que não tínhamos visto ainda. Mulher de todos, há algo nela da excitação gozosa literária de um Oswald de Andrade e, principalmente, a de Pagu, a garota escritora comunista de Parque industrial e, ainda mais, da mulher, da experiência entre homem e mulher, entre delírio e corpo, com Geraldo Ferraz, de A famosa revista.

 Assim como o cinema literário dos inventores modernistas, seus cortes e suas montagens, se tornou coisa fina e de mestre em Márcia Denser: os filmes que lemos em seus contos, com as mesmas técnicas, são bons. Seu único romance, muito estranho, que altera estilos vertiginosamente de capítulo para capítulo, busca dar forma inventada para a densidade histórica, mística e familiar, junto da cisão do ódio, a sua excitação, para o “romance psicológico”, tão insistente no Brasil.

A evolução da nomeação da experiência do sexo em seus contos é a evolução do desejo que foi afirmado, mas não realizado, em Clarice Lispector, e da realização do desejo, mas não social, de Hilda Hilst. Márcia Denser parece a síntese, mais autoconsciente do desejo sexual como coisa social, das duas. Mais a vida na cidade do fetichismo, do espetáculo e da mercadoria, no limite do seu desencantamento histórico, da qual dispõe como um vestido, novo ou velho, que veste e despe à vontade, ou contrafeita.

Há uma linha subterrânea de experiência do desejo, reconhecido, negado, reafirmado, coisa social, que vai do “Missa do Galo”, de Machado de Assis, ao “Vampiro da Alameda Casablanca”, de La Denser.

*Tales Ab´Sáber é professor do Departamento de Filosofia da Unifesp. Autor, entre outros livros de O soldado antropofágico: escravidão e não-pensamento no Brasil (n-1/ Hedra) [https://amzn.to/4ay2e2g]

Referências


Márcia Denser. Diana caçadora & Tango fantasma: duas prosas reunidas. Cotia, Ateliê, 2008, 312 págs. [https://amzn.to/3TRsZXM]

Márcia Denser. Toda Prosa. São Paulo, Nova Alexandria, 2002, 160 págs. [https://amzn.to/3TUrCaR]

Márcia Denser. Toda Prosa II. Rio de Janeiro, Record, 2008, 256 págs. [https://amzn.to/3xEm78U]


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