Das “limpezas étnicas” aos horrores de Gaza

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Por JOÃO QUARTIM DE MORAES*

As operações de extermínio dos palestinos de Gaza horrorizam sem chegar a surpreender: elas se inscrevem na lógica do ódio e do desprezo do colonizador pelo povo que ele subjuga

Com o apoio de Donald Trump e o silêncio hipócrita da maioria dos governos da Europa liberal, o Estado sionista prossegue, dia após dia, mês após mês, desde outubro de 2023, sua lenta e implacável operação de genocídio do povo palestino de Gaza. As imagens e os relatos que de lá chegam refletem o horror em estado quimicamente puro.

Já foram massacrados mais de 50.000 civis indefesos; cerca de 120.000 foram feridos, entre os quais muitas crianças que mal tiveram tempo de começar a viver e velhos que não chegaram a conhecer uma vida melhor do que a do grande ghetto em que estavam encurralados por Israel. Para avaliar as dimensões genocidas da agressão em curso basta levar em conta que a população total da faixa de Gaza estava em torno de 2,1 milhões de habitantes.

No final da primeira década deste século, a opinião pública israelense uivou escandalizada quando José Saramago declarou que o que estava ocorrendo na Palestina era “um crime que podemos comparar com o que ocorreu em Auschwitz”. Amos Oz, escritor israelense que às vezes posava de pacifista (sempre que Israel não estava em guerra, limpa ou suja), acusou José Saramago de ser “anti-semita” e de dar prova de uma “incrível cegueira moral”. Quanta insolência! A cegueira moral não está onde ele disse, mas em usar a memória das vítimas do extermínio hitleriano para encobrir o terrorismo de Estado israelense.

O chefe do governo de Tel Aviv, Benjamin Netanyahou, é um dos personagens políticos mais execráveis de nosso tempo. Nem por isso se lhe pode atribuir responsabilidade muito maior do que a de seus predecessores pelas recorrentes violências cometidas contra o povo palestino. As violências começaram com a trapaça colonial, orquestrada pelo império britânico, que viabilizou a criação do Estado de Israel.

Durante a primeira grande guerra, o governo inglês, para golpear o Império Otomano, aliado da Alemanha, prometeu a independência aos árabes, que na época, constituíam 92% da população da Palestina, se eles se erguessem contra o jugo turco. Os árabes confiaram na promessa e, cumprindo sua parte no acordo, lutaram de armas na mão contra a dominação otomana. Mas, em 1917, lorde Balfour, ministro do Exterior do Império Britânico, prometeu também ao multimilionário lorde L. W. Rothschild, financiador do sionismo, um “lar nacional” para os colonos judeus estabelecidos na Palestina.

Terminada a guerra, desmantelado o Império Otomano, os britânicos e seus parceiros franceses vencedores repartiram entre eles o controle da região. A Palestina foi subordinada ao Mandato Britânico, que logo pôs em execução a trapaça do lorde Balfour, autorizando a entrada em massa de judeus europeus nas terras árabes. A composição demográfica alterou-se consideravelmente, a favor dos judeus: eram 10% da população em 1922; em 1946 haviam atingido cerca de um terço dos habitantes da Palestina, mais de 600.000 em números absolutos.

A ONU fixara para o dia 15 de maio de 1948 o término do mandato britânico. Decididos a conquistar o máximo de território para o Estado que pretendiam proclamar naquela data, os grupos armados sionistas intensificaram entre setembro de 1947 e março de 1948, os ataques às aldeias palestinas, muitas das quais foram varridas do mapa pela Haganah, a principal organização armada clandestina sionista e pelos agrupamentos Stern e Yrgun, esquadrões da morte especializados nas modalidades mais cruéis e tenebrosas de ação terrorista.

Na madrugada de sexta-feira 9 de abril de 1948, os dois esquadrões atacaram de surpresa aldeia de Deir Yassine, chacina sua população indefesa em uma orgia de bestialidade que sequer poupou mulheres grávidas, cujo ventre foi aberto a facadas. Duzentos e cinquenta e quatro palestinos foram trucidados; dezenas de meninas foram estupradas, uma, de seis anos, literalmente rachada ao meio.

Os depoimentos dos poucos sobreviventes e os relatórios de policiais ingleses foram reunidos por Sir R. C. Catling, diretor-geral adjunto do Criminal Investigation Department na pasta “secreta e urgente” nº 179/11017/65. Um dos relatos mais objetivos e completos da chacina de Deir Yassin está no livro Ô Jerusalém, escrito pelos jornalistas Dominique Lapierre e Larry Collins.[1]

Menachem Begin, chefe máximo do Irgun, e, nessa qualidade, um dos mais hediondos criminosos políticos do século XX, foi recebido, em dezembro de 1948, pelos sionistas de Nova Iorque. Indignados, membros eminentes da comunidade judaica local não contaminados pelo vírus facho-sionista, lançaram um manifesto em que se dissociavam firmemente dos algozes de Deir Yassine: “esta localidade não participou da guerra e até recusou-se a servir de base para grupos armados árabes. No dia 9 de abril os terroristas [dos grupos Stern e Irgun] atacaram esta aldeia tranquila. […]Massacraram […]a quase totalidade dos habitantes, deixando alguns vivos para exibi-los como prisioneiros nas ruas de Jerusalém. A maior parte da comunidade judaica ficou horrorizada com este ato. […] Mas os terroristas […] mostraram-se orgulhosos do massacre, convidando todos os correspondentes estrangeiros[…] para ver os cadáveres amontoados[…]”.

A fundação do Estado israelense beneficiou-se desses métodos de “limpeza étnica” por meio de esquadrões da morte tão abomináveis quanto as Sturmabteilungen hitlerianas. Os palestinos que permaneceram nos territórios ocupados por Israel foram submetidos a um regime de “apartheid” pior até do que o imposto aos povos originários da África do Sul, por uma minoria de colonos de origem europeia. (Quem o diz são sul-africanos que foram submetidos a essa abominável discriminação). As operações de extermínio dos palestinos de Gaza horrorizam sem chegar a surpreender: elas se inscrevem na lógica do ódio e do desprezo do colonizador pelo povo que ele subjuga.

*João Quartim de Moraes é professor titular aposentado do Departamento de Filosofia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Lênin: uma introdução (Boitempo). [https://amzn.to/4fErZPX]

Nota


[1] Dominique Lapierre e Larry Collins. Ô Jerusalém. Paris, Laffont, 1971, pp.363-369.


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