Os EUA nunca aprendem

Imagem: Kendall Hoopes
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Por TARIK CYRIL AMAR*

Se Joe Biden quer uma solução de dois Estados, então por que é que permite e ajuda um dos “dois Estados” a destruir o outro?

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, publicou recentemente um artigo pessoal de opinião, que, muito sugestivamente, saiu no Washington Post,[1] mas que equivale, na realidade, a uma declaração política do regime – ou uma definição da linha da nomenklatura, se assim se preferir. Como tal, o texto merece atenção. E não importa que seja inverossímil que tenha sido o próprio líder norte-americano, claramente desafiado pelo agravamento da senilidade, que o escreveu. Ou seja, para usar uma expressão consagrada na Rússia, trata-se aqui do “Joe Biden coletivo” se manifestando.

Traduzida do jargão oficial, depurada da retórica vazia e dos eufemismos, a longa proclamação apresenta apenas dois pontos substanciais sobre o que os Estados Unidos e seus “aliados” (a rigor, clientes e vassalos) devem fazer: (i) continuar a travar uma guerra por procuração contra a Rússia na Ucrânia; e (ii) continuar a apoiar Israel na sua guerra genocida contra os palestinos (não! não é uma “guerra contra o Hamas”; essa não é mais que um desdobramento secundário).

Nesse sentido, não há nada de surpreendente ou esperançoso no pronunciamento feito pelo “Joe Biden coletivo”. Dessa vez foram necessárias apenas mais palavras. Mas a atual administração democrata dos neoconservadores está simplesmente repetindo o slogan, igualmente surdo, de um ex-presidente republicano, que grasnava com seu velho bando de neoconservadores: “Mantenham o rumo!” – era o que, em síntese, George W. Bush dizia durante todo o longo desastre que foi a campanha do Iraque. É um “déjà vu all over again”, nas palavras do maior filósofo da América.[2]

Mas os detalhes do texto ainda merecem um escrutínio. Tomemos alguns trechos.

O Hamas é reiteradamente denunciado por praticar “o mal puro e autêntico”, e coisas semelhantes. Qualquer observador razoável dedicaria tais termos para designar aquilo que os israelenses estão fazendo em Gaza. Mas deixemos isso de lado por enquanto, e deixemos também de lado o fato de que agora sabemos que um número substancial de israelenses foi morto pelas próprias forças israelenses, e não pelo Hamas. Em vez disso, concentremo-nos no próprio Hamas. Seria aquela linguagem do “coletivo Joe Biden” factual? A resposta racional a essa questão, não sendo da mera ordem da opinião, seria “não”.

Na realidade, o registro empírico mostra que o Hamas é uma organização de resistência empenhada numa luta legal e eticamente justificada contra uma opressão nacional massiva. Atacou alvos militares, o que é legítimo, tanto quanto incidiu em crimes terroristas. Mas se qualquer organização política e armada que se envolve simultaneamente em violência legítima e em crimes terroristas está praticando “puro mal”, então quase todos os Estados com poder médio neste mundo fizeram exatamente isso, ou estão fazendo agora mesmo. A afirmação parece ser claramente despropositada.

Em termos gerais, a razão de despropósitos como esse é a desonestidade estratégica. E também aqui o é. A administração de Joe Biden persegue de forma transparente, com tal abuso orwelliano da terminologia, dois objetivos. Primeiro, fazer com que os crimes de Israel contra os palestinos pareçam, se não justificados, pelo menos tão “compreensíveis” ou “inevitáveis” que deixamos de nos opor a eles – e, se somos americanos, votemos nos democratas, mesmo que eles apoiem tais crimes, perfeitamente evitáveis. E, segundo, trata-se de preparar o terreno para a proposição que se segue: a de eliminar por completo o Hamas de qualquer acordo pós-assalto e, em vez disso e “em última análise”, fazer com que uma “Autoridade Palestina revivida” governe tanto a Cisjordânia como Gaza, enquanto algum acordo duradouro é arquitetado.

Essa proposta vem envolta em uma retórica enganosa e revoltantemente cínica: se Joe Biden está com o coração partido por causa das crianças massacradas em Gaza, então Andrew Jackson deve ter chorado ao assinar a Lei de Remoção de Índios (1830). Se Joe Biden quer uma solução de dois Estados, então por que é que permite e ajuda um dos “dois Estados” a destruir o outro? Se ele “aconselhou” os líderes israelenses a se absterem de violência excessiva, então por que é que não endossou suas amáveis palavras com o uso da sua enorme influência para impedir o fluxo de armas, dinheiro, informação e cobertura diplomática em auxílio ao ataque genocida de Israel? Se Joe Biden está preocupado com a propagação do antissemitismo, por que é que permite que os sionistas de extrema-direita afirmem que suas políticas, que levam à morte milhares e milhares de crianças palestinas, são inerentemente “judias”?

Hipocrisias como essas ainda podem enganar alguns americanos, notadamente aqueles que chegam a acreditar que a resposta adequada ao enésimo massacre doméstico com armas de fogo são “pensamentos e orações”. Mas um presidente dos Estados Unidos e aqueles que escrevem e pensam no lugar dele fariam bem em não ocuparem uma posição tão constrangedora, ainda mais diante de todos os demais, no país e no exterior.

A verdadeira proposição política da proclamação, entretanto, nada mais é do que uma tentativa de regressar ao sistema pós-Acordos de Oslo (1993), mas em condições ainda piores. Isso significa criar uma situação em que as necessidades palestinas urgentes e vitais, assim como os direitos palestinos evidentes serão, mais uma vez, suspensos de fato, num interminável “processo” desonesto, que na verdade só serve como uma cortina e um dispositivo de bloqueio a favor de Israel, ao mesmo tempo em que este último coloniza terras ocupadas, pratica o crime internacionalmente reconhecido de apartheid e conduz massacres ocasionais.

Mas a proclamação de Joe Biden aborda mais do que o Médio Oriente. Voltando-se contra a Rússia, o coletivo Joe Biden personaliza o que está em jogo, no velho e mau estilo conservador. Em vez de qualquer tentativa de uma abordagem racional – mesmo que crítica ou até mesmo hostil – às ações e interesses de Moscou, o que vemos são os habituais e tolos insultos: o presidente russo, Vladimir Putin, é comparado ao Hamas, como se fosse uma “organização terrorista” de um homem só. (E não importa que o Hamas não seja, a rigor, uma organização terrorista, ainda que eventualmente incida em atos terroristas).

A guerra na Ucrânia fica reduzida ao “impulso de conquista” pessoal de Vladimir Putin, como se não houvesse uma história de duas décadas de provocações norte-americanas numa expansão militar imprudente, secundada pela má-fé e recusa em negociar questões sérias de segurança internacional de uma forma responsável e construtiva. A este respeito, a Rússia acaba recebendo o mesmo tratamento retórico que os palestinos: uma vez que lute, fica proibido de se reconhecer as razões pelas quais luta.

E, finalmente, tanto “Vladimir Putin” – leia-se, Rússia – como o Hamas são acusados de duas coisas: querer “varrer do mapa uma democracia vizinha” e levar-nos a uma nova e vil ordem internacional, onde os fortes abusam dos fracos e fica por isso mesmo.

Mas agora uma novidade: nem Israel nem a Ucrânia são democracias.

No caso de Israel, a alegação fica viciada pelo simples fato de o seu governo exercer efetivo controle sobre os milhões de palestinos discriminados e sem direitos – sequer a voto, ou, melhor dizendo, a qualquer direito humano ou civil. A Ucrânia, da sua parte, ostenta seu Volodymyr Zelensky, o queridinho em declínio de Washington, que começou a desmantelar as últimas frágeis estruturas democráticas do país em 2021, muito antes da guerra, e que agora se agarra ao poder em conluio com uma extrema-direita violenta, que elimina a oposição política, censura os meios de comunicação e impede eleições. Mais uma vez, isso tudo não é da ordem da opinião, mas dos fatos.

Em segundo lugar, o Hamas não busca eliminar Israel, apesar das inúmeras alegações em contrário. Há vários anos, sinaliza repetidamente para a disposição de aceitar e se comprometer com uma solução de dois Estados. Afirmar que o Hamas quer a destruição total de Israel é o mesmo que reciclar alguma velha fórmula aparvalhada do antigo presidente Ronald Reagan, na intenção de “provar” que ele queria eliminar toda a União Soviética. De qualquer forma, o Hamas simplesmente não teria capacidade – nem de longe – para fazê-lo.

Da mesma forma, a Rússia não está tentando abolir a Ucrânia. Como já indicavam suas propostas de compromisso do final de 2021, seu principal objetivo era o de uma Ucrânia neutra, que não fosse usada como trampolim militar para o Ocidente. Agora, no entanto, diante dos fatos e ações, tornou-se irremediável que a Rússia absorva territórios ucranianos. Dependendo de quanto tempo a guerra durar, ela poderá acabar absorvendo muito mais. Qualquer um pode muito bem se opor a isso. No entanto, isso não representa, a princípio, a disposição de exterminar todo um Estado ou, pior, a sua população.[3]

Finalmente, no que respeita à advertência lançada contra o Hamas, contra a Rússia e contra quem sabe quem mais – China? Índia? Brasil? qualquer um que não obedeça às ordens de Washington? – de que eles estariam empenhados em nos arrastar a todos para uma nova era das trevas, de uma realpolitik ultracínica e de força bruta, adivinhe!… É exatamente onde nós estamos agora. E onde temos estado durante o último quarto de século, sob a égide “benevolente” dos Estados Unidos. Quem não acreditar, que pergunte a Gaza.

Em suma, tudo o que se pode realmente apreender dessa proclamação vinda de cima é que a administração de Joe Biden não compreendeu nada além do próprio nariz e está determinada a aprender menos ainda. Se, nas palavras daquela proclamação, se supõe que o mundo algum dia tenha a mínima chance de ter “mais esperança, mais liberdade, menos ódio, menos ofensas e menos guerra”, então primeiro é preciso ter muito menos Joe Biden e tudo e todos que ele representa.

*Tarik Cyril Amar, doutor em história pela Universidade de Princeton, é professor da Universidade Koç (Istambul). Autor, entre outros livros, de The Paradox of Ukrainian Lviv (Cornell University Press).

Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.

Publicado originalmente em Russia Today (RT News).

Notas do tradutor


[1] No circuito da mídia independente e da inteligência militar, o Washington Post é consagradamente reconhecido como porta-voz oficioso da CIA, enquanto o New York Times o é do Pentágono.

[2] A ironia do autor (ou nem tanto: nesse caso pode estar mais para constatação) dirige-se à figura folclórica do apanhador de beisebol Lawrence Peter “Yogi” Berra, do New York Yankees, da década de 60, autor da expressão mencionada (“um déjà vu tudo de novo”). Tal como certos jogadores brasileiros de futebol, Yogi Berra era tão conhecido pela sua genialidade esportiva quanto pela névoa intelectual naif que rondava sua cabeça. Suas tiradas inusitadas acabaram se consagrando como “yogi-isms”, como por exemplo: “o jogo só acaba quando termina”, “você pode ver muita coisa apenas observando”, “nunca responda a uma carta anônima”, “quando você chegar a uma bifurcação na estrada, pegue-a!”, “eu nunca disse a maioria das coisas que falei”, ou então, como repetiu o ex-presidente Barack Obama ao outorgar-lhe postumamente a Medalha Presidencial da Liberdade: “se você não pode imitá-lo, não o copie”.

[3] Aqui, seguramente, vale o complemento elucidativo: “como faz Israel com a população de Gaza, e como faz o regime ucraniano, ao lançar toda a população civil que possa dispor numa guerra que não pode vencer”.


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